SER PROFESSOR, a função



Do comentário da Santa:
..."a escola no Brasil se transformou em um mix de coisas, um faz tudo, desde a parte da atividade física, da sexualidade, da saúde, da nutricional, do meio ambiente, da família, da política, da cidadania, além da aprendizagem, para qual existe. Reclama-se do professor e com razão, pois é impossível ser competente em tantas áreas distintas. Ser professor, psicólogo, assistente social, pai, etc... Daí muitas vezes professores desmotivados pelo despreparo, e o nível de exigência implica tb em salário compatível. "



Santa, quando ouço opiniões como essa sempre me vem em mente uma cena do "Meu pé de Laranja Lima" ou do "Cazuza" (não sei bem) em que o professor faz todos os alunos mostrarem as mãos pra ver se estavam com as unhas cortadas e limpas... Esses alunos tinham pais e família...
Por aí podemos ver que EDUCAR num sentido amplo sempre foi função dos professores!

Com a ditadura ficou mais fácil transforma-los em técnicos que repassam matérias escritas em manuais pré-concebidos!.... Tranquilo,né? (o sindicato adorou e incorporou essa visão de professor de disciplinas......)
E vieram as fichas amareladas e a cópia do quadro negro como modo de "educar" sem se comprometer, sem emitir opinião ou julgamento de valor!
Isso, porém, não é nem nunca foi EDUCAR!
Só que a ditadura acabou e não tem mais sentido professor se limitar a essa função! (que levou ao finjo que ensino a quem finge que aprende... a quem finjo que pago...)
As ONGs começaram a tomar o espaço, (que a meu ver é da escola!) de EDUCAR - em seu real sentido - , os que a escola não dá conta...
Só que ao invés de trabalhar COM a escola, por serem na maioria das vezes por ela repelidas, essas organizações começam a fazer um trabalho paralelo à escola! (muitas vezes tentando consertar os estragos que a própria escola fez na vida de milhares de garotos!) Estas, preocupadas com "atividade física, da sexualidade, da saúde, da nutricional, do meio ambiente, da família, da política, da cidadania, além da aprendizagem" vem obtendo sucesso em suas ações... (ao contrário da escola!)
Portanto, a conclusão que chego é a seguinte: sem esse "acumulo de funções" a escola pode ser plenamente dispensável com os meios de informação hoje existentes após a alfabetização! Elas se transformam em verdadeiros estacionamentos de alunos se não cumprirem com seu papel social de educadoras nas áreas de "atividade física, da sexualidade, da saúde, da nutricional, do meio ambiente, da família, da política, da cidadania, além da aprendizagem"
Simplesmente porque essas áreas não estão desassociadas da formação de um ser humano, fazem parte do sentido da apredizagem! (e já sabemos que apredizagem sem sentido não existe, né?)
O problema é que a escola não quer nem "acumular" nem "dividir"...
Reluta em chamar voluntários nas áreas onde não tem competência para agir, tem medo que esses voluntários exerçam o papel de fiscalizadores de seus erros, não aponta esse como um dos problemas para a solução do aprendizado (nunca ouvi um professor pedindo para ter mais funcionários ligados a essas áreas que a Santa citou!... falam só do próprio salário...)
A escola, como uma vez a Igreja do bairro, é onde se tem o contato com as famílias e seus problemas de forma organizada e conjunta. Isso faz dela o melhor lugar para informações sobre "atividade física, da sexualidade, da saúde, da nutricional, do meio ambiente, da família, da política, da cidadania, além da aprendizagem"...
Professor que se furtar a isso pode desistir da função pois ela exige isso! (além do afeto e respeito pelo aluno e pelo SABER!)
Quanto ao consertar os desmandos sociais: só através de um povo mais bem EDUCADO é que se pode esperar mais civilidade, mais consciência, mais valores coletivos, mais oportunidades iguais para todos, mais luta pelos próprios direitos e principalmente mais sonhos para o futuro.
"Educação" ta me parecendo que estar virando uma idéia abstrata que nem "amor"!
E não é: na ponta do sistema o órgão social responsável pela EDUCAÇÃO é a ESCOLA, o local onde ela deve se dar é a SALA DE AULA e o funcionário responsável por isso é o PROFESSOR!
Sinceramente? Se isso exige abolir as matérias formais da escola que façamos isso e troquemos As Guerras Púnicas por lições de cidadania, equações de segundo grau por "Aonde vai o dinheiro dos impostos", se se escreve com x ou com s ou com ç ou com ss por "a quem se dirigir para exigir nossos direitos", em vez de mitocôndrias "quais os cuidados que se deve ter com o próprio corpo", em vez de decoreba optemos por música clássica, poesia, livros de qualidade... invés de copiar do quadro negro conversas com quem sabe das coisas...
E podem ter certeza: não é salário que muda isso, é consciência da própria função que parece estar faltando a muitos professores!

Comentários

Giulia disse…
Muito legal, XIPÓ! (agora a afirmação é positiva!) O grande problema é que os assuntos não se debatem na sociedade no nível que a Vera está propondo. Eu mesma tenho preferido não polemizar, até para não criar atritos com as autoridades que podem - E PODEM - fazer pouco caso das nossas reivindicações mais urgentes e pontuais, como a expulsão de alunos e o caso desses jovens do ProJovem que estão sendo enrolados desde o começo do ano, sem professores há 7 meses! Mas a verdade é que é necessária uma discussão mais ampla do que se espera da escola, sem essa de achar que "estamos virando PT" ou que não sabemos o que queremos. Queremos, para começar, o mínimo do mínimo: alfabetização em letras e números nas primeiras séries do Ensino Fundamental, respeito aos alunos, sem essa de chamá-los de "moleque", "vagabundo", "maloqueiro" (sim, isso é muito comum, srs. professores, parem de fingir!), professor em sala de aula em todas as séries e todos os dias, sem AULA VAGA. Depois que esse mínimo do mínimo estiver cumprido, precisamos chegar a um acordo, enquanto sociedade, sobre o que queremos que nossos filhos aprendam na escola. Dá trabalho? Dá. Mas existe algo mais importante?
Seu Creysson disse…
Concórdio, concórdio!! Xega de se preocupário com eçe negóçio de çeçedilha, foi o vigárico que inventou eçes côntios pra cumpricá a vídia dos estudânticos,çértio? Veja eçes garôtios espertchos do porgrama PorJoven, êlios não manjam da çeçedilha mas foram porcurá çeus dirêitchos, ókeyo?
Anônimo disse…
Giulia, tente entrar em meu blog agora. Acho que estava muito 'pesado', mas dei uma limpada agora.

Um abraço
Giulia disse…
David, necas de pitibiribas! Escrevi um comentário que parecia um romance e no fim tive que salvar no word, porque não foi de jeito nenhum. Me manda um e-mail pra eu te enviar.
Santa disse…
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Santa disse…
O comentário que fiz em outro post, colocado aqui, faz parecer que defendo uma escola tecnicista ou uma educação reducionista. Não defendo isso. O que não concordo é que a escola assuma atribuições para as quais não tem competência.

Seria de bom tamanho se a escola, como parte importante da educação, estimulasse o aluno a pensar.

Entendo que "educar num sentido amplo" é conhecimento; fazer o aluno descobrir o valor das idéias próprias e a dos outros; explorar e construir conceitos; desenvolver uma consciência ética; expressar-se criativamente: transcender-se; desenvolver a capacidade de cooperação; enriquecer com a diferença, entre outros aspectos da formação.

Bjs
Vera Vaz disse…
Santa
Só usei seu comentário porque ele parecia perfeito para fazer pensar a função do professor.
Creio que ela está em pleno momento de transição e isso provoca muitas discussões sobre o que é ou não da competência da escola.
A escola rejeita o aluno que não tem o apoio da família simplesmente dizendo que é "culpa" da família e que ela não deve suprir o que não veio "de casa" com seus alunos... Eu já sou da opinião que aluno sem apoio familiar deve ter dupla atenção da escola...
Acho que o assunto não se encerra no que escrevi e realmente me interessa muito essa conversa sobre competência da escola e que papel ela deve exercer na vida dos alunos.
Gosto também de colocar as coisas às claras e por isso também usei seu comentário e adorei sua resposta aqui explicitando que não é uma questão de "deixa pra lá" e pronto. Seu comentário na outra mensagem servia para maus professores que querem se esconder atrás de qualquer coisa que os exima de suas reais funções, num jogo de empurra que não acaba nunca!
Obrigada por participar de nosso fórum! Precisamos muito de pessoas como você escrevendo por aqui!
[]s
Vera
Betto disse…
Cara Vera.Discordo totalmente de sua opinião a respeito da função do professor. Por ser assim, "um faz tudo", é que nós não somos capazes de "fazer" pessoas intelectualmente preparadas para o conhecimento teóorico-cinetífico, este sim o principal papel da escola. Estou cansado de ouvir: "é preciso tornarmos nossos jovens pessoas boas" ( no sentido de não se tornaram bandidos). A escola não tem de ensinar a ser bom, a escola tem de nsinar a pensar, a agir intelectualmente, a ser inteligente, ensinar os conceitos teóricos... Estou cansado de falar de coisas que não me dizem respeito como profissional. O afeto tem a ver com o meu lado humano, não com o profissional. Como ser humano eu amo o meu aluno. Mas como profissional eu quero que ele não apenas saiba das coisas, mas como e o que fazer com este sabe. Todo discurso que nega isso como responsabilidade da escola, é discurso elitista e discriminador.