Uma Páscoa de renovação


É com grande espanto que continuo vendo a disposição da sociedade brasileira em punir os cidadãos “menores” (de idade), como se isso fosse a grande solução para os problemas de segurança do País. Realmente, não é à toa que precisou criar o Estatuto da Criança e do Adolescente. Mesmo assim não adiantou nada! O Estatuto está aí há mais de quinze anos como papel de embrulho e, por ironia, é muitas vezes responsabilizado pela grave situação em que ainda se encontram a infância e a juventude no Brasil.

Não adianta: é questão de valores. Quando a legislação contraria determinados valores da sociedade, ela “não pega”. O Brasil é um país dividido e sem espírito de Nação. Quem nasce aqui não está inserido em um todo que o acolhe e zela por sua integridade, desenvolvimento e amadurecimento, para que um dia possa contribuir com o progresso do país. Não. Se der “sorte”, será “bem nascido”, dentro de uma família que se preocupará com ele, nem sempre pela alegria de compartilhar seus bens ou sua cultura, mas para perpetuar seu nome ou seu poder. Se der “azar”, poderá ser abandonado em um saco de lixo ou na melhor das hipóteses dividir um colchonete no chão frio de um barraco.

Muito bem - vai dizer o João sem Braço – quem mandou procriar como animal e lotar o país de gente sem futuro? Mais um pensamento que me choca e que seria perfeitamente aceitável se fosse de uma minoria. Mas não é. É o pensamento que justifica a indiferença de quem passa por uma criança de rua e vira as costas. E a maioria vira as costas.

A questão do controle da natalidade - questão de educação - é muito séria e mal resolvida no Brasil. Bastariam duas décadas para que as novas gerações fossem suficientemente instruídas a esse respeito. Mas não se faz qualquer esforço e não se chega a conclusão nenhuma, pois o problema não é meu nem seu, é “do pobre”...
Hoje, o pobre poderia ser muito menos pobre, se pudesse completar no mínimo o Ensino Fundamental, o que 37% dos alunos não conseguem.

Tem mais: os poucos que conseguem completar o Ensino Médio estariam muito menos pobres, se tivessem tido a oportunidade de freqüentar um curso técnico integrado, o que nós do EducaFórum defendemos com unhas e dentes durante o governo Fernando Henrique, que achou por bem acabar com essa “mordomia” para os pobres. Nada tenho contra o Fernando Henrique, um pobre de espírito que ajudou a tornar mais pobres de fato os já pobres deste país. Também nada tenho contra o Lula, outro pobre de espírito preocupado apenas em colocar botox na cara para disfarçar sua incompetência e hipocrisia. A verdade é que o Brasil está órfão de pai e mãe e botando a culpa em seus pobres filhos, de preferência os menores de idade...

Me chamou muito a atenção uma cena do filme Pro dia nascer feliz, que não canso de relatar: alunos adolescentes do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, ao comentar a situação do País, falam claramente que existem dois mundos e que eles se sentem como protegidos dentro de uma “bolha”. E quem vai tirá-los de lá? Papai e mamãe estão preocupados apenas com seu futuro profissional e sua posição social. Outras cenas do filme mostram esses mesmos adolescentes desesperados e deprimidos por terem média baixa, o que não se admite para quem vai ser da “elite” do país. Mesmo com essa clareza de pensamento, esses jovens estão recebendo uma lavagem cerebral que em breve vai fazê-los esquecer de que existe um outro Brasil. Ou melhor, eles vão continuar sabendo de sua existência, mas sem a sensibilidade da adolescência, que pode ser transformadora, em clima de liberdade.

Este artigo é a continuação de um que escrevi no ano de mil novecentos e bolinha, que você pode ler aqui, http://educaforumtxt.blogspot.com/2005/11/o-maior-infrator.html, quando já estava indignada com a responsabilização do “menor” para problemas causados pelo “maior” infrator. Sempre fico muito impressionada quando bato o olho em algum texto antigo e vejo que nada mudou para melhor de lá para cá...

Bom, já falei demais, sou uma elucubradora compulsiva. Mas, para que a Páscoa não passe apenas a chocolate, quero deixar para vocês o bom senso e a sensibilidade do professor Luiz Carlos de Menezes, em seu artigo A violência e os jovens que não estão na escola http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0201/aberto/mt_221039.shtml, publicado na revista Nova Escola.

Uma Páscoa de renovação para todos!

Comentários

Ricardo Rayol disse…
Enquanto a Igreja continuar sua campanha contra o controle de natalidade a coisa continuará indo muito mal. Como sou pragmático e pago, infelizmente, impostos realmente acho que o problema é do governo.
Nani (Emiliana) disse…
Giulia, esta é minha primeira visita ao site, adorei!
Bom, vc tocou em dois pontos que considero fundamentais: controle de natalidade e educação.
No que tange o primeiro, sou bem radical e vou, inclusive, de encontro a alguns princípios constitucionais: mulheres de baixa renda NÃO PODEM TER MUITO FILHOS. Há que haver uma limitação nisso. Seja por bem, ou por mal! Deveria ser lei!!! (Mas às vezes paro pra pensar se estou certa, pois nao sei se o Estado tem "competencia" para interferir na liberdade de escolha neste caso. "Só pq trata-se de genitora pobre, ela terá que sofrer esse limite????") No entanto, defendo esse posicionamento pensando nos 1000000000000 de casos de crianças "largadas" nas favelas. É uma coisa óbvia: a mãe pobre não pode arcar financeiramente com a educação do filho. Tendo em vista que o nosso Estado está "falido," (por culpa NOSSA,pois nós elegemos nossos maus representantes!!!), percebe-se que ele nao tem arcado, não tem investido na educação!!! Ou seja, se a minha mãe nao tivesse tido grana para pagar "boas" escolas para mim, e eu dependesse do Estado, talvez hj eu nao estivesse aqui, escrevendo neste site. Talvez, estivesse presa, ou cometendo algum ato ilicito, exatamente nesse momento.........
O problema é que o brasileiro é imediatista: ele quer ver resultado hj! Então, ele acha que se aumentar a rigidez da legislação, aumentar a pena, por exemplo, basta!!! Quando na verdade, nao eh assim!!!
Ninguém deixa de cometer crime por saber que a pena máxima de um homicidio qualificado é de 30 anos de cadeia!!! O que pode contribuir para a prática de crimes é a IMPUNIDADE!!! Isso sim!!!
Ouvi muita gente de gabarito sugerir que os menores de idades que cometessem crimes, passassem a ter tratamento igual aos maiores. Concordo que um rapaz de 16 anos que mata alguém, entende perfeitamente que está errado fazer isso. Porém, devemos analisar nosso sistema carcerário: cada vez mais precário, e com menos condições de ressocializar o individuo.
As penitenciárias estão mais do que superlotadas!!! E ainda querem misturar os menores de idade com os maiores????? rssss (SO RINDO MESMO!!!)
TÁ NA HORA DE REPENSARMOS:
- VOCE ACHA QUE UM CONDENADO TEM QUE "SOFRER" NA CADEIA, TEM QUE SER DESPERSONALIZADO, FICAR SUBMETIDO A TRATAMENTOS DESUMANOS???
SE VOCÊ ACHAR ISSO: LARGUE DE SER HIPÓCRITA E ASSUMA LOGO QUE É A FAVOR DA PENA DE MORTE!!!
Pois, caso contrário, o condenado que recebeu tratamentos desumanos, os quais so contribuiram para aumentar sua revolta, VAI VOLTAR ÀS RUAS. E A PRÓXIMA VITIMA PODERÁ SER VO-CE!
Se nada for feito, a violencia vai se tornar cada vez mais insuportável. Isso é o obvio!
Giulia disse…
Olá, Nani, obrigada pela visita. É um assunto muito delicado e a opinião das pessoas costuma ficar entre dois extremos. Eu entendo que o debate e a troca de opiniões é a solução para encontrar novos caminhos, já que os velhos não deram em nada. Mas, em qualquer situação, não serão o preconceito e o radicalismo que poderão encaminhar uma solução efetiva e a longo prazo.
Discute-se muito pouco neste País e você pode ver isso facilmente nos próprios blogs. Se você faz uma colocação "polêmica", quem discorda já vai mudando de site ou responde de forma mal educada e nunca mais aparece.Mas eu acho que assuntos desse tipo merecem muita reflexão e muita troca de opinião. Até hoje são tratados na base da rapidinha e deu no que deu... rsrs

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