30 agosto 2008

A escola-problema


Não deixe a escola atrapalhar a sua educação
Mark Twain

É voz corrente que a escola não ensina. Engano! É muito pior: a escola impede a aprendizagem. Não ensinar seria problema menor. Se a escola não impedisse, as crianças aprenderiam da forma que a humanidade aprendeu em seus primórdios, quando não havia essa "coisa sarnenta", como Adélia Prado define a escola em seu livro Solte os cachorros (Siciliano, 1991, pág.10).

A tragédia da escola na vida de nossas crianças é que ela impede de aprender. Ela bloqueia, anula a inteligência inata das crianças. A escola emburrece.
Através do autoritarismo, da rabugice, da incompetência, da mesquinhez, da estreiteza, ela aniquila, destroça, arrasa o desejo de aprender, a sede de conhecimento, a curiosidade inerente às crianças.

Albert Einstein disse "É um milagre que a curiosidade sobreviva diante do ensino convencional das escolas".
Einstein ainda foi benevolente. Poucos sobrevivem. A maioria não resiste à cerebrotomia praticada por essa pseudo-educação em nosso país.

Glória Reis, professora http://gloria.reis.blog.uol.com.br/

25 agosto 2008

Escola roubou o boné? Só isso?...


O estudante Thiago escreve:

Eu quero saber se eu for roubado dentro da escola se eu tenho algum direito. Na minha escola é proibido usar boné. Se eles tomar o bone do aluno e quando for recuperá-lo na direção da escola, a direção sumiu com o boné, eu tenho algum direito ?

O Henrique coloca um problema parecido:

Venho aqui pedir uma ajuda para esclarecer um assunto que ocorre frequentemente na minha escola. Estudo em uma escola onde somos cobrados pelos proprios diretores do uso do uniforme escolar obrigatoriamente. E caso nós não cumprimos essa regra não temos direito de entrar no colegio e somos obrigados a faltar aula. Caso conseguimos entrar no colegio com algum acessorio que não faça parte do uniforme escolar, eles confiscam sem chances de devolução ao proprietario... Acho q perante a lei isso não é permitido.... (Espero que esteja certo).

Thiago e Henrique, o problema é muito mais complexo do que isso! A escola rouba seu boné, seu celular ou seu minigame porque não existe ética lá dentro. Vocês têm muito maiores direitos do que receber seus pertences de volta, mas não conseguem enxergar isso porque nem mesmo o direito mais simples é respeitado. Na verdade vocês são os donos da escola, mas são tratados apenas como estorvo. Tudo o que a escola quer é se livrar de vocês...
Acham mesmo que o roubo do boné é o maior problema?

20 agosto 2008

Vamo batê lata?

Sobre a notícia da obrigatoriedade do "ensino" de musica por professores leigos nas escolas brasileiras (leia aqui http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u435147.shtml): finalmente uma ocupação prazerosa para tapar o buraco das aulas vagas! Depois de aturar uma "aula" de mundo de Sofia ou sociologia tupiniquim, o aluno vai poder canalizar sua energia para uma atividade realmente compensadora. Não faz mal se as latas do leve-leite chegarem em casa amassadas, o que vale é ter mais uma forma de desenvolver a cidadania!

Obrigado, Apeoesp!

Finalmente a Apeoesp serviu para alguma coisa: fez o "famoso" levantamento das bibliotecas nas escolas, que cansamos de pedir ao Inep(t). Das 5 mil escolas do Estado de São Paulo, apenas 15% possuem biblioteca. Mas a situação é certamente ainda pior, pois falta saber quantas dessas bibliotecas estão ativas, além de que o uso do livro nas escolas é algo do tipo "jurassic park". Leia aqui http://aprendiz.uol.com.br/content/cespithusp.mmp

18 agosto 2008

O império da corporação


Ainda não fiz o relato da última reunião na Secretaria Estadual da Educação, dia 11 de agosto. Nem pretendo fazer. Resolvi que a partir de agora só vou informar fatos concretos e decisões tomadas. O que não foi o caso. A reunião poderia ser resumida da seguinte forma: tudo sob controle, nada resolvido...

A minha mudança de atitude se deve à leitura de um texto que me deixou, se não deprimida, no mínimo perplexa. Trata-se de um rascunho feito por uma comissão formada pela SEE para criar uma página, dentro do site da Secretaria, destinada à comunicação com os pais e alunos. O pedido foi nosso e o intuito seria orientar a comunidade escolar, incluindo professores, funcionários e direção, sobre a importância e os caminhos da participação dos pais e alunos na gestão democrática da escola. Foi muita ingenuidade acreditar que a SEE aceitaria nossa sugestão, amplamente documentada no artigo http://educaforumtxt.blogspot.com/2007/01/gesto-participativa-na-escola.html, no sentido de diminuir o autoritarismo na rede.

O rascunho que me foi entregue não passa de uma série de normas desarticuladas e redigidas numa linguagem que o nosso amigo Cêu Creissom chamaria de “diarioficiálica”. Enfim, algo que não comunica nada a ninguém, muito menos a pais e alunos cansados das práticas comuns na rede, como o “berro pedagógico”, o impedimento de entrar na escola por falta de uniforme, a suspensão ou expulsão de alunos. O texto elaborado pela comissão “democratizante” formada pela SEE mostra, mais uma vez, que o império da corporação na rede pública de ensino continua e não vai acabar tão cedo. A suspensão e a expulsão continuarão sendo as medidas disciplinares “normais”, o aluno e sua família continuarão a serem responsabilizados pelo fracasso da escola.

Tenho ouvido repetir, na Secretaria da Educação, o que se ouve em toda a mídia: a sociedade está satisfeita com a escola e o ensino, quem reclama somos nós e mais uma meia dúzia...
A mídia tem toda responsabilidade nisso: verdadeiras “chacinas” de crianças em creches são noticiadas em meros rodapés nas páginas dos jornais, http://oglobo.globo.com/sp/mat/2008/08/16/menina_de_2_anos_morre_engasgada_em_creche_de_embu-547785384.asp. Os maus tratos sofridos por alunos do ensino fundamental e médio são mais “sutis”, é mais difícil eliminar uma criança ou um adolescente capazes de relatar os abusos, mesmo assim os pais não costumam denunciá-los devido às infalíveis perseguições e represálias e ao medo de perderem a vaga dos filhos, geralmente a única opção para que possam continuar os estudos. Um caso exemplar é a “famosa” EE Lucas Roschel Rasquinho, em que a direção ameaçou a comunidade de que a escola seria fechada, caso as denúncias continuassem, http://educaforum.blogspot.com/2008/07/escola-vai-fechar-voc-j-caiu-nessa.html.

Para voltar à responsabilidade da mídia, figuras respeitadas, mas delirantes como José Ermírio de Moraes ganham espaços privilegiados para divulgarem textos em que tratam os alunos como vagabundos e afirmam absurdos como “os professores não faltam”, embora haja uma média de 32 faltas para cada professor em dez meses de trabalho anual (a Votorantim aceita esse nível de falta de seus funcionários?...).

Toda a mídia trata com indiferença assuntos como a aula vaga, a falta de bibliotecas nas escolas e a seriíssima questão dos “alunos fantasmas”, mas corre imediatamente noticiar qualquer situação em que um professor se sente vítima do aluno ou de seus pais. Os sindicatos têm assessorias de imprensa fortes e competentes, que conseguem manter o império da corporação acima do interesse nacional de uma educação de qualidade para todos os cidadãos menores de idade, ainda tratados como “di menor”. O império da corporação se consolida cada vez mais, como mostram as comunidades do Orkut “Professoras assassinas”, “Professores sofredores”, “Professor: profissão ingrata”, com mensagens que aliás mostram o despreparo desses profissionais para até mesmo articular alguma idéia consistente.

Falta alguém dar ouvidos à criança que procura gritar: “O rei está nu!”.

14 agosto 2008

Utilidade pública PaisOnline

Como sempre, nossos amigos PaisOnline contribuem com uma informação importantíssima:

Se a escola demora para fornecer a declaração de conclusão do ensino médio ou mesmo do ensino fundamental, qualquer aluno que terminou o ensino médio ou fundamental a partir de 2002 pode pegar essa declaração na Internet, clicando aqui: http://www.gdae.sp.gov.br/gdae/publica/ConsultaPublica.jsp
(muito cuidado para não quebrar o link). É só digitar seu RG!
Lembre no entanto que a declaração não substitui o histórico escolar que as escolas são obrigadas a fornecer.

09 agosto 2008

A "pedagogia" do berro


Segunda-feira estamos voltando para a SEE, para ouvirmos quais medidas a Secretaria pretende tomar para diminuir o autoritarismo na rede. Não temos grandes esperanças, pois um dos nossos pedidos foi no sentido de a SEE dar uma clara orientação na página principal de seu site sobre O MÍNIMO DE BOA EDUCAÇÃO que se espera de profissionais da... educação. No ínterim foi publicada a notícia da implantação do método da Justiça Restaurativa, que envolve promotores e juízes na prática pedagógica e só contempla os conflitos provocados por alunos, quando na verdade o grande problema é o mau exemplo que vem de cima. Leia aqui http://educaforum.blogspot.com/2008/07/nova-zelndia-aqui.html.

Já nos colocamos claramente a esse respeito: a questão é pedagógica e não jurídica. Mas infelizmente somos mesmo alguns poucos “Dom Quixotes” lutando contra moinhos de vento...

Enquanto alunos e pais continuam sendo tratados aos berros, a Secretaria vai se ajoelhando diante dos sindicatos da categoria e oferecendo cada vez mais benesses para profissionais relapsos, descompromissados e, muitas vezes, perversos. Porque PODEM. Porque não são fiscalizados nem cobrados.

Para ilustrar esta idéia seguem duas mensagens – entre as dezenas que recebemos mensalmente – de dois alunos de carne e osso – falando sobre a forma como são tratados dentro da escola. Enquanto a Secretaria da Educação aceitar a conversa hipócrita de seus diretores de escola, que se fingem de profissionais dedicados, quando são apenas burocratas sem qualquer preocupação ou vínculo com o aluno, nada vai melhorar na rede pública de ensino. O coordenador da COGSP e o Dirigente da Sul 3 estiveram conosco na EE Lucas Roschel Rasquinho e ouviram uma professora chamar várias vezes os alunos de "pentelhos" diante de uma platéia de pelo menos 50 pais, alunos, professores, direção da escola e dois Conselheiros Tutelares. Os únicos que se incomodaram com isso fomos nós. O que esperar dessas autoridades?...

"A vice-diretora da minha escola está se RECUSANDO a me fornecer um documento onde devem constar as séries que estudei na escola, pois preciso prestar FUVEST, e a escola além de não incentivar e apoiar os alunos ainda está se recusando a me fornecer tal documento. Já tentei conversar, porém a vice e o diretor não conversam com os alunos, como tantas vezes de costume já vimos, eles simplesmente alegam sabedoria e gritam aos berros com todo mundo. Está difícil tentar ser alguém neste pais, pois eles preferem que nós entremos para o mundo do crime e talvez seja o certo mesmo, para que no futuro eles possam ser assaltados e até perderem a vida para aprenderem a dar incentivo e colaborar com o aluno."

"Sou um aluno do período noturno. Um certo dia fui à escola no horario matutino entregar um trabalho, porque eu não havia ido à aula. O porteiro falou que para eu entrar na escola teria que esperar o sinal, então esperei. Depois disso, vi alguns amigos meus perto da secretaria e fiquei conversando com eles, enquanto esperava a professora para entregar meu trabalho. Passado alguns minutos, eu vi a tal professora e entreguei o trabalho, e fiquei mais uns minutos na escola porque precisava conversar com outro professor. E nisso aparece o diretor, começa a gritar comigo e me puxa pelo braço para eu sair do recinto. Eu falei com ele para controlar seu tom de voz ao falar comigo mas ele continuou falando e citou que ele era autoridade máxima naquele colégio e que ele falava do jeito que quisesse comigo. Eu falei que não, para abaixar o tom de voz comigo, mas ele gritou muito mesmo, me levou para a sala da supervisora para me dar uma advertência, ficou gritando comigo perto de todos (testemunhas tenho muitas). Então a supervisora chega e pergunta o que havia acontecido, ele falou que eu tinha esperado ele virar as costas para entrar na escola e que eu havia respondido a ele. Eu falei que não, que eu estaa no meu direito e que ele não tinha o direito de gritar comigo e puxar meu braço. E ele me fez sentar numa cadeira falando que se eu nao sentasse para tomar uma advertência ele me tiraria da escola. Isso não é de agora, já outas vezes ele fez isso. Queria saber os meus direitos e o que posso fazer sobre esse acontecimento."

05 agosto 2008

Uau, cem mil visitas!


Pela primeira vez em três anos, resolvemos comemorar algo que não foi a reintegração de algum aluno expulso, a solução de uma injustiça ou a melhoria de alguma escola pública.

Cem mil visitas a este blog representam... talvez nada, talvez alguma delas represente uma pequena mudança de ponto de vista por parte dos leitores, talvez algumas façam alguém se identificar com os problemas colocados e se sentir menos sozinho...

Não sabemos realmente o que esse número pode significar, mas se continuamos aqui é porque alguém se interessa em ler o que trazemos. Certamente, é um número insignificante se comparado com as visitas às comunidades de professores “sofredores” ou “assassinos” e muito menos com as visitas aos sites de pornografia. Talvez seja esse o nosso diferencial: o que trazemos aqui é vida real, não se trata de lamúria, desabafo, recreação ou tentativa de compensação. Se a cada dia alguém mais se intrigar ou se espantar com as nossas histórias, será mais uma gota de “água mole em pedra dura”... É nisso que acreditamos e é por isso que não vamos desistir.

Para não ficarmos neste blá-blá-blá inconsistente, leia o texto Coisas que aprendi com você no site http://www.reflexao.com.br/mensagem_ler.php?idmensagem=60, indicado pela nossa querida professora Glória Reis e inspirado na frase Um bom exemplo é o melhor sermão, de Benjamin Franklin.