Hienas no escuro


Com muito espanto, misto de surpresa e preocupação, li os depoimentos de alunos das redes estadual e municipal de São Paulo, publicados no Estadão de 09/07. Os depoimentos, chamados de "histórias", completam a reportagem As crianças já estão na escola; agora só falta elas aprenderem, de Lourival Sant´Anna.

O espanto não diz respeito às histórias - dessas eu conheço milhares - mas à ousadia da reportagem, que conseguiu burlar as sentinelas das escolas e obter depoimentos autênticos de crianças e adolescentes. Um feito! Agora o rei, ou melhor, a Anta, está nua! Quem tem filho em escola pública sabe a dificuldade de se chamar a imprensa na porta da escola e conseguir que a reportagem seja publicada. Em primeiro lugar, tem de haver silêncio absoluto sobre data e horário, senão as sentinelas mexem seus pauzinhos para abortar a própria vinda dos repórteres à escola. Mesmo que eles consigam chegar, qualquer movimento suspeito na porta ou na calçada é imediatamente detectado pelas sentinelas, que saem para recolher os alunos e já vão declarando aos jornalistas que qualquer reportagem é "proibida" (sic) , por ordem da Secretaria. Lembro uma vez, quando chamamos a uma escola a saudosa Rosa Baptistella, apelidada carinhosamente pelas mães de "Dona Rosa do Estadão" e a direção chamou a Rota, que veio correndo "ajudar"...
Como foi que esses repórteres conseguiram fazer tantas perguntas e receber tantas respostas reveladoras sem as sentinelas soltarem seus cães de guardia? Este foi portanto um ponto positivo: mostrar a nudez da Anta. A verdade pode doer, mas sem ela o mundo só anda para trás.

Mas a minha preocupação é muito maior do que a grata surpresa. Os competentes repórteres dessa matéria, como todo jornalista, não têm filho na rede pública. Se tivessem, saberiam que as escolas onde foram entrevistados esses alunos vão ferver durante um bom tempo. Em cada uma delas vai ser instituído um implacável Tribunal de Inquisição, que vai ser mantido até que sejam descobertos os nomes de todas as crianças entrevistadas. Elas, que não têm culpa de nada, serão perseguidas até o final de sua vida escolar, se é que conseguirão continuar seus estudos. Nestas horas, as Antas e suas sentinelas tornam-se Hienas, atacam da forma mais sórdida e covarde. Porque o tipo de histórias contadas por essas crianças são uma possível ameaça de processo administrativo, a única coisa temida por Antas, Hienas, suas sentinelas e cães de guárdia.

Não quero agora comentar as interessantíssimas histórias dos alunos, copiadas em nossa Seção de Textos. O mais urgente, no momento, é proteger essas crianças, que estão realmente correndo perigo. O estrago já está feito, mas teve o lado positivo de mostrar a nudez da Anta. Para amenizar as conseqüências negativas, só existe uma forma: que o jornal assuma o acompanhamento do assunto e continue jogando holofotes sobre aquelas escolas e aquelas crianças. Estou apelando para O Estado de São Paulo no sentido de perceber a gravidade do assunto e pouco me importam as gargalhadas de todas as hienas com esta minha atitude. Só quem tem ou teve filho estudando na rede pública consegue imaginar o tamanho do estrago de uma perseguição ao aluno que deu entrevista à imprensa, principalmente o "anônimo".

O grande perigo agora, é deixar as Antas e as Hienas no escuro.

Comentários

Glória disse…
Giulia, fui ler o texto que vocês transcreveram do Estadão... E mais impressionada fiquei com o texto da Cássia, mãe de aluno. Que horror!!! Dá um desespero ao constatar essa realidade de descaso com a criança, de total desrespeito à lei, de um verdadeiro fascismo na educação. E a gente que acompanha tudo isso, percebe que é igual em todo lugar neste país. Ontem publiquei lá no meu blog umas exceções, em Curitiba e Cuiabá (pesquisei no google)nas quais os secretários de educação, pelo menos, abrem processos administrativos. Temos muita luta pela frente. Muita!!!
Giulia disse…
Pois é, se houvesse algum interesse público, não seríamos nós é mais o Mauro (quem mais?...)a procurarmos informações no google... O descaso é total. Quanto à Cássia, não deu mais notícias. O objetivo do sistema é expulsar o que eles chamam de "aluno-problema" e, quando não conseguem, vencer pelo cansaço. É o que deve ter acontecido no caso da Cássia.