Carta aberta ao Ministro da Educação


Prezado ministro Fernando Haddad,

Já lhe chamei de nome feio na net e estou aqui para me retratar.
Não que eu tenha mudado de opinião. Ainda não. E talvez eu não mude. Mas entendo que vale a pena procurar canais de comunicação com as autoridades, na esperança de que elas tomem cuidado em suas afirmações públicas e revejam suas posições.

Venho aqui comentar algumas declarações que V.Sa. tem dado à mídia e que despertaram minha ira. Após o primeiro susto, consegui me reequilibrar, como é de esperar de uma pessoa da minha idade. E é este o argumento que vou usar com respeito às suas declarações: entendo que, devido à sua pouca idade e ao seu desconhecimento sobre o funcionamento das escolas públicas em todo o País, o Sr. tem feito colocações perigosas, que podem continuar alimentando o marasmo em que afunda a educação no Brasil.

Sua declaração mais chocante foi para um canal de televisão, ao afirmar que
o processo de decadência da educação no Brasil se deu quando a sala de aula deixou de ser o espaço para aprender e se tornou espaço de convivência.
Sr. Ministro, tal declaração só poderia ser dada por alguém que não tem idéia do que se tem passado dentro das salas de aula nas últimas décadas. Talvez o Sr. tenha procurado informações com assessores que também carecem de experiência na educação pública. Livre-se dos burocratas, Sr. Ministro! Visite pessoalmente as salas de aula deste País, mas sem programação, sem agendamento, sem o séquito de assessores que poderão ser, se não incompetentes, mal-intencionados. Então vejamos:

A idéia da escola como espaço de convivência e prazer remete à “pedagogia do afeto” do ex-secretário da educação do Estado de São Paulo, Gabriel Chalita, que durante anos divulgou suas teorias para o Brasil inteiro, distribuindo seus livros delirantes, melosos e hipócritas, mesmo após sua saída da Secretaria. Eu disse “hipócritas” e reafirmo o adjetivo, pois nunca a rede pública estadual de São Paulo foi tão autoritária quanto durante a gestão Chalita. Sabe por quê? Porque a impressão dada para os canais de comunicação e para os formadores de opinião - cujos filhos estudam na rede particular, portanto não têm a mínima idéia do que se passa dentro de uma sala de aula da rede pública – era de que as escolas eram espaços “de boa convivência, de prazer, de afeto”.

Mentira enorme, Sr. Ministro!!!

O ex-secretário Chalita nunca visitou uma sala de aula e se recusou a nos receber, mesmo após agendarmos uma reunião com seus assessores. Nossos filhos estudaram na escola do Chalita e sofreram todo tipo de agressão psicológica lá dentro, o que nos levou a redigir a Cartilha sobre os Direitos dos AlunosRecebemos denúncias do Brasil inteiro, inclusive vídeos, que mostram o seguinte: a escola pública em todo o País é um lugar inóspito, agressivo, autoritário, no mínimo desagradável. Palavra de quem sente isso na própria pele e procura ajudar outros pais, sabe por quê? Porque esses pais não obtêm respaldo algum junto às autoridades! Não seria muito mais fácil que eles encaminhassem suas denúncias para os sites das Secretarias da Educação ou do MEC? Mas não: as encaminham para nós, pois lá eles simplesmente não são ouvidos!...

Portanto, cuidado com o caminho que o Sr. pretende tomar, Sr. Ministro! Afirmar que a sala de aula é um espaço de convivência e prazer é mentira e essa afirmação poderá levar os maus profissionais da educação a serem ainda mais autoritários e despóticos no trato com os alunos. Este ano, em São Paulo, numa das escolas mais “conceituadas” da rede estadual, o primeiro dia do ano letivo foi sem aulas, pois a direção chamou a polícia na porta da escola para impedir a entrada de alunos sem uniforme. Eles foram ameaçados com spray de pimenta e retirados um a um de dentro do portão por “educadores” que lhes fecharam as portas na cara. Alguns pais solicitaram que fosse instaurada uma apuração e seus filhos estão sendo perseguidos pela direção da escola. É essa a “boa convivência” de que lhe falaram seus assessores, Sr. Ministro?

Resumindo a ópera, pense melhor a respeito de suas afirmações, pois também nós, pais, queremos que a escola seja um espaço para o saber e chegamos a uma conclusão divergente da sua: os alunos não aprendem justamente porque a escola é um lugar de convivência ruim, onde o professor lhes grita na orelha, rabisca coisas incompreensíveis na lousa e apaga antes que eles tenham tempo de copiar, um lugar onde eles não têm voz nem estímulo. Os altos índices de evasão mostram isto claramente.

Outra colocação sua que me preocupa é com respeito à progressão continuada. Apesar de se mostrar a favor da manutenção do sistema de ciclos, seus argumentos são fracos e não convencem. Provavelmente sua assessoria também não soube orientá-lo a respeito, por isso permito-me dar-lhe alguns esclarecimentos: a progressão continuada tem fracassado apenas porque ela DÁ TRABALHO. E é por isso que a classe docente em peso clama pela volta da repetência. É muito mais fácil reprovar um aluno e deixá-lo no ano seguinte à mercê de um professor diferente, do que fazer sua avaliação e recuperação durante o ano em curso.

Veja, Sr. Ministro, a equação que temos divulgado no blog do EducaFórum:

PROGRESSÃO CONTINUADA = AVALIAÇÃO CONTÍNUA + RECUPERAÇÃO CONTÍNUA
(TRABALHO PARA O PROFESSOR).

REPETÊNCIA = ABANDONO DO ALUNO NO INÍCIO + EXPULSÃO NO FINAL DO ANO
(FOLGA PARA O PROFESSOR).
Para concluir, uma última recomendação: procure visitar as escolas brasileiras que apresentam o melhor Ideb e se surpreenderá ao ver ambientes de excelente convivência. É nesses ambientes que o saber consegue se difundir. Leia por exemplo nossa matéria sobre o Ciep de Trajano de Moraes:

Se precisar de dicas para visitar escolas onde nem o saber nem a boa convivência conseguem vingar, é só pedir, iremos junto!

Mais uma vez, desculpe a franqueza, mas tenho por mim que é melhor ter um aliado que discorda de nós com argumentos consistentes, do que muitos que dizem amém a tudo o que afirmamos. Na esperança de que V.Sa. procure obter um ponto de vista mais realista do ensino público, despeço-me com

um abraço,

Giulia Pierro

Mãe de três ex-alunos da rede pública de ensino
http://educaforum.blogspot.com/
educaforum@hotmail.com

Comentários

Serjão disse…
Oi Giulia
Eu acho que não entendi bem; Vc critica o ministro que condena a escola enquanto espaço de convivência (que por sinal é uma proposta do Chalita). É isso? Mas vc considera que este espaço de convivência, que vc defende, está sendo desenvilvido de forma autoritária por professores autoritários. Acho que é isso, se não for me desculpe. (rs)

Visitei a sua amiga e não achei a piada tão boa assim. Mas adorei saber que ela é da cidade mais deliciosa que eu conheço: LEOPOLDINA em Minas

Abs
Giulia disse…
Salve, Serjão! É muito mais do que isso. É o problema das propostas vazias ou burrocráticas. Proposta boa é aquela que dá certo, ou seja, que sai do papel e atinge resultados positivos. O Chalita foi uma grande enganação, veio com aquele papo furado de "pedagogia do afeto" e de abrir as escolas para a comunidade, mas na prática nada mudou numa rede já desgastada. E o pior é que sua assessoria de imprensa conseguiu espaço na mídia para promover sua "literatura" e propostas. Ao invès de abrir as escolas nos finais de semana, deveria ter fortalecido os Conselhos de Escola, que no ínterim viraram tribunais de exceção para condenar alunos. Além disso, ele foi camuflando a incompetência pedagógica da rede, ao impedir a divulgação dos dados do Saresp e a participação das escolas estaduais na Prova Brasil. Mas chega de falar do Chalita: basta dar uma folheada em algum dos seus livros para ver que se trata de pura perfumaria (e de péssima qualidade). Quanto ao Fernando Haddad, é extremamente preocupante esse "diagnóstico" que ele fez da decadência da educação. Se ele tivesse falado (o que eu concordaria), que a educação se perdeu nas mais estapafúrdias teorias e se esqueceu do mais importante - ensinar a ler e a escrever, seu discurso faria sentido. Mas, da forma como ele colocou, dá a impressão de que está sendo assessorado por gente absolutamente ignorante do que se passa diariamente nas salas de aula de todo o País, salvo as honrosas exceções que estamos sempre dispostos a divulgar. De um modo geral, as aulas são chatas e inconsistentes, 25% das aulas são vagas e o ambiente é hostil, ou seja, o próprio aluno é acusado de ser o culpado pela não-aprendizagem e pela violência nas escolas. Esta é a realidade na qual o ministro precisa focar, realidade que ele evidentemente desconhece. E o ponto de partida é a formação do professor nas faculdades, onde ele NÃO aprende a dar aula!!! Acabaram com o curso de magistério de nível médio mas não houve qualquer modificação nos cursos de licenciatura para que os professores saíssem das faculdades sabendo dar aula. Isto é sim muito grave, não esse papo furado sobre "ambiente de convivência".
A pobreza dessa declaração do ministro dá a impressão de que ele está apenas querendo colocar por terra a proposta do Chalita, que aliás não passou de um castelo de cartas. Guerra entre burrocratas?...
David disse…
Acordamos mal-humorados hoje?
Anônimo disse…
nossa, nem o amigo da blogueira entendeu o texto. É aquela coisa estranha de usar um TOM de discordância (por antipatia, por birra, por diferenças ideológicas, por preconceito ou sei lá o quê) para tentar cobrir o SENTIDO de concordância. Só que neste caso, fica um ruído horrendo na informação. O ministro falou exatamente o que você pensa, mas como ele é de um governo que você não tolera, o jeito foi "atacar". Mas atacar como se o que ele falou é o que você pensa? Ora, é só usar o tom de "eu estou muito puto com tudo".
Ricardo Rayol disse…
Detonou, enquanto eles quiserem varrer para baixo do tapete a sujeira não será feito nada pelos que pagam impostos e não tem pra onde correr.
Giulia disse…
"A blogueira" está voltando de uma maratona de trabalho e só agora viu o comentário do "anônimo". Caro anônimo (todo anônimo educado é tolerado), percebe-se que você não tem filho estudando na rede pública, portanto você faz um comentário abstrato e teórico. Não entendo como, neste país destruído por partidos corruptos e, no mínimo, TODOS coniventes com a corrupção, alguém ainda acha que se pode defender ou acusar algum político com base na opção partidária.
Como falar em "diferenças ideológicas" em um país destruído pela corrupção??
Se você tiver lido o que temos escrito sobre a educação no Estado de São Paulo vai entender nosso ponto de vista. Chegamos ao ponto de cortar relações com a SEE, coisa que não poderíamos ter feito, já que 90% das denúncias que recebemos são daqui do Estado. E você sabe qual é o partido que manda aqui no Estado, não sabe?...
A educação no Brasil VAI MAL em todos os Estados e independentemente do governo em exercício, caro anônimo! Isto, porque não interessa à classe formadora de opinião (políticos, empresários, profissionais liberais, inclusive e principalmente os profissionais da educação lotados em gabinetes) ter uma escola pública de qualidade para todos! A classe formadora de opinião escolheu pagar duas escolas: uma para seus próprios filhos e outra para os filhos...dos outros. É o único país do mundo (civilizado - ou não, dependendo do ponto de vista...) em que a sociedade não entende que o capital humano é o melhor ativo em que se possa investir. O individualismo é tamanho que o interesse de cada um não passa de seu próprio umbigo. No caso da educação é assim: "Tenho meu filho na escola particular e, se não estiver satisfeito, mudo ele de escola. Quanto ao resto do país que não puder pagar escola, que se dane...".
O ministro que você defende poderia ser, sim, de qualquer outro partido. Isto, porque a política no Brasil é essa "mérdia" que você assiste diariamente...
O que ele declarou publicamente é grave não porque ele seja de um partido ou outro, mas porque não está fundamentado em nada concreto e não apresenta soluções práticas. No Brasil, em termos de educação, estamos "no mato sem cachorro" há décadas! Se propostas bem fundamentadas mostram-se ineficientes após anos de prática, o que dizer de idéias estapafúrdias como as declarações desse ministro, que acabou de entrar na cena política??? Ele já parte de um ponto de vista totalmente delirante!!! Um ponto de vista de quem nunca entrou numa sala de aula da rede pública, a não ser, provavelmente, após a devida "preparação", como fazia o Sr. Chalita, "convidado" pelas peruas que comandavam a educação no Estado! Aliás, caro anônimo, você se esqueceu a qual partido o Chalita pertencia, antes de me acusar de partidarismo?...
Político brasileiro? Escola pública para seus filhos, sobrinhos e netos! Essa é a solução. Você leu o post acima?