Pedagocídio


Pesquisas apontam que a adolescência está chegando cada vez mais cedo e terminando cada vez mais tarde. Supõe-se então que a idade adulta está se tornando “mais curta”. Mas, talvez, falta refletirmos um pouco mais sobre o que se entende por infância, adolescência e idade adulta. O assunto é maturidade, right?

Se a nossa sociedade adulta tivesse um nível de maturidade satisfatório, esse tipo de questão nem seria colocada. Fala-se tanto em “idade adulta” porque as fases anteriores costumam transcorrer de forma conturbada. Gostaria de abordar um problema cada vez mais freqüente nas escolas públicas brasileiras. Ao invés de os jovens serem melhor orientados – em vista do suposto aumento do tempo da adolescência – eles são cada vez mais expulsos da escola, por entrarem em confronto com supostos adultos. No país que criou o Estatuto da Criança e do Adolescente, cada vez mais jovens são submetidos a tribunais de exceção, constituídos por Conselhos de Escola eleitos e/ou mantidos de forma ilegal. Não adianta questionar que a própria Constituição, além do ECA (Lei Federal 8069/90), garantem ao aluno acesso e permanência na escola. Afinal, o ECA foi criado justamente porque a criança e o adolescente são considerados cidadãos “menores” e o preconceito ainda persiste, apesar de toda a legislação que ressalta o princípio de igualdade.

Ocorrem nas escolas públicas brasileiras fatos tenebrosos que dificilmente vêm à tona, como o seguinte relato:

Por favor, preciso urgentemente saber como faço para denunciar a professora da minha filha e a coordenadora que a fizeram chorar após ter amassado sua redação dizendo-lhe que estava errada, enviando-a à coordenação para que refizesse e disseram-lhe que se tivesse algum errinho ela jogaria novamente no lixo e ela começaria tudo novamente e repetiam enquanto ela chorava: Não chora, fica quieta! Ela acabou de fazer 7 anos!!!

Algumas crianças de sete anos conseguem se expressar claramente e têm pais presentes para denunciar esse tipo de situação, muito mais freqüente do que se possa imaginar. A maioria delas, porém, não conseguem verbalizar as agressões de que são vítimas dentro das paredes da escola e vão acumulando marcas de humilhação e rejeição. Outras, além da dificuldade de expressão, têm pais ausentes ou pouco esclarecidos, que se aliam aos professores contra a própria criança, condicionados por uma “disciplina” da qual eles também foram vítimas em sua fase escolar. É o mundo dando voltas sem chegar a lugar algum...

Quem mais sofre os abusos cometidos pelos supostos adultos que deveriam zelar por sua educação é o adolescente, pois muitas vezes a família fica acanhada ao defender um “marmanjo” junto à direção ou aos profissionais da escola, que já costumam se referir aos alunos com apelidos desse tipo, principalmente quando são repetentes.

Nos últimos tempos a situação está se tornando insustentável, pois os fatos que têm sido denunciados, ao invés de surpreender, estão encontrando uma sociedade cada vez mais insensível. A expulsão de alunos pelo Conselho está se tornando um hábito comum em muitas escolas públicas, sem que as próprias Secretarias da Educação intervenham na questão, quando se espera que anulem esses atos arbitrários e passem a fiscalizar a atuação dos Conselhos. Trata-se de duas questões fundamentais:

- A ilegalidade da expulsão, pois a Constituição Federal e o ECA garantem a todos os alunos acesso e permanência na escola. O Conselho de Escola é um órgão que em nenhuma hipótese pode sobrepor-se a uma Lei Federal e muito menos à própria Constituição. Além disso, a maioria dos Conselhos de Escola deste País são eleitos de forma ilegal e irregular, manipulados pela direção e pelo corpo docente no sentido de impedir a participação de pais e alunos.

- Expulsar o aluno de uma escola, mesmo com a promessa ou garantia de vaga em outra unidade, provoca um trauma muitas vezes irreversível, além de marcar seu futuro escolar como aluno-problema. É impressionante que as pessoas que participam desses tribunais de exceção nos Conselhos de Escola não consigam enxergar além de sua própria vizinhança, pensando apenas em livrar-se das “laranjas podres”, como costumam chamar os alunos que pretendem expulsar.

Ambas questões apontam a falta de maturidade dos profissionais que optam pela expulsão de alunos pelo Conselho. Se falar em abuso, ilegalidade e manipulação não sensibiliza nossa sociedade já tão acostumada a todo tipo de crime, talvez a questão da imaturidade possa vir a ser motivo de estudo e reflexão. Supostos adultos que cumprem papéis “pedagógicos” e/ou burocráticos dentro das escolas brasileiras costumam praticar abuso moral ou até mesmo vingança contra crianças e adolescentes, se não por crueldade, então por imaturidade.

Um exemplo atual é o caso da garota de 15 anos que agrediu uma professora em Mauá, SP e foi sumariamente expulsa pelo Conselho de Escola. O assunto foi noticiado pela mídia com requintes de crueldade e a sociedade brasileira aceitou o fato como perfeitamente normal, o que é muito preocupante. Ninguém se perguntou o que faria uma adolescente agredir sua professora. As poucas informações dadas a favor da garota mostram que a profissional fomentava uma competição nada saudável entre os alunos e, segundo a mãe da menina, chamou a filha de “capeta” e “demônio”, o que teria provocado a agressão. Verdade ou não, os fatos precisariam ser averiguados, para que casos como esse não se repetissem dentro das escolas. Mas a única atitude tomada foi no sentido de crucificar a aluna e apoiar a professora, que, mesmo adulta, foi tratada como totalmente indefesa. Aliás, o corpo docente da escola paralisou as atividades até ter certeza de que a vingança seria consumada.

Infelizmente, as agressões que as crianças e adolescentes sofrem dentro das escolas por supostos adultos são abafadas por autoridades também imaturas e coniventes. Mas basta acontecer o inverso - a revolta dos alunos por maus tratos recebidos - e promove-se a expulsão, com a paralela martirização e canonização de profissionais que se fazem de vítimas. Entendo que essa grave inversão de valores mostra a imaturidade desses supostos adultos. Quando então a sociedade e a mídia dão o aval para essas práticas, fica evidente que toda a população adulta padece de imaturidade e que nossas crianças e adolescentes estão desamparadas dentro da escola. Cabe aqui uma expressão consagrada por Mário Sérgio Cortella: pedagocídio.

Comentários

Giulia disse…
Ops, bebi!!! A legislação não "ressalta o princípio de igualdade": ela deixa claro que a criança e o adolescente são PRIORIDADE. Isto faz sentido, não apenas para contrabalançar o desprezo de que eles são alvo neste País, mas porque no Brasil as crianças e os jovens formam A MAIORIA da população (mas são discriminados e tratados como minoria). Será que é por isso que esses "supostos adultos" agem de forma cruel com eles? Será inveja,ciúme? Freud explica?... rsrs
Glória disse…
Giulia, vou repetir: eles fazem porque "PODE". Podem fazer o que quiser atrás dos muros da "instituição sagrada", instransponíveis, por conta dos torturadores. Hegel definiu a História como um grande matadouro, um processo de lutas fraticidas e começo a acreditar que quando não são guerras, são nas instituições, entre elas, a escola. Nesse antro, nossas crianças são assassinadas ou transformadas em monstros sociais, como dizia a Irede Cardoso. Hoje estou naqueles dias em que o desânimo me abate, acabo de ler o relatório enviado pelas escolas ao promotor, em uma delas 65 alunos se evadiram neste mês, fora outros números também exorbitantes. E elas informam assim como "não tô nem aí", esses alunos é que são uns puias e não querem saber de nada... Bem, paro por aqui, sinto que as palavras de nada valem contra o pedagocídio...
Giulia disse…
Coragem, querida Glória! Também repito: o levantamento de informações, mesmo as mais pessimistas possíveis, é de valor inestimável!! Um dia o Brasil vai lhe agradecer pelo seu trabalho tão difícil e sofrido, por todas as intimidações e perseguições que está sofrendo. Mas para isso nossa sociedade precisa AMADURECER! Talvez seja mais proveitoso mudar o tom da acusação: em vez de chamar esses "educadores" de criminosos, vamos chamá-los de imaturos. Quem sabe, assim eles fiquem envergonhados! No momento, a hipocrisia é grande demais. Se pensarmos que o criador da "pedagogia do afeto" (que nojo...)é o mesmo que ajudou a afundar a Febem cada vez mais...
Rodrigo disse…
Giulia, estou para sair da escola onde estou. Se tudo der certo, vou contar o que rolava nela: coisas parecidas com esse depoimento. Por que não falo agora? Cê sabe né?

Mas vim aqui rapidinho para dizer pra vc que o show impressionante aconteceu no planeta Rio, SP e em Curitiba mesmo. Aqueles dois lá são uma dupla francesa. No Youtube tem vídeos das apresentações no Brasil. Legal né? Abraços
Mauro disse…
Guilia,

Podemos iniciar uma campanha para esclarecer quais são as responsabilidades do Conselho de Escola.
Os temas "Conselho de Escola" e "Gestão Escolar" estarão na próxima reunião do Fórum Municipal de Educação (11/11/2006, das 14h às 17h, Câmara Municipal de São Paulo).
Já imaginou se houvesse uma forte campanha de mídia para que todas as escolas promovesse eleições democráticas dos conselhos de Escolas? E que as eleições acontececssem no mesmo dia?

Sobre o caso Escola Estadual Jardim Oratório (Mauá-SP), reproduzo trecho de um artigo publicado em 20/08/206:

"Quem vai demitir a professorinha?
(...)
A "professorinha" sempre é parente de alguma "ôtoridade" local. Demitida da escola pública, ela fará o quê? Muitos preferem que a "professorinha" despeje suas mágoas e frustrações longe de casa, de preferência nas cabeças das pessoas que não tenham votos e nem condições de reclamar: as crianças das famílias pobres. (...)"
http://www.geocities.com/coepdeolho/posts/cre_200806.htm
Giulia disse…
Mauro, campanha na mídia a favor da eleição democrática dos conselhos de escola é o que todos nós queremos! Mas as eleições no mesmo dia dependem das "ôtoridades". Como resolver isso?
Mauro disse…
Devemos fazer como em ribverão Preto: envolver o Ministério Público e as Secretarias Municipis e Estaduais de Educação. Tinh até chamada nas rádios e na TV
Mauro disse…
Retificando:

Devemos fazer como em Ribeirão Preto(SP): envolver o Ministério Público e as Secretarias Municipais e Estaduais de Educação. Tinha até chamada nas rádios e na TV.