Cavalo? É a mãe!

Giulia Pierro

O maior problema do ensino público no Brasil não é a política educacional, não é a falta de proposta pedagógica, nem mesmo a má qualidade do ensino. Pior que tudo isso é a falta de respeito ao aluno. Este é um assunto tabu, envolto em quilômetros e quilômetros de panos quentes, durante toda a extensão do território nacional. Não se fala disso, não se reconhece, nem sequer se admite...
Já começa lá em cima, ao fechar as torneiras e desviar as verbas da educação para outras áreas. Mas é mesmo dentro da escola que ocorrem os casos mais freqüentes de abuso, ora devido ao despreparo de professores e profissionais, outras vezes ao corporativismo que determina a lei do silêncio.
A defesa do professor e do profissional de ensino está sempre na ponta da língua: foi provocação do aluno! O professor estaria apenas revidando e ele próprio seria a grande vítima do sistema educacional... Vamos então inverter nossa escala de valores, revogar o Estatuto da Criança e do Adolescente e dar assistência ao marmanjo desamparado?
Por mais que eu precise reconhecer que os jovens estão se tornando cada vez mais atrevidos, não posso deixar de enxergar o lado positivo da questão. Insisto de que o exemplo vem de cima e que a educação se dá pelo exemplo.
Em quinze anos de luta pelo ensino público, vi cenas estarrecedoras e colhi depoimentos de arrepiar, muitas vezes sem que os agressores – maiores e vacinados – admitissem a gravidade de seus atos, atitudes ou descaso.
Vi, por exemplo, uma coordenadora pedagógica tirar todos os livros e cadernos do braço do aluno e atirá-los ao chão. A diretora da escola considerou o ato compreensível, pois a funcionária tinha "problemas".
Vi uma professora substituta dispensar os alunos no meio de uma aula e gritar: "Não dou mais aula para cavalo!".
Fui chamada por um pai para uma reunião extraordinária de Conselho de Escola onde pretendiam expulsar o filho, por ter falado um palavrão em sala de aula. O aluno fez um relato público e sincero, reconheceu seu erro e pediu desculpas à professora, à diretora, à escola inteira, argumentou porém que havia sido a única vez que falara um palavrão em sala de aula e achava injusto ser expulso por causa disso.
A diretora argumentou que aquela escola era diferente - ah! você leu sobre ela na mídia esta semana, é o famoso NICÃO, um dos xodós do nosso Chalita - foi se gabando de que "seus" alunos entravam na USP sem cursinho, disse que muitos vinham de fora pensando que podiam fazer o que quisessem e que ela não admitia uma única palavra de baixo calão dentro de "sua" escola. De repente, o rosto do aluno incriminado se iluminou: ele lembrara de algo que havia esquecido e fez um relato. No dia em que ele falou o tal palavrão, aliás, imediatamente antes, a professora estava organizando os alunos para uma atividade e soltou esta frase: "Vamos parar com a viadagem aí nesse canto?"... Se eu fosse a tal professora – que estava presente à reunião – teria me enterrado em um buraco negro, mas ela não se abalou: apenas argumentou que foi um simples desabafo, pois é difícil lidar com adolescentes hoje, quando já vêm deseducados de casa (essa ladaínha você já ouviu X vezes, não é?).
Pois é, no caso do professor é um "simples desabafo", no caso do aluno é motivo de expulsão...
Veja também este exemplo. Um dia, sem querer, ouvi os cochichos de um grupo de meninas no pátio da escola em que minha filha estudava: "Depois que aquela professora chamou a classe inteira de merda, o que vamos esperar?..."
Pedi licença para entrar na conversa e elas me contaram que a tal professora estava muito aborrecida com a indisciplina da classe. Ela teria dito mais ou menos assim: "Vocês pensam que podem fazer o que querem aqui, não é? Mamãe faz parte do Conselho de Escola, a diretora passa a mão na cabeça de vocês, mas quero que saibam que, para mim, vocês não passam de um monte de merda!".
As alunas ficaram pasmas e questionaram: "A senhora chamou a gente de quê, p’sora?". A professora confirmou. Perguntei às alunas se haviam comunicado o fato aos pais. Não, não haviam falado, pois só receberiam bronca. E à diretora? Nem pensar, mesmo porque já havia se passado mais de um mês.
Fui conversar com a diretora, preservando a identidade das alunas. Ela fez cara de grande espanto e reagiu assim: "Preciso primeiro apurar os fatos. Se essas alunas estiverem certas, a professora deve estar com forte esgotamento nervoso. Vou encaminhá-la ao médico para receber uma licença". Argumentei que achava mais provável a professora ter tido um "simples desabafo", na certeza de que não sofreria qualquer punição. Insisti para a diretora exigir que a professora se retratasse perante a classe – mesmo depois de um mês – dando aos alunos o exemplo de que errar é humano e que sempre é tempo para se desculpar.
A professora pediu desculpas à classe, mas começou perguntando: "Quais de vocês mesmo têm pais no Conselho de Escola?".
Silêncio mortal...
A professora continuou: "Pois ALGUÉM foi relatar à diretora que eu teria desrespeitado vocês em sala de aula. Eu não me lembro de ter feito isso, aliás, eu é que me sinto desrespeitada aqui dentro, mas, por via das dúvidas, peço desculpas." Desculpas esfarrapadas, pedidas sob pressão, sem sinceridade e ainda tentando pegar o delator de calça curta...
Além da violência mais ostensiva – que vai do bofetão ao xingamento – existe uma forma mais sutil que é tiro-e-queda para colocar no chinelo a auto-estima dos alunos. É o caso do professor que chega atrasado à aula e diz: "Aqui eu chego atrasado mesmo! É muito mais importante pra mim segurar meu emprego na escola particular, porque lá eu tenho bolsa pros meus filhos e garanto a educação deles!".
Ou então o professor que "consola" o aluno desta forma: "Você tem toda razão: teu pai te abandonou, desistiu de você, colocou você na escola pública...".
Tem mais um tipo de professor que costuma "incentivar" os alunos assim: "Aqui vocês não têm futuro, vão ser passados para trás pelos alunos de escola particular e nem pensem em conseguir entrar numa faculdade pública!"
Nenhum professor já admitiu para mim – cara a cara – que já soube de colegas que fizessem coisas desse tipo. A reação vai da indignação – negando a possibilidade de tais fatos – ao silêncio constrangedor.
Na escola particular não é muito diferente, a violência é talvez mais velada e muitas vezes conta com a cumplicidade dos pais. Soube de um menino de Primeira Série que foi retido durante quatro horas na secretaria da escola, por estar calçando sapato de cor diferente do uniforme. A escola tentou entrar em contato com a mãe, sem conseguir e, ao buscar o filho, ele ainda estava na secretaria. Perguntei à mãe o que ela iria fazer e a resposta foi: "Fazer o quê?"...
Entendo que falta, na formação do professor e do profissional do ensino, uma disciplina chamada "Respeito", não apenas para com o aluno, mas muitas vezes também com os pais, mantenedores da escola. Entendo também que é ao professor que cabe dar o exemplo e que a colheita é de acordo com a semeadura.
Participei uma vez de um debate e perguntei para altas autoridades da educação se havia, nos cursos de formação, uma disciplina específica voltada para o trato com o aluno e a comunidade. A resposta foi que não, pois, ao longo do processo de formação, diversas disciplinas – psicologia, pedagogia, ética etc. – supriam essa necessidade. É uma visão deficiente, pois todos os profissionais citados neste texto podem ser considerados, no mínimo, mal-educados, o que é paradoxal dentro de um espaço pedagógico como é a escola. Além disso, quantos são os professores realmente formados neste imenso Brasil?
Se for verdade que o Governo está preocupado em melhorar a educação neste País, precisa garantir que, ao chegar na sala de aula ou na escola, o professor e o profissional do ensino saibam lidar com o aluno com um mínimo de respeito – devido a qualquer ser humano, mas em especial à criança e ao adolescente, seres em formação que reagem de acordo com os estímulos que recebem.
Isto vale também para o policial que, segundo a péssima moda atual, faz ponto dentro das escolas e gosta de exibir seu três-oitão, falando para o aluno: "Te liga, meu, que falta só dois palito preu te fodê!".
Enquanto o budismo não for a filosofia universal neste planeta, não deve admirar que, ao ser chamado de cavalo, um adolescente retruque desta forma: "Cavalo? É a mãe!".

Comentários

Glória disse…
Giulia, nem imagina como fico indignada com esse "filme de terror"... Pobres crianças do nosso país!
Vocês já viram a comunidade no Orkut das PROFESSORAS ASSASSINAS? Coloquei um comentário no meu blog... é uma das coisas mais repugnantes que já vi...
Giulia disse…
Sim, todos precisam conhecer as "professoras assassinas". Nós também as colocamos na nossa seção de textos. Elas são boazinhas, vai! No fundo, tudo o que elas querem é "brincar". Aquela professora que chamou a classe inteira de "merda" na escola da minha filha também não fez por mal, veja a pérola que ela soltou para a diretora: que para lidar com adolescentes precisa usar o mesmo vocabulário que eles...
Glória disse…
Como um caso que a Cremilda denunciou e tanto pressionou que abriram inquérito administrativo. O professor chamava o aluno de "bicha" e o inquérito concluiu, abonando a defesa do professor, que era um tratamento "carinhoso" ao se dirigir ao aluno.
Giulia disse…
Mas o que acontece se um aluno chamar o professor "carinhosamente" de bicha?...
Cassia A. Dalcim Marques disse…
Meu filho parou na Promotoria Pública, pois uma "professora" disse que ele a chamou de "loca", profesora a qual nem leciona para meu filho, mas vive chamando ele de "vagabundo" e "moleque".
Pasmem, ele foi "perdoado" pela justiça, mas não poderia mais fazer isso, se não.......

Onde vamos parar?
Cassia A. Dalcim Marques disse…
Não errei não essa só pode ser professora com um "S" só.
de sem condições......
Cassia A. Dalcim Marques disse…
Eu cheguei a uma conclusão.
Tantos professores parados, sem empregos, passando fome até,professores que dariam tudo para lecionar, compromissados, sei que ainda devem existir, mas ficam ai "PROFESORES" (sim um "S" só) amargurados cansados de ganhar dinheiro a nossas custas,professores que deveriam estar se tratando,não lecionando.
E os coitados que dariam tudo por isso sem emprego, em nossa região tem muitos professores bons, mas não estão no mercado de trabalho, pois outros "seres" estão ocupando seus lugares.
Giulia disse…
Pois é, Cássia, infelizmente a estabilidade permite a esses "profesores" esquentarem as cadeiras durante anos e anos, até se aposentar. Muitos também "se tratam", sabia? São aqueles que recebem licenças e mais licenças por não suportarem lidar com seus alunos. O que precisa mudar é a reação dos pais. Você é aquela "andorinha" dentro de um bando que não acompanha seu vôo. Infelizmente esses outros pais não enxergam ou têm medo de denunciar e assim a impunidade continua...Até quando as pessoas vão continuar não enxergando os estragos que esses "profesores" causam em seus filhos?