25 setembro 2011

A escola tabu nº 34 - Mais uma tragédia


A tragédia ocorrida esta semana na Escola Municipal "modelo" Alcina Dantas Feijão, em São Caetano do Sul, onde um aluno atirou na professora e em seguida tirou a própria vida, mantém nosso luto aqui no blog.

Nos foi cobrado um pronunciamento a respeito do assunto e esclarecemos que demoramos a comentar a notícia, não por estarmos paralizados pela "incredulidade", mas exatamente pelo contrário. O assunto vem sendo tão falado - e mal comentado - por aí, que resolvemos fazer silêncio e apenas vibrar pelo aluno, pela família, pela professora e por toda a rede pública de ensino.

Este blog é um dos poucos espaços que vem denunciando o péssimo clima existente nas escolas públicas brasileiras, dominadas pelo autoritarismo. A série de posts A escola tabu já está no número 34 e a questão tem ficado tão crítica que supera em gravidade a qualidade do ensino.

O fato ocorrido em São Caetano do Sul poderia ser um marco para a sociedade brasileira iniciar uma reflexão profunda sobre A escola tabu, essa onde o aluno é tratado como problema, estorvo ou ameba. Mas já percebemos que essa possível discussão está sendo minimizada, pois a imagem da escola como instituição intocável continua falando mais alto. A "incredulidade" a respeito de uma tentativa de assassinato seguida por suicídio, por parte de um aluno dentro da escola, está dificultando essa reflexão. A frase mais reveladora que encontramos em toda a mídia, onde o assunto está sendo divulgado e reprisado, é a seguinte:

Me nego a pensar em como algo tão trágico pode acontecer entre um aluno e uma professora!

Aparentemente, a INCREDULIDADE sobre a profunda mágoa que um aluno possa ter em relação à escola ou a algum profissional da educação vai continuar sendo o único pensamento da sociedade brasileira, apesar de N casos que mostram conflitos entre a classe docente e o alunado. No auge do delírio, houve até quem supôs que o aluno de São Caetano poderia ter atirado na professora por estar apaixonado por ela. Nesse caso, ele certamente não comunicaria para ninguém sua intenção de matá-la, como fez para alguns colegas...

Mas a nossa intenção não é ir às causas do comportamento trágico desse aluno. Estamos aliás muito apreensivos sobre a forma como a investigação vai ser conduzida dentro da escola, pois as possibilidades de manipulação de mentes inocentes são praticamente ilimitadas. Lembramos com muita tristeza da lavagem cerebral feita nos alunos da EE Padre Josué Silveira de Matos, em São João da Boa Vista, quando uma classe inteira foi submetida a duas "reuniões" de duas horas cada com a direção da escola, onde os alunos foram induzidos a culpar uma garota inocente de ter ateado fogo à lixeira da classe, inocência que só foi descoberta pelo juiz da infância e juventude, após verificar as contradições nos depoimentos.

O caso de São Caetano do Sul é realmente trágico e precisa ser comentado com muito cuidado para as crianças. A questão, por exemplo, de como o menino conseguiu a arma, não é a principal. A criança NÃO resolveu matar a professora PORQUE havia uma arma à sua disposição! Diga-se, entre parênteses, que o pai do menino, guarda municipal, foi extremamente irresponsável ao não guardar a arma em gaveta com chave ou cadeado! Por mais que a dor da perda do filho seja imensa, ele merece ser responsabilizado por esse crime de omissão, caso contrário seria mais uma injustiça cometida pela sociedade brasileira e mais um péssimo exemplo para os nossos jovens, tão sujeitos à divulgação de valores mediocres através da mídia.

Se ele não tivesse tido essa arma à mão, a mágoa ou o ódio do aluno poderiam ser expressos de outra forma. E seria injusto que ele arcasse sozinho com sentimentos tão negativos, sem qualquer ajuda ou orientação. Nesse sentido, que não se espere nada da escola! Se a direção tivesse tido conhecimento dos planos do garoto, ele seria simplesmente execrado, tratado como bicho peçonhento e expulso da escola. Por muito menos, inclusive por motívos fúteis, as escolas públicas se livram dos "alunos-problema".

Em toda a mídia, a única voz que se levantou para comentar a "caixa preta que é a escola" é a da socióloga Miriam Abramovay, que sugere a necessidade de renovação da instituição, atrasada de um ou dois séculos, não apenas na questão da qualidade, mas das relações sociais. Voz tímida e solitária, infelizmente!

Com apreensão, aguardamos os próximos passos da mídia. Qual será o meio de comunicação que, com exclusividade (!), conseguirá imagens do menino ou da professora, para toda a sociedade se lambuzar com essa tragédia?... Será o Fantástico, daqui a minutos? Pobre Brasil!...

Em tempo:
A professora Glória Reis reproduz uma breve entrevista da psicóloga Ângela Soligo na Folha de São Paulo. Segue um trecho:

Ângela Soligo - Casos extremos estão se repetindo. As escolas precisam se perguntar: por que somos palco dessas situações? Já deveria ter acendido a luz amarela para escolas, gestores e pesquisadores. Tanto essas situações quanto as avaliações educacionais mostram que as escolas têm sido palco de frustrações, principalmente as públicas.
Muitas vezes, a vítima se sente desprotegida, como se ninguém se importasse com ela. A escola tende a silenciar diante de casos de conflito.

18 setembro 2011

Semana de luto


Esta semana foi marcada por um assunto que passou raspando pela mídia: foram duas mortes de alunos no Ceará, devidas a problemas de transporte escolar. O primeiro caso ocorreu na zona rural de Boa Viagem, quando um garoto de 12 anos caiu do caminhão "pau de arara" usado para o transporte, a caminho da escola. A Folha deu uma pincelada no assunto, mas não se interessou pelo segundo caso, que foi o choque de um ônibus escolar com a moto de uma mãe que levava o filho para a escola, na zona rural de Jaguaruana. O menino, de 5 anos, morreu no acidente. Quem registrou os dois casos foi o Diário do Nordeste, na seção Polícia (!). O homem que dirigia o ônibus escolar não era habilitado, como em muitos outros casos que trouxemos aqui.

O descaso com a morte de alunos a caminho ou dentro da escola pública nunca é motivo de comoção no país. Lembramos com muita tristeza da menina Emilly, de Araraquara, atingida por uma trave solta no pátio da escola, durante uma famigerada aula vaga. Ela faleceu após 40 dias de internação e o assunto foi divulgado de forma precária e contraditória, devido à manipulação da mídia pelo sindicato, que tentou e conseguiu atenuar a responsabilidade da escola.

Enfim, mais dois alunos de escola pública foram vítimas do descaso que a sociedade brasileira lhes dedica. Às duas famílias, nossos sinceros sentimentos!


Mídia nota zero - A série XXIII - O "furo" da VEJA


No final do post O bom exemplo eu havia prometido contar a história da pior medida que prejudicou os alunos do ensino médio no país. Uma história que me dói profundamente ainda hoje, quase 15 anos depois!

Naquela época, o Brasil ainda era visto como o "país do futuro" e nós, pais de alunos engajados, fazíamos todos os esforços possíveis para tornar isso realidade. Uma das minhas filhas estudava na ETEC Carlos de Campos, no curso de design integrado ao ensino médio. As ETECs estavam, como ainda hoje, ligadas à Secretaria da Tecnologia e não à da Educação. Eu podia comparar pessoalmente a diferença de qualidade entre a ETEC e o ensino médio regular. Mas a grande diferença mesmo era o alunado: jovens que, como essa minha filha, já sentiam interesse por um determinado ramo de atividade.

Havia porém uma grande falha no ensino técnico estadual de São Paulo: a falta de vagas e o elitismo, pois o ingresso era através de vestibulinho. Na mesma época, a Secretaria da Educação chegou a fechar mais de 300 escolas de ensino regular, entre a gestão Neubauer e Chalita. Nossa reivindicação era a seguinte: que as ETECs passassem para a SEE e que as escolas fechadas fossem utilizadas para ampliar o número de cursos de ensino técnico integrado ao médio. Ou então que, no mínimo, as duas secretarias fizessem uma parceria. Ninguém nos ouviu, até que chegou a bomba:

O MEC havia decidido acabar com o ensino técnico integrado ao médio!!! Como assim??? A única opção para os alunos que não pretendiam cursar a universidade, ou seja, a grande maioria no país!!!

Não deixamos barato, exigimos e fizemos diversas reuniões com a coordenação do projeto aqui no MEC em São Paulo. Infelizmente, o único jornal que nos acompanhou nessas reuniões foi o finado Diário Popular, o único que se preocupava de fato com o assunto educação. Nesse sentido, hoje estamos completamente órfãos!!

Estavam presentes às reuniões pais de alunos de muitas ETECs, da Escola Técnica Federal e de escolas particulares. Não lembro bem o nome do coordenador do MEC que discutiu o assunto conosco, me parece que era Roger Ferreira, não consegui rastrear o nome dele na net. Talvez ele "explodiu" no ar, pois parecia realmente um balão, rsrs (rindo para não chorar...).

O motivo do MEC para acabar com o curso era o seguinte: "nem o ensino médio nem o técnico seriam de qualidade, portanto seria melhor separar os dois cursos e otimizar cada um". A estratégia criada é a hoje vigente: o aluno que queira matricular-se num curso técnico só pode fazê-lo após terminar o ensino médio. OU então, a partir do segundo ano do ensino médio regular, fazer os dois cursos concomitantes, isto é, o médio num período e o técnico noutro período.

Rebatemos o motivo alegado pelo MEC com os melhores argumentos, argumentos de pais de alunos que conheciam toda a realidade do ensino, não apenas através dos nossos filhos, mas de uma rede que já na época nos trazia informações de todo o país:
  • Os cursos de ensino médio integrado ao técnico ERAM, em média, OS MELHORES DO PAÍS. (Hoje o ensino médio está uma lástima e não precisamos provar isso.)
  • Muitos dos alunos que escolhiam fazer um curso técnico de nível médio não pretendiam cursar uma faculdade. Esses cursos eram uma forma real de INCLUSÃO e seu fechamento teria um efeito desastroso. (Como de fato teve.)
  • Poucos eram (e ainda são) os jovens brasileiros que podem se dar ao luxo de estudar em tempo integral. Essa medida do MEC seria (e tornou-se) uma forma efetiva de EXCLUSÃO.
  • Mesmo assim, considerando a possibilidade de os alunos estudarem em dois turnos, mapeamos o Brasil inteiro para o "balofo" do MEC e provamos por A+B que pouquíssimas escolas de ensino técnico estavam tão próximas de escolas de ensino médio, para que o aluno largasse um curso às 12:00 e estivesse às 13:00 em outro. De que forma?? Correndo e sem alimentação?? E ainda discutindo com as "jararacas" das secretarias que não deixam entrar em sala de aula com mais de 5 minutos de atraso??...
Não adiantou! O "balofo" voltou para Brasília com os nossos argumentos mas respondeu laconicamente que o mais importante era o "incremento da qualidade que o MEC almejava, tanto no ensino médio, quanto no técnico".

Fizemos passeatas em praça pública, que também não deram em nada. A população não entendia a gravidade do assunto e a mídia estava (como ainda hoje) anestesiada. Lembro bem de uma repórter da Folha de São Paulo que convidamos para nos acompanhar e que ficava bocejando o tempo inteiro. De qual balada ela estaria vindo?...

Mas a bronca de hoje é com a VEJA, que apareceu com um "furo de reportagem" mostrando que o ensino médio está falido. Nem vale a pena rebater item por item! A matéria é tão ruim que o título diz "É preciso preencher a cabeça deles (dos alunos?)" e termina com a citação de Montaigne: "Uma cabeça benfeita vale mais do que uma cabeça cheia", rsrs...

Onde estava a VEJA quando pedimos desesperadamente apoio na época do fechamento do ensino médio integrado??? Alô, alô, Valéria França?...

E agora vem Claudio de Moura Castro falar do ensino médio "sabor jabuticaba". Onde ele ficou esses anos todos, vendo o ensino médio afundar? Vendo os sindicatos impingir ao aluno matérias "importantes" como a sociologia, para favorecer sociólogos que nem sequer dão conta de explicar ao aluno o marasmo em que ele foi atirado???

Onde está a Revista Nova Escola, a mais lida do país, com seu estilo Polyana que não lhe permite colocar o dedo na ferida???

Onde está a Revista Educação, com seus ilustres acadêmicos, como por exemplo aquele que elogiou a nossa luta mas não nos autorizou a divulgar seu comentário???

O Brasil e principalmente São Paulo perderam mais 15 anos em que o mercado de trabalho poderia ter recebido milhares de jovens bem preparados para alguma profissão e minimamente instruídos para comunicar-se com o mundo.

Ah! Esqueci de informar aos incrédulos: a escola de ensino médio de meus outros dois filhos, a EE Manoel de Paiva, foi uma das fechadas pela SEE. Mas foi apenas uma, de mais de 300. O número exato está escondido a mais de sete chaves! Nenhum dos exmos. deputados da Assembléia Legislativa nos deu essa informação. Pudera: um deles é o "Bonitinho, mas ordinário", rs...

Nossa última esperança na mídia é Gustavo Ioschpe, que até hoje mostrou firmeza em suas posições lúcidas, mas nos deixa preocupados enquanto "filhote" da VEJA, essa revista que, como os demais meios de comunicação brasileiros, finge ter algum compromisso com a educação.

Pois é, como diz o amigo Mauro Silva, com toda propriedade, filho de jornalista não estuda na rede pública...

Viva o Burro! - nº 1


Iniciamos hoje a nova série Viva o Burro!, homenageando o vereador Dario Bueno Burro, de Jacareí, SP, o primeiro parlamentar a criar a Ouvidoria do Aluno, reivindicação antiga da comunidade escolar, já que todas as ouvidorias oficiais não passam de SURDORIAS. Se em cada município houvesse um "burro" para ouvir as denúncias dos alunos e tomar providências, certamente os abusos das escolas diminuiriam. Assistam ao vídeo sobre a primeira queixa registrada pelo vereador:


Mas a grande surpresa foi receber uma mensagem do Vereador aqui no blog. O texto é sobre o apartheid educacional que sempre mencionamos aqui, assunto tabu que nunca ninguém teve coragem de comentar. Esse vereador não tem pelos na língua! Segue a mensagem:

A questão do apartheid não é apenas mercado de trabalho.
Não se busca somente a qualificação em conhecimento, aliás conhecimento é o que menos importa, infelizmente!
O nosso apartheid é social mesmo!
Com a universalização do ensino, as princesinhas e os pricipezinhos ficaram expostos ao convívio com a plebe!
Na adolescência, momentos de rebeldia e descobertas, com os hormônios à flor da pele, a "Dama" pode engravidar do "Vagabundo".
O pai da "coisinha fofa" passaria a ter, na melhor das hipóteses, 3 filhos: a "coisinha fofa", o "favelado" e o inocente rebento!
Na pior das hipóteses, a família abastada corre o risco de ser obrigada a adotar os irmãozinhos (sabe-se lá quantos) do "favelado", mais pai, mãe, vó, cachorros e papagaios.
Em uma escola particular o risco é bem menor, além da chance de encontrar um "bilhete premiado".
Quando despertar a paixão (ninguém se apaixona por aquilo que não vê e não há incêndio sem contato do fósforo com a estopa enxarcada de gasolina) a cópula poderá ser com um bom partido!

A escola particular não passa de um cassino clandestino disfarçado de floricultura, porque ela não oferece conhecimento, mas sim "redução de riscos" ou a chave da "fortuna"!

Hipocrisias à parte, não há sucesso da escola particular se não houver o fracasso da pública!

Hy Ho!

(Este comentário do vereador Dario Burro foi feito em resposta ao post Gustavo Ioschpe: novamente a escola particular)

Vamos agora torcer para aparecer um "Burro" na Câmara Municipal de São Paulo e na Assembléia Legislativa! Mas a expectativa é pequena: todos os "nossos" vereadores e deputados são ouvidores... da classe "docente", aquela que não ensina coisa alguma, rs...

Mídia nota zero - A série XXII - Mais um vexame da Folha de São Paulo


Como é cansativo registrar a incompetência da mídia sobre o assunto "educação"! Ainda bem que o Mauro Silva, do COEP, tem essa paciência. Leia sobre o último vexame da Folha de São Paulo, clicando no link Gilberto Dimenstein e a Folha deveriam morrer de vergonha.

Leia mais posts da série Mídia nota zero:

15 setembro 2011

12 setembro 2011

A escola tabu nº 33 - O "bom" exemplo


De alguns anos para cá, constatamos que a qualidade do ensino não é mais o maior problema da educação brasileira. Algo muito pior tem vindo mascarar a incompetência da escola e não se trata apenas de uma cortina de fumaça, é algo como um tapete em brasas.

Que a rede pública brasileira é autoritária, isso já vem da ditadura militar, mas, curiosamente, desde que se fala em avaliar a qualidade das escolas, esse autoritarismo tem aumentado sobremaneira. O aluno da rede pública, principalmente o adolescente e o do curso noturno, tem sido tratado como criminoso em potencial. Por qualquer motivo chama-se a polícia na escola, que aliás já costuma estar a postos. E dá-lhe suspensão, suspensão coletiva e expulsão por motivo fútil. O aluno não tem direito a defesa, a não ser diante de "tribunais" de exceção formados pelos Conselhos de Escola, onde brinca-se de promotor, advogado e juri.

O que o Conselho decide, está decidido! Trata-se de um jogo de cartas marcadas que resulta num fenômeno (mais um!) que os sociólogos brasileiros ainda não se dignaram a estudar: a "transferência compulsória". Essa transferência é, na verdade, expulsão pura e simples, pois todos os alunos vítimas dessa manobra são muito claros: receberam a tal "transferência" para... lugar algum. A escola simplesmente os coloca na rua e manda que "se virem" para encontrar vaga em qualquer outro lugar. É óbvio que aluno da rede publica não anda de mercedes com motorista e precisa estudar no mesmo bairro onde mora. Mas o fenômeno da "transferência" compulsória reserva mais uma surpresa: a "ficha" do aluno é amplamente divulgada para todas as escolas da região, através de profissionais da "educação" que fazem a caveira do aluno para seus colegas que dão aula no mesmo bairro. Assim, a criança ou adolescente "transferidos"... para lugar algum acabam não encontrando vaga em nenhuma outra escola, já que chegam em todas com a pecha de arruaceiros, bagunceiros, laranjas podres etc. etc.

A voz do aluno nunca é ouvida, a não ser por nós, pais de ex-alunos que sabem de que forma foram tratados os próprios filhos. Dificilmente, a criança e o adolescente faltam de respeito a um professor ou outro profissional da escola sem serem provocados. Já nossa antiga Cartilha sobre os Direitos do Aluno continha diversas expressões que alunos e pais haviam ouvido da boca de supostos "educadores". Nos últimos meses, o leque de xingamentos ouvidos pelos alunos que nos procuram foi ampliado por diversos impropérios, por exemplo

Estrupício

A xingação mais "criativa" foi feita recentemente por uma professora que disse à classe:

Esse ambiente parece mais uma fazenda, cheio de vacas e galinhas que precisam de uma linguiça para ficarem felizes.

Uma das alunas respondeu que não era uma fazenda com os tais animais, pois a filha dela não estudava ali.

A aluna foi suspensa e está em vias de receber a tal "transferência" para lugar algum. Ela pediu desculpas, mas não adiantou. A diretora disse que "na escola dela" não admite aluno desrespeitar professor. Mas ela admite o mau exemplo de supostos "educadores"! É uma tremenda inversão de valores, onde exige-se do ser em formação mais responsabilidade do que do marmanjo...

Essa é a rede pública brasileira, onde se provoca o aluno até ele revidar ou evadir. Trata-se de um dos motivos pelos quais 50% dos alunos do Ensino Médio não completam o curso...

Mas essa é uma outra história que fica para uma outra vez. O Ensino Médio público brasileiro compara-se, ele próprio, a uma transferência para lugar algum. Pobre aluno!!! Há uma década, criminosos do MEC acabaram com o curso técnico integrado ao ensino médio, justo quando em São Paulo, por exemplo, criminosos da SEE fecharam mais de 300 escolas, que poderiam ser, hoje, celeiros para oferecer bons técnicos ao mercado de trabalho. Muito triste!!! Ainda vamos contar direitinho essa história que nos indignou profundamente e nos levou às ruas, infelizmente em vão.

11 setembro 2011

Gustavo Ioschpe: novamente, a escola particular


Você acha que as escolas particulares brasileiras são boas? Esse novo artigo de Gustavo Ioschpe na Veja desta semana abre uma boa reflexão. Faltam porém dados para que essa reflexão possa abrir caminhos. Estima-se que entre 10 e 14% das escolas brasileiras sejam particulares. Essa percentagem, certamente, é flutuante porque não se sabe - e talvez não se queira saber - quantas escolas irregulares existem, especialmente na educação infantil. Alô, alô, Inep(t), não está na hora de fazer esse levantamento? Há alguns anos, por exemplo, dizia-se que somente em São Paulo Capital havia cerca de mil "escolinhas" que funcionavam de forma irregular.

Outra questão relevante é o nível de qualidade delas, pois estima-se que as "boas" escolas particulares representem apenas 10% do total. Enfim, no Brasil "estima-se" muito e sabe-se muito pouco, principalmente no que se refere à área educacional.

O próprio articulista faz críticas às melhores escolas particulares brasileiras, onde certamente estudou. Na comparação que ele faz com as escolas de elite no exterior, a diferença não parece estar em maior tempo de estudo, mas em projetos pedagógicos mais inteligentes: estudar Dante ou Shakespeare na base da cópia ou da decoreba não vai fazer diferença alguma!...

Se for verdade que apenas 10% das escolas particulares são boas (difícil duvidar, basta contar os erros de português de alguns trabalhos de graduação e pós-graduação publicados na internet...), como pedir aos pais dos alunos que sejam críticos a respeito da escola dos filhos? Se eles matriculam e mantêm os filhos numa escola ruim, é que não sabem avaliar a qualidade dela, por isso se dão por satisfeitos. São esses que sentem a consciência tranquila por "pagarem" uma escola para os filhos. (Como se a escola pública não fosse regiamente paga com o dinheiro dos impostos de todos nós!)

Existe neste país um apartheid que se forma nos bancos escolares, ao separar os filhos do Brasil em duas classes: os que frequentam a escola pública e os que frequentam a particular. E o ponto mais interessante do artigo de Gustavo Ioschpe parece ser a "satisfação diante da desgraça alheia", que os pais de alunos da rede particular sentem com relação aos filhos "dos outros". Por estarem oferecendo aos seus filhos uma escola "paga", pensam que eles estarão livres de disputarem o vestibular com a grande massa de alunos do país.

Essa é uma teoria que divulgamos no EducaFórum há anos, mostrando inclusive que esses ingênuos pais de alunos de escola particular ruim correm um risco ainda maior do que a defasagem nos estudos dos seus filhos: a rede pública de ensino expulsa alunos a rodo e muitos desses jovens são acolhidos de braços abertos pelo mundo do crime. Leia nosso antigo post Por que não dá na mídia?

Por outro lado, temos também muitos contatos com pais de alunos de "boas escolas particulares", entendendo-se aquelas que cobram mensalidades a partir de R$ 1.000. A maioria desses pais, que costumam ter maior escolaridade, não está satisfeita, reclama e muito, mas a mudança de uma escola para outra parece-lhe um transtorno, porque a impressão é de estar trocando seis por meia dúzia. O próprio artigo aqui comentado parece confirmar essa visão. E assim a vítima costuma ser a criança, obrigada pela escola e pelos pais a fazer mais esforços para atingir as médias exigidas... Pobres crianças ricas, sem mais direito à infância!

Outra colocação interessante de Gustavo Ioschpe é a de se pensar a educação como um problema do país, ou seja, a importância de se preocupar em resolver o problema "de todos". Só o desprezo pelo aluno da rede pública pode justificar uma situação tão cruel como essa greve dos professores em Minas Gerais, que dura 90 dias e é considerada uma vitória da "educação"!

Escarafunchando os arquivos do blog, encontramos um artigo anterior de Gustavo Ioschpe sobre a qualidade da escola particular. Leia aqui: Preocupe-se. Seu filho é mal educado. Nossos comentários sobre esse artigo de 2007 apontavam, como maior diferença entre a escola particular e a pública, a aula vaga, que solapa de 20 a 30% do ano letivo aos alunos da rede pública.

Hoje, 4 anos depois, a percentagem de aulas vagas continua a mesma, mas uma questão foi tomando corpo e tornando a diferença entre a escola pública e a particular ainda maior: a falta de "educação", a violência física e psicológica com que é tratado o aluno da rede pública dentro da própria escola. Hoje, o maior problema não é a proposta educacional falha, o despreparo do professor, do coordenador ou do diretor da escola: é a demonização do aluno, orquestrada pelos sindicatos da "educação" e por toda a mídia, manipulada por eles. Trata-se de uma cortina de fumaça para abafar os casos de violência contra os alunos. Leia aqui: A pobre classe "docente".

Esse tipo de atitude da mídia favorece a rede particular, que se beneficia desse quadro. Hoje, mesmo os pais com baixa escolaridade fazem qualquer esforço para matricular seus filhos numa escola particular "qualquer", pensando em livrá-los da ameaça do bullying que acreditam imperar na rede pública.

Diariamente recebemos denúncias de alunos de escolas públicas, abafadas pelos próprios pais (!!!) por medo das perseguições e represálias que nunca faltam, já que esses pais não têm condições de mudarem seus filhos de escola, a não ser para outra unidade do mesmo bairro, onde as perseguições continuam.

Há anos convidamos os sociólogos brasileiros a fazerem um estudo sobre esse fenômeno que é o apartheid educacional no país, mas parece não haver interesse... Ainda esperamos que a sociedade brasileira possa despertar desse torpor que lhe impede de enxergar o óbvio.

08 setembro 2011

Mídia nota zero - A série XXI - A pobre classe "docente"


Mais um corajoso vídeo do COEP que rebate a lengalenga orquestrada por toda a grande mídia acusando nossas crianças e adolescentes de agredir a "pobre" classe docente.

Muito, muito triste!

Para contrapor ao consagrado coitadismo do professor e da professora, uma profissão que não é "para qualquer um", publicamos novamente abaixo os links de alguns assuntos que passaram batido e que você não viu no Fantástico nem em qualquer outro programa de jornalismo-show, pois neste país pedófobo ninguém se indigna contra a violência praticada por esses seres "angelicais" e "abnegados" contra crianças indefesas e adolescentes fáceis de expulsar da escola. Impressionante, como ainda se têm dúvidas sobre a principal causa da evasão escolar no Brasil!


Divirta-se! E se tiver tempo de sobra, vá fuçando no blog, você vai encontrar muito mais diversão!

Campanha a favor da Abrinq


Sugerimos, para o prêmio Ignóbil de Educação 2011, a Fundação Abrinq, por promover uma campanha contra a divulgação do IDEB (Índice do Desenvolvimento da Educação Básica) no portão das escolas públicas. Nega o direito de pais e alunos saberem o índice de qualidade da escola, o nível do ensino e de evasão. Com o pretexto de proteger crianças e adolescentes, na realidade essa atitude visa "proteger" do constrangimento maus profissionais, gestores, secretários, prefeitos e governadores, por oferecerem um péssimo ensino aos nossos alunos. Nossos alunos vivem constrangimentos diários, quando seus professores, por exemplo, os criticam publicamente. Ao contrário do que pensa a Abrinq, o IDEB é um índice que mede não o desempenho de cada aluno, mas a qualidade da escola enquanto conjunto de profissionais e gestores. Por isso o eventual constrangimento não é dos alunos, mas de quem tem a responsabilidade de alfabetizá-los e orientá-los nos estudos.

Espanta-nos extraordinariamente essa atitude da Abrinq, pois ela põe a perder o valioso trabalho construído em duas décadas, ao vestir a carapuça de uma sociedade que varre seus maiores problemas para baixo do tapete.

04 setembro 2011

Qual profissão é para qualquer um?

Mais reflexões sobre a profissão de professor, por esse político corajoso que é o vereador de Jacareí Dario Burro.

Professor, aprenda do garçom, do lojista e até do camelô: trabalhe sorrindo!




Relembrando o post anterior sobre o vereador Dario Burro, segue o comentário do aluno Wellington:

LOUVÁVEL! Estou admirado, tanto com o 'Burro' quanto com quem o defendeu. Eu como aluno digo: do mesmo modo que o professor se alterou com o vereador, ele se altera com o aluno, o aluno que não tem quem o defenda. Muito digno, estou admirado :D FORÇA BRASIL, ainda temos chances aí!

E agora, da caixa de comentários, o pronunciamento da professora Carolina (tomara que ela não dê aula de português, rsrs):

E na minha opinião a senhora, assim como tantos outros estão querendo pegar “carona” na polêmica do Dario Bueno pra se aparecerem e a troco de que, eu imagino e tenho certeza.

03 setembro 2011

O ensino sem preconceito




"Toda vez que o professor escuta e aceita seu aluno sem preconceito, este se abre para a aprendizagem." Juan Casassus

Mais uma entrevista interessante que a nossa amiga professora Glória Reis escarafunchou na Nova Escola, sem dúvida a publicação mais lida do país na área educacional, mas, infelizmente, asséptica e politicamente correta demais para "dar nome aos bois" e encaminhar mudanças significativas na educação.

Essa entrevista é de 2008 e não perdeu a atualidade, pelo menos aqui em terra tupiniquim. O entrevistado não é um brasileiro, é o filósofo chileno Juan Casassus. Alguns pseudo-educadores brasileiros que "leram" a entrevista, para variar, não entenderam nada e acham que ela vem reforçar a ideia surrada de que a função do professor é "dar carinho" ao aluno.

Recomendo ler a entrevista na íntegra: é longa, mas vale a pena. Aliás, quem não lê um texto até o final não pode opinar sobre ele. Obóvio? Auraite? rsrs


Segue apenas um trecho, para aguçar o interesse:

Atualmente, como as escolas têm lidado com as emoções?
CASASSUS Mal, porque herdaram um modelo antigo de instituição de ensino. No século 19, quando os sistemas educativos nacionais foram criados, predominava uma visão racionalista do ser humano. Tudo que tivesse a ver com corpo e emoções tinha de ser afastado porque ia contra o desenvolvimento da faculdade superior de raciocinar, vista como o caminho do progresso e da felicidade. O resultado disso foi a criação de uma organização antiemocional, onde prevalecem as humilhações, as comparações, os juízos de valor e as desqualificações. O resultado é uma escola indisciplinada e violenta.

Do excelente blog da Glória

O PODEROSO CHEFÃO!




Visite o blog da professora Glória Reis, autora do livro Escola, instituição da tortura. Essa é, sim, uma educadora!