Prêmio IgNóbil deEducação 2007


Vamos continuar aqui discutindo as candidaturas ao Prêmio IgNóbil de Educação 2007, instituído pelo Movimento Comunidade de Olho na Escola Pública. Na minha opinião a Rede Globo mereceria um troféu Hors Concours pelo conjunto da obra, pois continua apenas mostrando um lado da violência escolar, aquele em que a vítima é a classe docente. Em vez de entrevistar especialistas que possam interpretar esses casos com conhecimento de causa e mostrar novos rumos para a educação, a Globo limita-se a fazer reportagens tendenciosas. Leiam com muita atenção o texto do Mauro Alves da Silva sobre o desempenho da Rede Globo. Ainda tem tempo: o prêmio sai apenas em outubro.

O caso da Escola Classe 8
Qual deve ser a "punição" para uma criança de 10 anos que "costumava cantar e falar palavrões durante as aulas"? Depende... Se o caso acontecer na Escola Classe 8, em Brasília-DF, a professora, a direção, a Secretaria de Educação e o governador acham "normal" suspender a criança da escola e negar-lhe seu direito constitucional à Educação. Se nem mesmo um juiz pode pode suspender o direito constitucional de uma criança à Educação, não é uma escolinha que pode atuar ao arrepio da Lei...

Mas, no Brasil, onde as escolas públicas atuam como feudos da Idade Média, o aluno não tem seus direitos respeitados... alunos não têm sindicatos... crianças não votam... alunos são meras desculpas para garantir o emprego de maus profissionais que não aceitam nenhum questionamento nem avaliação dos seus fracassados métodos de ensino.

Reportagem não apurou os dois lados da história
O caso da Escola Classe 8 (em Taguatinga - cidade satélite de Brasília) seria mais um dos milhares de casos de violências diárias contra nossas crianças brasileiras, não fosse a atitude tomada pela tia do menino: ela invadiu a escola, invadiu a sala de aula e agrediu a professora...

Ninguém deve defender o uso da violência, mas não podemos ignorar que muitas escolas públicas não cumprem a sua finalidade de educar para a cidadania. Essas escolas só exigem que os alunos decorem "antigas lições de morrer pela pátria e viver sem razão". A agressão foi um surpresa desagradável: um dia de fúria. Mas o mais surprendente é a passividade do brasileiro, que não se revolta com a violência sofrida pelas nossas crianças nas escolas públicas. O mais surprendente é que isto não aconteça mais vezes. Não estamos fazendo absolutamente nada para garantir que alunos, pais e comunidade sejam respeitados nas escolas públicas. Ninguém se revolta contra a falência do ensino público.

Na reportagem Agressão na escola, do telejornal Bom Dia DF (Rede Globo de Brasília-DF, 30/07/2007), o jornalista fala que o aluno teve de sair de outra escola (Escola Classe 21) no ano passado: "porque ele e a mãe brigaram com outros estudantes"... Mas, curiosamente, o repórter "esqueceu-se" de levantar os "antecedentes" da professora e da própria escola... o reporter "esqueceu-se" de perguntar quais seriam os procedimentos pedagógicos que a escola deveria aplicar nos casos de indisciplina... o repórter evitou perguntar à mãe qual foi a agressão que a professora teria praticado contra o aluno.

A reportagem nem mesmo se preocupou em ouvir o Conselho Tutelar de Taguatinga, órgão criado por lei federal para zelar pelos direitos da criança e do adolescente... A reportagem ignorou completamente o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA (lei federal 8069/1990)...

A repercussão do caso
A Secretaria de Educação transferiu o menino, seus dois irmãos e um primo dele para outra escola... O governador do DF disse que vai abrir processo criminal contra a tia do aluno... Mas ele parece não estar preocupado em ouvir o outro lado, o lado dos "humildes", o lado de quem diz ter sido agredido pelos profissionais das escolas públicas... Aliás, esse governador entende muito bem de impunidade... Em 2001, José Roberto Arruda renunciou ao mandato de senador para escapar do processo de cassação: ele violou o painel do Senado Federal quando da votação secreta para a cassação do mandato do senador Luiz Estevão (em 2000)...

Memória
A Rede Globo ignorou completamente o caso do menino que fora xingado de "bicha" Caso EE Octacílo de Carvalho Lopes, 2004. Nem mesmo a reportagem É normal professor chamar aluno de 'bicha', diz secretaria (Jornal da Tarde, 24/03/2007) motivou a Rede Globo a fazer uma reportagem sobre professores que desrespeitam seus alunos ou sobre a homofobia nas escolas públicas.

Dois pesos, duas medidas
Um aluno de 10 anos "canta e fala palavrões" na sala de aula...
Pena: suspensão e/ou transferência de escola...
Um professor, com mais de 10 anos de magistério, xinga um aluno de "bicha" em plena sala de aula...
Pena: promoção para o cargo de professor coordenador...

Escola, Injustiça & Homofobia
Tem muita hipocrisia nas críticas contra o juiz que declarou que lugar de homossexual não é no futebol.
Juiz nega ação de jogador e diz que futebol é para macho, Revista Consultor Jurídico, 03/08/2007).
A homofobia, o preconceito e a discriminação são "ensinados" diariamente nas escolas brasileiras... e as autoridades públicas pouco fazem para reverter este quadro:
  • A Secretaria Estadual de Educação de SP acha normal professor chamar aluno de bicha...
  • O Ministério Público de SP ignorou a confissão do professor, disse que era a palavra do aluno contra a palavra do professor, e pediu o arquivamento do processo criminal...
  • O Poder Judiciário de SP ignorou as testemunhas, o laudo médico (agressão física), a confissão do professor e determinou o arquivamento do processo...
  • A grande imprensa aderiu alegremente à Conspiração do Silêncio que impera nas escolas brasileiras (públicas e privadas). As nossas crianças continuam sofrendo agressões físicas e morais nas escolas brasileiras...
Ficamos indignados com a sentença do juiz, mas ela não nos causou surpresa. O juiz certamente expressou o pensamento de muitos hipócritas: "Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas, forme o seu time e inicie uma Federação. Agende jogos com quem prefira pelejar contra si." Esse juiz certamente frequentou um banco escolar e viu que a homofobia, com agressões físicas e verbais, é o principal preconceito e a principal discriminação praticados nas escolas brasileiras, sem que ninguém tome medidas eficazes para prevenir tal ocorrência, nem punir os agressores e as autoridades omissas.
No caso das escolas públicas brasileiras, já tem gente defendendo escolas exclusivas: "escolas para quem quer aprender", "escolas para desordeiros", "escolas para pobres", "escolas para negros", "escolas para deficientes"... não demora e teremos gente defendendo "escolas para homossexuais"...
O caso Escola Classe 8 merece concorrer ao Prêmio IgNóbil de Educação 2007 por práticas que não devem ser repetidas na escola pública. Caso vença a Escola Classe 8, o Prêmio IgNóbil de Educação 2007 deverá ser dividido com a Secretaria de Educação de Brasilia, com o governador e com a equipe de reportagem do "Bom Dia DF" (DFTV, Rede Globo de Televisão, de Brasília).

Comentários

Santa disse…
Oi, GIULIA

notícias da Santa.

Amanhã faz a primeira revisão da cirurgia. Ela ainda sente algumas dores, está tensa, chateada. Mesmo assim lembrou dos leitores do blog e pediu que eu transmitisse os agradecimentos pelo carinho recebido.

(Santinha, a estagiária)
Ronald disse…
GIULIA, o prêmio igNóbil, que conheço agora, será muito concorrido em razão da total falência do ensino público. Está na cara, mas quem tem o poder de solução não enxerga.
Kelvin disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Kelvin disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Kelvin disse…
Olá Giulia, que bom q posso contar com uma pessoa tão mente aberta quanto você para nos mostrar as barbaries do nosso cotidiano!!
alguem como a senhora que é uma pesquisadora e crítica responsável sobre as análises deveras realistas e desvinculadas de qualquer preconceito.
bem, acaso a senhora fez uma pesquisa minuciosa acerca do passado desta tia, deveras corajosa, que entrou na escola de peito aberto para defender a honra e integridade de seu sobrinho que sofria nas mãos da maldosa e terrível professora?! tipo o fato de ela já ter passagem pela polícia pelo mesmo motivo de agressão.
bom... talvez não...
mas, e o historico do pequeno garotinho, vítima do sistema?! que já havia sido transferido para o 8 pelo mesmo motivo q gerou essa reportagem, onde sua mãe já havia agredido outros funcionários na antiga escola.
Tambem não?!... hummm...
tudo bem tudo bem... alguem q dispõe seu tempo pra ficar postando notas de conclusões impíricas em seus blogs, e fazendo a manutenção de seus ajuntamentos em pró da melhoria mundial, talvez não tenha lhe sobrado tempo pra pensar em tudo isso, antes de assistir uma reportagenzinha na tv, e levado por um esteriótipo q você já criou, atacar a sua presinha preferida.
bom, um grande abraço e espero notícias suas!! continuamos contando com você!!

(ps: isto não foi uma defesa a instituição pública de ensino, mas um insulto a sua falta de ética e discernimento, ao escrever esta porcaria de observação.)
Anônimo disse…
Olá giulia!Parece que você é formada em advocacia e pelo visto gosta de causas perdidas.Assim você pode deixar de ganhar dinheiro e ganhar fama de advogada do diabo!!!Reflita,ainda dá tempo de mudar de lado....