14 abril 2016

Educação brasileira: a saída é a miscigenação


No início da década de 90 houve uma enxurrada de “filhos da classe média” inundando a rede municipal de São Paulo. Foi durante o governo Erundina, quando Paulo Freire e Mario Sergio Cortella dividiram a Secretaria da Educação. Mas essa adesão nada teve a ver com motivos ideológicos, a grande massa nem sabia (como até hoje não sabe) quem é Paulo Freire... O motivo dessa avalanche de novas matrículas foi a súbita melhora da qualidade do ensino, já no final do primeiro ano da gestão. Sei do que estou falando, pois meus três filhos foram alfabetizados nessa época, uma herança que lhes valeu durante toda a vida escolar.

Mas tudo o que é bom dura pouco... Na eleição municipal seguinte entrou Paulo Maluf e tratou de destruir praticamente tudo na rede, desde a qualidade até à participação da comunidade na gestão escolar.

Assim, de lá para cá e até os dias de hoje, a situação da escola pública em São Paulo, seja municipal ou estadual, não pode ser considerada nada além do que... ruim.  Ao mesmo tempo, porém, posso afirmar que a rede particular como um todo – salvo honrosas exceções que existem também na pública – é tão ruim quanto. Recebo denúncias de todas as redes de ensino do Brasil inteiro e a mediocridade é geral, o que infelizmente ninguém pode contestar.

Este ano de 2016 ocorreu nova enxurrada de alunos da rede particular tentando uma vaga na escola pública, e esse fenômeno só pode ser explicado pela crise que está afetando a classe média em todo o país. Isso pode acender uma discussão que costumo fazer há um quarto de século e muitas vezes me sinto falando com “as paredes”...

Existe no país, desde... sempre, um apartheid educacional que faz parte da “lei de privilégios” que até hoje não foi quebrada pelo assim chamado regime democrático. Existem no Brasil cidadãos “de primeira e segunda classe”, cujo tratamento é diferenciado em todas as áreas da cidadania. Bem, a educação básica é uma dessas áreas, talvez a mais importante de todas, pois atende aos cidadãos menores de idade, aqueles que precisam construir sua consciência de cidadania.

Mas, o que se faz com nossos alunos de todas as redes de ensino do país, é garantir, desde cedo, que eles não consigam desenvolver essa consciência! Como?

Antes de responder a essa pergunta, vamos primeiro verificar as diferenças básicas entre a escola particular e a pública, no Brasil. A qualidade do ensino é ruim em ambas, como provam os índices internacionais, portanto não há aqui diferenças significativas. As diferenças que realmente contam e deixam marcas no futuro dos nossos jovens mereceriam ser estudadas por sociólogos em todo o país, mas são ignoradas. Elas se referem ao perfil de aluno que as escolas procuram moldar, intencionalmente ou não...

O aluno da rede pública é considerado e tratado como pivete, preguiçoso e infrator em potencial. Assim, já é colocado “em seu lugar”, que é uma escola esquálida, sem manutenção, com equipamentos inadequados ou insuficientes, sem biblioteca ou laboratório, com muita aula vaga e presença policial ao primeiro grito da direção. Então ele aprende que está sendo aceito “de favor” numa escola que pensa ser de graça, e sabe que qualquer questionamento ou cobrança pode lhe valer uma expulsão, direta ou “branca. Isto acontece especialmente no Ensino Médio, onde a qualidade rola ladeira abaixo, por dois motivos: no Ensino Fundamental, é comum as mães e pais levarem ou buscarem os filhos na escola, o que lhes permite maior controle sobre as atividades escolares, inclusive contato com outras mães e pais; no Ensino Médio esse contato se perde, pois os alunos costumam ir sozinhos à escola e, além disso, a maioria dos mães e pais não tem conhecimentos para poder avaliar a qualidade do Ensino Médio, já que muitos sequer o cursaram, outros nem lembram do que aprenderam em sua época, se é que tiveram um ensino minimamente decente...

Já o aluno da rede particular costuma ser tratado como idiota em potencial. Desde a primeira infância é bombardeado por uma avalanche de informações e tarefas muitas vezes inúteis, que sufocam seus potenciais. Ele é devidamente amestrado e colocado em seu lugar, que é satisfazer os anseios de papai e mamãe, que fazem um tremendo esforço para pagar essa... segunda escola. Então, o que ele aprende nos bancos escolares é o conformismo e o orgulho de pertencer aos 10% da população que “pode pagar” uma segunda escola.

Pois é disso que se trata aqui. O apartheid educacional, no Brasil, tem a ver com status e poder econômico. Muito triste, em um país cuja Constituição considera todos merecedores das mesmas oportunidades. A miscigenação que construiu a nação ainda não ocorre nas escolas.

Em resumo:
- A escola particular, no Brasil de hoje, costuma servir como depósito de alunos emburrecidos por um sistema de ensino ainda baseado na cópia, decoreba e preconceitos de todos os gêneros. Também serve para fortalecer a sensação de “superioridade” desses alunos, que provavelmente serão os futuros dirigentes do país...

- A escola pública não serve como depósito de alunos – ao contrário do que a grande mídia sempre propaga... – pois a aula vaga engole de 20 a 40% do ano letivo, devido às faltas de professores, feriados prolongados, greves etc. Ela prima pelo autoritarismo a fim de abafar qualquer tentativa de subversão dos alunos que porventura se sintam prejudicados por um sistema “educacional” que visa manter o status quo.

Em resumo, então, nem a escola pública, nem a particular, conseguem estimular em seus alunos a consciência de cidadania. E aqui vai a resposta à pergunta acima:

Enquanto as crianças e os adolescentes brasileiros não puderem ter a experiência de sentar nos bancos escolares com aqueles que consideram “mais”, ou “menos”, cidadãos do que eles, o apartheid vai continuar. E, com ele, os preconceitos, o racismo, a intolerância – enfim, a ignorância.

Não vejo outra forma de este país tornar-se uma verdadeira nação, enquanto a “elite” - mesmo que seja a classe média remediada – fizer questão de pagar uma escola que vai afastar seus filhos da realidade do país, impedindo-lhes de ter, como colegas, crianças e adolescentes tão ou mais inteligentes do que eles. Na década de 80, crianças de pré-escola, na faixa de 4 a 6 anos, eram ameaçadas pelos próprios pais de que, se não fizessem direito as tarefas que as “tias” passavam, seriam matriculadas na “escola do Sarney”, para onde iam as crianças “burras”...

De lá para cá a mentalidade é a mesma, preconceituosa, tacanha, perversa, e assim não há como se desenvolver um sistema educacional minimamente democrático. Atenção: essa mesma “elite” que mantém seus filhos na escola particular é que faz a gestão da rede pública de ensino! São supervisores, coordenadores e diretores de escola que usam seu poder para reprimir e manter sob controle os que pagam seus salários. Os alunos que se atrevem a questionar ou contestar sua gestão são sumariamente expulsos.

Numa conjuntura como essa, tudo o que é ruim pode piorar... Foi o que ocorreu com a proposta indecente do governador Geraldo Alckmin, da qual já falamos exaustivamente aqui no blog. E quem iniciou uma inusitada e positiva mudança no sistema foram os alunos da rede pública, esses que não se dobraram às imposições da elite burra e perversa, capitaneada pelo governador e demais cabeças da SEE.

Esses alunos, poucos, mas extremamente decididos e destemidos, demonstraram que há mais vida inteligente na rede pública do que na privada... E é isso que, cedo ou tarde, a nossa “elite” vai ter que entender. Ao segregar seus filhos numa escola particular medíocre e tapada,  ela estimula o apartheid educacional e impede o desenvolvimento de uma nova geração mais livre, solidária e consciente.

Pode ser que a crise atual ajude a quebrar o enorme tabu que impede o progresso da educação no Brasil. Ao serem “obrigados” a migrar para a rede pública, os alunos da rede particular poderão perceber que seus novos colegas não são cidadãos “menores”. Essa miscigenação é urgente, em todo o país, mas ela não pode ser mera consequência da crise econômica.

Vai do esforço de toda a sociedade entender que não haverá progresso para um país cujo apartheid inicia nos primeiros anos da vida escolar de suas crianças! Só as novas gerações poderão virar essa mesa, ao perceberem que todo o sistema de ensino está apodrecido e que a saída é construir uma rede pública inclusiva e democrática. Tem mais: enquanto a política educacional estiver nas mãos de quem tem seus filhos matriculados na rede privada, nada vai mudar para melhor!

Em suas ocupações, os alunos da rede pública paulista mostraram que se pode gerir uma escola sem o inchaço da burocracia e a corrupção oficial, que eles conseguiram escancarar e divulgar para todo o país. Esses alunos certamente saberão aceitar e incluir os eventuais novos colegas acostumados com os falsos privilégios da escola particular. Mas será que esses outros vão entender e aceitar essa necessária miscigenação?...