27 julho 2009

Ausentes das salas de aula


Quando falamos que o maior problema educacional no Brasil não é o analfabetismo, poucos entendem o que queremos dizer. O editorial do Jornal Agora São Paulo de hoje mostra - para quem quiser entender - a gravidade e as consequências da exclusão escolar, provocada pela discriminação, pelo descaso e pela indiferença de toda a sociedade formadora de opinião - não apenas dos responsáveis pela política educacional.


Mortes de jovens

27/07/09


Uma pesquisa divulgada na semana passada mostrou que 46% das mortes de adolescentes no Brasil são provocadas por homicídios. É a maior causa de mortes nessa faixa etária, ultrapassando, de longe, motivos naturais (25%) e acidentes (23%).

O estudo foi feito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com apoio do governo federal, a partir de dados de 2006. Ele mostra que entre as cidades mais violentas se destacam aquelas das regiões metropolitanas de Minas Gerais, Espírito Santo, Pernambuco e Rio de Janeiro. A capital paulista, embora não seja uma ilha de tranquilidade, não está entre as piores –aparece em 151º lugar. O Estado, como um todo, conseguiu reduzir a taxa de homicídios desde 2001, o que deixou suas cidades em situação relativamente melhor.

Um dado previsível, mas nem por isso menos preocupante, é que as principais vítimas são pobres, moradores das periferias e ausentes das salas de aula. A conclusão é que ainda há muito a fazer para que o grau de violência na sociedade brasileira diminua. É preciso, sem dúvida, aumentar a eficiência da polícia, da Justiça e do sistema penitenciário. Mas o investimento que parece mais promissor no longo prazo é a educação. É esse o caminho que o Brasil precisa trilhar em benefício das novas gerações e de seu futuro como nação.

16 julho 2009

Do blog da Glória


A nossa amiga professora Glória resume em dois parágrafos o fracasso do ECA, a lei que "não pegou" neste país pedófobo:

Jan De Groof, Presidente da Associação Européia de Direito da Educação, disse exatamente o que acontece com o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA– Lei 8.069 de 1990 no Brasil:
Eu posso esboçar uma lei em sete meses, posso implementá-la em sete anos, mas talvez setenta anos não sejam suficientes para mudarmos a cultura jurídica e legal. É espantoso o quão detalhista a Constituição Federal brasileira é, no capítulo dedicado à educação. Mas em que extensão esses princípios são colocados em prática?

E Cremilda explica porque não podemos comemorar os 19 anos da lei:
Pior que a violência contra os alunos, pior que os crimes de pessoas que são regiamente pagas para lhes ensinar e proteger, é a omissão da imprensa e das autoridades. Então hoje não podemos comemorar o ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, que não saiu do papel e de fato só tornou a criança um sujeito de deveres, direitos não tem nenhum.

09 julho 2009

Omissão de socorro na escola pública


Lembram do aluno que quebrou os punhos na escola, não foi socorrido, não lhe foi permitido usar o celular para avisar a mãe que estava machucado e só foi liberado no término das aulas, quando voltou sozinho para casa? Este blog com memória de elefante publicou a notícia no dia 15 de julho do ano passado, junto com a matéria de Gustavo Ioschpe na Veja, que fez um apelo nacional pedindo um advogado que aceitasse representar os pais para processar o Estado. Nenhum dos 260 mil advogados de São Paulo apareceu para dar o mínimo apoio aos pais... Leia essa matéria antiga clicando aqui.

Esse tipo de notícia não dá mídia, o caso acima foi uma exceção que confirma a regra e mesmo assim a notícia não ajudou a melhorar a forma de socorrer alunos na escola. A rede pública de ensino é uma caixa preta disponível mas intocável. Se ela fosse aberta, daria a exata dimensão do apartheid que existe no país, mas a sociedade não tem interesse em abri-la.

Um caso muito mais grave ocorreu na semana passada na EMEF Marechal Deodoro, quando um aluno de 11 anos, em circunstâncias obscuras, teve traumatismo craniano e também não foi socorrido. A escola ligou para a mãe e esperou chegá-la, sem ligar para a emergência, nem mesmo para a polícia, que costuma chegar em 30 minutos quando algum aluno xinga um professor.

Ao chegar, a mãe encontrou o filho desmaiado e pediu chorando que alguém a ajudasse a levá-lo ao pronto socorro. O aluno foi internado em estado grave no Hospital Darcy Vargas e ainda continua na UTI, após uma semana do ocorrido.

É com muita honra que publico aqui a gravação do depoimento da mãe, do Mauro e da Cremilda, registrado na Rádio Terra, o único meio de comunicação à disposição dos pais e alunos da rede pública de ensino. Numa terra de mídia comprometida com o poder público, só contamos com alguns jornalistas realmente voltados para os interesses da população mais indefesa. E ainda temos que ouvir que se trata de "mídia marrom"!

Marrom, ou melhor, NEGRO, é o descaso da mídia e do poder público deste país para com a população carente.

Escola pública é lugar de risco, sim! A resposta da Diretoria de Ensino ao questionamento da Cremilda foi clara: a escola agiu "corretamente", esperando a mãe chegar para saber se o aluno tinha plano de saúde...

Ouça a gravação na Rádio Terra aqui.

05 julho 2009

Cobranças nas escolas públicas

Clique nas imagens para ampliá-las e conseguir ler todos os "recadinhos". Depois clique na setinha no canto superior à esquerda, para voltar ao blog.






Os documentos publicados acima são raridade. Os pais de alunos da rede pública, que não têm outra opção para matricular seus filhos, morrem de medo de nos enviar documentos como esses, pois, mesmo sem identificar o nome da escola e do aluno, imediatamente após a divulgação inicia um tribunal da inquisição para saber QUEM OUSOU denunciar que as escolas cobram taxas de APM e outras. É a realidade que TODOS CONHECEM, mas que TODOS VARREM PARA BAIXO DO TAPETE, principalmente prefeitos, governadores e secretários da educação. Preste bem atenção no recadinho que explica a "necessidade" de pagar as aulas de informática e inglês... (na imagem do meio).

Então, hoje o rei está nu. Mas ninguém mais se escandaliza com essa nudez! No país onde o cidadão paga os mais altos impostos do mundo, as verbas da educação vão para o ralo e as escolas cobram, sim, taxas ilegais, além da venda de uniformes e outros quetais, também proibida dentro da rede pública de ensino. Quando falamos que a rede pública é um FAROESTE, o DOMÍNIO DA ILEGALIDADE, é disso que se trata, além da questão, ainda mais grave, da exclusão e expulsão de alunos, muitas vezes até facilitada pelo "não pagamento" dessas taxas, pois muitos pais sentem vergonha por não poder pagar, acreditando que a cobrança é legítima e que eles são péssimos pais...

Senhores Secretários da Educação, está visto? Ah, na dúvida, vale refrescar a memória lendo o texto da Lei Estadual 3.913, na barra lateral esquerda.

03 julho 2009

Beth, A professora!


Na rede pública de ensino o aluno costuma ser tratado por seus pseudo-educadores como um pivete, imagem que a mídia ajuda a reforçar diariamente. Isso vemos e lemos todos os dias em vários veículos, já que em toda família de jornalista, de político e formador de opinião sempre há alguma professora ou diretora de escola pública, que ajuda a demonizar a figura do aluno, esse mal-educado, bagunceiro, essa laranja podre que vem de família desestruturada, etc.

Nessa situação tão generalizada existe uma exceção que mostra o que falta na rede pública brasileira, além de uma séria política educacional: amor e dedicação ao trabalho. Essa exceção é a Beth, uma professora primária que implantou o projeto EJA, de educação de jovens e adultos, na cadeia de Cataguazes.

Uma professora que não apenas respeita seus alunos regulares, mas que também ESCOLHEU trabalhar com pessoas já julgadas em tribunal, tendo portanto efetivamente cometido crimes. Ela mostra assim que o verdadeiro educador respeita e valoriza seu aluno, seja quem for. E a Beth é a pessoa mais amada e admirada por seus alunos! As aulas acontecem no pátio da cadeia, sem a mínima infraestrutura para um projeto educacional. Mas é ali que a professora Beth realiza o maior projeto educacional deste país. Ali o dever de casa é "para cela" e é feito no chão ou em cima dos beliches, pois não há uma mesa para apoiar cadernos e livros. Ali, onde professora e alunos convivem com grades por todos os lados e com a insegurança que paira nesses lugares.

Professora Beth, receba do EducaFórum essas flores simbólicas, como reconhecimento do grande trabalho que está desenvolvendo. Um trabalho que, indiretamente, mostra o preconceito e o descaso da maioria dos profissionais da educação que atuam na rede pública, aqueles que tratam seus alunos como criminosos em potencial e fazem questão de segregar seus próprios filhos, matriculados na rede particular.

Leia toda a matéria no Blog da Glória, essa outra grande educadora cujo trabalho temos a honra de poder acompanhar.