
Me cutucaram para falar da matéria “Escola não motiva e perde alunos”, publicada na Folha de São Paulo de 07/01. Eu não ia comentar, pois já fiquei irritada com o título. O jornalista Antonio Góis, que respeito, certamente não escolheu a manchete (sei muito bem como funciona isso) e sua matéria deve ter sido toda retalhada e retocada como manda o “figurino”. Isso resultou num texto morno e amorfo que não dá nem de longe a dimensão do estrago. Vou refazer a manchete: Escola desmotiva e exclui alunos. Um título como esse ia agitar as Secretarias de Educação e os demais órgãos de ensino. Batalhões de supervisores e assessores ficariam preocupados com o uso da palavra “exclusão”, que poderia ser usada para responsabilizá-los. As palavras proibidas na rede pública de ensino são Exclusão, Expulsão, Perseguição, Represália, Intimidação e Constrangimento. São proibidas porque constituem crime. E a mídia também não se atreve a mencioná-las para... não perder o freguês! O dia que algum órgão de imprensa quisesse publicar uma matéria bombástica tratando desses assuntos e dando nome aos “bois”, o jornal seria obrigado a consultar o “outro lado”, ou seja, a secretaria de educação local. Nesse “bate-papo” seriam colocados muitos panos quentes sobre os fatos: a expulsão se transformaria em “transferência de unidade escolar em vista da melhor performance do aluno”, perseguições e represálias virariam “atos disciplinares”, intimidação e constrangimento seriam apenas “orientação para o bem do aluno”. Enfim, a matéria acabaria sendo “derrubada” (como se fala na gíria da imprensa) e não sairia. Dentre as palavras “tabu” na educação pública, a expressão mais proibida é Aula vaga, ou seja, a aula prevista e não dada, porque o professor falta por direito ou por licença, ou por enforcar feriado, ou porque é início das aulas, ou porque o semestre está terminando, ou por dor de barriga, ou por dar aula na rede particular (onde não pode faltar!). A aula vaga caracteriza “Oferta irregular de ensino” e contraria o Estatuto da Criança e do Adolescente. Não se fala dela porque é crime e a mídia também faz de conta que não conhece a expressão, para não contrariar o maior “freguês”, que não é o comprador do jornal, mas o governo...
Voltando à matéria da Folha, a aluna que abandonou a escola por “preguiça” de andar vinte minutos na ida e vinte na volta estava com toda a razão: vale a pena gastar quarenta minutos de caminhada para ter duas ou três aulas de cinqüenta minutos por dia? E muitas vezes ser dispensada após a chegada, por não ter aula nenhuma? Mas a matéria não fala de Aula Vaga, só fala de aula chata...
A matéria aponta as dificuldades do aluno trabalhador terminar os estudos, mas não fala das inúmeras vezes que ele chega dez minutos atrasado e lhe batem o portão na cara com um sorrisinho de satisfação. Nenhum aluno se sentiria à vontade para declarar isso a um jornalista, mas nós cansamos de ver essa situação todos os dias. É o mesmo aluno obrigado a rastejar debaixo de uma catraca de ônibus após o expediente, chegando à escola faminto e sem direito a merenda. Quantos conseguem persistir?
Para não falar do aluno tratado aos berros e apelidado de “laranja podre”, como aquele que conseguimos rematricular no Campo Limpo.
Senhores jornalistas, este é o “tratamento padrão” dado ao aluno adolescente dentro da rede pública de ensino, principalmente na periferia dos grandes centros urbanos.
Ah! Se o problema fossem somente as aulas chatas!! Afinal, aula chata não mata ninguém e aí – quem sabe – o aluno corre o risco de aprender alguma coisa. Mas a mesma garota com preguiça de andar vinte minutos revela: “Os professores são chatos e não sabem explicar nada”.
Então não adianta: tá tudo dominado!
Comentários
Pode?
Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e da UniRio, sobre o garoto que quer trabalhar e abandona a escola:"A escola não está pensando nesse menino que quer trabalhar. Dar recursos a
ele é um passo importante, mas não é a solução. Não dá para ficar botando
mil penduricalhos sem meter a mão na escola. Se formos acompanhar esse
jovem, veremos que ele até tenta voltar várias vezes. Ele está sendo
generoso com a escola, mas a escola não está sendo generosa com ele", diz
Andrade.
E da professora de pós-graduação em educação da UnB (Universidade de
Brasília) Benigna Villas Boas, que declara que as escolas precisam encontrar uma forma de
avaliar o aprendizado e oferecer mecanismos de recuperação ao longo do ano.
Já Rubem Alves, educador e colunista da Folha, diz que o próprio sistema em
que as escolas funcionam é pouco atrativo. Usa como exemplo o fato de as
disciplinas serem ministradas separadamente. "Quem foi que disse que a
cabeça da criança funciona como aparelho de TV em que você pode tocar uma
campainha e mudar de português para matemática?"
Acho um avanço um artigo que não tem nenhuma opinião culpando o aluno e os pais pelos fracassos escolares e sim convidando a própria escola a rever seus atos e métodos. Talvez não da forma explicita como gostariamos mas pelo menos está ali em bom português: A ESCOLA É CHATA MESMO E TEM QUE MUDAR!
Preferi fazer assim a pedido de meu filho.