27 maio 2011

A escola em raio X - A série nº 6 - Expulsão por TDAH


Como já mostramos aqui inúmeras vezes, o Brasil é o campeão mundial da expulsão escolar. Já ficou bem claro o motivo pelo qual mais da metade dos alunos que deveriam cursar o ensino médio estão na rua...

Engana-se porém quem pensa que essa praga atinge apenas a rede pública de ensino. Existe uma situação em que a campeã da expulsão é a escola particular: trata-se das crianças e adolescentes portadores de dislexia, DDA e TDAH. Como sempre, a série A escola em raio X traz depoimentos autênticos recebidos de pais de alunos. Acabou de chegar essa mensagem de uma mãe desesperada:

Boa noite, meu filho tem 6 anos e está no 1º ano do fundamental, ele tem TDAH, coloquei-o no colegio em frente de casa por ser "renomado, tendo 86 anos de tradição". Enfim, a escola inicialmente indicou um neuropisquiatra para atendê-lo mediante a sua estada na escola. Concluído o diagnóstico, foram uma série de reclamações e acusações feitas no decorrer deste 1 ano e meio de convívio escolar pelo seu baixo desempenho e agitação. Ontem fui chamada para uma reunião e ao chegar lá fui recebida por uma equipe de coordenadores me recomendando a transferência do aluno para uma outra instituição. Me senti completamente sem chão com tal situação, o garoto sendo tratado pelo médico indicado por eles a mais de um ano. Com todo este envolvimento familiar e despesas médicas, no meio do ano eles fazem isso? Gostaria de saber se é legal tal fato.

Nossa resposta:
Cara Marcela, não existe qualquer legalidade em expulsar um aluno da escola! A Constituição Federal e o ECA garantem a todo cidadão acesso e permanência na escola. Entretanto, o hábito da expulsão é tão comum e arraigado no Brasil há décadas, que a sociedade já perdeu o senso comum! Na rede pública expulsa-se por qualquer motivo, mesmo o mais fútil, pois, para a classe "docente" brasileira, escola boa é escola vazia... Na rede particular, expulsa-se o aluno que não atinge as médias e o nível que a escola exige para atrair seus futuros clientes. Seu filho está nesse segmento: o das crianças com dificuldades de aprendizagem. E, dentro desse segmento, as mais visadas são as portadoras de dislexia, DDA e TDAH, ou seja, os alunos que também costumam ser mais inquietos, "atrapalhando" as aulas. A escola brasileira não está preparada para receber crianças com dificuldades de aprendizagem. Pior, não as quer! Durma-se com um barulho desses, prezada Marcela...

Infelizmente, os pais brasileiros não costumam reivindicar os direitos dos próprios filhos e limitam-se a sofrer em silêncio, sem perceber que os estão prejudicando, além de toda a sociedade. Sim, o exercício da própria cidadania abre caminhos para outras pessoas que poderão se beneficiar desses direitos! Você pode, sim, processar a escola, mas saiba que dificilmente vai ganhar a ação e, pior, dificilmente vai encontrar uma escola preparada para trabalhar com seu filho e outras crianças com dificuldades de aprendizagem. A "moda" é essa mesma: expulsar o aluno, disfarçando essa medida como "mera transferência".

Leia clicando aqui sobre o pai de Belo Horizonte que processou a escola onde a filha estudava.
E ajude seu filho na alfabetização com esse lindo site criado pela ilustradora Angela Lago: Dislexia, um presente para as crianças.

Ainda estamos aguardando informações sobre pesquisas sérias realizadas no Brasil sobre dislexia, DDA e TDAH. Nos entristece demais não termos recebido até agora qualquer informação a esse respeito... Pobres crianças brasileiras, pobre Brasil!

22 maio 2011

A escola do seu filho já grevou este ano?


A última visita da blitz do Jornal Nacional, que foi para a melhor e a pior escola de Belém do Pará, mostra diversas aberrações. Leia a reportagem e assista ao vídeo clicando aqui.

A pior escola, nota 1,4 no IDEB (índice que é medido de 0 a 10), mostra total descaso para com o aluno. A greve dos professores já virou programa anual, a ponto de os alunos terem inventado o verbo "grevar". A parte mais interessante da blitz foi quando a reportagem procurou os professores dessa escola na assembleia que estava discutindo aumento de salário. Nenhum deles estava lá!...

A "melhor" escola de Belém do Pará é aquilo que chamamos aqui de escola pública "de classe média", como existem muitas em todo o território nacional, principalmente nos grandes centros urbanos. Essa de Belém é uma escola federal restrita a filhos de militares, que pagam de R$ 60,00 a 221,00 de mensalidade para manter a matrícula. Isso abre uma discussão: uma escola pública pode ser restrita?...

Uma diferença entre essa escola e as demais "de classe média" é que as outras não cobram mensalidades a "preço fixo". Outra diferença é que as demais disfarçam a seleção dos alunos, feita na surdina pela direção da escola, que privilegia os indicados por vereadores e demais políticos, além de, claro, os alunos de melhor classe social.

Escolas públicas "de classe média" são aquelas procuradas pelos pais que não podem pagar escola particular, mas querem um tratamento diferenciado para os filhos. Assim, eles "oferecem" um valor mensal razoável para a APM e assim têm a vaga garantida. Aqueles que pagam mais têm, além da vaga, um lugar cativo no Conselho de Escola e na própria APM, onde mandam e desmandam junto com a direção da escola, mantendo assim um sistema que privilegia seus filhos e exclui os alunos indesejados. Além de cobrar mensalidade (disfarçada em "contribuição espontânea"), as escolas públicas "de classe média" costumam vender uniformes dentro da escola, cobrar carteirinhas e outras taxas, além de implantar cantinas que vendem lanches caros. Tudo para garantir a exclusão daqueles que não podem pagar, mantendo o "bom nível" da escola. Nas escolas públicas "de classe média", a proposta educacional também lembra a rede particular: o ensino é "puxado" (o que nada tem a ver com qualidade!), os alunos são massacrados com excesso de cópias, decoreba e lições sem o devido acompanhamento, obrigando os pais a contratar professores particulares para os filhos poderem "passar de ano".

Essa foi a última reportagem da série JN no ar, fraca e de modo geral "salva" pelas colocações pertinentes e perspicazes de Gustavo Ioschpe, que gostaríamos continuasse a visitar as escolas públicas deste imenso país e a desvendar seus tabus. Linda e alentadora, sua mensagem para os pais de alunos:

Se a gente puder deixar um recado para o pai para a mãe que estão nos ouvindo é: sempre apoie o seu filho. Porque algumas escolas, infelizmente, desistem dos seus alunos. E se os pais também desistirem, se chamarem o filho de burro, de preguiçoso, aí é que esse filho está perdido. O pai e a mãe sempre têm que achar que seu filho pode ser o primeiro brasileiro a ganhar um Prêmio Nobel.

Só gostaríamos que Gustavo tomasse mais cuidado ao fazer a apologia do "dever de casa". A maioria das escolas públicas "de classe média" entopem os alunos de lições, sem corrigi-las adequadamente e muito menos se preocupando com o aprendizado.

Leia sobre as demais visitas do JN às escolas públicas:

21 maio 2011

Dislexia - Um presente para as crianças


Vira e mexe o problema da dislexia nos assombra: pais desesperados nos procuram pensando que possamos ajudá-los a lidar com esse fantasma que a cada ano exclui milhares de pequenos brasileiros da escola. O que podemos nós, que também somos apenas pais?...

Mas hoje recebemos um presente, da amiga e grande ilustradora Angela Lago, que nos dá o enorme prazer de seguir este humilde bloguinho. A própria Angela sofreu com a dislexia e teve muitas dificuldades para adaptar-se ao método tradicional de ensino. Portadora de enorme sensibilidade, como aliás a maioria dos dislexos, ela criou em seus livros um mundo de fantasia e imaginação que encanta crianças do mundo inteiro. O presente que Angela nos enviou, seu ABCD virtual, você pode curtir clicando aqui. É um conjunto de histórias e imagens que brincam com letras e palavras de forma fascinante. Seria uma grande felicidade se todas as crianças com dificuldades de aprendizagem, dislexas ou não, pudessem ter acesso a essa ferramenta, que permite horas de entretenimento e aprendizado. Infelizmente, a maioria das crianças carentes não tem acesso ao computador, muito menos à internet banda larga. Seria muito bom se pelo menos as escolas, onde a maioria dos professores não sabe o que fazer com alunos portadores de dislexia, usassem esse material com seus alunos com dificuldades.

Pedimos aos nossos seguidores, principalmente aos professores, que salvem o ABCD de Angela Lago entre os seus favoritos e o divulguem, o usem em suas aulas, para que a maioria de crianças dislexas possam encontrar nele um pouco do prazer do aprendizado que lhes é negado na escola.

Muito obrigado, Angela, em nome de todos os pais que nos pedem ajuda para suas crianças com dificuldades de aprendizagem!

Para todos os pais que não conseguem ver uma luz no final do túnel, a mensagem é que não desistam nunca e acreditem no potencial dos seus filhos.





Releia aqui alguns posts anteriores sobre dislexia:


20 maio 2011

Comprometimento - Este é o segredo!


A reportagem de ontem do JN no ar, visitando a melhor e a pior escola de Goiânia, é um exemplo para todo o Brasil. Leia a reportagem e assista ao vídeo clicando aqui.

O vídeo fala por si e quem acompanha nosso trabalho aqui vai perceber que a reportagem é ainda mais reveladora do que parece:

Na melhor escola, paradoxalmente a mais simples, você viu, por exemplo, um recreio com crianças "agitadas", algo que na maioria das escolas públicas deixaria o corpo docente de cabelos em pé e seria motivo para advertências e suspensões. Viu também crianças descalças e vestidas de forma muito humilde: nenhuma exigência de uniforme, nenhuma exclusão devida a esses fatos, quando a gente soube, nestes anos, de tantos alunos empurrados para a evasão ou até mesmo nem aceitos na escola por sua condição social ou por falta de documentação. Não é, professora Glória Reis?

Nada disso foi comentado nessa reportagem Nota 5. Também não foi comentado o salário de R$ 1.100,00 de uma professora que é uma verdadeira educadora e que faz a diferença não apenas na escola em que dá aula, mas em toda a educação brasileira.

Como diz a diretora dessa escola, o segredo é COMPROMETIMENTO. Lindo, lindo! Um campo de flores para essas mulheres maravilhosas comprometidas em fazer com que todos os alunos aprendam!

Novamente, nota 5 para uma emissora que nem sequer menciona o nome dessa escola de excelência e que coloca como título da reportagem a palavra "disciplina", em lugar de "comprometimento".

Não dá nem vontade de criticar a outra escola, que aparenta estar bem melhor equipada, mas onde a diretoria e o corpo docente demonstram claro ressentimento contra os alunos, esses "bagunceiros" que vêm de "famílias desestruturadas". A expressão dura e insensível desses profissionais diz tudo. Eles estão lá apenas para receber seu salário e reclamar do aluno. Enfim, empurrando a educação com a barriga...


19 maio 2011

Mídia nota cinco - A Globo e suas viagens

Finalmente uma série de reportagens sobre educação que merece nota cinco! (Você que nos acompanha já conhece a série Mídia nota zero!)

O eufórico Jornal Nacional promove esta semana viagens para cinco regiões brasileiras, sorteando um município em cada uma. Em cada cidade, procura e visita a escola com o maior e a com o menor IDEB. Esse "trem da alegria" global toma um ar de seriedade com a presença do nosso conhecido Gustavo Ioschpe, que faz perguntas reveladoras e comentários esclarecedores. Algumas das conclusões finalmente transmitidas por um telejornal global:

  • Os pais devem procurar saber o IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) da escola de seus filhos, que é uma nota fácil de entender: ela vai de 0 a 10. Se a média da escola é baixa, ou seja, abaixo de 5, o problema de aprendizagem não é do aluno, é da escola.
  • A pressão dos pais é fundamental: eles devem exigir qualidade da escola, devem ter a expectativa de que seus filhos aprendam a ler e a escrever, no máximo, em dois anos. E que tenham todo o aprendizado e conhecimento que a escola lhes deve oferecer a cada ano de estudos.
  • Para promover a alfabetização é preciso organização e método, procedimentos e objetivos diários. Cada professor precisa planejar sua aula, saber o que vai fazer a cada dia e com que material. Quando tudo fica ao léu, quando o diretor e o professor têm que "reinventar a roda", os resultados são precários.
  • Mesmo numa escola ruim, um bom professor alfabetizador pode fazer a diferença. Seus alunos terão um futuro escolar mais fácil. E o exemplo desse professor deveria servir como guia pela direção da escola.
  • A direção escolar precisa realmente querer e puxar a família para dentro da escola, acomodar os horários das reuniões para atender os pais, que trabalham tanto ou mais do que os professores. Escola que exige a presença dos pais durante o horário comercial não faz questão alguma de tê-los na escola.
  • Escola que dá duas ou três aulas por dia, não ensina e desestimula os alunos. As melhores escolas públicas são aquelas onde não tem aulas vagas e onde é feita a recuperação dos alunos no contraturno.
  • Aluno que acha a escola "animada e divertida" aprende com facilidade e entende que está na escola para aprender.
  • Todo professor e diretor devem se empenhar para que todos os alunos aprendam. Eles não devem pensar que crianças de famílias pobres não precisam aprender tanto quanto as outras. A escola não deve nunca desistir do aluno.
Bom, a seriedade dos esclarecimentos dados por Gustavo Ioschpe acaba se diluindo dentro do clima "global" da reportagem, que como sempre pretende ser mais um programa de entretenimento que de informação. Por isso, assuntos extremamente sérios foram apenas ventilados, como por exemplo a falta e o absenteísmo dos professores, praga da educação em nível nacional. Outros assuntos certamente nunca serão colocados nesse tipo de reportagem global, como por exemplo:
  • A "escolha" e/ou aceitação de alunos pelas escolas, que é extremamente comum na rede pública, como aliás se depreende da fala de uma mãe entrevistada no programa, ao dizer que a escola do filho foi a única que o "aceitou". Assunto tabu que não mereceu qualquer comentário do entrevistador...
  • A evasão de alunos devida a perseguições, represálias e assédio moral por parte de diretores, professores e profissionais da escola.
  • A expulsão de alunos por tribunais de exceção formados nos Conselhos de Escola.
  • A venda de unformes, carteirinhas e até de papéis para fazer prova, como é comum em escolas da zona sul de São Paulo, onde os alunos pagam entre R$ 2,00 e R$ 3,50, ou não fazem a prova,

entre outros.

Essas reportagens poderiam ser muito mais úteis ao telespectador aprofundando as questões que realmente interessam e diminuindo o tempo em que mostram os detalhes das viagens e colocam no ar declarações vazias de diretores e profissionais do ensino. A Globo, fazendo coro aos sindicatos da educação, adora veicular declarações desgastadas e preconceituosas desses profissionais, quando por exemplo acusam os pais e as famílias de absenteísmo na escola. O real absenteísmo é dos profissionais, pagos para cumprir sua jornada de trabalho! Outra declaração que visa abafar a incompetência da escola é a de que o fracasso dos alunos é dado ao seu mau comportamento, ao desinteresse ou à falta de apoio da família.

Por essas e outras, essa série de reportagens do JN merece apenas nota 5.

Leia as reportagens e assista aos vídeos dos programas clicando nos links abaixo:

Visita a Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul

15 maio 2011

A escola tabu nº 26 - Quadrilha dentro da escola


O Brasil tem quase metade dos jovens fora do ensino médio. Leia aqui. Essa notícia, que é desesperadora, se pensarmos que se trata de um país supostamente "com alto desenvolvimento humano", não abala em absoluto a opinião pública brasileira, formada por cidadãos com filhos religiosamente matriculados na escola, diga-se na rede particular de ensino.

Há anos chamamos a atenção para essa questão, que não dá sinais de mudança significativa, se pensarmos que a idade média de estudo do brasileiro continua de 7,2 anos, ou seja, não corresponde nem mesmo ao ensino fundamental completo (dados de 2010)!...

Os motivos "oficiais" para essa distorção que aflige o país - mesmo sem provocar aflição, rs - são a necessidade de o aluno ingressar no mercado de trabalho, a falta de conclusão do ensino fundamental (outra praga...) e a evasão escolar, geralmente atribuída a falhas de caráter do próprio aluno, à "vagabundagem", à desestruturação da família e outros motivos que isentem a escola de qualquer responsabilidade.

Nós, que tivemos nossos filhos estudando na rede pública do ensino fundamental até à universidade, conhecemos muito bem os mecanismos que favorecem a evasão escolar no ensino médio:
  • A péssima qualidade do ensino no nível fundamental e a "aula vaga" (que consome até 30% do ano letivo) desestimulam muitos alunos a continuar os estudos.
  • Existe grande intolerância da maioria das escolas para com o aluno trabalhador, boicotando sua necessidade de estudar em um determinado período ou no curso noturno; fechando as portas na sua cara, caso chegue alguns minutos atrasado do trabalho; não oferecendo qualquer merenda, quando na maioria das vezes é obrigado a correr do trabalho para a escola ou vice-versa, sem alimentação.
  • São corriqueiras as perseguições contra os alunos, que costumam iniciar na puberdade, quando a criança desperta para o senso crítico e para a necessidade de expressão. Que o aluno não se atreva a questionar qualquer atitude da escola ou de seus profissionais! A escola pública brasileira é autoritária e os poucos diretores que fogem a essa norma costumam ser afastados ou por manobras de um corpo docente que não tem compromisso com o aluno, ou pela "dança das cadeiras" que caracteriza o sistema.
  • Questões banais de disciplina que nos países com REAL desenvolvimento humano são tratadas de forma pedagógica, nas escolas brasileiras são "resolvidas" chamando a polícia na escola e através da repressão, de suspensões e assédio moral.
  • Expulsão promovida pelo diretor ou através do próprio Conselho de Escola (cujo presidente é aliás o próprio diretor...).
Estamos voltando ao assunto, já muitas vezes abordado, pois recebemos uma mensagem muito interessante de uma advogada, que copiamos abaixo e vamos comentar ao pé da página:

Estou estudando um caso de expulsão de um aluno em uma escola pública, muito similar a casos apresentados aqui. Quem conhece as premissas do ECA e os princípios básicos da Constituição entenderá que não existe respaldo legal para uma expulsão, já que educação é direito fundamental, o menor tem direito ao acesso e à permanência na escola, porém, a prática da expulsão existe, como meio inidoneo de punir o aluno transgressor das regras internas da instituição.
Bem, em sendo assim, devemos nos ater à forma como esta "punição" será aplicada, todo e qualquer cidadão tem o direito a defesa, independente das acusações feitas ao aluno, principalmente se menor, que deve ter a oportunidade de se defender com o apoio dos responsáveis, com todos os meios possíveis e passíveis de prova.
Tenho visto jurisprudencias que informam que para que se efetive uma expulsão de um aluno, como medida disciplinar, seja em escola pública ou particular, uma reunião do conselho escolar deve ser realizada, com a presença dos pais ou responsáveis e aluno, para definir a legalidade da expulsão, caso contrário é abuso de poder.
Se verificado o abuso, o caso poderá ser reportado ao conselho tutelar particular, ministério público e secretaria da educação, podendo os responsáveis buscarem providências judiciais que favorecerão o retorno às aulas antecipadamente até manifestação da administração.
Entendo que a disciplina deva existir na escola, tanto quanto na vida, entretanto, as medidas punitivas devem ser na intensidade da infração, para tanto, antes de uma expulsão devem existir as advertências e a suspensão.
Mesmo nos casos gravíssimos que visivelmente são dignos de expulsão direta, ainda assim, deve existir ampla defesa e contraditório; basta compararmos com o mundo juridico, onde até os mais crueis assassinos tem direito a defesa.


Silene, Vitória, ES

Agradecemos muito sua contribuição, Silene! Gostaríamos porém de esclarecer como funciona, de fato, a expulsão da rede pública brasileira e principalmente no Estado de São Paulo, onde temos presenciado inúmeros casos de franca ilegalidade. Costumamos aqui dizer que um grupo de pessoas que se unem para praticar um crime é uma quadrilha: essa expressão se aplica aos Conselhos de Escola, não apenas pelo ato ilegal e desumano de expulsar um aluno da escola, mas principalmente pela forma medieval como essa prática é desenvolvida.

Sabe como se procede, na prática, à expulsão de um aluno através do Conselho de Escola, Silene? Como se os membros desse Conselho fossem, de fato, promotores, advogados e juízes! O "inquérito" que justificaria a expulsão do aluno pode ser constituído por uma mera "fofoca", como foi o caso de uma expulsão já decidida que consegui evitar de última hora quando pedi as provas do "crime": um aluno havia sido acusado de ter estourado uma bomba dentro da escola e a policial feminina de plantão era a única testemunha ocular do fato. Quando perguntei sobre os vestígios da "bomba", ninguém os havia recolhido, nem mesmo a tal policial que havia "visto" o aluno atirá-la no pátio da escola...

O caso mais significativo de que já tratamos aqui foi o de uma aluna de São João da Boa Vista, acusada injustamente de ter ateado fogo à lixeira da classe. A diretora da escola, precisando de um bode expiatório para uma situação que não soube resolver pedagogicamente, deu ouvidos ao grupo de alunos que cometeu o fato e a denúncias "anônimas" que recebeu por telefone. Ela suspendeu a menina e fez duas sessões de lavagem cerebral em todos os alunos da classe, até que eles confirmaram a versão falsa, por exaustão. Após essas reuniões com os alunos, o Conselho de Escola foi acionado e em duas sessões decidiu pela expulsão da aluna. Entramos com recurso junto à Secretaria da Educação, que reintegrou aluna à escola, mas a diretora, inconformada e mordida em sua vaidade, arrastou a aluna e os colegas para o juizado da infância e juventude. Foi o juiz quem matou a charada, em quinze minutos: fazendo simples perguntas aos colegas, percebeu a armação, pois um declarou que a menina havia usado isqueiro, outro que havia usado fósforo, além de muitas outras contradições. Veja, Silene, como essa diretora e esse Conselho de Escola, que aceitou sua decisão de expulsar a aluna, comprometeram a vida e o futuro de toda uma classe, criando uma situação que se estendeu de março até o final do ano letivo!

Saiba que o "tribunal" que condenou essa aluna, como sempre nos Conselhos de Escola, era constituído por "promotor" e "advogado de defesa", que são sempre professores ou funcionários da escola, nunca pais de alunos! Quanto ao "juri", ele é composto pelos demais membros do conselho, que brincam de fazer justiça da forma como foi mostrado aqui. Leia clicando aqui nosso post anterior sobre diversos casos de expulsão escolar.

O que diferencia um "julgamento" feito pelo Conselho de Escola de um linchamento em praça pública é apenas... o fato de acontecer entre quatro paredes. Antes fosse na rua: talvez passasse por lá algum advogado ou jurista que se horrorizasse com essa prática medieval!

Já dissemos e repetimos: um grupo de pessoas que se reúnem para cometer um crime é uma quadrilha. Esse crime é um dos maiores motivos pelo baixo índice de escolaridade no Brasil.

08 maio 2011

Cadê o projeto educacional do país?...


Costumamos ser criticados por divulgar aqui os textos do "maldito" Gustavo Ioschpe, extraídos da também "maldita" Veja, essa publicação reacionária que mereceria ser queimada em praça pública...

Acontece que Gustavo Ioschpe é a única voz que se atreve a discutir educação no país. Eu disse DISCUTIR, não enfeitar com palavras ou tentar "sensibilizar" a sociedade com apelos melosos como fazem o Todos pela educação e certos políticos dissimulados ou mal intencionados.

E por que seria necessário DISCUTIR educação? Por que, pelo andar da carruagem, não estamos vendo luz no final do túnel. Cadê o projeto educacional do país? A quem serve?

A sociedade brasileira ainda não despertou para a urgência do assunto. A educação é um direito do cidadão, mas esse direito é mais tratado como favor. Os dirigentes do país se aproveitam da secular ignorância da população para mantê-la no status quo, agradecendo a esmola de uma vaga na escola - com um ensino de péssima qualidade que esses pais obviamente não têm condições de avaliar, daí a "satisfação" demonstrada pelas pesquisas oficiais... Outras esmolas são também oferecidas, como latas de leite em pó, além de programas como o famoso "bolsa escola", preocupado em manter as famílias quietinhas e atreladas ao sistema. Teoricamente, a escola é "aberta" para os pais, que deveriam participar de sua gestão, como reza a Constituição Federal em seus Artigos 205 e 206, mas eles são persona non grata aos diretores, que afastam os pais mais críticos e escolhem a dedo os manipuláveis para participar dos Conselhos de Escola.

Somos também acusados de não apresentarmos soluções, apenas críticas... Quem diz isso não acompanha o nosso trabalho. Nossas propostas são públicas, vejam apenas algumas:


Voltando ao "maldito" Gustavo Ioschpe, segue trecho de seu último artigo na "maldita" Veja:

Quando os educadores se referem à sociedade, o objetivo mais frequente não é perscrutar-lhe os anseios, mas reclamar. Não fossem os malditos pais dos alunos (que não cooperam, são incultos, bebem, mimam seus filhos, divorciam-se deixando famílias desestruturadas...), a escola brasileira produziria os resultados de uma Finlândia.

Se você tiver "estômago" para ler o resto do artigo, clique aqui. Ou então continue achando que tudo vai dar certo porque Deus é brasileiro, rsrs...

05 maio 2011

A escola que deseduca XII - O bullying docente continua


Lembra da mensagem do outro dia? Leia aqui novamente:

Minha filha tem DDA e sofreu bullying liderado pela professora quando estava no segundo ano primário. Ela colocou apelido de "XXX (nome dela) que não faz nada", "XXX preguiçosa" e agredia ela diariamente. Pegava o caderno dela, andava pela sala inteira mostrando para todos, para humilhá-la. Ela era uma criança hiperativa, alegre, mas naquele semestre passou a ser uma criança totalmente apática. Passava todo periodo da aula debruçada sobre a mesa sem levantar a cabeça. Quando percebemos o que havia de errado, transferimos ela para uma outra escola, mas o trauma já estava instalado. Hoje ela tem 15 anos, até hoje ela sofre de apatia na sala de aula e não conseguimos resolver o problema apesar de nosso empenho, tratamento psicologico e remédios. Hoje, na reunião com a orientadora pedagógica, ela disse que se ela continuar assim, a escola terá que tomar providências pois para os professores é extremamente difícil e não pode ficar nessa situação. Ela não tem NENHUM comportamento delinquente, apenas é apática e não participa nas atividades de aula. A escola pode expulsar um aluno por causa disso?

Essa mãe acaba de nos enviar mais informações:

Obrigada por divulgar nossa experiência.
Apesar de termos condições de pagar escola particular, minha filha quis ser transferida para escola pública, pois achou que a pressão pelo bom desempenho iria diminuir.
Na verdade, tanto as escolas particulares quantos as públicas foram uma decepção para nós. Moramos numa cidade pequena e não temos muitas opções.
Ultimamente a coordenadora pedagógica da escola tem nos ameaçado de denunciar para o conselho tutelar. Denunciar o quê? Não sei.
A psicopedagoga que está atendendo minha filha solicitou, à direção da escola, um relatório de avaliação do comportamento dela, para que possa auxiliar no tratamento. A escola recusou. A direção disse que os professores são extremamente ocupados.
Esta semana, mais uma vez fui chamada para "reunião" na escola... Estou deprimida. É sempre queixas intermináveis sobre minha filha. Totalmente monólogo. Quando tentamos sugerir algo para que possamos trabalhar juntos, tudo que escuto é - Ah, é difícil, nós não podemos dar um tratamento especial...

A última reunião pedi para que a psicopedagoga participasse junto. Como ela é profissional na área, demonstrou muito mais capacidade de argumentação e conseguimos algumas "promessas" por parte da direção. Só que alguns dias depois falaram que não foi combinado nada daquilo. Parece que a partir da proxima reunião terei que exigir ata.

Sim, é o caso de exigir ata, mas esteja certa de que a escola não vai fornecer cópia! E tem mais: os professores não estão "extremamente ocupados"... A verdade é que a escola não vai emitir relatório algum, pois TEM MEDO que esse relatório possa ser usado contra ela. Essa é a realidade da escola no Brasil: uma escola que não dá a mínima para o aluno e ainda por cima ameaça denunciar os pais para o Conselho Tutelar, que se tornou o maior aliado em seus abusos.

Quando falamos pela primeira vez aqui de "bullying docente", só faltou sermos processados. E sempre vêm os puristas da língua colocar os pontos nos ii: "bullying é coisa entre crianças ou adolescentes". Então tá!

Leia também o post anterior: Cortina de fumaça sobre o bullying docente