Violência Psicológica em Escola Pública de Itajubá - MG

From: Mãe de Itajuba - MG*
to: Educafórum
Denúncia: violência psicológica em escola pública
Date: Thu, 1 Sep 2005 21:46:34 -0300 (ART)

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Caros amigos,
Os últimos dois dias foram atípicos. Ontem (31/08) ouvi de minha filha de 9 anos sobre os abusos infligidos pela professora em sala de aula. Nunca imaginaria ouvir isso de minha menina. Ainda naquela noite, procurei por outra criança de sua sala de aula e ouvi depoimento semelhante. Insone, coloquei tudo no papel e pesquisei na rede o sites que poderiam me ajudar. Encontrei vocês.
Solicito que leiam o anexo com o conteúdo da denúncia (publicada abaixo), que foi protocolada hoje junto ao Conselho Tutelar, Secretaria Municipal de Educação e Ministério Público. Gostaria de saber se há alguma ONG que poderia ajudar-nos, cobrando das autoridades soluções ou quais as probabilidades de sucesso se entrarmos com um ação de danos morais.
Como nossa cidade é pequena, temo que a professora seja advertida e continue tudo como está. Ou pior, se começarem as represálias às crianças que ousaram denunciar...
Peço a vocês o cuidado ético quanto à identidade das pessoas envolvidas.
Por favor, ajudem.
Atenciosamente,
Mãe de Itajuba - MG*

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*O nome da autora da denúncia foi omitido a fim de preservar os envolvidos:
To: Educaforum educaforum@webamigos.net
Subject: Publicação da denúncia

Olá, conforme conversamos por telefone, você tem minha autorização e até meu pedido de ajuda para que divulgue a denúncia (escola pública de Itajubá-MG), solicito apenas que preserve os nomes dos envolvidos, pois estamos providenciando as medidas legais cabíveis, já que as autoridades responsáveis, mesmo após terem recebido as denúncias, não nos deram nenhum retorno. Pelo contrário, as crianças têm sido chamadas pela coordenação da escola e pela própria professora para "conversas" onde se tentar dissuadí-las da gravidade do mal feito. Até quando a injustiça, a humilhação, a distorção da verdade??

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Carta-denúncia: violência dentro da escola

Há muito a violência contra a criança demonstrada pelos meios de comunicação indigna a todos nós. Enquanto sociedade, estamos aprendendo a denunciar abusos e a cuidar melhor de nossas crianças. Mas o que fazer quando a violência não deixa marcas? Quando não se tem um olho roxo ou um hematoma para mostrar? O que fazer quando o que machuca são palavras ríspidas e comportamentos abrutalhados manifestos entre quatro paredes, longe dos olhos dos pais, enquanto estes acreditam que seus filhos estariam sendo “educados” para o bem? O que fazer quando este comportamento parte de quem deveria dar o exemplo? – perguntamos perplexos.
“A Cultura do Terror

A extorsão
o insulto,
a ameaça,
o cascudo,
a bofetada,
a surra,
o açoite,
o quarto escuro,
a ducha gelada,
o jejum obrigatório,
a comida obrigatória,
a proibição de sair,
a proibição de dizer o que se pensa,
a proibição de se fazer o que se sente,
e a humilhação pública
são alguns dos métodos de penitência e tortura tradicionais na vida da família. Para castigo à desobediência, a tradição familiar perpetua uma cultura de terror que humilha a mulher, ensina os filhos a mentir e contagia tudo com a peste do medo. Os direitos humanos deveriam começar em casa”. – E na escola, completamos nós.
Eduardo Galeano.


Itajubá, 01 de setembro de 2005.


Ilma. Prof. Ana Tereza PaixãoDD Secretária Municipal de Educação
Exmo. Dr. Júlio AltenfelderPromotor Público da Infância e Adolescência
Ilma. Sra. Lenice Maria RibeiroDD Presidente do Conselho Tutelar da Infância e Adolescência
Digníssimos Senhores,

É com espírito de perplexidade e indignação que vimos a estas instituições denunciar o vil tratamento a que nossas crianças vêm sendo submetidas durante o convívio diário sob a tutela da professora de Escola Pública de Itajubá - MG
Na noite de ontem , 31 de agosto, chorando, a menor N. A. S., de 9 anos, mostrou o caderno de religião onde se lia a anotação daquela professora relatando que a aluna estaria distraída e não teria conseguido copiar a lição. Com sintomas físicos de ansiedade, demonstrando nervosismo e chorando convulsivamente, a criança narrou que na ocasião não conseguiu copiar o texto da lousa no tempo devido. Então a professora bateu na mesa, a chamou de “lerda”, bradando que “se fosse meu filho eu sacudia, dava uns murros para poder andar mais rápido” (palavras da criança). Observamos que a criança trazia um calo no dedo médio esquerdo, fruto de horas de cópia e provavelmente da tensão ao escrever. Em outra ocasião, durante o primeiro mês de aula deste ano, ao não compreender atividade relacionada ao calendário que estava sendo explicado na lousa, a mesma aluna pediu ajuda da professora, que a tomou rispidamente pelo braço e a levou à frente para que resolvesse o exercício no quadro. A criança sentiu-se constrangida e humilhada, passando desde então a sentar-se no fundo e a temer participar das aulas.
Na época, ao reclamar com a professora a mãe ouviu-a dizer que a criança estaria assustada com o jeito natural dela (professora de Itajubá), que costuma falar alto mesmo.Hoje, N.A.S. demonstra medo da professora e não tem vontade de freqüentar a escola.
A colega de classe, T.F.S.D, da mesma idade, também afirma temer a professora, apresenta comportamento negativista em relação à escola e diz que tem medo de perguntar quando não entende alguma coisa, pois a professora costuma chamá-los de burros: “Matemática não precisa pensar, é só fazer – a professora diz pra gente”. A criança cita nomes de outros coleguinhas que, quando conversam ou não prestam atenção à explicação, recebem gritos no ouvido, são chamados de “lerdos, burros, antas” ou são levados pelo braço para fora da sala de aula...A mãe de T.F.S.D. também dirigiu-se à professora e à coordenadora pedagógica nos bimestres anteriores, recebendo o mesmo tipo de explicação dado à outra mãe.
Como pais, não temos palavras que expressem nossa consternação. Vivenciamos valores com nossos filhos como cidadania, o valor do respeito pelo próximo e da educação como chave para um mundo melhor e vemos tudo isto sendo pisoteado dia após dia por uma pessoa que nunca deveria estar exercendo o magistério, pois lhe falta competência e estabilidade emocional para tal.
A exposição de nossos filhos a tamanha violência não pode ser mais tolerada, visto que apenas agora denunciamos porque as crianças tinham medo de falar do que vinha acontecendo, sintoma típico de situações de pressão: elas se sentem coagidas, obrigadas a manter um pacto de silêncio por medo de serem punidas.
O encaminhamento desta denúncia à Promotoria Pública, ao Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente e à Secretaria Municipal de Educação, nesta data, é o meio que encontramos de fazer ouvir os direitos de nossos filhos, que vão para a escola a fim de aprender a serem cidadãos responsáveis, a desenvolver seu potencial e contribuir para a sociedade em que vivemos, e não para reproduzirem sintomas desequilibrados de alguém que vem demonstrando dia após dia inépcia e descontrole. Sabemos que, se mais pais e outra crianças forem ouvidos, esta queixa será corroborada. Porém não podemos perder mais tempo, continuando a expor nossas crianças a este cruel tratamento. Solicitamos que apurem os fatos e providenciem o afastamento da professora.
Acreditamos que o aluno vai para a escola para respeitar e aprender a respeitar, que a escola deve estar a serviço da formação de pessoas íntegras e integrais, sujeitos conscientes de seus direitos e deveres. Será que podemos atingir esta meta infringindo direitos básicos do ser humano?
Atenciosamente,

Mãe de Itajuba e outros

Comentários

Giulia disse…
Mãe de Itajubá, o que você relata é tão bem colocado e de uma gravidade tamanha que faria corar até os próprios professores que agem dessa forma, se eles tivessem um pouco de vergonha... Mas eles só se permitem esse comportamento porque têm certeza da impunidade e do corporativismo que os protege. Conseguimos afastar uma professora desse tipo de uma escola municipal em São Paulo Capital, mas ela "ressurgiu" seis anos depois numa escola estadual próxima àquela, desta vez como efetiva, sem ter mudado uma virgula em seu comportamento. Antes de saber seu nome, pelo relato dos novos alunos, percebemos que era a mesma professora. Portanto, tudo o que acontece para um profissional do ensino que comete ABUSO MORAL é ser transferido de uma escola para outra. É a dança das cadeiras do corporativismo ferrenho e criminoso. Mas, como você diz, sua cidade é pequena e outra mãe de Itajubá já nos contatou, preocupada de que sua filha pudesse estar estudando na mesma escola que a sua. Não lhe revelamos o nome da escola, mas recomendamos que abra seus olhos, que preste bem atenção no que acontece na escola da sua filha, que troque idéias com os vizinhos, que procure participar do Conselho de Escola e se una a outros pais. Infelizmente, as crianças não sabem se defender da violência psicológica, por isso os pais precisam estar sempre muito atentos e procurar prevenir situações deste tipo. Fazemos muitos votos que as autoridades que receberam sua denúncia resolvam tomar providências. Se não o fizerem, será mais um ato de omissão, que é CRIME de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente. O mínimo que podemos fazer é expor publicamente sua covardia. Boa sorte e continue mandando notícias!
Helem Sandra Albino disse…
Giulia, agradeço muito o apoio manifesto desde o início da denúncia.
O que aconteceu até agora?
A professora ganhou uma advertência da Secretaria Municipal de Educação. Não se viu motivo para afastá-la da sala de aula; apenas se instauraria um processo administrativo para tal se houvesse uma segunda denúncia...
Vendo a inércia das autoridades, (O MP nem se manifestou, negou-se a nos receber)fomos então a uma rádio local e expusemos o problema no ar, ao vivo, junto à Secretária de Educação. Choveram denúncias (anônimas) desta e de outras escolas públicas. Ainda assim, nada foi feito. Logo após nossa participação, nós, os denunciantes, fomos chamados à uma reunião na escola com as supervisoras pedagógicas da escola e direção. Algumas mães se mostraram aflitíssimas: estávamos "jogando na lama" o nome de uma escola quase centenária!Outra disse que a filha não estudaria mais se a professora fosse afastada como queríamos, que era uma ótima professora que "educava" sua filha! Ao ouvir isto, eu lhe disse que, se sua filha estava acostumada a ser tratada com grosseria em casa, não estranharia se o fosse na escola também. Havia de tudo: um pai que disse que o filho ficou mudo por vários dias após receber gritos nas orelhas vindos da professora (ao solicitarmos nome e telefone para somarmos forças à denúncia, o homem não quis, levantou-se e foi embora). Havia pais em cima do muro: nós não estávamos errados, mas que resolvêssemos a coisa logo, eles precisavam ir embora!
Até que mais uma mãe se levantou e disse que certo dia, ao ir buscar seu filho, VIU a professora gritar com um aluno chamando-o de burro e que seu próprio filho havia reclamado em dias anteriores com a diretora (o que não foi desmentido por esta). Exigimos que esta denúncia constasse em ata, a reunião terminou. Esta mãe corajosa foi ao Conselho Tutelar, ao MP e à mesma secretaria e protocolou nova denúncia.
Recentemente, ao ser questionada por jornalista sobre qual medida tomaria em relação a esta denúncia a secretária saiu-se com esta: "É uma confirmação da primeira denúncia. Não podemos afastar um funcionário de seu cargo sem dar-lhe direito de se defender".
É, Giulia. Aqui as coisas estão complicadas. Estamos buscando alternativas e aceitamos sugestão.
Enquanto isso, somos obrigados a levar nossos filhos à escola, dia após dia, com o coração apertado, sem saber qual será o humor da professora naquele dia. Soube que, recentemente, ela "mudou da água para o vinho", nas palavras da própria secretária de educação. Para mim, isto soou como claro reconhecimento de que antes ela era "água", mas uma água que envenenou a vontade e a alegria de aprender de nossos filhos.
Se pudesse, gostaria que colocasse em contato conosco essa mãe que lhe procurou. Se as pessoas continuarem com tanto medo, não teremos ação efetiva, não mudaremos nada.
Atenciosamente,
Helem (helempsicologa@yahoo.com.br)