Abaixo os mitos!

No artigo Os quatro mitos da escola brasileira, publicado na Veja de 07/03, o economista “da educação” (viva esta nova profissão!) Gustavo Ioschpe derruba os pilares que parecem sustentar o fracasso do ensino brasileiro:

O professor é mal remunerado
Os docentes brasileiros recebem salário 56% superior à média nacional. Nos países mais ricos, a remuneração dos professores é 15% menor.
Além disto, a comparação com outras categorias não leva em conta um conjunto de variáveis, como jornada de trabalho, férias e aposentadoria, que no serviço público é integral.

A educação só vai melhorar quando os professores receberem melhor salário
Nenhuma pesquisa realizada em campo internacional ou nacional confirma essa crença. Aliás, a remuneração dos professores tem aumentado desde 1997 devido ao Fundef (hoje Fundeb) e à instituição de “bônus”, sendo que as notas dos alunos nos exames nacionais despencaram.
Conclusão: mais dinheiro no bolso do professor não altera a qualidade do ensino, prejudicada pela má formação e por posturas como a revelada por uma pesquisa da Unesco: 9% dos profissionais consideram prioritário “proporcionar conhecimentos básicos aos alunos”, enquanto 91% preferem “formar cidadãos conscientes”. É óbvio que nenhum dos dois objetivos é realizado, pois sem conhecimentos básicos ninguém consegue se tornar cidadão consciente...

O Brasil investe pouco dinheiro em educação
Um relatório que compara o volume de investimentos de 30 países em educação revela que o Brasil não fica atrás das nações mais ricas. O gasto médio dos países da OCDE (Europa e EUA) no ensino básico é de 3,5% do PIB, enquanto o Brasil aplica 3,4%.
A China, que fez uma revolução na educação, tem gasto apenas 2% no ensino básico.
No ensino superior, o Brasil aplica proporcionalmente muito mais do que os países mais ricos: investimos 0,8% do PIB, sendo que apenas 20% dos jovens estão na universidade. Na OCDE aplica-se 1% do PIB, para uma média de 50% de jovens matriculados.
O problema não é portanto a falta de dinheiro, mas a má aplicação dos recursos.
Alô, alô, senhores deputados, vamos fiscalizar???

A escola particular é excelente
Os exames realizados em escolas públicas e particulares concluem que a rede privada, em média, é um pouco melhor do que a pública, porém está muito longe de ser um modelo de excelência.
Uma prova aplicada pela OCDE mediu o conhecimento de estudantes de 41 países e colocou o Brasil nas últimas posições em todas as disciplinas. No que se refere à escola particular, o resultado dos alunos 25% mais ricos do Brasil foi inferior ao dos 25% mais pobres dos países mais desenvolvidos.

Tentei resumir esse excelente artigo, mas vale a pena ler o texto inteiro, que infelizmente não posso disponibilizar aqui. O autor conclui dizendo que o diagnóstico correto para buscar soluções permanentes só poderá ser feito quando o Brasil se livrar desses e dos demais mitos que rondam as escolas do País. Ainda vamos voltar ao assunto “mitos”.

Finalmente alguém traduziu em números o absurdo dessas “crenças” que mantêm o atraso do Brasil na educação!

Comentários

david disse…
Já andamos falando a respeito por aqui não?

Como me disse uma professora que atendi hoje:
"Não há mais comprometimento do professor. Eles partem do pressuposto de que o aluno tem que vir pronto de casa, pois 'não ganham nada para ensinar'. Por quê não vão para a roça ou linha de fábrica?"

Parecia que estava falando ao espelho...

Notinha de rodapé: professora das antigas. Dá lição de casa. Faz decorar tabuada. Mas acredita que professor tem a MISSÃO de ensinar.
Angelo da C.I.A. disse…
Sobre este artigo do Gustavo Ioschpe, eu comentei a respeito e o Nemerson Lavoura o colocou na íntegra.
Glória disse…
Há quanto tempo sabemos e falamos disso, não é, Giulia? Mas os mitos prevalecem... Até com o Gustavo Ioschpe falando, com toda sua autoridade de intelectual na mídia, os ouvidos continuarão moucos. Mas, é mais um passo... valeu!
Giulia disse…
Angelo, que bom que estamos em sintonia! Vou ler o seu texto lá e a meia dúzia dos meus leitores pode acessar o artigo que eu não consigui disponibilizar aqui.
Glória, este artigo trouxe algo novo, ou seja, dados concretos. Para derrubar mitos, preconceitos ou meras CRENÇAS, são precisos dados, pois este é um País de muita "fé", rsrs. Embora o artigo não tenha tido qualquer repercussão, agora temos esses dados para divulgar a torto e a direito. E tomara que o Gustavo Ioschpe continue pesquisando e informando. Uma hora a coisa vai! (Ou será que estou tendo muita "fé"?, rsrs)
Ricardo Rayol disse…
Giulia, arrasou com os mitos. Mas uma duvida me surgiu, isso se aplica a todos o ensino no Brasil? Mesmo aquele lá em ipocozinho do agreste no Piauí?
Giulia disse…
Alô, Ipocozinho do agreste no Piauí! Como vai a educação aí?...
Luisete disse…
Os salários podem ser razoáveis em determinadas regiões mas as condições de trabalho, a degradação dos espaços da educação ... escolas caindo aos pedaços, giz e quadro negro como principais, e às vezes únicos, recursos didáticos...

É muito importante discutir os mitos. Principalmente o da má utilização das verbas públicas onde o grosso dos recursos vai para o ensino superior. E, também, o papel dos pais, não tão presentes quanto necessário. Pagam fortunas às escolas particulares e não cobram o retorno? Não cobram a vaga próxima à residência? Aceitam tudo como cordeirinhos?