Mais uma aluna expulsa!


Antes de entrar no assunto quero contar uma história antiga. Meu filho do meio estava no ensino médio e eu fazia parte do Conselho de Escola. Um dia cheguei atrasada à reunião e havia lá uma grande confusão. Percebi que a situação era grave, pois queriam expulsar um aluno. Já fui adiantando que a prática era ilegal. A diretora estava muito agitada e argumentou que o aluno havia estourado uma bomba na escola. Perguntei: quando? Respondeu: hoje de manhã. Disse: mas meu filho não me contou nada. Retrucou: seu filho devia estar “desligado”. Perguntei: quem é o aluno? Respondeu: é o fulano de tal. Respondi: impossível. Ele é amigo do meu filho desde pequeno. Existem provas? Respondeu: a policial feminina que faz ponto na escola viu. Perguntei: mais alguém? Respondeu: não, mas ela é autoridade. Perguntei: e cadê os vestígios da bomba?...

Todos os presentes (a sala estava cheia) se olharam como se a pergunta fosse absurda. E assim se passou pelo menos um minuto sem que ninguém dissesse nada.

É assim que se expulsa aluno da escola, numa boa! Nesse caso específico, a direção da escola não contava com uma mãe pentelha como eu, que abortou seu desejo de expulsar um aluno, com o pedido “absurdo” de ... provas. Uma mãe que não tinha problemas em chamar a imprensa na porta da escola para que crimes como esse não fossem praticados. Sabem como me chamavam os professores da escola? De “porra louca”. Esse é o apelido que carrego desde então, com muita honra. Pois evitar o crime de expulsar alunos da escola é realmente uma grande honra!

O assunto de hoje - mais uma aluna expulsa! - está documentado na carta transcrita abaixo, que acabamos de enviar à Ouvidoria da Educação do Estado de São Paulo e a todas as autoridades envolvidas. Já disse que este é um blog chato. Não é para quem quer se divertir, relaxar ou simplesmente reclamar. É para quem quer ir a fundo e ajudar a resolver os problemas da educação, que começam com o tipo de tratamento que o aluno recebe em sala de aula e na escola. Por isso, já vou alertando: a mensagem que segue é longa e exige o desgaste de mais de um neurônio.


Ah! Antes que eu esqueça, vou contar sobre o amigo do meu filho que havia sido marcado para expulsão pelo Conselho de Escola: hoje ele estuda comunicação na Cásper Líbero e trabalha na Caixa Econômica como funcionário concursado. E acaba de voltar de uma viagem ao Peru. Esta é uma homenagem para você, Marquinhos!

E d u c a F ó r u m

São Paulo, 15 de abril de 2007

Prof. Salmon Elias Campos da Silva
Ouvidor da Educação do Estado de São Paulo

Ref.: Mais uma aluna expulsa!

Prezado Sr. Ouvidor,

Mais uma vez agradecemos a atenção que nos tem dado, evitando prontamente a expulsão ilegal de alunos da rede estadual. Infelizmente o problema não tem fim e, muitas vezes, os alunos discriminados são os mais inteligentes e com o melhor rendimento escolar, como o caso que vamos relatar.

Amanhã, dia 16 de abril, o Sr. receberá um telefonema de Rodrigo... ou Fabiana ..., irmãos de ..., aluna da EEPSG Pe. Josué Silveira de Mattos, em São João da Boa Vista, pedindo para marcar uma reunião com o Sr. na terça-feira aí na Ouvidoria.

A irmã de ... já havia escrito à Secretaria da Educação e a mãe procurou a Diretoria de Ensino de São João da Boa Vista, mas não foi atendida e fez B.O. na Delegacia da Mulher. Um outro dia voltou à Diretoria de Ensino e o Dirigente, José Carlos Pereira, disse que a aluna não seria expulsa, mas poderia ser "transferida". Sr. Ouvidor, mais um dirigente de ensino que não conhece os direitos do aluno! Está tudo documentado e a família vai entregar-lhe essa documentação.

A aluna, de quinze anos, foi acusada sem qualquer prova de ter ateado fogo à lixeira da classe, no dia 05 de abril. A garota nega terminantemente e desde então entrou em depressão profunda. Sua mãe, cardíaca, está em péssimas condições de saúde devido à preocupação. Desde essa data a aluna foi impedida de voltar às aulas e foi realizada uma primeira reunião de Conselho de Escola na sexta-feira passada, dia 13/04, para efetivar sua expulsão. A aluna não compareceu ao Conselho, apenas o irmão, responsável por ela. A diretora da escola, Janine, não apresentou nenhuma prova e alegou que "a aluna assinou a própria culpa não comparecendo à reunião do Conselho". Sr. Ouvidor, veja o absurdo: além de convocarem o Conselho para expulsar ilegalmente uma aluna menor de idade, ainda exigem sua presença para humilhá-la e torturá-la psicologicamente.

Sr. Ouvidor, os fatos são escabrosos. Essa diretora mentiu diversas vezes para a família da aluna, inclusive envolvendo uma vizinha que a desmentiu pessoalmente.

Mas o mais grave é o seguinte: além da reunião de Conselho já ocorrida em 13/04, a diretora agendou uma nova reunião para o próximo dia 17/04, às 18:00, em que seria feita a ratificação da expulsão/transferência da aluna. Orientamos o Rodrigo (responsável pela aluna) para não assinar a ata da reunião de 13/04 e para não comparecer à nova reunião de Conselho, pois trata-se de prática ilegal. Solicitamos que essa ata seja analisada com rigor pela Ouvidoria e que a nova reunião de Conselho do dia 17/04 seja desmarcada. Além disso, pedimos que a aluna volte imediatamente para a sala de aula, sem qualquer discriminação, perseguição ou represália, o que acompanharemos com todo cuidado.

Mais uma vez expressamos nossa enorme preocupação com o número de expulsões praticadas pelos Conselhos de Escola no Estado de São Paulo, o que vem confirmar que a Secretaria é conivente com o status quo. JÁ PEDIMOS INÚMERAS VEZES QUE SEJA PUBLICADA NA PÁGINA INICIAL DO SITE DA SEE UM INFORME DE QUE A EXPULSÃO/TRANSFERÊNCIA DE ALUNOS É ILEGAL. Esse pedido nunca foi atendido e a cada dia recebemos novas denúncias de expulsão.

Entendemos que a situação é extremamente grave e estamos enviando cópia desta mensagem também ao Gabinete do Governador, para conhecimento.

Atenciosamente,

EducaFórum

PAIS, ALUNOS, EDUCADORES E CIDADÃOS QUE LUTAM PELA ESCOLA PÚBLICA E PELA CIDADANIA

Giulia Pierro Vera Vaz

http://educaforum.blogspot.com
www.webamigos.net/educaforum
educaforum@hotmail.com

Cópia para a Secretária de Estado da Educação
Profª Maria Lúcia Vasconcelos

Cópia para o Dirigente de Ensino de S. João da Boa Vista
Prof. José Carlos Pereira

Cópia para o Gabinete do Gov. José Serra
Palácio dos Bandeirantes

Comentários

Blogiana disse…
Quanta hipocrisia. Estou cada vez mais perplexa com a "diretoria" das escolas.
Parabens a vc. pelas iniciativas. Que essa ridicula diretora recolha-se a sua total insignificancia.
Ricardo Rayol disse…
Porra loucas são eles... Dê poder aos medíocres e verás o que acontece.
Giulia disse…
Gente, tem coisas que eu não posso colocar em um documento para as autoridades. Mas nada impede que eu divulgue,já que a família me deu total liberdade. A garota pretendia trabalhar e pediu para passar para o período noturno. A escola deixou. Mas ela não conseguiu trabalho e pediu para voltar para o diurno. A diretora respondeu para a mãe que não ia deixar (e não deixou), pois a menina era "do mal" e ia contaminar os outros alunos. É sempre a velha história da "laranja podre". Obviamente, a menina não leva desaforo para casa e isso a irmã admitiu. Ela é, sim, respondona, mas tem uma das melhores médias da escola. E certamente não ateou fogo à lixeira, inclusive a família disse que não a acobertaria se fosse verdade. Muito diferente da diretora, que desfilou uma mentira atrás da outra. Essa diretora não deveria se "recolher", ela merece ser exonerada.
Ricardo Rayol disse…
Giulia vamos colocar o nome dela na roda
Anônimo disse…
Muito indgnada, entro aqui para deixar meu comentário, e olhando de fora, percebe-se o cinismo, a ironia dos fatos....é muito fácil se passar por vítima e coitado para o mundo...
Realmente, houve uma infração muito séria e parabenizo os educadores pela atitude de tomar uma providência.
Foi se o tempo em que o educador era respeitado e admirado, e hoje ao tomar uma atitude tem anos do seu trabalho e dedicação jogado na lama e humilhado.
Espero que os orgãos competentes, enxergam o sensacionalismo por trás disso, e mostre ao mundo que escola é lugar de educação e respeito, caso contrário a que ponto vamos chegar???
Educadores se encontram de mãos atadas, alunos faltam com respeito, colocam a vida dos outros em perigo e fica por isso mesmo...e a indiciplina está do jeito que tá, por causa de que será??? Por causa de aluno que responde, por causa de aluno que entra e sai da sala quando bem quer , que não fazer a lição, que não para de falar, que pertuba os colegas o tempo todo, tirando o direito de todos, para ter um bom ambiente em sala de aula...o que fazer com esses alunos...que chegam a total falta de limite de botar fogo no lixo, na cortina...etc
Nesse caso específico, a aluna diz em depoimentos acima, que o médico pensou seriamente em interna-la, provavelmente percebeu algum algum disturbio, e essa aluna precisa realmente de tratamento.
Tenho hoje 41 anos, sou do tempo em que a escola e os educadores eram respeitados, não se tinha problemas de indisciplina como hoje...saímos alfabetizados da escola, e hoje os alunos saem do ensino fundamental sem saber somar e escrever direito.
Que mundo globalizado e moderno que estamos, onde alunos chegam ao ponto de querer difamar profissionais da aréa da educação, com tantas razões, tantos direitos, que tiram dos educadores a última gota de argumento, e pior que de forma infame.

Mãe Indgnada
Vera Vaz disse…
Acho que não entendi bem, Mãe Indignada... A senhora é mãe de aluno ou de alguma professora????????
Seu discurso tá afinadinho com o dos professores inconpetentes...
Minha senhora, aqui nós só defendemos a lei e a dignidade de crianças e adolescente perante maus educadores, não é necessário esse discurso todo que já conhecemos de longa data...
Veja se fica indignada com outras coisas como o número de faltas dos professores, a irresponsabilidade deles perante o Saber, as atitudes tiranas que não educam ninguém, o maltratamento de crianças principalmente os mais necessitados social, economicamente e intelectualmente....
Vai ser bem mais proveitoso pra sociedade!... Indignada fico eu ao ver a que ponto vocês chegam de cegueira total!