29 novembro 2005

Mongaguá: perseguição continua

Enviamos nova mensagem à Ouvidoria da Educação do Estado de São Paulo sobre o caso Mongaguá. Os vários "capitulos" desta triste história estão arquivados nos meses passados, a partir de agosto. Esperamos que os alunos da escola sejam finalmente ouvidos e que seja feita justiça.

Senhor Ouvidor,
Acabamos de receber nova mensagem da mãe de Mongaguá, Sra. Cássia A. Dalcim Marques, que desde o dia 13 de novembro está aguardando uma resposta sua sobre o caso que já lhe informamos em agosto. Veja trechos do que ela escreveu:

É com tristeza que volto a escrever, até agora o Sr. Ouvidor não retornou nada, e meu filho continua sendo perseguido na escola. Somos chamados ao Conselho Tutelar por bobagens e por coisas que a escola cobra ilegalmente, como o uniforme (sim, paramos no conselho tutelar por conta de uniforme!). A supervisora também está envolvida, houve um epsódio na sala de meu filho em que ela entrou para falar alguma coisa e na saída alguns alunos assoviaram, ela retornou e questionou o professor. Ele imediatamente disse que foi o meu filho. Esse professor é o tal de História, aquele que quer dar um murro na cara de meu filho... Daí a supervisora relatou o fato como ocorrência, mesmo os alunos dizendo que não havia sido ele. Aliás, ele nem assoviar sabe, imagine! Estou muito cansada com tudo isto, é a mesma coisa que dar murro em ponta de faca.

Veja, Sr. Ouvidor, em sua resposta de 23/09 o Sr. informou que considerava improcedente a denúncia dessa mãe, com base em "relatório da supervisão". A autora do relatório seria por acaso a mesma supervisora que protagonizou o episódio acima citado?...
Pedimos a gentileza de verificar duas coisas graves:
1. A escola continua exigindo uniforme e encaminhando os alunos ao Conselho Tutelar por falta de uniforme. Isto é ilegal.
2. A ocorrência registrada pela supervisora precisa ser checada e os alunos que estavam presentes devem ser chamados a testemunhar. Não é possível que dentro de uma escola seja registrada e aceita somente a versão do professor ou do profissional do ensino.
Ficamos no aguardo do seu posicionamento e abaixo transcrevemos a mensagem anterior da Sra. Cassia, que não mereceu sua resposta.

Atenciosamente,
EducaFórum

26 novembro 2005

A expulsão é legal?

Recebemos a seguinte mensagem de Manaus e a respondemos no comentário. Dê também sua opinião!
Sou ex-Conselheiro Tutelar e hoje trabalho como consultor de projetos sociais na Prefeitura. No entanto, estou sempre envolvido com o problema de atitudes arbitrárias em escolas públicas onde alunos são expulsos ou suspensos sem qualquer critério legal. Por este motivo gostaria de estar recebendo informações mais detalhadas sobre a legalidade desse procedimento adotado pelas escolas. Até que ponto a escola teria poderes para expulsar alunos, ou trata-se de um ato totalmente ilegal? Favor encaminhar informações jurídicas sobre o caso.

23 novembro 2005

E o "maior" infrator?!

É com profunda tristeza e indignação que registramos mais uma rebelião na Febem, "ainda de causa desconhecida". A causa todos sabemos: é a teimosia do Governo Estadual em manter essa aberração que, em outros países, já teria provocado a queda do governador há vários anos, pois durante os últimos três mandatos a Febem tornou-se uma vergonha internacional. A desculpa dada é sempre a mesma: "os municípios opõem resistência à implantação de unidades em sua jurisdição". Desculpa esfarrapada e absurda, pois o Estatuto da Criança e do Adolescente é muito claro: a internação, quando necessária, deve ser feita em unidades pequenas, no município de origem de cada garoto, para que ele possa receber o apoio da família e de sua própria comunidade. Só assim será possível a recuperação desses adolescentes. Será que o governo precisa pedir aos municípios o "favor" de aceitarem o cumprimento da lei?... Ou está esperando para "lançar" as novas unidades em época de campanha eleitoral?... Até quando o governo vai permitir que a Febem continue sendo a "universidade do crime"?

Este escândalo de enormes proporções só é possível porque a sociedade brasileira aceita passivamente a situação, no fundo cada um se preocupa apenas com seus próprios filhos (quando se preocupa...) e, quanto aos filhos "dos outros", que eles se matem todos dentro de alguma Febem "da vida". Afinal, os garotos que vão parar na Febem são aqueles mesmos que a escola pública expulsou ou aqueles que não agüentaram a violência de que foram vítimas no sistema educacional. Alguém se importa com eles?

Enquanto isso, todos os "maiores" infratores envolvidos nesse escândalo - sejam políticos, juízes, promotores, diretores ou funcionários - todos aqueles que, por ação ou omissão, deixaram a Febem chegar a ser um matadouro, continuam livres e soltos. Com a palavra, a consciência de cada um deles!

21 novembro 2005

Cavalo? É a mãe!

Giulia Pierro

O maior problema do ensino público no Brasil não é a política educacional, não é a falta de proposta pedagógica, nem mesmo a má qualidade do ensino. Pior que tudo isso é a falta de respeito ao aluno. Este é um assunto tabu, envolto em quilômetros e quilômetros de panos quentes, durante toda a extensão do território nacional. Não se fala disso, não se reconhece, nem sequer se admite...
Já começa lá em cima, ao fechar as torneiras e desviar as verbas da educação para outras áreas. Mas é mesmo dentro da escola que ocorrem os casos mais freqüentes de abuso, ora devido ao despreparo de professores e profissionais, outras vezes ao corporativismo que determina a lei do silêncio.
A defesa do professor e do profissional de ensino está sempre na ponta da língua: foi provocação do aluno! O professor estaria apenas revidando e ele próprio seria a grande vítima do sistema educacional... Vamos então inverter nossa escala de valores, revogar o Estatuto da Criança e do Adolescente e dar assistência ao marmanjo desamparado?
Por mais que eu precise reconhecer que os jovens estão se tornando cada vez mais atrevidos, não posso deixar de enxergar o lado positivo da questão. Insisto de que o exemplo vem de cima e que a educação se dá pelo exemplo.
Em quinze anos de luta pelo ensino público, vi cenas estarrecedoras e colhi depoimentos de arrepiar, muitas vezes sem que os agressores – maiores e vacinados – admitissem a gravidade de seus atos, atitudes ou descaso.
Vi, por exemplo, uma coordenadora pedagógica tirar todos os livros e cadernos do braço do aluno e atirá-los ao chão. A diretora da escola considerou o ato compreensível, pois a funcionária tinha "problemas".
Vi uma professora substituta dispensar os alunos no meio de uma aula e gritar: "Não dou mais aula para cavalo!".
Fui chamada por um pai para uma reunião extraordinária de Conselho de Escola onde pretendiam expulsar o filho, por ter falado um palavrão em sala de aula. O aluno fez um relato público e sincero, reconheceu seu erro e pediu desculpas à professora, à diretora, à escola inteira, argumentou porém que havia sido a única vez que falara um palavrão em sala de aula e achava injusto ser expulso por causa disso.
A diretora argumentou que aquela escola era diferente - ah! você leu sobre ela na mídia esta semana, é o famoso NICÃO, um dos xodós do nosso Chalita - foi se gabando de que "seus" alunos entravam na USP sem cursinho, disse que muitos vinham de fora pensando que podiam fazer o que quisessem e que ela não admitia uma única palavra de baixo calão dentro de "sua" escola. De repente, o rosto do aluno incriminado se iluminou: ele lembrara de algo que havia esquecido e fez um relato. No dia em que ele falou o tal palavrão, aliás, imediatamente antes, a professora estava organizando os alunos para uma atividade e soltou esta frase: "Vamos parar com a viadagem aí nesse canto?"... Se eu fosse a tal professora – que estava presente à reunião – teria me enterrado em um buraco negro, mas ela não se abalou: apenas argumentou que foi um simples desabafo, pois é difícil lidar com adolescentes hoje, quando já vêm deseducados de casa (essa ladaínha você já ouviu X vezes, não é?).
Pois é, no caso do professor é um "simples desabafo", no caso do aluno é motivo de expulsão...
Veja também este exemplo. Um dia, sem querer, ouvi os cochichos de um grupo de meninas no pátio da escola em que minha filha estudava: "Depois que aquela professora chamou a classe inteira de merda, o que vamos esperar?..."
Pedi licença para entrar na conversa e elas me contaram que a tal professora estava muito aborrecida com a indisciplina da classe. Ela teria dito mais ou menos assim: "Vocês pensam que podem fazer o que querem aqui, não é? Mamãe faz parte do Conselho de Escola, a diretora passa a mão na cabeça de vocês, mas quero que saibam que, para mim, vocês não passam de um monte de merda!".
As alunas ficaram pasmas e questionaram: "A senhora chamou a gente de quê, p’sora?". A professora confirmou. Perguntei às alunas se haviam comunicado o fato aos pais. Não, não haviam falado, pois só receberiam bronca. E à diretora? Nem pensar, mesmo porque já havia se passado mais de um mês.
Fui conversar com a diretora, preservando a identidade das alunas. Ela fez cara de grande espanto e reagiu assim: "Preciso primeiro apurar os fatos. Se essas alunas estiverem certas, a professora deve estar com forte esgotamento nervoso. Vou encaminhá-la ao médico para receber uma licença". Argumentei que achava mais provável a professora ter tido um "simples desabafo", na certeza de que não sofreria qualquer punição. Insisti para a diretora exigir que a professora se retratasse perante a classe – mesmo depois de um mês – dando aos alunos o exemplo de que errar é humano e que sempre é tempo para se desculpar.
A professora pediu desculpas à classe, mas começou perguntando: "Quais de vocês mesmo têm pais no Conselho de Escola?".
Silêncio mortal...
A professora continuou: "Pois ALGUÉM foi relatar à diretora que eu teria desrespeitado vocês em sala de aula. Eu não me lembro de ter feito isso, aliás, eu é que me sinto desrespeitada aqui dentro, mas, por via das dúvidas, peço desculpas." Desculpas esfarrapadas, pedidas sob pressão, sem sinceridade e ainda tentando pegar o delator de calça curta...
Além da violência mais ostensiva – que vai do bofetão ao xingamento – existe uma forma mais sutil que é tiro-e-queda para colocar no chinelo a auto-estima dos alunos. É o caso do professor que chega atrasado à aula e diz: "Aqui eu chego atrasado mesmo! É muito mais importante pra mim segurar meu emprego na escola particular, porque lá eu tenho bolsa pros meus filhos e garanto a educação deles!".
Ou então o professor que "consola" o aluno desta forma: "Você tem toda razão: teu pai te abandonou, desistiu de você, colocou você na escola pública...".
Tem mais um tipo de professor que costuma "incentivar" os alunos assim: "Aqui vocês não têm futuro, vão ser passados para trás pelos alunos de escola particular e nem pensem em conseguir entrar numa faculdade pública!"
Nenhum professor já admitiu para mim – cara a cara – que já soube de colegas que fizessem coisas desse tipo. A reação vai da indignação – negando a possibilidade de tais fatos – ao silêncio constrangedor.
Na escola particular não é muito diferente, a violência é talvez mais velada e muitas vezes conta com a cumplicidade dos pais. Soube de um menino de Primeira Série que foi retido durante quatro horas na secretaria da escola, por estar calçando sapato de cor diferente do uniforme. A escola tentou entrar em contato com a mãe, sem conseguir e, ao buscar o filho, ele ainda estava na secretaria. Perguntei à mãe o que ela iria fazer e a resposta foi: "Fazer o quê?"...
Entendo que falta, na formação do professor e do profissional do ensino, uma disciplina chamada "Respeito", não apenas para com o aluno, mas muitas vezes também com os pais, mantenedores da escola. Entendo também que é ao professor que cabe dar o exemplo e que a colheita é de acordo com a semeadura.
Participei uma vez de um debate e perguntei para altas autoridades da educação se havia, nos cursos de formação, uma disciplina específica voltada para o trato com o aluno e a comunidade. A resposta foi que não, pois, ao longo do processo de formação, diversas disciplinas – psicologia, pedagogia, ética etc. – supriam essa necessidade. É uma visão deficiente, pois todos os profissionais citados neste texto podem ser considerados, no mínimo, mal-educados, o que é paradoxal dentro de um espaço pedagógico como é a escola. Além disso, quantos são os professores realmente formados neste imenso Brasil?
Se for verdade que o Governo está preocupado em melhorar a educação neste País, precisa garantir que, ao chegar na sala de aula ou na escola, o professor e o profissional do ensino saibam lidar com o aluno com um mínimo de respeito – devido a qualquer ser humano, mas em especial à criança e ao adolescente, seres em formação que reagem de acordo com os estímulos que recebem.
Isto vale também para o policial que, segundo a péssima moda atual, faz ponto dentro das escolas e gosta de exibir seu três-oitão, falando para o aluno: "Te liga, meu, que falta só dois palito preu te fodê!".
Enquanto o budismo não for a filosofia universal neste planeta, não deve admirar que, ao ser chamado de cavalo, um adolescente retruque desta forma: "Cavalo? É a mãe!".

17 novembro 2005

O Rio de Janeiro está na frente!

Recebemos mensagem de pais do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, empenhados numa luta que deve ser de todos nós: cansados de uma greve que já dura 73 dias e está colocando em risco o ano letivo de seus filhos, os pais elaboraram um Projeto de Lei a ser encaminhado ao Congresso Nacional, para que a educação seja finalmente inserida na lista de ATIVIDADES ESSENCIAIS neste País. Dessa forma, a educação não poderá mais parar, no Brasil inteiro! Aqui em São Paulo também já tivemos a greve "dos 84 dias" e muitas outras que mostram o óbvio: educação só é prioridade na fala hipócrita e eleitoreira dos pólíticos. Os pais do Colégio Pedro II estão promovendo passeatas e recolhendo assinaturas em eventos como jogos de futebol e pela Internet. As adesões devem ser feitas no site http://petitiononline.com/alunado/petition.html. O texto é em inglês, mas não se assuste: respire fundo e participe, pois uma iniciativa desse porte é de interesse de todos os brasileiros preocupados com o futuro de seus próprios filhos. Saiba mais sobre as atividades desses pais acessando o site www.paisconversandocp2.blig.ig.com.br e leve essa idéia para a sua cidade. Pais do Colégio Pedro II, parabéns e muito sucesso!

14 novembro 2005

O exemplo de Itajubá

Leiam a seguir mais uma mensagem da mãe de Itajubá, mostrando que a luta vale a pena. Que esse exemplo isolado e corajoso possa ajudar muitos pais a vencerem a humilhação e o cansaço, na reivindicação do direito de seus filhos a uma educação de qualidade e - principalmente - ao respeito que merecem por parte de todos os profissionais do ensino.

Gente, como é cansativo nadar contra a maré! A maré é deixar como está para ver como é que fica; é se satisfazer com a mediocridade; é arranjar sempre mil coisas a fazer que impedem de tirar alguns minutos para saber das autoridades se estão tomando providências ou não, e por aí vai!
Este desabafo é a maneira que arranjei para compartilhar a luta com vocês. Porque infelizmente nós, brasileiros, cultivamos a cultura do homem cordial: reclamar, para quê? Não vai dar em nada mesmo. A gente se ajeita...
Na luta pelo direito de minha filha ser tratada com dignidade em classe, tomei contato com muitos pais que discordavam, sim, da postura da professora, mas não queriam se comprometer! Tive que lidar com o corporativismo de professores e a própria coordenadora pedagógica defendendo a atitude de "severidade adotada, porque isto, sim, é que educa!"
Incomodei muita gente, usei todos os meios de comunicação ao alcance e hoje posso comemorar porque até o final do ano minha filha está a salvo do tratamento humilhante que foi rotina em sala de aula durante os nove primeiros meses deste ano.
Pais conscientes, não se calem!
Não se contentem com a mediocridade.
Busquem apoio, não se envergonhem de defender o bem maior que é o acesso de seus filhos a uma educação de qualidade.
Na luta e na esperança,
Helem

03 novembro 2005

Entrevista polêmica!

A nossa amiga Cristina Valero (leia sua denúncia arquivada no mês de junho) nos indicou a leitura de entrevista com o economista Gustavo Ioschpe, publicada na revista IstoÉ. Trata-se de uma visão de como a política educacional brasileira privilegia a elite e prejudica o resto da população, a ponto de comprometer o desenvolvimento de todo o País, que está "perdendo o bonde da história". Todo ano, milhões de jovens não conseguem completar o ensino básico, enquanto os filhos da classe média alta recebem um carro de presente ao passarem no vestibular das universidades públicas, como reconhecimento da família pela economia durante os anos de faculdade... Esta seria, de acordo com o entrevistado, a maior prova da desigualdade promovida pelo sistema educacional. Algumas colocações do entrevistado são bastante polêmicas e convidam à reflexão. Confira a entrevista no site da IstoÉ www.terra.com.br/istoe/ edição nº 1877, de 05/10. O título é EDUCAÇÃO E DESIGUALDADE.