Abaixo o cacoete!


Nosso objetivo aqui é promover o professor! É isso mesmo, não adianta esse risinho amarelo... Tanto é que sempre trazemos depoimentos de professores de alto nível, verdadeiros educadores. Se esses mestres costumam criticar a própria corporação, o que podemos fazer? Será que eles não estão certos?... Segue abaixo a carta enviada pela Professora Glória Reis, de Leopoldina, ao Jornal Estado de Minas, escrita após ler o artigo de um "catedrático" dizendo que o Fundeb não vai mudar nada porque não vai atingir o essencial, que é melhorar o salário dos professores. A única ressalva ao texto da Glória é a questão do "afeto" na relação professor-aluno. Afeto não nasce do nada, salvo da mente delirante do ex-Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Gabriel Chalita, do qual esperamos estar livres para sempre. O professor não precisa ter afeto pelo aluno: basta respeito, já será de bom tamanho!

Sobre o artigo "Fundeb salvador?" do Padre Geraldo Magela Teixeira ( 13/01), mais uma vez a imprensa presta um desserviço à educação, centralizando o nosso fracasso educacional à questão salarial. Isso já virou cacoete na imprensa. Não se discute se tal afirmação é verdadeira ou não, as pessoas vão repetindo feito papagaios. Numa época marcada pelo desemprego, quem exerce o magistério é um privilegiado: julho, dezembro e janeiro estão de férias, aula em fevereiro só depois do carnaval. Durante o ano emendam todos os feriados chegando alguns meses a não ter 15 dias de aulas. É a classe que mais falta ao trabalho, deixando os alunos na ilegal AULA VAGA, que tanto prejudica o cumprimento da carga horária do ano letivo. Quem não quer um emprego desse?

Diz Lauro de Oliveira Lima, em seu livro "Para que servem as escolas?", que "a imensa máquina da educação, sem controle, gerida aos trancos e barrancos por um sindicalismo classista, sem nenhuma sensibilidade para os reais objetivos do sistema, cuida exclusivamente dos seus interesses - reivindicação salarial - distanciando-se, progressivamente, de suas finalidades". Outra falácia é dizer que os professores não disputam vagas. Não há emprego mais disputado do que o magistério, pelas benesses que não existem em nenhuma outra profissão. Portanto, gente, vamos virar esse disco e ter a coragem de tocar nos verdadeiros entraves da educação: o corporativismo da classe, a falta de cobrança e fiscalização das autoridades competentes, o autoritarismo disciplinar nas escolas, a estabilidade do servidor público que não permite dispensar por incompetência e falta de resultados e, por fim, a falta de afeto na relação professor-aluno, entre outros.

Glória Reis, Leopoldina, MG

Comentários

Santa disse…
Giulia,

Sou professora universitária, deixei arquitetura por opção e poderia ganhar mais, é claro. Observo que os problemas na educação são proporcionais ao tamanho imposto. Infelizmente, a escola no Brasil se transformou em um mix de coisas, um faz tudo, desde a parte da atividade física, da sexualidade, da saúde, da nutricional, do meio ambiente, da família, da política, da cidadania, além da aprendizagem, para qual existe. Reclama-se do professor e com razão, pois é impossível ser competente em tantas áreas distintas. Ser professor, psicólogo, assistente social, pai, etc... Daí muitas vezes professores desmotivados pelo despreparo, e o nível de exigência implica tb em salário compatível. É hora de deixar às escolas um trabalho mais restrito, centrado sobre as questões do ensino. Sem ignorar a dimensão do problema social do Brasil que é tão grande, mas uma coisa é trabalhar com a visão contextual, outra é exigir da escola que assuma a responsabilidade de consertar os desmandos sociais.

Bjs
Suzy Tude disse…
BRAVO!!!!!
Eu gostaria de comentar ainda outros aspectos além do "corporativismo da classe, a falta de cobrança e fiscalização das autoridades competentes, o autoritarismo disciplinar nas escolas, a estabilidade do servidor público que não permite dispensar por incompetência e falta de resultados e, por fim, a falta de afeto na relação professor-aluno, entre outros" mencionados no artigo de Glória Reis, ainda que não seja da área.
Na minha ótica, falta qualifificação e/ou re-qualificação de grande parte dos professores. Nesse prima, o que encontro é o "dicurso único" a favor da visão da esquerda como único caminho "justo" a ser seguido, que os mestres costumam passar a seus alunos, o que não posso admitir. Antes de tudo o professor deve conhecer os vários lados a serem considerados diante de qualquer questão. Não digo que devam saber tudo, podem e têm o dever de ser honestos diante do não conhecimento de determinado assunto e partir para uma pesquisa que os qualifique pra dirimir dúvidas. Mas não concordo com a prática que tem sido comum de ideologizar tudo e só mostrar um dos lados, quando existem muitos outros. Eu nunca pregaria uma "neutralidade" na qual não acredito, mas também acho que seria desonestidade intelectual não considerar todas as diferentes ideologias, até para dar chance à livre escolha, sem contar com a boa formação dos estudantes.
Considero um verdadeiro alerta nesse sentido, um interessante artigo do Diego Casagrande, de 10 de Julho de 2006, intitulado "A Revolução Silenciosa", que inclusive postei há algum tempo. Se você quiser reler esse artigo eu o tenho no link:

http://alkimistasdobrasil.blogspot.com/2006/11/revoluo-silenciosa-no-espere-tanques.html

Mas gostaria ainda de concordar que a relação professor-aluno carece muito mais de respeito do que qualquer outro sentimento.
Mas respeito também precisa ser conquistado, nunca imposto.

Grande abraço
Glória disse…
Gente, gente, o respeito nasce do afeto. O afeto é fundamental em tudo. Por que na minha cidade (e acredito que pelo Brasil afora) professoras chamam crianças negras de "macacos"? Por que algumas professoras tampam objetos nas crianças correndo o risco de machucá-las gravemente? Por que dão castigos cruéis como deixá-las sem merenda, sem ir ao banheiro, sem Educação Física, assim como em pé "de cara na parede" e outros mais como xingamentos de "pivetes", "ladrõezinhos", "demônio", etc, etc.??? A resposta é: porque não lhes têm afeto, ou seja, não nutrem nenhum sentimento por essas crianças. Se não têm sentimento por elas, como poderiam ter respeito?
Giulia disse…
Santa e Alkimista, obrigada pelos comentários! Essa história de o professor se sentir sobrecarregado com a função educacional além do ensino é um comentário genérico que infelizmente não corresponde ao que acontece em sala de aula, pelo menos nas primeiras séries do Ensino Fundamental, onde se exige principalmente que o aluno seja alfabetizado, não é mesmo? Ninguém faz proselitismo com alunos de 7 a 10 anos, que é a idade em que eles NÃO saem da escola alfabetizados! Mas muitas vezes eles são deseducados, e só tendo filho na rede pública para saber!!! Cada um tem o direito de ter sua opinião, mas com conhecimento de causa. A mídia costuma acatar as choramingas dos professores e seus sindicatos porque falta vivência, já que filho de jornalista estuda na rede particular. Além de todas as denúncias que a gente recebe pela Internet, nós do EducaFórum temos dezenas de histórias em que nossos próprios filhos foram vítimas não apenas das falhas do sistema educacional, mas da ignorância ou até da perversidade de professores que só puderam agir daquela forma PORQUE NÃO ERAM COBRADOS por seus superiores, ou seja, eram protegidos pela corporação.
Nas séries superiores, os pais que entenderem que seus filhos estão sendo expostos a doutrinação partidária podem recorrer à Ong Escola sem Partido, www.escolasempartido.org, um pessoal que recebe denúncias nesse sentido. Existem sim caminhos para garantir um bom ensino público, mas só agindo como nós do EducaFórum fizemos: acompanhar a vida escolar dos nossos filhos passo a passo (e os pais que não têm cultura suficiente?...), conhecer bem cada professor e sua forma de tratar o aluno (exigindo NO MÍNIMO RESPEITO, moeda rara nas escolas públicas) e, principalmente, FICAR DE OLHO EM PERSEGUIÇÕES E REPRESÁLIAS de que os alunos costumam ser vítimas QUANDO OS PAIS INCOMODAM. É mole?...
É por isso que hoje, com nossos filhos já formados, estamos tão mais à vontade para ajudar os demais pais com problemas na rede pública. Mas é também com profunda indignação que constatamos a continuidade do status quo.
Glória disse…
Lá vai o artigo do catedrático:

OPINIÃO
Fundeb salvador?

Padre Geraldo Magela Teixeira.
Reitor do Centro Universitário UNA

A grande imprensa tem falado muito a respeito dos governos reeleitos que correm o risco de, por mais quatro anos, fazer as mesmas coisas que fizeram. Seria o tempo do “mais do mesmo”. Creio que é preciso, seguindo a sábia doutrina de Aristóteles, antes de misturar, distinguir. Temos casos muito distintos. No caso específico da República e do Estado, além das diferenças de funções, aconteceram trajetórias diferenciadas. O presidente Lula assumiu o governo no final de uma crise internacional, mas reconhecendo que os fundamentos da economia estavam colocados com o restabelecimento do respeito a um símbolo nacional, a moeda, manteve a política econômica e, tocado por iluminada intuição, colocou o conjunto do governo para cuidar da multidão dos mais pobres. Não vou entrar no mérito da discussão levantada por Roberto Damatta entre cuidar e governar. Grosso modo, acho que o presidente fez o possível naquele momento para a parte mais sofrida da população e por isso recebeu a benção dos votos e da vitória. Por sua vez, Aécio Neves encontrou o estado por longos anos descuidado e maltratado e teve que fazer ajustes corajosos, o que chamou de choque de gestão. O povo, na sua sabedoria, entendeu e renovou a confiança com votos e vitória.

No campo da educação, o governo federal aperfeiçoou o sistema de avaliação e pôs em pé uma extraordinária inovação: o ProUni. No mais, foram apenas os rojões da inauguração de universidades inexistentes e de uma reforma universitária que nada reforma, a não ser na linguagem pedante e ideologicamente correta. Aécio, mesmo administrando migalhas, esticou por um ano o ensino fundamental, distribuiu livros e continuou a formar, com o Projeto Veredas, os professores leigos. Coisa rara, com o pagamento em dia.

Nos discursos de posse, ambos prometeram ensino de qualidade, sendo o governador mais contido, pois todo o viés de seu discurso pautou-se no pacto federativo. Mas ambos, e juntamente com eles os prefeitos, estão apostando todas as fichas no Fundo para o Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). E é aí que vão começar os problemas: 1º) o Fundeb tem um lento cronograma de implantação, que deverá ultrapassar 2010; 2º) sua implantação depende de uma ampla discussão sobre divisão dos recursos, envolvendo União, estados e municípios. É uma etapa difícil e não sabemos se as partes sairão satisfeitas; 3º) não parece muito claro o volume de recursos que estarão disponíveis, mas tenho medo de que equipamentos tomem o lugar do principal, que é a busca de uma competitividade para os salários dos professores. O presidente, por exemplo, prometeu computadores para toda a rede pública, mas sabemos que mais de 40 mil escolas não têm sequer energia elétrica para conservar a merenda escolar em freezer; que das 186 mil escolas de ensino fundamental e médio existentes no país, 34 mil não tinham energia elétrica em 2003, data do último censo escolar; e que só 15% das escolas municipais têm computadores.

Há um problema: se os computadores, os livros didáticos e o transporte dos alunos forem financiados pelo Fundeb, não teremos melhorias salariais substantivas. E repito à exaustão que o primeiro passo para uma escola de qualidade é um salário decente. O professor, a professora, não podem se preocupar com salário. Não precisam ganhar fortunas, mas o salário deve ser suficiente para se chegar ao fim do mês sem estar entre as suas preocupações. A escola não pode ser o último refúgio para empregos, mas as vagas ali devem ser disputadas pelos mais competentes, mais comprometidos com o sonho de um país decente.

Jornal Estado de Minas - 13 de janeiro de 2007
Giulia disse…
Glória, concordo contigo no sentido de que o afeto nasce de uma questão de "valor". Os valores de cada um se expressam no que se gosta ou deixa de gostar. Mas veja: eu prefiro o respeito HIPÓCRITA do que os maus tratos. As professoras não são "obrigadas" a gostar de um aluno que para elas se compara a um macaco. É duro de admitir, mas situações como essa existem e não adianta tapar o sol com a peneira. Goste ou não do aluno, o professor tem a OBRIGAÇÃO de respeitá-lo. Ou então, RUA!
Glória disse…
Giulia, talvez estejamos aí com uma questão semântica. Eu uso a palavra "afeto" no sentido de solidariedade humana, aquilo que justifica sermos humanos e formarmos uma comunidade humana. Não se trata de ter uma relação de afeto, onde entrariam gostos, valores, preconceitos que, como você diz, não há como negar que existam. Assim, por exemplo, temos afeto por todas as crianças do mundo, estejam na China, na África, na Suécia. Não preciso conhecê-las, nem gostar de seus países ou de seu aspecto físico. Que isso não funcione em outras profissões, vá lá, mas na educação, é inadmissível. Concordo também com você quando diz que "se a agressão não fosse permitida" pelo menos teriam de se segurar, mesmo hipocritamente. E tive a prova disso aqui, como denunciei e tô de olho, as agressões, pelo menos as físicas, diminuíram.
Glória disse…
Giulia, Vera e seus leitores, solicito irem ao meu blog e me ajudarem a dar um puxão de orelha no governador de Minas Gerais, Aécio Neves, que, diante da tragédia que se abateu em nosso estado com a lama da barreira estourada de uma empresa empestando as cidades (e já chegou ao estado do Rio, e mais, é a segunda em 6 meses)ele simplesmente partiu de férias para os Estados Unidos esquiando em Aspen. A questão é tão séria que devido ao acidente, a imprensa descobriu e noticiou que Minas tem 450 barreiras dessas de risco ambiental. No meu outro blog do Recomeço tem a notícia detalhada, está lá à direita.
A quem se dispuser, agradeço pelo povo mineiro e por todos nós, porque a postura irresponsável das empresas é a norma no mundo hoje, vale tudo pelo lucro e pela ganância.