Mais Adélia Prado!


Graças à nossa amiga Professora Glória Reis, registramos trechos de mais um livro de Adélia Prado, Os Componentes da banda (Rocco, 1988, pg 22, 23), em que ela relata sua experiência na rede pública de ensino. Alguém já vivenciou alguma situação como essas registradas pela escritora?

Ofensas aos alunos:
“Enchi eles de matéria, não agüento mais de intipatia daquele bicha da 8ª B.”

Reuniões insípidas:
“Da reunião de professores o que sobrou para nós foi um texto com ‘Os dez mandamentos do professor, o que devemos fazer para manter entre nós um ambiente de harmonia’. Dona Cenira “leu” a reunião sem arriscar uma só frase fora do papel. Salústia olhou no relógio o tempo todo. Corália vendeu jóias para Lucrécia. A uma intervenção minha, Dona Cenira disse contrariada: ‘acho interessante, mas não posso fugir da pauta’ e voltou os olhos para o papel.”

Lamúria sem fim:
“O que se ouve é inacreditável: ‘como é que eu posso fazer alguma coisa neste ambiente horrível? Os meninos não têm educação, as famílias não ajudam...’ As professoras falam e têm as unhas grandes e polidas, os cabelos pintados de acaju, grande parte faz pedagugia. tem poblema de coluna e não vê a hora de arranjar coisa melhor.”

Injustiça e covardia:
“O bedel passa perto de uma rodinha de meninos fumando, faz que não vê, porque são muitos e valentes; descobre um coitadinho fumando escondido, traz pelas orelhas e sapeca-lhe, à frente de todos, três dias de suspensão ‘para servir de exemplo’. A direção tem este serviçal como seu braço direito. O caos organizado, não é assim uma loucura?”

Polícia na escola:
“Uma gritaria e os meninos se amontoam nas janelas: ‘pega, pega!’ É a radiopatrulha que a supervisora da noite mandou chamar pra espantar uns pobres moleques do lado de fora da cerca.”

Insensibilidade:
“Em plena aula a cantineira abre a porta, sem bater: ‘ponho o que pra senhora hoje? Tem empada e biscoito frito.’ Sinto tanta vergonha que não tenho coragem de escolher. Põe qualquer coisa, falo bem depressa, pros meninos se esquecerem de que eu posso escolher entre empada e biscoito frito.”

Comentários

Blogiana disse…
Ah! Agora me lembro! A supervisora de alunos mais estúpida e bruta que me lembro, sempre podia escolher o que comer. Aos alunos restava odiá-la e comer sopa de feijão de ontem...
Anônimo disse…
Gente só quem passou por humilhação em escola publica sabe o que esses trechos querem dizer.
Eu passei 11 anos da minha vida em escola publica e nesse tempo sempre escutei a mesma historia, "ganhamos mal" e ainda querem cobrar o que da gente, essas pessoas que se intitulam de professores, não sabem e nunca vao saber o que é realização nesta vida, acham que só o dinheiro importa, posso parecer demagogo mas cade o amor a profissão, aonde esta a vontade de mudar a realiadade que vivemos.
Gente vamos dar o exemplo, vamos pelo menos tentar, acima de tudo independente de qualquer coisa ame as pessoas e tente fazer o melhor por elas, se nao vcs nunca vao sair da situação que estao.
david disse…
Tragicomédia?

Não há nada para agradecer Giulia. Eu que lhe sou grato, pelas brigas que vocês enfrentam.

Sabe muito bem que no que estiver a meu alcance, será feito.
Edson Marques disse…
Giulia,




O Acaso e o Ricardo Rayol me trouxeram até aqui.

Para te conhecer, deliciosamente.

Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.


Abraços, flores, estrelas..


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