A Cultura da Aula vaga e a Impunidade que a mantém


Reproduzo aqui um diálogo que ocorreu em uma lista de educadores da qual faço parte. Acho muito significativo o que foi comentado ali e dá pra ter uma visão do que rola nas escolas e o que os professores pensam de suas próprias faltas e de seus colegas...
Todos os citados permitiram expor aqui suas opiniões e seus nomes ( o que considero um avanço pois só na hora em que os bons professores começarem a denunciar o que ocorre em suas escolas de errado vamos ter as provas que necessitamos para separar o joio do trigo)
Parte 1
Uma professora reclama do governador porque este obriga o professor a trazer atestado e repor as aulas se faltar mais que três dias por doença "... Aqui neste estado, professor num tem nem o direito de ficar doente, pois se ficar e precisar de atestado de até três dias, terá que repor as aulas nos sabados ou em recesso"...
Minha resposta a ela foi uma pergunta jamais respondida:
"Acho que não entendi direito, professora... A senhora está reclamando o direito de faltar sem dar explicações quando o maior problema das escolas públicas é exatamente a AULA VAGA?A senhora poderia me informar quantos professores faltam por dia na escola em que a senhora leciona? (pode ser que a sua seja uma exceção...)" Vera Vaz
Resposta:
"Em nenhum momento, em meus escritos, reclamei pelo direito de faltar as aulas sem dar explicações. Alias não creio que se tenha direito a faltar as aulas. O que escrevi foi o seguinte: professor num tem nem o direito de ficar doente, pois se ficar e precisar de atestado de até três dias, terá que repor as aulas nos sabados ou em recessos. Tem uma instrução que orienta os diretores a enviar falta, se o professor não repor essas aulas. Ninguém fica doente por opção. Em nenhum momento afirmei que o professor tem direito de faltar sem dar explicações aos seus superiores, mas sim ao fato de precisar se afastar por problemas de saúde e mesmo com atestado ter que repor as aulas. Pode até ser que alguém concorde com isso, mas acredito ser uma tirania, que só poderia vir de um governo arbitrário. Existe alguma categoria profissional que repoe as faltas por doença em recesso ou dia de horário de folga?"
Uma professora corajosa responde:
"Trabalho em uma Escola Pública do Paraná, e nunca vi nenhum Professor repondo aulas aos sábados e recessos, por ter pego um atestado por motivos de doença. Penso que isto depende do critério de cada direção. Já que sabemos que existem, Atestados e "atestados".Mas ai, é outro papo.Até onde eu sei , é solicitado que o professor reponha o conteúdo dos dias perdidos, para não prejudicar o aluno. Mas nunca vi também nenhum diretor checando isto. O Professor no Estado do Paraná pode sim ficar doente.Os livro ponto é testemunha disto. Dobram de espessura todos os meses, pelo acumulo de atestados que são anexados a ele.A coisa funciona mais ou menos assim: Professor pode ficar com um atestado de três dias, sem ter que passar na perícia médica. No quarto dia deverá passar na perícia, e se for o caso do Professor precisar ficar mais dias fora de sala de aula, compete a este Professor solicitar um substituto ao NRE.Geralmente o Núcleo espera até que de 15 dias de afastamento. Não por má vontade, mas pq não consegue com facilidade substitutos para dois ou três dias.Os profissionais da área não gostam de fazer contratos por tão curto período de tempo.A regra vale também, para acompanhar alguém da família que esteja adoentado(filho, mãe, marido)"...
O professor Wilson Azevedo comenta:
> Existe alguma categoria profissional que repoe as faltas por doença em recesso ou dia de horário de folga?
"Poucas categorias profissionais tem coisas como recesso e horario de folga.
Na maioria das profissoes, quando o profissional fica doente, na volta ele tem trabalho acumulado para fazer, alem do trabalho normal. Em muitos casos precisa trabalhar algumas horas a mais para dar conta deste trabalho acumulado. Inclusive professores da rede particular.
A verdade é que existe uma categoria de profissionais que historicamente usufrui de alguns privilegios e quando alguem mexe em alguns destes privilegios a reação é imediata.
A maioria dos trabalhadores trabalha mesmo quando uma gripe mais forte o abate, porque sabe que se comecar a faltar demais pode perder o emprego. Esta hipotese, a de perder o emprego, nem passa pela cabeca de um professor da rede publica. É um privilegio tao dificil de justificar quanto de aceitar perder. Wilson"
A professora responde:
"Wilson,Existem profissionais e profissionais. Não defendo a falta ao trabalho, na minha vida profissional, destes 30 e poucos anos, não tenho faltas, a nào ser de licença maternidade e duas de 7 dias por problemas nas cordas vocais, mas há uns 10 anos.Na rede pública na falta do profissional também tem trabalho acumulado, num é só na particular.Se o estado ou municipio quiser pode demitir sim o profissional que não cumpre seus deveres. É só ter vontade política."
E o professor Wilson:
"Nunca vi isto acontecer uma unica vez sequer. Alguem aqui já viu? Sei que isto até acontece, já ouvir gente falar que acontece. Mas é um fenomeno extremamente raro. Eu nunca vi. Wilson"
Ninguém da lista respondeu que já viu ...
Uma professora do Paraná respondeu:
"Olá Wilson, São raros os que abusam dos atestados. Mas rara é também a escola que não tem um assim.Não sei o que passa na cabeça desses médicos que dão atestados dessa forma.Sempre o mesmo médico, e sempre para a mesma pessoa.Se fosse para seus funcionários, garanto que não dariam.Quando tem atestado, mesmo sabendo que a pessoa não estava doente, a escola é obrigada a acatar"

Vou parar por aqui e continuo num novo post pra naum ficar muito longo. Tenho depoimentos incriveis que partiram dessas afirmações (como por exemplo o da professora Fernanda Reis que declarou entre outras coisas: "...Há uns 15 dias havia somente 1 professor na escola, para 16 salas. Na 2a aula chegou mais 1 professor. E ficaram os dois até o fim do período..."). colocarei aos poucos todos aqui.
Vera Vaz
Imagem - Matisse

Comentários

Giulia disse…
Repor as aulas aos sábados ou em recessos?... Que piada é essa? No Colégio Pedro II, depois daquela greve absurda, os professores foram tirar férias!! A reposição de aulas foi aquela palhaçada que todos nós pais de alunos conhecemos muito bem. Que bom que os professores desse grupo de discussão saíram da moita para falar A VERDADE. E ainda por cima assinaram embaixo! Tremenda façanha, Xipó! E parabéns aos professores que tiveram a coragem de se colocar. Tomara que outros sejam contagiados!!
Ricardo Rayol disse…
Pergunta estupida... pelo que lembro o sujeito pode tirar, no maximo, 15 dias ao ano de licença por atestado. Não entendi.
Ricardo Rayol disse…
PS: A pergunta estupida é a minha
+ Kazzx + disse…
Cara Giulia,

Obrigado pelo seu comentário, você sempre vem agregando informações aos meus posts só tenho que agradecer a você, a questão é estranha e tem várias pontas soltas: Lap top é important? sim... para quem?, fora as questões de gerenciamento do processo em si que todos nós já conhecemos e você que se dedica a acompanhar o ensino público conhece muito mais do que nós que só olhamos da janela, tinha até medo do texto ter se radicalizado, ficado até um pouco segregador comos e os alunos fossem os culpados pelo mau gerenciamento dos recursos publicos, espero sincetamente que um dia esta conta feche e alunos e professores sejam sempre previlegiados na hora da aplicação dos recursos, porque hoje em dia estão sempre no pé da lista com o pires na mão.

Bjs e boa semana...
Giulia disse…
Ah! A distribuição dos laptops... Já imaginou a carinha feliz de uma criança que não tem sequer um livro ilustrado, ao receber um laptop? E nem acho que precise de professor em sala de aula para ela aprender a usar. Mas o Brasil precisa parar com a política da "distribuição". Já está na hora de dignificar e promover o cidadão de baixa renda. Chega de tratá-lo como se fosse ainda um índio babando por espelhinhos. E, principalmente, chega de negociatas escusas e sórdidas!
Giulia disse…
Ricardo, a pergunta não é estúpida e a situação é perversa. Imagine uma empresa onde não há depto. pessoal para conferir se o funcionário está ou não presente. A escola pública é um vale-tudo: professor assinar o livro de ponto por outro, caso não haja uma "boa alma" para fazê-lo o próprio dietor pode permitir a assinatura em troca de algum "favor", como por exemplo falsificar a ata das reuniões do conselho... Não me diga que vai estranhar, pois é você mesmo que vive "elogiando" o serviço público! rs

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