Violência nas escolas - O círculo vicioso


A questão da violência nas escolas ainda é assunto tabu, pois a mídia costuma mostrar apenas um viés: a violência do aluno contra o professor, às vezes de forma absurdamente incompetente ou francamente tendenciosa, como mostra o vídeo da reportagem veiculada no Jornal Hoje, da Globo, em 25/02/08 ttp://jornalhoje.globo.com/JHoje/0,19125,VJS0-3076-20080225-316955,00.html. É impressionante como a mídia atende aos “apelos” dos sindicatos da educação, sem se preocupar em ouvir o “outro lado”, veiculando matérias prolixas e confusas que só servem para alimentar o viés anti-aluno.

A partir do momento que foi proibido – a pedido de professores! - o uso do celular nas salas de aula, os alunos perderam toda e qualquer possibilidade de registrar os atos de violência de que são vítimas, principalmente os mais sórdidos e “sutis”.

Por exemplo: se os alunos da EMEF Imperatriz Dona Amélia pudessem ter filmado a diretora da escola colocando o Livro de Ocorrências na mesa de um aluno, para que ele espalhasse na classe os nomes das mães que registraram sua indisciplina, seria muito fácil mostrar a atitude perversa dessa “educadora”, que provocou brigas e até ameaças de morte entre os alunos nos dias seguintes. Infelizmente esse ato se deu entre quatro paredes e o testemunho de alunos não tem valor nenhum dentro de um sistema que considera a criança e o adolescente um ser mentiroso em potencial. A não ser que o interesse seja da diretora da escola, como na EE Padre Josué Silveira de Mattos, em São João da Boa Vista, que arrolou quatro alunos como “testemunhas da acusação” de uma menina inocente. Após apenas cinco minutos de depoimento, o juiz percebeu que a garota havia sido vítima de armação e arquivou o processo...

O que acabo de relatar são fatos já bastante documentados neste blog (leia o resumo no post http://educaforum.blogspot.com/2008/02/rainhas-da-cocada-preta.html),
mas eles não sensibilizam uma sociedade voltada para a defesa do adulto e das “autoridades”, em detrimento da criança e do adolescente. Não é à toa que foi necessário criar o ECA no Brasil... E até hoje essa lei federal é desprestigiada e tratada dessa forma: Éééééca!, principalmente nas escolas.

Como diz Mário Sérgio Cortella no vídeo acima, a violência na escola é reflexo da violência na sociedade, mas dentro da sala de aula ela toma proporções mais dramáticas, pois entende-se que, dentro de uma escola, tudo é “pedagógico” - ou não...
O que a reportagem não mostrou e o Prof. Mário Sérgio perdeu uma boa oportunidade de colocar, pois ele sabe do que estamos falando, é a questão da violência contra o aluno por parte de “educadores” pagos com os nossos suados impostos e, ainda mais grave, a violência de alunos contra alunos, fomentada por manobras “sutis” como a da diretora da EMEF acima citada.

Não vemos muita saída para essa questão, pois, nos poucos casos em que a mídia registrou a violência contra alunos, os mesmos sofreram sérias represálias e perseguições, que resultaram na sua evasão. Esse fenômeno ocorre por dois motivos: em primeiro lugar as respectivas Secretarias da Educação não movem uma palha para proteger os alunos ameaçados, haja vista os dois episódios relatados acima. No caso da escola estadual de São João da Boa Vista, a Secretaria declarou que não é da sua alçada interferir em ações judiciais movidas pelos diretores de escola, pois sua atuação se dá apenas no âmbito de processos administrativos. No caso da EMEF acima citada, a apuração “preliminar” está sendo empurrada com a barriga e os alunos continuam à mercê de uma diretora mal intencionada. O segundo motivo que conduz à evasão dos alunos que têm a coragem de denunciar as agressões sofridas é a falta de acompanhamento do assunto pela mesma mídia que veicula a notícia. Na medida em que o assunto cai no esquecimento, a perseguição contra o aluno se intensifica e ele é tratado como a “laranja podre que expôs a escola publicamente”. Por outro lado, os meios de comunicação não se interessam em acompanhar as denúncias, pois filho de jornalista estuda na rede particular e, além disso, as Secretarias da Educação investem pesado em propaganda.

É ou não é um círculo vicioso?

Comentários

Uma leitura parcial sempre é incompleta, seja de qual lado for.
E existem diversas realidades pelo país afora; na cidade onde moro já trabalhei em escolas que são dominadas pelo tráfico de drogas; larguei o emprego de professora para não colocar a minha família em perigo; não vou dizer que sou vítima disso, pois fui trabalhar num lugar onde a realidade É assim (e que portanto eu deveria aceitá-la e fazer o possível e o impossível).
Mas, para finalizar, acredito que vocês devam tratar desses assuntos com mais seriedade e respeito, fazer uma abordagem que não seja tendenciosa, pois nem todas as escolas são iguais e em muitos locais a hierarquia está sim invertida, ao contrário do que vocês pregam.
Giulia disse…
Olá, Cristiane, este post foi justamente para rebater uma abordagem tendenciosa feita pela mídia. Não sei porque você fala em falta de seriedade e respeito, pois tudo que a gente publica aqui é verídico e documentado. As vítimas que a gente procura defender são os alunos, já que os profissionais são muito bem servidos com os sindicatos, que conseguem inclusive espaço de graça na mídia. Mas, se você é da opinião que a vítima é o profissional da educação, é um direito que lhe cabe...
É claro que nem todas as escolas são iguais, aliás, todas são diferentes! E está na hora de documentar o que acontece dentro delas, com todas as letras e casos concretos, como os que trazemos aqui. Se você se der ao trabalho de consultar o blog, divulgamos também muitos casos positivos.
A professora que teve o dedo machucado não pode alegar que o aluno fez de propósito, pois ela correu atrás dele no banheiro e ele bateu a porta para não alcançá-lo. Ao contrário, a diretora que convocou o Conselho de Escola para expulsar uma aluna inocente sabia muito bem o que estava fazendo e, quando a Secretaria da Educação a obrigou a reintegrar a menina, entrou com processo na justiça para se vingar dela. Como você leu acima, o próprio juiz inocentou a aluna, pois percebeu que foi vítima de uma armação. Você quer mais seriedade do que a nossa, que passamos quase um ano orientando a família para não desistir dos seus direitos?
Ou deveríamos deixar uma menina de quinze anos, que entrou em depressão grave após a expulsão da escola, cair na marginalidade?...
Aprendiz disse…
Giulia

Veja só o que acontece quando os pais tentam salvar seus filhos da horrivel escola brasileira: O poder público os persegue.

http://bandnewstv.com.br/conteudo.asp?ID=71401&CNL=20

Note que quem deveria ser acusado de abandono intelectual é o prefeito, o governador, o presidente. Pois o "educação" fornecida pelo poder público não é um direito, é um "presente de grego".

Esses pais, que deram uma educação excelente aos filhos deveriam ser elogiados e apoiados.
Giulia disse…
Excelente comentário, Aprendiz! É esse tipo de situação que eu gostaria fosse mais discutida aqui, um país onde o espírito da lei é deturpado a bel prazer.
Sabe o que falta, no Brasil? O que tem de sobra nos EUA! Você pode falar o que quiser dos Estados Unidos, mas é um país onde esses absurdos não costumam passar batidos. Lá, certamente, um grande advogado tomaria as dores dessa família e faria a defesa de graça! É o mesmo caso da professora Glória Reis, processada e condenada por criticar as condições da cadeia pública de Leopoldina. Cadê um jurista de renome para defender a Glória e por sua cara para bater?...
Veja o caso da diretora que processou a aluna inocente: a própria Secretaria da Educação se recusou a se envolver, sendo que uma simples ameaça à diretora, no sentido de ser prejudicada em sua carreira, poderia fazer com que ela retirasse a "queixa".
Neste país, cada um olha apenas para o seu umbigo e para o seu quintal! Muito, muito triste!!!
Anônimo disse…
Eu sempre admirei muito o trabalho das ONG, "tirando as que so usam a instituiçao para lavar dinheiro", acho incrivel a força e a dedicação de todos vocês, é uma causa sem fim. È como o beija flor que pegava agua com o bico e jogava na floresta pegando fogo, ele nao vai resolver o problema, mas esta fazendo a sua parte.
No caso das ONGs que ajudam quem passa fome, ou nao tem o que vestir, o resultado é mais imediato, mas agora brigar com um monte de gente por uma educação melhor. O que move vcs? aonde vcs pretendem chegar?
é uma luta ingloria, aonde buscar motivação p/ fazer isso? num pais aonde os empregados publicos deitam, rolam e fazem o que bem querem, pois ninguem vai punilos mesmo?
Professor
Aprendiz disse…
Giulia

Veja que há base legal para a ação contra os pais (embora um juiz ou um promotor de bom-senso poderiam interpretar a lei de forma mais justa). Quero trazer a discussão o viés pesadamente intervencionista da legislação e das instituições brasileiras, evidenciado nesse episódio. Como podemos educar as crianças para serem adultos independentes e pensantes, se as nossas instituições tratam os próprios adultos como crianças? Existe motivo para existir uma lei que proiba terminantemente os adultos de educarem (academicamente) seus filhos? O direito à educação das crianças não poderia ser garantido de forma menos intervencionista? O Japão é um país que tem um nível educacional infinitamente maior que o Brasil, sem nunca ter obrigado a presença física das crianças na escola. É claro que o estado pode verificar o aprendizado das crianças, mas não precisa ser de forma tão autoritária.

Finalizando, você sabe qual foi o primeiro país não comunista a proibir a educação em casa? A Alemanha... na época de Hitler!!!
Seguindo o exemplo da URSS de Stalin!!!
Anônimo disse…
O que me preocupa mais aqui onde trabalho é a violência praticada pelos alunos contra eles mesmos. Nunca vi crianças se agredirem tanto. Nós professoras até que somos respeitadas, mas quando o assunto é entre eles a coisa fica feia. O mais triste é ver alguns pais defendendo a violência dos filhos. " Não estou criando bichas" ou "Eu ensinei ela a se defender". Gente! São apenas crianças, mas já sabem se magoar e ferir fisicamente como adultos.
E a escola tem se mostrado cada vez mais incapaz de mudar o quadro.
Danielle
Giulia disse…
Que discussão rica! Não somos ong, somos pessoas, cidadãos. Em um país onde o papel vale mais do que as pessoas, até que temos alguma cota de heroísmo, rsrs.
Não olhamos para os lados mas para frente, por isso as críticas não nos importam nem desestimulam.
Quanto ao problema da legislação, eu tenho um ponto de vista muito pessoal: no Brasil não se procura ou não se consegue entender o espírito das leis. No caso da família que corre o risco de perder a guarda dos filhos porque escolheu dar-lhes uma educação melhor do que a escola pode lhes proporcionar, a lei foi completamente deturpada. Ela pretende PROTEGER AS CRIANÇAS CUJOS PAIS SÃO RELAPSOS OU IGNORANTES AO PONTO DE NÃO SE PREOCUPAR COM SUA EDUCAÇÃO. Nesse caso trata-se exatamente do contrário, mas a cegueira atrapalha essa compreensão.
Quanto à agressividade das crianças, não acredito na contenção, mas na canalização da energia. Geralmente as escolas não oferecem nada para permitir que isso aconteça. De acordo com uma teoria do psiquiatra José Angelo Gaiarsa, o ideal seria deixar as crianças fazer atividades físicas satisfatórias (nada de ginástica convencional dirigida) antes de sentarem nos bancos escolares. Pessoalmente não acredito em ideal, mas na busca de soluções adequadas a cada situação. O que não concordo é com o continuismo de rotinas estéreis que só servem para cumprir horários e dias letivos. Infelizmente 90% do ano escolar não passa disso...
Quanto à questão da violência, é claro que o exemplo de casa é muito forte, tanto quanto aquele da escola. Nada impede que uma criança mal orientada ou até agredida em casa possa se sentir amparada na escola. Da mesma forma, uma criança maltratada na escola poderá ser amparada pela família. Viver em sociedade não é nada fácil, ainda estamos aprendendo...
Anônimo disse…
Uma das ferramentas pedagógicas que vem sendo usada dentro da EMEF IMPERATRIZ é o descaso total e absoluto à seus alunos.
A diretora desta unidade confundi autoridade com autoritarismo, do tipo: "Faça o que mando e não faça o que faço". Mas, não é preciso fazer nenhuma faculdade pra saber que as crianças absorvem muito mais o que veêm do que escutam.

O comportamento destemperado, agressivo e vingativo dessa diretora, me parece, que está exercendo alguma função negativa nesta unidade, e está alimentando o comportamentos de alguns professores e isso acaba refletindo em nossas crianças, que estão a cada dia mais agressiva.
Digo isso, pois nos últimos dias estamos testemunhando brigas de crianças, chegando a agressão física, chegando ao ponto de uma criança tirar sangue da outra, e tudo isso dentro desta unidade. Sob os olhares assustados dos demais alunos.
Não é um caso isolado, não! Em apenas 10 dias, 6 crianças se envolveram em brigas sangrentas dentro desta escola.

Agora me digam, isso é normal???
Eu mando meu filho pra escola, e fico em casa torcendo pra nada acontecer com ele?

Mãe de aluno
Giulia disse…
Mãe da EMEF, nada disso é normal! Essa diretora só se comporta dessa maneira porque PODE, ou seja, por OMISSÃO da Secretaria da Educação - SME. Os pais das crianças machucadas devem fazer BO e responsabilizar A ESCOLA, não os colegas que provocaram a briga. Em uma escola de Ensino Fundamental a direção é totalmente responsável pela segurança dos alunos. Problemas de disciplina devem ser administrados pelas autoridades presentes. Mas, como vocês já denunciaram, a própria diretora da escola costuma fomentar esses problemas, ao estimular rixas entre alunos e responsabilizar crianças por "vandalismo" se uma cortina ou um ventilador cair sobre a cabeça delas. É o fim do mundo!!
Não deixem de registrar nada no livro de ocorrências e orientem os pais para fazerem BO CONTRA A ESCOLA no caso de crianças machucadas. Todos esses fatos deverão ser acrescentados ao processo administrativo em curso.
Aprendiz disse…
Giulia

Grato pela sua resposta.
Você citou a palavra cegueria ao referir-se às autoridades que perseguem esses país. Entendo que essa cegueira não é o simples desconhecimento, pois tais autoridades são pessoas estudas e, suponho, bem informadas. É mais uma postura ideológica de supor que as pessoas devem ser o, mais possivel, dependentes do estado.

Você fala do espírito da lei. Mas a própria lei carrega no seu texto uma visão autoritária e burocrática da relação entre sociedade e governo. A lei podeira, em vez de proibir a educação em casa, determinar provas semestrais, por exemplo, para as crianças que tivessem esse tipo de educação. Seria menos intervencionista, mais livre, mais humano.

Repare que o texto da lei não estabelece de forma alguma o direito da criança à EDUCAÇÃO. Estabelece, isto sim, a obrigatoriedade da ESCOLARIDADE que, como você sabe, é coisa bem diferente.

Grato pela atenção
Giulia disse…
Aprendiz, este nosso "papo" está ficando muito bom. concordo que a lei poderia ser bem melhor, mas então isto não seria...Brasil. Não cabem na cabeça dos nossos legisladores, principalmente os semi-analfabetos ou analfabetos funcionais (você já assistiu alguma reunião pública?...) situações tão "avançadas" como uma família providenciar a educação dos filhos de forma independente. Aliás, lembro muito bem de um bate-boca que tive com aquela "figura" do Cláudio Fonseca há uns quinze anos, quando eu disse para ele que, do jeito que era a escola, preferiria manter meus filhos em casa e cuidar sozinha da educação deles. Ele ME AMEAÇOU DE ME PROCESSAR SE O FIZESSE. Naquela época ele era do PCDB, aquela aberração... Hoje nem sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Bom, uma figura como essa está sempre vereador, deputado ou coisa que o valha, mas, principalmente, sindicalista. Então esse é o nível dos nossos parlamentares...
Outro exemplo foi aquela "pamonha" (não lembro o nome de sua excelência, rsrs) que promoveu a proibição do celular em sala de aula, quando o maior prêmio internacional de tecnologia foi dado a um projeto que envolvia a educação via celular. E o nosso querido governador fez o favor de regulamentar a lei determinando que SOMENTE AS ESCOLAS DA REDE ESTADUAL DE SÃO PAULO fossem obrigadas a segui-la. Não é o fim da linha???
Fazer o quê, meu amigo?... É urgente renovar o quadro político neste país, não apenas pela corrupção e roubalheira. Esses caras são tapados, mesmo!
Anônimo disse…
Interessante vc falar do celular. Eu também era contra, por causa das musiquinhas e das conversas fora de hora, mas se a gente pensar que pode ser uma ferramenta de registro é uma boa mesmo. Danielle
Mirian Giannella disse…
Bom dia!

Em busca da História da Crueldade e do privilégio dos primogênitos e a humilhação das mulheres e crianças, recorto:

***

Violência doméstica e o abuso de álcool e drogas
Fausto Rodrigues de Lima em 10/2007 no Jus Navigandi.
...
7.7. Crianças, adolescentes, idosos ou pessoas deficientes, vítimas ou
presentes nos conflitos

As crianças, os adolescentes, os idosos e as pessoas deficientes são as vítimas prioritárias da violência doméstica. Concorrem com as mulheres entre os preferencialmente atingidos, segundo as estatísticas. As vulnerabilidades próprias destas pessoas, que geralmente não têm como se defender, e a construção social da discriminação contra elas, as colocam à mercê da força bruta e da covardia. A hierarquia familiar, baseada na idade e no sexo, sempre justificou e naturalizou essa violência.

Isso explica a subnotificação das agressões contra essas vítimas que, por razões óbvias, não podem denunciar. A sociedade geralmente silencia sobre a questão.

Nesse contexto, qualquer notícia de violência no núcleo familiar, mesmo que não envolva diretamente as pessoas aqui referidas, deve servir de alerta aos agentes estatais e motivar investigações, inclusive psicossociais.

7.7.1. Crianças e adolescentes

A Constituição da República determina que a criança e o adolescente são prioridades absolutas do Estado brasileiro, sendo-lhes assegurado o direito à convivência familiar e a proteção contra toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (art. 227).

Apesar disso, cerca de 18 mil crianças, entre sete e catorze anos, sofrem maus-tratos físicos todos os meses no Brasil [56]. Entre 45% a 59% das mulheres que sofrem violência são mães de crianças que sofrem maus tratos [57].

Estas estatísticas não causam surpresa. Se uma mulher adulta - que, a princípio, poderia denunciar a agressão ou pedir socorro -, é violentada no lar, é óbvio que as crianças ou adolescentes sob sua responsabilidade estão sob perigo também. Estas geralmente vivem sob total dependência da vítima ou do próprio agressor, situação que, por si só, justifica uma intervenção, mesmo contra a vontade da mulher agredida.

Além do mais, não é incomum que mulheres vítimas de violência cometam agressões contra seus filhos [58]. De agredidas, passam a agressoras, repetindo o mesmo comportamento "natural" de seus maridos: imposição da vontade pela força física [59]. A frustração, a baixa auto-estima e a raiva podem explicar esse comportamento, principalmente porque a educação dos filhos ainda é função deixada ao cargo da mulher: "como educadora, cabe à mãe transmitir aos filhos os valores da sociedade, preparando-os para nela desempenhar futuramente seu papel. Ela se torna assim a reprodutora por excelência da ideologia dominante e dos estereótipos sexuais, dos quais é a própria vítima" [60].

Por outro lado, mesmo que as crianças não estejam sendo agredidas diretamente, a violência praticada pelo pai ou padrasto contra sua mãe causam conseqüências semelhantes à agressão sofrida diretamente por elas. Pesquisa da OMS-Organização Mundial de Saúde, aplicada em São Paulo e Pernambuco, mostrou que os filhos de 5 a 12 anos das mulheres agredidas apresentavam diversas seqüelas, como: pesadelos, chupar dedo, urinar na cama, timidez e agressividade, além de repetência escolar (SOARES, 2005).

Por isso, não há dúvidas de que a violência doméstica é um dos fatores responsáveis pela delinqüência juvenil. Os menores agredidos devolvem à sociedade a violência aprendida em casa. Adverte o Promotor de Justiça Anderson Pereira Andrade: "...sabe-se que muitos dos desvios psíquicos graves e condutas criminosas observadas em nosso meio são conseqüências de uma experiência de brutalidade vivida na infância ou na adolescência..." [61]. Contra a omissão estatal, é pertinente indagação do Promotor de Justiça Ricardo Wittler Contardo: "Será que o CAJE (centro de prisão para menores) estará preparado para recebê-los num futuro próximo, quando fugirem do "harmônico ambiente familiar" para resgatar sua auto-estima traficando, matando, espancando suas namoradas?"

Saliente-se, por fim, que o juízo criminal deverá comunicar os fatos ao juízo da infância e da juventude, que poderá aplicar as medidas protetivas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente. É óbvio que atuação deve ser simultânea; uma não exclui a outra. É que a competência para apurar e processar os crimes praticados contra menores é dos juízos criminais. Ao juízo da infância e juventude é reservada a atuação administrativa para proteção dos menores em situação de risco. As atuações judiciais se complementam. Em matéria de violação de direitos humanos, o excesso de zelo é sempre positivo.

***
Homenagem ao Dia da Mulher 8 de março de 2008
Abraços

Mirian Giannella
tradutora-intérprete francês-português
casadocipreste@uol.com.br
http://casadocipreste.nafoto.net
http://giannell.sites.uol.com.br
Giulia disse…
Obrigada, Mirian, excelente contribuição!
É necessário, entretanto, contrapor à violência doméstica a violência que a criança e o adolescente sofrem na escola, pois essa é ainda mais tabu do que a doméstica!
Isso provoca um "jogo" de empurra muito perigoso, ou seja, sempre que uma criança apresenta um comportamento agressivo na escola, inicia um processo de julgamento da família, no qual todos dão palpite, desde a merendeira até o inspetor de alunos, o que muitas vezes resulta na expulsão ou evasão do aluno.
Trocando em miúdos: nem sempre a agressividade do aluno vem do ambiente familiar, principalmente no caso do adolescente, que tende a transpor limites pela própria condição da idade. E outras vezes, isto é muito importante, a agressividade nasce mesmo na escola, quando maus profissionais da educação maltratam, constrangem ou humilham o aluno, chamando-o de "jumento", "laranja podre", "pivete" etc. Esse tipo de situação é EXTREMAMENTE COMUM e ninguém liga a mínima para isso!
Também contam-se nos dedos as escolas que têm competência para lidar com o aluno adolescente.
O que mais se ouve nas escolas é a expressão: "A educação vem de casa". Com isso, maus professores, coordenadores e diretores de escola sentem-se à vontade para discriminar, repudiar e expulsar os chamados "alunos-problema".
É um assunto delicado e muito pouco discutido na sociedade. Veja por exemplo o garoto que agrediu a professora e que foi preso na febem, onde vai passar três ou mais anos, até se especializar no crime. A professora, que chamou a mãe dele de tudo que é nome, está de licença e vai continuar a ser paparicada por um bom tempo...
Isso me lembra um caso que ocorreu na escola dos meus filhos, quando uma mãe reclamou com a diretora sobre o comportamento de uma professora. No dia seguinte a professora "brincou" na sala de aula da seguinte forma: "A mãe de "alguém" foi reclamar de mim com a diretora. Essa mãe merece ou não morrer? Merece???" E todos os alunos fizeram coro, incentivados pela professora: "Meeeeeeréce!". Ela repetiu a "brincadeira" diversas vezes, olhando fixo para o menino (de 7 anos!) cuja mãe havia se queixado dela com a diretora.
Toda escola pública conta com um ou mais profissionais desse tipo, que podem se dar ao luxo de expressar sua perversidade porque não há qualquer controle ou punição!...
Vamos continuar discutindo o assunto, pois vale a pena. Uma hora a ficha cai, rsrs.
Aprendiz disse…
Giulia

O Brasil tem de mudar, mas quem pode mudar ele são os brasileiros. De nada adianta falar com pessoas que nos ameaçam com normas burocráticas, estas pessoas não merecem que você gaste saliva. Gente ligada aos sindicatos sempre vai defender a idéia estapafurdia de que qualidade de educação é sinônimo de vantagens para os professores, poder para os sindicatos e votos para os seus partidos.

Nós, que percebemos o horror que é a escola brasileira precisamos é começar uma campanha para acabar com a abrigatoriedade da escola formal. Criança de demonstra conhecimento em uma prova é criança a quem está sendo dado o direito de receber educação, o resto é balela.

Note que isto seria o princípio do fim do poder dos sindicalistas. Grupos de pais independentes contratariam professores, outros pais educariam eles próprios os seus filhos, talvez contratando um professor para uma matéria que eles próprios não dominassem. O poder dos sindicatos iria para o beleleu.

Pense nisto: O direito de educar fora da escola obrigaria as escolas a melhorarem! Os prefeitos teriam de mostrar serviço e seriam obrigados a enfrentar os sindicatos. Este é o motivo da ameaça que você recebeu. Este é o motivo da perseguição que sofrem aqueles pais em Minas Gerais. Os sindicatos morrem de medo de que os cidadãos tenham outra alternativa.

É uma briga boa, mas vale a pena!
Que o Eterno nos ajude.
Regina Milone disse…
Excelente discussão!
Já dei minha opinião em outros tópicos daqui, respeito muito a Giulia e a Vera, sou educadora e acho que devemos botar o dedo na ferida sim, sem mascarar nada, seja de que lado for.
A violência doméstica é fato e é terrível, mas a escolar também existe, de todos os lados. Muitos professores também são vítimas de todo esse estado de coisas, junto com os alunos. Ninguém sabe mais o que fazer.
Onde trabalho as diretoras de escola são indicadas e não eleitas, sofrem pressão para manter tudo "quieto" e, dessa forma, tudo colabora para que as coisas continuem do jeito que estão, porque os professores que mais lutam, nos sindicatos, em geral são extremamente corporativistas, agressivos e nada democráticos, o que só piora ainda mais as coisas.
Os pais podem e devem se colocar sim!!!
O que é público é de toda a sociedade e não terra de ninguém!
Essa é uma luta difícil, longa, mas que vale a pena!
Eu também continuo, como o beija-flor da parábola, fazendo a minha parte - levando gota a gota alguma água para apagar o incêndio da floresta -, pois mesmo que seja pouco, É ALGUMA COISA SIM!
Beijos para todos...

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