Bibliotecas fechadas!


Sempre que pais e alunos de alguma escola nos procuram por algum motivo, aproveitamos para perguntar: a biblioteca da sua escola funciona? Em 90% dos casos, a resposta é não.

Em clima de "saudade", lembramos que no ano 2000 publicamos em nosso antigo site uma matéria sobre a falta de biblioteca nas escolas e lançamos a mesma pergunta. O resultado foi o mesmo.

Na maioria das escolas existe uma sala onde se amontoam livros e revistas, mas muito raramente a porta dessa sala se abre para os alunos. O argumento para justificar a ausência de uma biblioteca dentro da escola é sempre o mesmo: "Faltam funcionários para catalogar os livros e fazer o atendimento dos alunos". Ledo engano.

Para fazer uma biblioteca funcionar, basta que a equipe docente da escola tenha interesse e envolvimento no assunto. Bastaria um pequeno mutirão para ativar uma biblioteca escolar, pois cada disciplina tem livros e revistas de interesse para utilização em sala de aula. Mas a maioria dos professores não lê nem gosta de ler, portanto os livros vão sendo amontoados e abandonados até se tornarem sucata. Em agosto do ano passado relatamos um caso interessante que ocorreu na EE Victor Oliva, em São Paulo. A avó de uma aluna se prontificou a organizar a biblioteca da escola, mas desistiu pois foi hostilizada pelo corpo docente. Pois é, os professores não quiseram por a mão na massa e ainda acharam ruim alguém de fora tomar providências...

Em compensação, as poucas escolas onde a biblioteca realmente funciona são as que se destacam dentro do marasmo em que se encontra a educação pública, como o Ciep de Trajano de Moraes, que faz da biblioteca um dos seus mais importantes recursos pedagógicos. Quem sabe, sabe!

O governo federal joga anualmente milhões de reais no lixo, entupindo as escolas de livros que acabam abarrotando salas empoeiradas e abandonadas. Até quando vamos aceitar que o nosso dinheiro seja utilizado apenas para beneficiar gráficas, editoras e lobistas, enquanto milhares de crianças e adolescentes brasileiros continuam engordando as estatísticas do analfabetismo funcional?

Para você, que gosta de leitura e de livros, uma linda imagem de Claude Monet.

Comentários

Anônimo disse…
Faço aqui uma proposta direta. Pressão sobre a prefeitura para a melhoria do ensino nas duas primeiras séries. Contratar os melhores professores (com salário melhor), fazer testes reais com tais professores, acompanhar cuidadosamente a evolução dos alunos, cobrar metas de produtividade, aferidas por outras pessoas, de forma a garantir que o ensino fundamental, no primeiro e segundo anos, seja perfeito. Sem diminuir a qualidade de ensino nos outros anos.

Daí para frente, tudo se torna mais fácil.
Anônimo disse…
Complementando o comentário anterior:
A idéia é ter profissionais capacitados o suficiente para garantir que nenhuma criança seja mal alfabetizada.
Adriano disse…
Proposta direta:

Que a prefeitura contrate profissionais com formação devida e autorizados por lei para atuarem nas bibliotecas escolares.Estes são os biblioteconomistas.

O professor é formado e devidamente autorizado por lei para dar aulas. O contrato de trabalho assinado com as secretarias de educação (com o respectivo salário)para atuarem na função de professores e não como bibliotecários, administradores, faxineiros etc.

Neste sentido, porque as prefeituras não param de tapar o sol com a peneira e vão investir nas esferas de orçamento e gestão educacional de suas escolas.

Afinal, acho difícil os secretários de educação e prefeitos desejarem fazer trabalho voluntário nas bibliotecas das escolas de suas cidades.

Então, esta filosofia de trabalho voluntário não deve ser observada, pois uma filosofia de trabalho decente apregoa que deve haver profissionalismo na gestão dos ofícios, isso inclui remuneração e definição objetiva dos papéis de cada profissional, dos alunos e dos pais dentro do sistema educacional.

A atitude da vozinha é louvável, mas porque ela não foi cobrar do prefeito ou à Câmara dos Vereadores que contratem biblioteconomistas para atuarem na biblioteca daquela escola?

Veja bem, leitor, você está na sua empresa - na qual é contratado para ser, digamos, advogado - e o chefe "pede" para você além de advogar (lembre-se que sua jornada de trabalho já está carregada), também trabalhe na biblioteca de sua empresa ganhando apenas um e o mesmo salário de advogado. Você iria sorrindo feliz como voluntário ou quem sabe um sacerdote? Duvido.

Por isso, não se deve exigir que professores fiquem fora dos seus ofícios como acontece, pois isso é má gestão das prefeituras com relação aos sistemas educacionais.

Salvo meu engano, Keynes dizia que "não existe almoçar grátis, apenas degustar". Não existe profissão sem remuneração, sem gestão, sem delimitação dos trabalhos a serem feitos. Quantos de nós gostaríamos de trabalhar nas bibliotecas das nossas escolas, durante os 200 dias letivos no ano, sem nenhuma remuneração, sem nenhum treinamento? Quantos de nós cobram das prefeituras esta gestão e detonamos apenas os professores?

Abraços
Giulia disse…
Olá, Adriano, você parece muito bem intencionado, mas, francamente, não me convenceu. Em primeiro lugar, essa história de altos salários para quem ainda não mostrou competência só cola na educação.
Além disso, professor de português, história, geografia e ciências que utiliza apenas um livro didático dá uma aula ruim e os índices estão aí para comprovar. Bastaria que a equipe de português, a equipe de história, a equipe de ciência etc. de cada escola separassem os livros interessantes já disponíveis, para formar uma biblioteca ou até minibibliotecas. Mas quem é que consegue fazer professores trabalharem juntos dentro de uma escola pública?... Quanto à cobrança para a prefeitura e o Estado, não seriam os sindicatos os mais interessados? Por que eles só falam de salário? Alguém já viu professor no carro de som pedir para o governo providenciar bibliotecário nas escolas para poder ativar a biblioteca???...
Então mais uma vez peço para os interessados lerem a respeito do Ciep de Trajano de Moraes, onde o corpo docente trabalha de forma integrada e faz da biblioteca o centro da escola. Já trouxemos essa história N vezes.
Anônimo disse…
Os sindicatos não são a resposta. São intrumentos de poder de partidos políticos. Jamais terão interesse real em qualidade de educação.

Penso que a maioria dos professores não tem interesse real nos alunos. E as secretarias de educação só servem para atender interesses políticos.
Giulia disse…
Ôpa, um anônimo que pensa! Faça a gentileza de colocar um nome, pelo menos para não confundir os leitores. Você pode perceber que os "anônimos" abundam aqui e a maioria só fala besteira. Por favor, se identifique, para a gente poder trocar mais idéias. A gente não morde! rsrs
Aliás, debate de idéias não tira pedaço de ninguém!!! Não entendo porque as pessoas têm tanto medo de se identificarem. Seja você João, Maria ou José, você deu um enfoque muito interessante para a questão. Quando falei dos sindicatos reivindicarem bibliotecários nas escolas, fiz ironia! É claro que os sindicatos não têm interesse algum em melhorar a qualidade do ensino! O negócio deles é "promover" os partidos políticos e enriquecerem de forma inconfessável.
Quanto ao mérito da nossa questão, continuo dizendo que bibliotecário nenhum vai melhorar o ensino. Se o professor não tiver interesse em ampliar a base de conhecimentos do aluno, ele vai continuar "dando aula" com o livrinho didático dele, colocando um monte de abobrinhas na lousa e assim tudo continua como está...
"Penso que a maioria dos professores não têm interesse real nos alunos." Também penso assim, senti isso na pele durante todos os anos em que meus filhos estudaram. Mas, meu(minha) amigo(a), alguns professores foram absolutamente excepcionais, como a Maria Elisa, professora de história que mudou para sempre a forma do meu filho do meio encarar os estudos. Viu, viu, viu, que a gente prestigia o professor??? Só os medíocres se sentem ofendidos com o que a gente publica aqui...
Ricardo Rayol disse…
Pois é, por que incentivar a cultura se isso não interessa a ninguem?
Adriano disse…
Olá Giulia e demais comentadores!
Desculpe-me a demora em retornar ao debate, tive que resolver alguns problemas técnicos no computador. Mas continuemos, pois concordo que um debate, quando respeitado o princípio da cordialidade, não arranca pedaço e a dialética é salutar para se alcançar novas interpretações e no caso da Educação Brasileira possíveis soluções.
Giulia,não esperava mesma convencê-la, minha amiga, uma vez que sua visão já está consolidada e por termos, pelos menos aparentemente, filosofias de trabalho diferentes.
Me corrija se eu estiver errado, mas me parece que sua linha de pensamento é:

1.Pautada no trabalho voluntário do professor.
2.Há uma tendência a não considerar o professor como parte integrante de um sistema.
3.A questão salarial não pode ser discutida e não faz parte dos problemas gerais da educação.

Minha filosofia de trabalho é baseada nos seguintes pressupostos:

1.O professor é, antes de tudo, um profissional como outros profissionais. Como tal, assina um contrato de trabalho para exercer seu ofício.
2.O professor é parte integrante de um sistema. Os professores são a linha de frente deste sistema, se parte dele (ou ele todo) não funciona bem, a relação ensino-aprendizagem fica defasada.
3.Nas secretarias de educação deve existir uma gestão administrativa que seja base para uma gestão pedagógica que tenha como objetivo a qualidade da formação dos estudantes. Como preconiza a CF/88 no art. 206,incisos VI e VII.

Outro dado é evitarmos de pensar com generalizações, pois essas podem incorrer em erros de interpretações, nos fazendo cair em falta de objetividade para analisar
a situação. Existem, profissionais e picaretas, sindicatos e sindicatos, escolas e escolas, alunos e alunos, pais e pais. Lembrando que a educação é dever dos pais e do Estado. Como também está descrito na CF/88, art.205.
Neste sentido, existem inúmeros professores que vão muito além de um único livro didático, fazem inúmeros cursos de aperfeiçoamento, possuem especializações, mestrados e doutorados que trabalham em escolas públicas e privadas e realizam seu trabalho de maneira altamente qualitativa.
E claro, existem os que não fazem nada disso. Da mesma, maneira que existem pais que não se importam o mínimo com a educação de seus filhos.
Por isso, volto a defender um sistema de gestão que possa priorizar estes bons profissionais e extirpar, de acordo com os ditames legais, estes maus professores. Mas que também priorize os bons diretores, os bons secretários, os bons técnicos administrativos, os bons agentes de limpeza etc.
Dentro de um padrão de gestão qualitativa, os papéis de cada integrante do sistema, deve ser bem definido para que haja uma dedicação exclusiva a sua função. Isso permite que se crie, rapidamente, a)um acúmulo de conhecimento naquela área (basta lembrar que um bom pedagogo é formado e estuda a área da Educação profundamente e isso confere credibilidade ao seu trabalho, um psicólogo idem, um médico idem,um escritor idem etc). b)Evita problemas legais de desvio de função. c) Não desloca professores que possuem a função precípua de estarem em sala de aula, evitando a falta de professores em sala.
d)A definição clara de papéis também permite um controle social mais efetivo, o acountability. Os profissionais são responsabilizados por cumprirem ou não sua função.
Por isso, a questão dos biblioteconomistas. São treinados, formados para exercerem este trabalho da melhor maneira possível, mais do que qualquer professor, mais do que qualquer um de nós que não tenha esta bagagem de conhecimentos. Da mesma maneira que um professor licenciado, meios de transmitir este conhecimento para os estudantes que o biblioteconomista.
Do mesmo modo, quando temos um problema de coração,não vamos a um ortopedista, vamos a um cardiologista.Não vamos a um advogado que voluntariamente adquire alguns conhecimentos e pode nos tratar, mesmo que ele seja tão bom quanto um médico.
Qualquer curso de gestão de recursos humanos e qualidade total apregoará tal linha de ação. Tanto que os melhores colégios públicos ou privados em Brasília, seguem esta filosofia de trabalho.
Em suma, o que quero dizer é evitar o improviso - mesmo que seja um bom improviso - e adentrarmos no profissionalismo do sistema como um todo. O mesmo vale para técnicos administrativos e diretores sem curso de Administração Escolar (alguns chamam de Gestão Educacional).
Com relação a questão salarial, perdoe-me discordar de sua posição minha amiga Giulia. Não se trata de uma questão de altos salários, mas de salários dignos, nem de provar que os profissionais da educação a merecem. Seguindo tal linha de raciocínio, todos os servidores públicos e funcionários privados indistintamente deveriam provar por anos a fio que merecem os seus salários. Partindo de tal princípio, um operário numa fábrica ou um CEO de um empresa, ou um médico, enfermeiro da rede pública o privada deveria passar anos inteiros sem receber remuneração ou recebendo apenas ajuda de custo para ver se possuem mérito? Tal idéia beira uma filosofia escravagista.
Quando a pauta principal de reivindicações de um sindicato é o salário, é porque, devemos lembrar, sempre que estamos numa economia que se movimenta baseada em remuneração monetária. Todos os indivíduos devem ter uma remuneração que permita uma vida digna. Também entende-se que um profissional que recebe melhor têm condições de oferecer um melhor serviço, pois não necessita trabalhar 60 horas semanais, o que prejudica a saúde, pode fazer cursos de formação etc. Em Brasília, com carga de 20 hs semanais de trabalho comecei recebendo inicialmente apenas R$750,00 (incluso R$129,00) de salário.
E em em muitos colégios há problemas de infra-estrutura, o giz é racionado,há traficantes nas portas e inúmeros outros problemas. Neste contexto, faz-se o que é possível ser feito.
Não sei de outros sindicatos, mas em BSB, há outras pautas, já sugerimos que haja outro concurso para suprir a demanda de mais psicólogos, psicopedagogos, orientadores educacionais (todos profissionais indispensáveis no cotidiano escolar); uso de diários de classe eletrônicos; reforma das escolas e diversos outras pautas.
E retorno a pergunta, dentro da situação atual das escolas brasileiras,alguém se habilita a trabalhar voluntariamente os 200 dias letivos, numa escola com as condições descritas acima?
Naturalmente, o esforço de uma equipe de uma unidade escolar (entenda-se diretores, professores etc)pode gerar algumas soluções temporárias para algums problemas macroestruturais e macrosociais de na comunidade que está inserida e isto é visto em diversas escolas, mas a consolidação permanente de tal solução depende da melhoria qualitativa de todo o sistema educativo.
O ponto de vista expresso acima possui como referência a realidade brasiliense. E neste contexto, muitos profissionais da educação (professores, diretores, coordenadores, orientadores, pessoal administrativo) são altamente interessados pelos seus alunos, como muitos não o são. E é o do meu desejo que estes últimos sejam retirados.
Também entendo que não devemos resvalar num pessimismo que nos faça interpretar tudo como um caos sem solução. Estas existem e são efetuadas diariamente, pelo menos num nível de pequeno raio de ação.

Abrações
Adriano disse…
Perdoem-me o erro,o texto correto é este:

Da mesma maneira que um professor licenciado,digamos em Química, possui melhores meios de transmitir este conhecimento para os estudantes que o biblioteconomista.

Abrações
Giulia disse…
Adriano, gostei demais do seu texto! Veja, não fechei questão em absolutamente nada, aliás, acho que TEORICAMENTE você está coberto de razão. O grande problema, no Brasil, é a REALIDADE. Quando você fala que o professor está inserido em um sistema, quem pode discordar? O problema é que o sistema, na maior parte das escolas (recebemos mensagens de quase todos os estados!), é uma MÁFIA que favorece os maus profissionais. E os bons, NA TEORIA, são a favor do afastamento dos maus profissionais, mas NA PRÁTICA não mexem uma palha, pois não têm coragem de enfrentar o sistema, ou seja, a MÁFIA. Se você tiver a mesma paciência que eu tive ao ler o seu texto, para ler as mensagens dos nossos leitores, vai descobrir depoimentos de pais certamente pouco cultos, mas bastante inteligentes, mostrando como essa MAFIA age de fato. Essa realidade eu posso confirmar pela minha experiência pessoal de mãe de TRÊS (não um, nem dois) ex-alunos da rede pública, tanto municipal quanto estadual, de São Paulo. Gostaria que você lesse meu texto "Cavalo? É a mãe!", que posso te mandar por e-mail, se estiver interessado. Ele é um resumo dos fatos mais graves que presenciei, em termos de tratamento de alunos dentro da escola. É por isso que sempre repito que o professor, QUE É UM PROFISSIONAL COMO OUTRO QUALQUER (em suas próprias palavras), merece ganhar de acordo com seu merecimento, sua competência e sua responsabilidade, inclusive DE ACORDO COM O RENDIMENTO DE SEUS ALUNOS!
Meu modo de pensar foi mudando no decorrer do tempo. Já subi em carro de som de professor para reivindicar melhores salários, isto é, fui usada por uma corporação que não ofereceu nada em troca aos meus filhos e aos demais alunos da rede pública. Sabe por que? Porque os filhos deles estudam na rede particular! No fundo, o professor também quer o apartheid, ele se recusa a misturar seus filhos com seus alunos... A não ser as honrosas exceções que o EducaFórum publica SEMPRE QUE TOMAR CONHECIMENTO. Muitos professores concordam com a nossa linha de pensamento: veja nos links a Professora Maluquinha, a professora Glória Reis, a professora Marta Bellini etc. etc. Sabe por que? Porque não queremos outra coisa a não ser uma ESCOLA PÚBLICA DE QUALIDADE, IGUAL PARA TODOS os cidadãos do País. É para isso que lutamos há mais de quinze anos e mesmo após a formação de nossos próprios filhos.
Um grande abraço para você, na esperança de que continue a trocar idéias conosco.
Adriano disse…
Olá Giulia!

Continuando nossas reflexões, ao afirmar que o seu desejo é uma ESCOLA PÚBLICA DE QUALIDADE, IGUAL PARA TODOS os cidadãos do País, você se une também a muitos professores(as), pais e alunos(as) no país inteiro.

Todos nós temos este mesmo objetivo.

Objetivo posto e concordado, o desafio é o meio de ser chegar até este objetivo. Neste ponto, os caminhos são variados e divergentes.

Não sei como foi sua experiência como mãe de alunos na rede pública de ensino, pelo visto, não foi muito boa. Mas novamente sigo uma das minhas linhas de raciocínio expostas nas nossas conversas anteriores, que é o fato de sermos mais criteriosos na hora de conceituarmos, analisarmos diversas realidade e, principalmente, adjetivarmos as pessoas. Pois em vez de elucidar a questão, corremos o risco de aumentar o problema.

Com a relação à questão de maus profissionais que não são tirados porque o desejo da denominada "máfia", conforme sua conceituação, é de não quer tirá-los; esta afirmação é um tremendo exagero. Perdoe-me, mas dizer isto de sistemas educacionais e escolas espalhadas no Brasil inteiro seria pretensão demais.

Pelo menos em Brasília, muito esforço, ora mais ora menos devo admitir, conforme quem chega nos cargos dirigentes é feito para tentar melhorar todo o sistema. Aqui em Bsb, tenho que admitir que não estamos bem, mas há muitos profissionais das várias áreas da Secretaria de Estado de Educação do DF (SEE/DF) que estão pelejando por uma educação de qualidade.

Ontem mesmo, estava tendo uma reunião com minha Direção Regional de Ensino (DRE) para traçarmos uma estratégia de melhoria da leitura para os jovens que entram no supletivo de Ensino Médio. Também na reunião foram discutidas propostas de melhorias administrativas na DRE e nas unidades escolares, por exemplo, a realização de auditorias nas escolas para verificar infra-estrutura, pedagogias, uso do orçamento etc. Ação esta que ao longo do tempo deixou de ser feita nas unidades escolares, e facilitou a vida de picaretas.

Diversos profissionais de ensino são chamados constantemente para serem averiguados numa possível ação errônea ou omissão pelas ouvidorias das DREs.

Nesta semana, você não teve a oportunidade de acompanhar o debate entre eu, colegas professores versus direção da minha escola por causa de racionamento de giz. Sim! Começaram a racionar giz na nossa escola.Cheguei a comprar duas caixinhas para mim como emergência, mas vi que a coisa ia se extender e que a unidade escolar, deve oferecer condições de trabalho para os profissionais. No final, eu e um colega tivemos que pegar, em caráter de emergência 60 caixinhas na DRE. E essa história ainda vai longe...

Isso apenas para ficar nestes exemplos, dos inúmeros que poderia citar somente no Distrito Federal.

Afinal, também recebo mensagens e converso com professores do Brasil inteiro e eles me contam as iniciativas que dão certo, suas vitórias e derrotas dentro de seus sistemas escolares bons ou ruins.

Neste sentido, é que digo que mesmo recebendo mensagens do Brasil inteiro é estranho o fato de receber tão poucas com relação as iniciativas que deram certo.

É neste ponto que volto a dizer, existem histórias e histórias, secretarias e secretarias, municípios e municípios, escolas e escolas, profissionais e profissionais, pais e pais, alunos e alunos. Ao colocar todo mundo no "mesmo saco" perde-se o referencial e cria-se uma realidade mais caótica do que realmente é.

Veja bem, em nenhum momento, afirmo que as coisas estão boas, devemos melhorar e muito, mas não não podemos fechar os olhos às lutas diárias de centenas de profissionais e as centenas de escolas que exercem seu trabalho de modo fantástico.

Vamos aos meios de atingir a melhoria da educação brasileira. Uma das idéias é verificar o trabalho de unidades escolares de de acordo com rendimentos do aluno. Note que uso o termo unidades escolares (podendo ser extendido para Secretarias de Educação), pois o professor - conforme minha linha de pensamento - faz parte de um sistema.

Ok, concordo que devemos ser avaliados pelo rendimento dos alunos. Mas o que se entende por rendimento e quais os critérios para averiguar este rendimento?

Uma idéia que o Secretário de Educação do DF quer implantar é a chamada Gratificação por Desempenho, o critério de "rendimento" seria medida por número de aprovações de alunos. Somos contra tal medida. Veja bem, o critério tem de ser o quanto que os alunos aprenderam e não apenas uma questão de estatística. Aí sim, você verá a alegria dos picaretas (professores e alunos), pois não haverá estímulo para professores cobrarem e alunos estudarem. Apenas, se faz estatística e ponto.

Neste sentido, o "rendimento" deve ser medido por uma avaliação institucional do sistema na seguinte ordem (proposta do professor Washington,DF):

a) avaliação da GRE;
b) avaliação da direção da escola;
c) avaliação do nível sócio-econômico e cultural da comunidade;
d) avaliação da estrutura física da escola;
e) avaliação dos materiais pedagógico da escola;
f) avaliação do professor realizada com base no resultado das avaliações dos itens anteriores.

O resultado do trabalho de um professor não depende apenas do seu esforço pessoal. Conheço muitos professores bons que são atrapalhados por direções ruins.

Não acredito em nenhum tipo de avaliação que leve apenas a quantidade de alunos aprovados pelo professor.

Por isso, que o debate e a conversa, respeitado o princípio da cordialidade, é interessante, porque desta maneira podemos mapear bem o problema e propor soluções e metas.

Até mais, um abração!
Giulia disse…
Adriano, em todos esses anos participei de muitas reuniões e da tentativa de implantação de vários projetos. O problema não é um projeto dar certo, mas TER CONTINUIDADE. É aí que a coisa pega! Existem muitos bons educadores e muitos bons projetos -se você se der ao trabalho de ler o nosso blog vai ver quantos projetos e profissionais a gente já promoveu e elogiou aqui, inclusive de professores dos nossos próprios filhos.
Apenas um exemplo: eu participei de diversas oficinas dadas VOLUNTARIAMENTE pela melhor professora que um dos meus filhos já teve. Ela pretendia implantar um projeto dentro da escola e ofereceu as oficinas aos professores interessados, inclusive aos pais, motivo pelo qual eu pude participar. O projeto é o PEI, não sei se você conhece, eu já escrevi um resumo sobre ele e posso te enviar (aliás, ele está publicado entre os nossos textos, link ao lado). O projeto é excelente e eu já havia percebido isso antes de participar das oficinas, pelo interesse do meu próprio filho nas aulas de história. Você já viu um aluno adolescente chegar em casa e comentar espontaneamente o que aprendeu na escola?...
Mas sabe o que aconteceu? Os outros professores boicotaram o projeto e a direção não deu força nenhuma. Infelizmente o que impera na rede pública é o personalismo e o descaso, aliado à falta de cobrança. Muitos professores ficam quietinhos durante quatro anos, apenas esperando o governo mudar! Você parece muito jovem e isto é muito bom: ainda vai entender muito do que a gente coloca aqui. Veja bem: nós queremos uma escola BOA PARA TODOS. Matriculamos nossos filhos nela e não nos arrependemos: demos para eles todo o apoio para que pudessem superar as dificuldades e percebemos que eles se tornaram cidadãos mais conscientes. Eles conhecem seu próprio país "por dentro" e não pelas novelas!
Uma última reflexão: o que vai bem na rede pública não precisa de conserto, certo? Nosso papel aqui é auxiliar os pais de alunos QUE NÃO TÊM A QUEM RECORRER! Aqui em Sampa, por exemplo, a Ouvidoria da Educação é um braço da corporação que ajuda a expulsar alunos da escola via Conselho. Isto você pode comprovar pelos inúmeros documentos que publicamos aqui. Fazemos sempre questão de reproduzir integralmente os documentos que enviamos às autoridades, para que não haja dúvida sobre OS FATOS. Mas a única tática que realmente funciona é colocar "areia no ventilador". Só assim os desmandos são corrigidos! E o grande problema é que os pais se calam por medo de represálias.
O que você acha de um professor de educação física que passa a aula fazendo palavras cruzadas enquanto sua turma "joga" e se machuca na quadra? Na mesma escola, uma "profissional" tirou o sapato do pé de um aluno e o atirou nas costas de outro. Os pais que denunciaram foram destratados pela direção da escola e estão sendo ameaçados. Veja, são "probleminhas" MUITO COMUNS que extrapolam a questão do ensino em si e só poderiam ser resolvidos com a devida punição dos responsáveis. Infelizmente, o maior problema da rede pública é o corporativismo e a IMPUNIDADE.
Uma última pergunta, Adriano: você pretende matricular seus filhos (se os tiver) na rede pública? Pois essa é a nossa proposta. A educação brasileira vai muito mal principalmente porque o filho do professor estuda na rede particular (que também é ruim, mas, no mínimo, os alunos têm aula todos os dias e não são destratados como no vídeo que publicamos!). Existe no país um apartheid disfarçado, pois as classes já são bem separadas desde os primeiros anos escolares e para os filhos da classe média isso é o ÓBVIO...
Adriano disse…
Olá Giulia!
Desculpe a demora em fazer um novo comentário.
Pelo visto, concordamos em alguns pontos:
1. Queremos uma educação pública de melhor qualidade. Você como mãe, eu como professor, ambos como cidadãos.

2. Maus profissionais devem ser abortados do sistema. Uma vez que estes mesmos são responsáveis por parte do sistema estar defasado (mas não são a única causa).

3. Também sou a favor de um controle social, em cima dos serviços prestados pelo Estado. Não somente no setor Educação, mas em todos os setores.

4. Existem bons profissionais na rede pública de ensino.

5. Há um apartheid social no Brasil.

Com relação à pergunta, se eu matricularia meus filhos na rede pública. Quando eu os tiver, não os colocarei no ensino público se tiver oportunidade de escolha.

E por quê? Porque por estar dentro do sistema, conheço bem as suas mazelas. Vide o exemplo que citei do giz nos comentários anteriores. Da mesma maneira que se puder optar pagarei um plano de saúde privado para eles. Como milhares de pais fazem no nosso país.

Aliás, conheço profissionais que trabalham em hospitais públicos que pagam para que seus filhos sejam atendidos na rede particular. Isso faz deles maus profissionais? Ou que a culpa é deles pela rede hospitalar estar nas condições atuais? Claro que não, pois eles enfrentam a mesma lógica que descrevi nos comentários anteriores.

Da mesma maneira que conheço pais que não colocariam seus filhos na rede pública. E isso faz deles maus pais? Claro que não, somente quando não cumprem seu papel de educarem seus filhos e não brigarem por melhorias na educação.

Da mesma maneira que filhos de deputados federais e de senadores estudam em colégios particulares aqui em Bsb.

Da mesma maneira que muitos pais podem optar ou não por colocarem seus filhos numa universidade pública ou privada. Seguindo sua lógica de pensamento, todos os cidadãos deveriam colocar seus filhos na universidade pública e ela, deste modo, seria melhor.

Da mesma maneira que motoristas de ônibus, querem ter carros particulares, pois não desejam ficar usando somente transporte público.

E é precisamente neste ponto que nossa filosofia de ação torna-se discordante. No seu pensamento, o grande culpado do setor educacional público ser ruim, é por causa tão somente do professor. Daí a noção equivocada, no meu entender, de que o filho do professor estudando nas escolas públicas tudo irá melhorar. Perdoe-me, mas é uma lógica de interpretação estranha.

Afinal, uma coisa acho esquisita: quando o policial, o médico fazem greve, por que ninguém os culpa pelas ineficácias do sistemas de segurança e de saúde? E por que quando funciona ninguém os elogia também?

Porque sabemos que o funcionamento destes sistemas, como na educação, não funciona somente com eles.

Desculpe-me, mas não será colocando filhos de professor na rede pública; filhos de médicos serem atendidos na rede pública; filhos de motoristas de ônibus usando somente transporte público; filhos de todos os pais da nação usando somente as redes públicas que este apartheid irá acabar.

Abraços
Giulia disse…
Olá, Adriano, pena que o blogger "atira" os posts mais antigos no "buraco negro", rsrs. Meu ponto de vista pode parecer estranho porque você nasceu no Brasil e sempre viu esse apartheid. Quando cheguei aqui, há 40 anos, passei noites e noites sem dormir por encontrar pessoas e principalmente crianças dormindo nas ruas de São Paulo. Ao comentar isso com os brasileiros, eles se ofendiam e respondiam que no meu país também existia miséria. Claro, miséria existe em qualquer lugar do mundo, mas no Brasil há uma indiferença que eu suponho venha do hábito de já nascer no meio de uma desigualdade social que, como os próprios indicadores mundiais confirmam, é intolerável. Quando quis matricular meus filhos na rede pública, senti uma tremenda pressão da família do meu marido para que não o fizesse. Daí comecei a caraminholar e percebi que havia nisso mais do que a preocupação pela qualidade do ensino, havia meio que vergonha... Eu vejo o Brasil ainda hoje como o "país dos privilégios" e nesses 40 anos não encontrei nenhuma outra forma de mudar essa realidade, a não ser que crianças de todas as classes sociais possam sentar-se nos mesmos bancos escolares e REALMENTE PERCEBER que têm os mesmos direitos e pertencem à mesma nação. Não acho que a solução seja o professor colocar seu filho na rede pública! A solução é ele aceitar "misturar" seus filhos com seus alunos, coisa que eles têm milhões de argumentos para não fazer: porque se sentem constrangidos, porque temem perder sua autoridade, porque isso, porque aquilo... Mas no fundo, eu sinto que o professor, o profissional liberal, o empresário e principalmente o político, enfim, a "elite" deste país, deseja privilégios para seus próprios filhos. Pode ser que eu esteja errada, mas estou muito feliz de ter conseguido dar aos meus filhos a visão do Brasil real. Eles aprenderam a superar todas as mazelas da educação pública e ainda a conviver de igual para igual com pessoas que tiveram menos oportunidades, mas que são tão ou mais inteligentes do que eles. Se mais gente lutasse pela escola pública, ela certamente mudaria para melhor. E é uma falácia pensar que se possa melhorar...o que não se conhece por dentro!!!
Caro Adriano, eu nunca vi, no Brasil (talvez em tempos idos?...) uma situação com a que eu vivi nos meus bancos escolares: duas meninas, uma filha de um industrial, a outra filha da faxineira da escola, fazendo poesia juntas e uma freqüentando a casa da outra.
Já que você concorda que existe o apartheid, qual solução você sugere para acabar com ele?
Finalmente, quero dizer que é um grande prazer para mim poder discutir seriamente com um professor tão esclarecido e educado como você. Um abraço!
Lilian disse…
Ao ler uma discussão tão saudável, não resisti e quis participar... Eu comentei em um outro post que "na rede estadual os professores dançam conforme a música", ou seja, eles simplesmente seguem as decisões e diretrizes que lhes são impostas pelas secretarias de educação em municipais e estaduais. Se estas secretarias impõe regras como: nao há mais reprovação e não dão as condições necessárias para professores possam fazer em paralelo um trabalho de recuperação, o que o professor poderá fazer neste caso?
Como o professor Adriano disse "o professor é parte de um sistema" este sistema é muito mais amplo do que se imagina, este sistema são os recursos que a escola dispõe, o salário do professor, os profissionais de apoio, a administração da escola e a legislação que estabelece o que o professor pode ou não pode fazer.
Depois que me tornei professora e percebi tudo isto que acontece no ensino público, e percebi também que os professores perderam totalmente sua autonomia, eles sequer decidem sobre um aluno é aprovado ou não, o professor quando ingressa no cargo tem uma série de responsabilidades que deve cumprir e não tem nem tempo para pensar.
Muita coisa como contratação de professores de reforço, psicológos entre tudo que a escola pública precisa depende mesmo é de vontade política.
Você Giulia é muito corajosa por ter colocado seus filhos na escola pública porque eu não arriscaria... e a maior parte dos professores também não, porque?

- os professores da escola pública ganham um baixo salário e para ter uma vida decente tem que trabalhar até mesmo em três períodos. Imagine o stress de uma pessoa assim, não submeteria meu filho a isto...

- os professores da escola pública tem que se conformar com os livros didáticos que o governo manda ou os poucos paradidáticos diferente dos da escola particular que podem pedir que seus alunos comprem outros livros.

- na escola pública (estado de SP) foi instituída a progressão continuada mas não foi instituido um programa de reforço eficiente, o que faz com que vários alunos passem de ano sem ter aprendido o necessário.

- na escola privada o uniforme é obrigatório, coisa que não se pode exigir na escola pública,

- e há muitas outras coisas que não se pode exigir na escola pública por exemplo o cumprimento dos conteúdos programáticos, com esta coisa de progressão continuada há alunos que estão na oitava série sem dominar os conteúdos da quinta, em matemática por exemplo é impossível ensinar equações a alunos que não dominam seque as quatro operações e o professor termina por ficar sempre voltando atrás nos conteúdos para depois seguir em frente o que acarreta um grande atraso nas matérias.

- na escola pública há muita bagunça, os alunos não tem limites, porque sabem que não tem nenhuma punição, é o contrário do que você Giulia pensa, a qualquer momento um professor stressado pode fazer uma besteira, como estas que você menciona aí no seu blog, e isto acontece mesmo.

- na escola pública há maus profissionais, digo isto porque vivencio e tenho colegas de que me envergonho que sejam chamados de professores, muitos não tem um mínimo de preparo para dar aulas nem muito menos dominam os conteúdos de sua disciplina...

Agora diga-me o que um professor que trabalha até 64 horas por semana em sala de aula pode fazer para melhorar a educação pública além de simplesmente se esforçar em dar suas aulas?

Tenho colegas que trabalham três períodos para poderem pagar a escola particular para seus filhos...

Ultimamente o professor não tem tido tempo nem de pensar no seu trabalho... Conheço professores que tiveram que comprar materiais para trabalhar com seus alunos, professores nervosos e estressados e abalados psicológicamente estão dando aulas... e a culpa por todo fracasso escolar é somente do professor?
Lilian disse…
Desculpe os erros ortográficos do comentário anterior.

Um abraço a todos.
Giulia disse…
Olá, Lilian,

Mas quem disse que a culpa é somente do professor? Como você diz, é um sistema. E o que não me entra na cachola é por que o professor não se vale do seu instrumento de cobrança, o sindicato, para pedir as mudanças do sistema. Os sindicatos dos professores nadam em dinheiro e corrupção e os professores não cobram deles...
O que eu vejo é um círculo vicioso sem hora de ser quebrado, pois ninguém assume a escola pública como realmente sua. Os pais de alunos (a maioria) não sabem cobrar e têm muito medo do autoritarismo do "sistema". Leia o nosso post de ontem (08/10) para ver como foi difícil convencer os pais a ir até à SME! O primeiro post "Luto na educação" foi de 03/09, portanto eles demoraram um mês para se convencerem a ir. Além disso, as denúncias já vêm do mês de julho...
Então eu sempre propus uma aliança entre pais e professores, mas isso nunca aconteceu, pois o sindicato está bem no meio dessa questão e não tem nenhum interesse nisso. Você viu que o Cláudio Fonseca foi contra a avaliação dos professores?...
Abraço na correria, rsrs!