Acertando o rumo


O dossiê Qualidade da Educação, publicado pelo Estadão em 29 de abril, é o que de melhor tenho lido nos últimos anos sobre o assunto. É triste que esta discussão fique “entre quatro paredes”, pois um ótimo caderno como esse mereceria ser comentado em todos os cantos. São doze páginas com muita informação e comentários interessantes que me deixaram ruminando o assunto durante vinte dias. Não quero aqui resumir a matéria, pois seria impossível, devido à amplitude e à qualidade dos textos. Só lendo mesmo e guardando com carinho para conferir as mudanças (ou não...) dentro de algum tempo.

Tenho criticado a grande mídia, mas desta vez me surpreendi positivamente. Tomara que O Estado venha a mostrar o mesmo empenho na abordagem dos problemas pontuais do ensino público, no que tem “estado” bem ausente...

Vou apenas dar uma idéia do que achei interessante no caderno, dentro do meu ponto de vista de mãe de ex-alunos de escolas públicas, que sentiu na pele os problemas estruturais da rede e continua recebendo as mesmas denúncias de pais e alunos do País inteiro.

Apesar dos elogios, vou começar com uma crítica ao dossiê, que passou por cima de um ponto muito importante. O conceito de que o Brasil conseguiu universalizar o acesso à escola não está correto. Podem ter havido melhoras extraordinárias, mas o País ainda está longe de oferecer vagas para todas as crianças e principalmente para os adolescentes. Existe uma grande manipulação das vagas escolares por diretores de escolas, políticos etc., principalmente em municípios menores, mas também nas periferias dos grandes centros, que impedem a milhares de alunos o acesso e principalmente a permanência à escola pública próxima de sua residência. Pode não parecer, mas isto afeta enormemente a aprendizagem. Uma criança obrigada a andar durante dois quilômetros na ida e dois na volta, muitas vezes sem alimentação adequada, rende muito pouco na escola, se é que não abandona os estudos. Este é um dos fatores do grave fenômeno da evasão escolar.
Além disto, muitas escolas negam vagas aos alunos repetentes, com a alegação de que “nesta escola só estuda quem estiver a fim de”...
Outro problema sério, exaustivamente documentado neste blog, é a expulsão de alunos pelo Conselho de Escola, uma prática comum em todo o Brasil e que culmina com a exclusão de muitos adolescentes.
Já sei que vou receber críticas por estas colocações, pois o assunto é considerado irrelevante. Quem discute educação na sociedade são pessoas de classe média, incluindo professores e diretores de escola, que não dão a mínima para as dificuldades de alunos carentes, excluídos da escola por politicagem ou perversidade. O maior preconceito no Brasil não é contra o negro, o homossexual ou o deficiente, é contra o pobre...

O dossiê do Estadão consegue mostrar a dificuldade de se dar um rumo à educação no Brasil como um todo. E o problema não é o tamanho do país ou as diferenças regionais. O Brasil é um dos poucos países do mundo que, apesar de suas dimensões, tem uma língua compreensível de norte a sul! Muito diferente de pequenos países da Europa, por exemplo, onde o cidadão de uma região não entende o dialeto da região vizinha. Por que tanta dificuldade em ensinar a ler e escrever para as crianças brasileiras, que entendem tão bem o que se fala e que têm uma vivacidade e inteligência tão evidentes?

Uma das informações importantes desse caderno é que os cursos de pedagogia não ensinam ao professor como dar aula. O antigo curso de magistério foi substituído pela exigência de uma faculdade que não supre a necessidade básica do professor. Só se ensinam teorias. Isto é muito grave e se espera seja corrigido em breve. Os cursos de qualificação de professores, dados pelas redes públicas de ensino, têm se revelado máquinas de jogar dinheiro pra o ralo. Durante quatro anos, o Governo do Estado de São Paulo manteve o programa Teia do Saber para a qualificação de 85.000 professores, o que aparentemente não surtiu efeitos em sala de aula, só serviu aos profissionais, que receberam pontuação para sua carreira...

O Estadão acerta em cheio ao mostrar diversos projetos bem sucedidos, ilhas de excelência onde a qualidade de ensino é uma realidade, muitas vezes em regiões pobres e onde a população é pouco instruída. Outros projetos são desenvolvidos paralelamente ao ensino convencional, com os mesmos professores e nos mesmos ambientes, mas com resultados plenamente satisfatórios. Para bom entendedor, meia palavra basta...

E finalmente a matéria aponta a grande solução para a educação: a informação e a troca de experiências, com critério e competência. Exatamente o que falta! Nenhuma escola procura buscar conhecimentos onde há experiências bem-sucedidas, não há integração nem interesse em trocar informações, mesmo em escolas da mesma rede. Isto tem tudo a ver com a falta de espírito comunitário e o individualismo da nossa sociedade, onde ninguém quer mostrar suas deficiências nem dar o braço a torcer para o vizinho. Por troca de experiências não se entendem intermináveis reuniões e bate-papos regados a cafezinho, bem ao gosto nacional. É o estudo de dados concretos aplicados à realidade, no sentido de encontrar o rumo certo. Já está na hora de implantar uma política educacional que funcione a curto, médio e longo prazo. Uma política que consiga sobreviver após as trocas de governo. O Brasil já perdeu o bonde da “década da educação”, iniciada em 1996 com a nova LDB. Quanto tempo ainda vamos ter que esperar para ver o País cumprindo a meta mínima de alfabetizar as crianças em letras e números?

Comentários

Pais Online disse…
Giulia, sim, o Estadão está de parabéns pelo caderno (quem não leu na época pode ver nesse url: http://txt.estado.com.br/editorias/2007/04/29/index.xml?editoria=ger para quem não for assinante infelizmente apenas 3 artigos estão disponibilizados) mas temo que foi lido por uma minoria, justamente aquela que gosta de ponderar os assuntos mas que pressiona muito pouco as autoridades para que a legislação existente seja de fato cumprida e as mudanças ainda necessárias sejam efetivamente implementadas. Se as leis educacionais fossem cumpridas iriam se resolver rapidamente muitos dos problemas que travam o avanço do ensino público no Brasil. As reclamações dos pais/mães são sistematicamente ignoradas, frustrando seus esforços para melhorar a educação de seus filhos e deixando-os sem esperança e sem saída. Ontem recebi um email de uma mãe que depois de tentar em vão resolver a situação de horror que impera dentro da escola municipal dos filhos dela, me pergunta assim: O que eu faço, jogo a toalha e mudo meus filhos de escola?
Quem responde?
David disse…
Giulia, sendo muito franco?
A tal "Universalização de Ensino" é a mesma que se aplica a trabalho, moradia, segurança, transporte e saúde.
Como o Governo (em qualquer nível) se preocupa com problemas que não deveriam ser de sua alçada (Petróleo, como exemplo por excelência), o que realmente interessa fica para quinto plano. Assim tal universalização fica restrita a quem consegue se inserir no contexto de agraciado/apadrinhado.
Você acredita que está ruim? Clap your hands, ficará pior.
Passarim disse…
Giulia,

Não pude ler a materia completa no Estadão mas pela sua avaliação ela foi muito boa. Mas o melhor que o Governo pode fazer pelo Brasil é investir em educação e não adianta fazer Marketing sobre o assunto. Educação é um processo continuo, quero dizer perene, deve estar em constante desenvolvimento. O que os Governos não fezeram no passado reflete nesta decada e o que este fizer refletirá ou deixar de fazer terá seus efeitos na seguinte. Isto é um processo em constante evolução ou involução, dependente sempre da dicisão política de cada governo. O Governo quer bem ao seu povo investe em educação, os que querem explorar seu povo, finge que investe. Vamos aguardar os efeitos. Abs do Jarbas do Aparte.
Giulia disse…
Sim, a situação está muito ruim. Se realmente houvesse alguma tendência concreta para melhoras significativas, o assunto estaria fervendo na mídia e não pipocando do jeito que está. Mas uma parte da culpa é nossa, me desculpe o Serjão que gosta de atribuir tudo ao governo. Não sabemos nos unir para cobrar, deixamos o barco rolar e aceitamos o comodismo e a preguiça dos nossos servidores públicos, desde o motorista do ônibus que não pára no ponto, o diretor de escola que expulsa alunos, até o deputado que trabalha três dias por semana e ainda reclama. Na educação o problema é mais sério, pois envolve o exemplo dado às novas gerações: o professor que falta a bel prazer, a escola sem merenda por falta de prestação de contas, a sala de aula interditada por causa das goteiras e aí vai...