
Gente, eu estou tão entristecida que nem sei... Os últimos acontecimentos pipocando nas escolas públicas do Brasil mostram como ainda estamos longe de chegar a um mínimo de decência na educação. Decência, gente! Não estou falando de qualidade, seriedade, compromisso, apenas decência. Nas escolas de periferia dos grandes centros, as crianças são expulsas a rodo, por qualquer motivo. Em pequenos centros urbanos, idem, como a Glória de Leopoldina costuma relatar. Imaginem a quantidade de pequenos municípios onde não existe uma "Glória" para lutar pela inclusão escolar!
Aqui em São Paulo, finalmente, o "rei" está nu. Ou seja, a precariedade do ensino estadual e municipal veio finalmente à tona. Mas quem se importa?... Além disso, só se comentam os resultados do Saresp, Saeb e Prova Brasil, e isso é o de menos. O mais grave é a indiferença geral de uma cidade onde tudo é correria pela ganância, sem perceber que o descaso e a falta de política educacional estão "matando" as novas gerações, não apenas materialmente.
O relato dos pais das gêmeas da EE Victor Oliva, publicado este mês em nosso blog, mostra bem o desprezo pelo aluno, tratado como um estorvo dentro da escola. E, mais uma vez, este caso só veio a público porque os pais tiveram condições financeiras de pagar uma escola particular para as meninas! Se não pudessem, estariam até agora fazendo das tripas coração e engolindo todos os "sapos", como fazem a maioria dos pais para proteger seus filhos de perseguições e represálias. A classe docente e os funcionários que trabalham nas escolas não têm espírito público e nem ao menos assumem suas responsabilidades, como respondeu aquela "famosa" professora quando a Vera a questionou: afinal, a responsabilidade é do "Estado"...
São Paulo é o campeão da evasão escolar. Alunos são expulsos por qualquer bagatela, o que é "duplamente" ilegal. Na EE Octacílio de Carvalho Lopes, um aluno foi agredido e chamado de "bicha" por um professor. A Diretoria de Ensino soltou um documento alegando que se trata de expressão "carinhosa", mas puniu o professor ao transferi-lo para outra escola, onde foi promovido a coordenador pedagógico (!). Na EE Soldado Éder Benedito dos Santos os alunos fazem rodízio para compartilhar as salas de aula. Quanto tempo eles vão agüentar? Em Taboão da Serra, aqui na Grande São Paulo, a escola municipal Rui Barbosa obriga os pais a assinarem um "termo de compromisso" que permite expulsar os alunos da escola. Em Mongaguá, no litoral paulista, a EE Prof. Aracy da Silva Freitas é aquela escola de "faroeste" cujos fatos já relatamos ao vivo e a cores. Para a Secretaria da Educação, todos esses casos são "isolados"... São, sim! Casos isolados, porque apenas alguns pais têm coragem de vir a público denunciar os abusos e desmandos de "autoridades" escolares que só praticam o autoritarismo.
Mas o motivo que me atirou na mais profunda tristeza foi o quebra-quebra promovido por alunos da EE Maurício Nazar, aqui em Guarulhos, na Grande São Paulo. Uma escola com mais de dois mil alunos, vivendo aquela realidade que a gente bem conhece, aqui na periferia da Capital. Os motivos da revolta ninguém vai ficar sabendo ao certo, eles já está sendo abafados por quilômetros de panos quentes. Aliás, a direção da escola e as demais autoridades de "alto escalão" delegaram para a POLÍCIA a identificação dos alunos culpados - todos menores de idade. Ao mesmo tempo, a Secretaria da Educação vai instaurar uma sindicância do tipo que já conhecemos: um "tribunal da inquisição" onde os alunos vão ser massacrados sem qualquer direito de defesa. Todos os fatos foram resumidos da seguinte forma: atos de vandalismo provocados por alunos-problema que serão, inexoravelmente, expulsos. Mais uma escola vai conseguir se livrar, afinal, das "laranjas podres que contaminam as outras". Esta é imagem mais utilizada nas escolas públicas brasileiras para falar de seu aluno inquieto, questionador, inteligente, aquele que não aceita passivamente tudo o que tentam lhe impingir.
Nenhum meio de comunicação, nenhuma autoridade, nenhuma outra instância vai se dar ao trabalho de investigar mais profundamente a realidade dos alunos dessa escola, a forma como são tratados ou negligenciados por todos que, ali, representam o Estado, ou seja, todos nós.
Hoje eu quero colo! Amanhã certamente será outro dia, mas, hoje não me agüento de tristeza...
Comentários
Eu vi que você respondeu meu comentário no blog da Rosely Saião. É engraçado como as elites enxergam as classes menos favorecidas, não é? Mas não admitem que seus filhos às vezes passam dos limites da falta de cidadania, ética, respeito, tornando-se vítimas deles mesmos...
Neste seu post você falou do eterno confronto que existe na instituição educacional. Você assume a posição de ficar meio que do lado dos alunos. Nem sempre eu fico do lado deles lá no meu blog, ok? Sabe por quê? Porque respeito a todos, porque me preocupo em ensinar bem, em ser mais amigo do que o distante professor, porque não perco meu sorriso apesar do desrespeito. Não sei se percebem isso, ou se a visão de mundo que eles levam para a escola é a de que a escola não deve exercer seu papel democrático. Bem, dê uma olhada lá.
No fim de semana procuro postar alguma coisa mais leve do que as tensões da semana.
Bjs
Rodrigo
www.professordeportugues.blogspot.com