Salário não é desculpa!!!



No dia 30 de julho, minha xipó Vera Vaz postou aqui um desabafo (com muitos e justificados pontos de exclamação!!!) a respeito do salário do professor, aquele "samba de uma nota só" que acompanha os maiores absurdos dentro das escolas. Hoje levei o maior susto: no blog da Cremilda, o Mauro comentou uma crônica do Chico Guil publicada dia 11/09 na Agência Carta Maior que achei, no mínimo, esquizofrênica. Por um lado, ele se compadece dos pobres alunos torturados por certos professores, por outro lado justifica esse comportamento, caso o professor ganhe menos de R$ 3 mil por mês. Riam, riam, dêem gargalhadas!!! Depois de me refazer do susto, eu também acabei rachando o bico, pois me dei conta que o resumo da ópera era esse mesmo: se ganhar menos de 3 mil pode torturar!!! Quáquáquáquáquá! O Mauro listou o Chico Guil entre os candidatos ao Prêmio IgNóbil de Educação 2006. Apoiado! Agora, falando sério, vou copiar aqui novamente o texto da minha xipó, pois eu sou uma palhaça, mas ela é porreta. Aliás, xipó, esqueceu que tem que completar o texto? ...

Gostaria de dar respostas definitivas do pensamento do Educafórum quanto a essa questão:

O salário não pode ser usado como desculpa para o mau desempenho de nenhuma profissão, muito menos na área de ensino!!!!!!!!! Caso isso fosse aceitável, deveríamos ter prédios caindo por aí aos milhões (olha quanto ganha um pedreiro!), nos restaurantes comidas com açúcar no lugar de sal, frias, com pedaços de osso ou até pior, com baratas ou com cuspe (da cozinha até o garçon...confiram os salários!), as babás deveriam largar os bebês sozinhos na pracinha, o padeiro... credo... nem imagino como poderia ser a massa do pão que ele acorda todo dia às 5 da manhã pra fazer... (sem três meses de férias! sem sábado e sem domingo!)... Bom, e os enfermeiros então?... com a vida sacrificada que levam... Motoristas de ônibus... de táxi... que stress! Quantas linhas, quanto transito, quanta gente pra levar pra lá e pra cá... quanto medo e insegurança... Quanto ganham?... Ah! deveriam só passar no vermelho, com esse salário aí!... E o lixo?... Os lixeiros deveriam jogar tudo pela rua!... As vendedoras das lojas deveriam se recusar a dobrar as roupas... Os porteiros de prédios deveriam convidar os ladrões pra entrar... E os pequenos agricultores? ... FOME já para todos! E assim o caos estaria instalado em tudo, como está na Educação! E quando reclamássemos diriam os garis: "Fale com o Prefeito! Ele que tem que resolver sobre o lixo! Já viram que o povo não tem educação e suja tudo? E eu que tenho que limpar? Eu não! Mande o povo se educar pra depois me chamar!"... ... E assim todos teriam o seu "culpado" pra apontar, sem perceber que a simples ação deles é que mudaria tudo... Postura e ação de cada um em sua sala de aula muda a Educação em geral!...

Não adianta vir aqui culpar o sistema. É com o professor mesmo que queremos falar e a ele vai a responsabilidade direta de EDUCAR seus alunos. "Reclamem com o Ministro dos Transportes, com a Saúde Pública, com o Ministro da Economia, com o Presidente"... Isso é falar pro vazio, pro nada... Aqui falamos pra quem está em contato direto com as crianças: os diretores e professores das escolas! Portanto, caros professores, que escolheram essa profissão e já sabiam do salário e das condições de trabalho, deixem de usar isso como desculpa para dar aula mal dada ou não dar aula, para não Educar as crianças que têm sob a sua responsabilidade TODOS OS DIAS! Ontem eu soube que uma menina que ficou cega deixou de ter assistência especial por mais de um ano numa escola, porque ninguém avisou a Secretaria da Educação do caso dela! - E bastava um telefonema! Assim que uma professora de verdade se sensibilizou e avisou, as providências foram tomadas! Em outra escola fui informada que a média de faltosos no dia é de 8 ou 9 professores!!!!!!!!!!! Isso é espantoso!!!!!!!!!! - a escola tem 20 professores...) Que escola é essa? Que educadores são esses? Que salário precisariam ganhar pra ter ao menos CORAÇÃO - já que não têm consciência? O que paga a conscientização deles? E como eles conseguem apagar a própria consciência depois de tanta irresponsabilidade? "Escola não é assistência social"... (eu escuto professores dizendo isso...), mas onde, senão na escola, o poder público tem acesso aos problemas da família tão claramente? Como se pretende formar um cidadão sem ampará-lo? "Carcando" conteúdo vestibularesco em cima dele? E se as famílias estão em crise, como a escola pode se furtar a fazer essa ponte? Isso não é uma questão de salário não... para mim é ignorância pura, é não saber ou desprezar o tamanho da influência que uma palavra de Mestre pode ter na vida de muitas "pessoinhas" em formação. Por isso, aqui no Educafórum, professor que tratar mal qualquer ser humano que tenha sob sua responsabilidade (e tratar mal não é ser severo, por favor não confundam isso!) será chamado a responder sim por suas falhas (com educação e diálogo civilizado, mas sem desculpas esfarrapadas pra encobrir seus erros), ganhe quanto ganhar, seja quem for o governador, o prefeito, o secretino ops! o secretário da Educação...

Ainda vai outro post pra não ficar tão longo... (dizem que alguns professores não gostam de ler e não quero correr o risco que eles abandonem o texto pela metade....). Os bons professores que não se ofendam porque não é com eles esse papo, os maus por favor tomem consciência antes de reclamar desta mensagem! (e segura que vem mais por aí...) Há mais de dez anos que repito tudo isso... me animo, desanimo e vejo que nada muda... Até quando?...

Vera Vaz

Comentários

Glória disse…
Pena que o Prêmio IgNóbil de Educação 2006 não sai na Globo...
Giulia disse…
Isto seria uma revolução!
Rodrigo Coelho disse…
E aí, Giulia. Lembra de mim? Tive de tirar meu blog do ar porque uma diretora não curtiu muito a idéia de ver a escola retratada no meu humilde blog. Ela não chegou pra mim e disse, mas eu percebi o tratamento diferente. Como não sou concursado, achei melhor esperar um pouco. Mas continuo na luta por uma edcuação pública melhor - e, hehe, continuo achando que o aluno às vezes é mais cruelmente torturador do que o professor que ganha menos de 3000 (brincadeirinha) :)

bjs
Rodrigo
Giulia disse…
Olá, Rodrigo, estava mesmo tentando entender o que havia acontecido contigo. Mas que tipo de carapuça essa diretora está usando, se você nem ao menos colocava o nome da escola em seu blog?... Olha, estamos à sua disposição sempre. Professor interessado pelo aluno,mesmo que tenha uma postura crítica, sempre vai acrescentar algo à educação. Ninguém aqui procura generalizar e, da mesma forma que repudiamos a idéia do professor "santo", também não somos tão ingênuos de pregar que o aluno é "santo". Seja bem-vindo, fique à vontade para contribuir com seus comentários e não se preocupe com o calor da discussão: discutir não tira pedaço e é muito bom para melhorar a reflexão. Ninguém é dono da verdade, não é? Grande abraço!
Rodrigo Coelho disse…
Giulia, na verdade eu entendo toda a dinâmica do problema, que é o discurso NEOLIBERAL: compre um celular com câmera mais novo, compre um computador com mais memória, compre um I-Pod de 60 gb, compre uma tv de tela plana, compre um plano de saúde, vá para uma escola privada, pois, caso contrário VOCÊ É UM LIXO, UM RATO, VOCÊ NÃO É NADA. Eu entendendo tudo isso para não culpar só o aluno. Ele leva esse discurso para a escola e, chegando lá, o que ele encontra? Uma lousa, umas carteiras, uma quadra e uns professores que, pela lógica daquele discurso, também não valem nada dentro desta sociedade maluca de consumo. Mas eu só queria, é um sonho, que eles compreendessem que nós e a escola não temos culpa, que estamos todos no mesmo barco. Isso talvez é que o faz gerar um embate entre ele e eu.
Giulia disse…
Acho que o problema não é o neuliberalismo: nos EUA todo mundo estuda em escola pública. Na Europa idem. Acho que é um problema brasileiro mesmo, aliás, o maior preconceito no Brasil não é contra o negro, nem o homossexual nem nada: é contra o pobre. As famílias fazem das tripas coração para pagar uma escola particular, para diferenciar seus filhos dos filhos dos "pobres". Professor também dá aula em escola pública E particular. Na particular, prefere não ganhar salário, mas bolsa para seus filhos. Rodrigo, eu não entendo esse papo de culpa! O negócio é arregaçar as mangas e tomar atitudes. Sociedade de consumo é para quem gosta de consumo! Quem não gosta, que defenda suas idéias. Ou será que, no fundo, o que dói mesmo é "não ter"?...
Rodrigo disse…
Sim, Giulia, o que dói é não ter. Os alunos carregam isso, foi o que eu te disse. Agora, eu pouco me importo com consumo, diga-se. Sou um sujeito utilitarista (compro o que preciso mas com a consciência tranquila, pois não sou um comunista doente, mas também não sou fetichista, só não caio nas armadilhas da propaganda). Sei levar uma vida na qual o mais importante é o contato humano e o enriquecimento do espírito e do intelecto. Aqui mora meu embate com o aluno, que não aceita e até despreza a experiência do contato humano (como eu disse, o mais importante é algo frio e morto, como a mercadoria).

Você falou em países de primeiro mundo. Ora, se o preconceito no Brasil é contra o pobre, quem é nesta sociedade a maior vítima desse discurso neoliberal do consumismo desefreado? Quem é que NÃO PODE comprar as novidades do mercado e que por isso é discriminado? São os pobres. E eles levam pra escola a angústia do NÃO SER (só É quem consome, como eu falei).

Você pode até me achar tonto, socialista, idealista ou, carinhosamente, de ingênuo mesmo. Mas vou te contar uma história que eu ia colocar no meu blog: uma vez, numa das escolas (uma que fica na periferia) um aluno estava fazendo uma bagunça insuportável de verdade, quebrando tudo, derrubando carteiras, jogando-as, chutando-as... Fiquei furioso com ele, muito mesmo. Até que minha decisão foi a de que eu precisava revidar em favor da escola. Sabendo que o garoto é pobre e que naquela idade todos gostam de videogame, e que este garoto não tem como comprá-lo, pois mesmo o produto pirata é caro, eu cheguei pra ele e disse: "Cara, por que você não fica em casa jogando seu Playstation 2?". Ele ficou louco comigo. "Ora, porque eu não tenho! Compre um pra mim que eu fico, porra", ele respondeu. Então eu disse: "Ah! Descobri qual é a sua revolta! Você tem uma grande angústia porque não tem esse vídeo-game. Então você descarrrega isso aqui, na escola! Mas, porque então não quebra a SUA CASA, ao invés de quebrar a escola, que é de todos nós? A culpa de você não ter essa porcaria de videogame é MINHA, é da diretora, é dos seus colegas que querem ter aula?"

Peguei pesado, Giulia. Mas, o fato é que ele parou de destruir no momento e ficou pensativo. Eu ainda falei bem mais coisas pra ele, quando ele ficou naquele estado, mudo. Fiquei com pena, claro, mas eu não podia recuar. Sem partir para baixaria, claro. Toquei na ferida dele e isso foi pior do que a velha humilhação do professor autoritário e arrogante (apesar de ter sido arrogante da minha parte).

Mas, sabe por que eu toquei fundo na ferida? Porque a tese que eu te expus aí acima é verdadeira. O neoliberalismo e possui tentáculos para atacar até a alma do sujeito... "Se você não comprar você é lixo, se você não comprar você é lixo" é o mantra que essa coisa, que parece uma religião, faz as pessoas repetirem. E aquele coitado daquele aluno não é diferente.


bjs
Rodrigo
Giulia disse…
Oi Rodrigo, desculpe! Comentei seu texto lá pra cima. Hoje tô um pouco enrolada...