O "buraco" da alfabetização


Mais um excelente artigo de Gustavo Ioschpe na Veja desta semana trata o problema da alfabetização deficiente, o maior da educação em nível nacional.

Ioschpe já havia informado em janeiro que o governo do Rio Grande do Sul estava realizando um novo experimento, que consistia em escolher diversas turmas de alfabetização para testar a eficácia de três métodos diferentes. Cada turma seria alfabetizada por um dos métodos e no final seria feita uma comparação entre os resultados, verificando se e quanto cada método seria mais eficiente do que o grupo “de controle”, ou seja, o “método” utilizado nas escolas públicas de um modo geral.

Finalmente o experimento foi concluído e os resultados foram surpreendentes. Leia o artigo de Gustavo Ioschpe clicando aqui http://veja.abril.com.br/gustavo_ioschpe/index_240408.shtml

Para mim, que tive três filhos alfabetizados e estudando na rede pública até o final do Ensino Médio, tudo está muito claro: qualquer método de alfabetização, desde que aplicado com competência, responsabilidade e acompanhamento dos resultados, pode ser bastante eficiente. Ou vamos querer redescobrir “a pólvora”, em pleno terceiro milênio?

Esse é meu medo: em um país onde a elaboração e a aprovação da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) demorou DEZ ANOS, e onde a maioria dos profissionais sofre de preguiça aguda, devido a décadas de falta de fiscalização, em que cada um pôde utilizar "seu próprio" método, o grande perigo é iniciar uma discussão nacional sobre qual seria o "melhor" método de alfabetização. Isso empurraria com a barriga a tomada de medidas efetivas para resolver o problema, que é muito grave.

Eu interpretei os resultados do experimento no RS da seguinte forma: bastou o fato de uma classe adotar um método específico como foco e contar com mecanismos de controle, para produzir melhores resultados. E, de fato, todos os três métodos experimentados tiveram bons resultados, mesmo com os professores resmungando por não poderem continuar dando aula "do seu jeito", aquele "jeito" que tem condenado milhares de alunos ao analfabetismo funcional, durante décadas...

A verdade é que a maioria das escolas públicas do país (grupo "sem controle", rsrs) está "ao deus dará", não possui projeto pedagógico nem coordenação, a direção muda constantemente por indicação política ou apenas por falta de compromisso dos profissionais, as aulas vagas estão em níveis que em média certamente ultrapassam 20% (e aí, INEP(t), vai desmentir?...) etc.

Nenhuma das escolas que tiveram bom desempenho durante os exames nacionais apresentou esse quadro calamitoso. E, nas análises divulgadas, os pontos positivos não incluem o método de ensino, mas a boa direção, a competência do corpo docente e o compromisso com o aluno.

Enfim, minha grande preocupação é que, a partir dessa nova experiência amplamente divulgada pela maior revista do País, inicie uma longa discussão sobre métodos de alfabetização, que poderá atravancar a educação do país por mais alguns anos, quando a solução é apenas definir um método de alfabetização para cada escola ou classe e aplicá-lo com seriedade. Afinal, o que queremos? Que nossos filhos saiam do ensino fundamental sabendo ler e interpretar os grandes clássicos?...

Comentários

Anônimo disse…
Giulia,
Particularmente não acredito nesta história de melhor ou pior método. Também não gosto dos artigos deste moço que já disse ene vezes que não entende nada de ensino.
Contudo, eu estudei em escola pública a minha formação inteira, incluindo a graduação e a pós. E o meu filho está ingressando na faculdade depois de estudar em escolas públicas. Tanto ele quanto eu fomos alfabetizados aos sabor das políticas públicas. Hoje fônico, amanhã construtivista, depois só Deus sabe. Nós professoras temos quase nenhuma ingerência sobre estas escolhas, infelizmente.
Alfabetizar é dificílimo, só quem o faz é que sabe. Entretanto, de uma coisa eu sei pq ví dentro da minha casa. Crianças aprendem a falar pq ouvem os adultos falando e aprendem a ler e escrever da mesma forma. Sempre que, durante um reunião, pergunto aos pais dos meus alunos qual foi a última vez que eles leram para seus filhos faz-se silêncio na sala.
Um bom método, bem escolhido por uma professora que o domine e tenha convicção na escolha é fundamental, mas se os responsáveis pelos alunos não assumirem que têm um papel vital neste processo de pouco adiantará.
Não precisa ser um grande leitor, nem escolher uma obra-prima da literatura. Leia qualquer coisa, bula de remédio, receita de comida, manchete de jornal, qq coisa.
Minha mãe foi analfabeta até os 60 anos, mas nunca deixou que isto a impedisse que estimular a leitura entre seus cinco filhos. Os resultados ela colheu indo a cinco graduações.
Um beijo Danielle
Giulia disse…
Danielle, eu entendo que aprender a ler e escrever é como aprender uma nova língua. Certamente o mais importante é "mergulhar" no aprendizado, principalmente para a criança, que ainda não domina a língua nem mesmo oralmente e não tem o cérebro amadurecido para racionalizar. Aliás, a melhor forma de aprender uma língua é mesmo na infância...
O que não entendo é porque os professores querem tanto responsabilizar a família pela dificuldade de alfabetizar os alunos. Eu não quero fazer pouco caso das dificuldades da sua profissão, mas penso que as crianças costumam passar, no mínimo, quatro horas diárias na escola. O que impede ao professor alfabetizador passar boa parte desse tempo lendo em voz alta, estimulando os alunos a trazer embalagens para leitura na classe, a ler palavras soltas colocadas na lousa ou até mesmo pedir para que os alunos ditem palavras para o professor escrever na lousa? Se não me falha a memória, foi com atitudes simples como essas que aquela professora Mariluce, da favela Heliópolis, estava conseguindo alfabetizar toda a sua turma no primeiro ano. Trouxemos esse caso aqui no blog em agosto passado. É claro que não se exige do professor que ele consiga alfabetizar 100% de seus alunos na primeira série, nem mesmo na Suécia... Mas aqui no Brasil a situação é calamitosa e exige providências rápidas. E essas providências precisam ser tomadas na escola! Você é o exemplo vivo de alguém que não teve mãe ou pai lendo para você. Se esse é um dos melhores estímulos para a leitura (e todos sabem disto), por que o professor não lê para os alunos na escola?... Isto é muito, mas muito intrigante! Se ele lê para seus próprios filhos em casa, o que impede que ele leia para seus alunos na escola?... Às vezes penso que a maioria dos professores não gosta de ler, ou então não gosta de dar aula, ou então não gosta dos alunos, sei lá! Ou talvez ele aprenda na própria faculdade que alfabetizar é difícil, porque os cursos são teóricos demais. Tudo isso precisa ser analisado e levado em conta.
Anônimo disse…
Oi Giulia,
É claro que tudo isso tem que ser levado em conta sim. É óbvio que se espera e deve-se esperar que a escola faça o seu papel alfabetizando as crianças nas primeiras séries. Concordo com você que a leitura na sala de aula perdeu seu espaço. Falha nossa! Aliás a leitura morreu nos últimos 20 anos em qualquer lugar, foi assassinada pela televisão. E agora pelo computador. Talvez esteja na hora de se fazer um enorme mutirão nas escolas pela volta da hora da leitura, dos concursos de leitura que havia antigamente e uma campanha pela melhor utilização das salas de leitura.
Mas não dá para negar que os alunos cujos pais (mesmo quando não sabem ler) estimulam a leitura têm melhor desempenho. Pais não tem que alfabetizar ou ensinar a ler. Mas quando encorajam, apoiam e estimulam fazem toda a diferença.
O que eu quero dizer Giulia é que a escola tem obrigações e que ninguém discuta isso. Mas a presença dos pais no processo é aquele algo a mais que nem a melhor professora do mundo pode dispensar.
um beijo e força para continuar na luta
Danielle

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