O viés anti-aluno


De vez em quando é bom parar para pensar. Pensar no que estamos fazendo aqui e rever nossos objetivos. Você pode ver em nosso cabeçalho que acreditamos que “o ensino público de qualidade é possível e que falta uma política educacional voltada para o aluno”. Quando fizemos essa colocação entendíamos como “política educacional” a diretriz dada pelo governo e pelas secretarias de cada rede pública de ensino. Mas, com o passar do tempo e o agravamento da situação – pois houve uma real piora da qualidade do ensino em todo o Brasil desde o início da década de 90 – começamos a perceber que existe um fator que pode ser mais determinante do que as próprias políticas públicas. Trata-se da “política individual” de cada escola ou profissional da educação.

Quando lemos ontem no jornal que a “nota” dada ao Ensino Médio na rede estadual de São Paulo é de 1,4 (numa escala de 1 a 10), chama a atenção a atitude louvável da Secretaria da Educação em fazer a avaliação e divulgar esses dados. Até há pouco tempo, os níveis de qualidade do ensino no Brasil eram tabu absoluto. Com os exames oficiais, os dados começaram a aparecer e a ser timidamente avaliados. Mas nunca se chegou a obter uma visão tão clara do abismo a que chegamos. E aqui quero chamar a atenção para uma outra informação, extremamente reveladora: dentro do marasmo, existem pequenas ilhas de exceção. Elas são realmente muito pequenas! O número de escolas públicas que oferecem ensino de qualidade pode ser contado nos dedos da mão. Mas essas escolas existem! Se ao invés de 5, 7 ou 9 elas fossem 30, 50 ou 100, nada mudaria substancialmente, dentro de uma rede que gerencia mais de 5 mil unidades...

Tudo isso mostra claramente duas coisas:
  • A política educacional precisa ser radicalmente mudada, a partir da avaliação feita pela própria Secretaria. Essa avaliação pode e deve ser o ponto de partida para a reelaboração de uma política educacional realmente eficaz, a longo prazo.
  • Existem, em alguns pontos espalhados pelo Estado e claramente independentes da orientação da Secretaria ou das Diretorias de Ensino, escolas regidas pela “política individual” de diretores e professores compromissados com o seu papel e com o aluno. Eles recebem os mesmos salários dos demais profissionais da rede, trabalham nas mesmas condições, mas conseguem resultados muito superiores na qualidade do ensino.

Por outro lado, não podemos ser ingênuos. Todos esses anos de trabalho nos mostraram escolas públicas “de exceção” que são, na verdade, escolas particulares “disfarçadas”, pois cobram dos pais altas taxas de APM e os obrigam a pagar uniformes caros, o que já cria uma seleção “natural” da clientela. Além disso, a vontade de manter a vaga para os filhos “obriga” os pais a pagar professores particulares e camufla a verdadeira competência da escola. Esse tipo de escola não pode ser parâmetro de qualidade do ensino! Mas algumas outras existem, onde o esforço individual, o aprimoramento dos professores e a competência da direção criam aquilo que chamamos de “política individual da escola”. Cabe à SEE investigar essas poucas escolas e seus profissionais, divulgando não apenas os resultados, mas os métodos aplicados e as práticas individuais. Essa poderia ser a segunda etapa para a elaboração de uma política pública que finalmente dê certo.

Mas de uma coisa eu tenho certeza: mesmo não conhecendo nenhuma dessas escolas de exceção que fazem o “milagre” de tornar seus alunos leitores críticos de livros e jornais, da própria escola e do mundo, nenhuma delas deve ser hostil ao aluno. É praticamente impossível uma criança ou um adolescente tomarem gosto pelo saber se forem tratados aos berros e xingamentos, se forem tolhidos em suas necessidades de esclarecimento e, principalmente, se seus cérebros forem tratados como penicos nos quais se despeja qualquer coisa, apenas para mostrar serviço e “fazer jus” a um salário no final do mês.

E é disso que tem se tratado na rede pública de ensino em todo o Brasil, durante os últimos quinze anos, praticamente desde a aprovação da “nova” LDB, até agora empurrada com a barriga. O Brasil continua um país onde o “ensino” é destinado à manutenção de uma classe docente preocupada apenas com seu salário e benesses. Os poucos exemplos de profissionais compromissados com a importância do seu trabalho na educação das novas gerações são as exceções que confirmam a regra. É uma realidade dura de aceitar, mas existe solução:

  1. Implementar uma política educacional baseada no sucesso dos bons profissionais, cobrando resultados de todos e demitindo aqueles que não demonstrem competência.
  2. Deixar claro para a classe docente que ela está a serviço do aluno e da sociedade brasileira, que seu papel não é defender o salário, as mordomias ou a aposentadoria precoce e integral, mas produzir qualidade de ensino.

A escola que existe hoje no Brasil e, principalmente, no Estado de São Paulo, é uma escola autoritária, sisuda, orgulhosa da sua ignorância e rigidez, apenas voltada para os interesses da classe docente. O aluno, dentro dela, é mal tolerado e, quando “incomoda” demais, acaba sendo facilmente expulso. Nas palavras de Gustavo Ioschpe, apelidado por visitantes deste blog de “esculachador de professores”, existe na educação brasileira um viés anti-aluno. Pela primeira vez, uma personalidade da educação traduziu nosso pensamento com uma expressão eloqüente. O raciocínio que explica esse conceito não é linear: as escolas que tratam o aluno como um estorvo são claramente aquelas que não exigem compromisso de seus professores, aquelas onde os profissionais não se aprimoram nem se atualizam, aquelas onde despeja-se o “conteúdo” nas lousas, nos cadernos e até na cara dos alunos, com expressões do tipo: “Não repito explicação para vagabundo”, “Não dou aula para cavalo”, “Você é burro mesmo, não entendeu nada”.

O viés anti-aluno é mais forte justamente nas escolas de Ensino Médio, que apresentaram o índice de 1,4 sobre 10. A “nota” da 8ª Série apresentou um índice um pouco melhor, 2,4 sobre 10. Aqui também a situação é catastrófica, mas nós, que temos ou tivemos nossos filhos estudando na rede pública, podemos testemunhar que a escola de Ensino Fundamental é mais tolerante do que a de Ensino Médio. É muito mais comum o aluno adolescente ser tratado aos berros e xingamentos do que a criança. As “tias” são um pouco mais pacientes...

Uma sugestão rápida e prática para a SEE: colocar câmeras de vídeo em cada classe. Seria um investimento alto, mas com retorno garantido, pois certamente professores e alunos tomariam muito mais cuidado em seu comportamento. A não ser que os maus professores provoquem os alunos para que destruam as câmeras, falando depois de “vandalismo”... (é um “filme” que já vimos em outras situações, e um risco real!).

A SEE acertou ao fazer essa avaliação, mas não podemos absolutamente aceitar sua previsão de esperar até o ano 2030 para ter uma escola de qualidade no estado! Urge elaborar um plano estadual que permita essa melhora já a partir da próxima geração. Se realmente houver vontade política e cobrança, o aluno que entrar na escola no próximo ano e que se formar em 2020 já poderá ser beneficiado. Mais 12 anos pagando altíssimos impostos para obter algum retorno já é muito!!!

É o cúmulo do absurdo exigir mais 22 anos para finalmente ver uma geração de adolescentes sair do Ensino Médio com a capacidade de enfrentar o mundo!

Voltando ao início deste texto, a política educacional “pública” precisa ser acompanhada pela política “individual” de cada escola e de cada profissional. Sem essa química, continuaremos no marasmo.

Comentários

Anônimo disse…
O filho do meu vizinho saiu da escola porque foi chamado de maconhero e agora não consegue nem emprego no Mec Donald.
Ricardo Rayol disse…
Mas enquanto houver interesse que existam estudantes robotizados, sem capacidade de interpretação, não havrerá politica educacional que preste.
Giulia disse…
Pois é, Ricardo, entende-se por política educacional todo o investimento feito na educação, desde a forma como as verbas são aplicadas, até os métodos de ensino. A Constituição é clara: as verbas precisam ser aplicadas na "manutenção e desenvolvimento do ensino". No entanto, todos os funcionários inativos da educação são pagos com essas verbas, bem como todo ano milhares de professores conseguem licenças de meses por qualquer motivo, somente para não ter que dar aula. Os departamentos médicos recebem os "diagnósticos" já prontos dos diretores de escola e os aceitam sem discussão...
Enquanto isso, nas escolas falta até papel higiênico! Está claro que o interesse do governo não é a "manutenção e o desenvolvimento do ensino" e muito menos o aluno, que vai continuar na mão.
Anônimo disse…
Sua fala: "Os departamentos médicos recebem os "diagnósticos" já prontos dos diretores de escola e os aceitam sem discussão..."

Tens certeza disto? foi um caso específico que você presenciou ou se trata de uma regra geral?

porque eu pelo menos já vi gente trabalhando até doente por causa do tal "bônus" e o aluno é claro, sempre fica prejudicado...

e também já vi pessoas com problemas de saúde não conseguirem se afastar... devido a burocracia que existe para conseguir tal prodígio (porque quem realmente está doente não consegue ficar andando p/ lá e p/ cá atrás de papeladas, agendamento, médico perito, etc)
Giulia disse…
Olha, anônimo, eu vi coisas de arrepiarrrrrrrrrrrrrrr!!!!!! A falta de seriedade no serviço público é um verdadeiro espanto.
Quanto a trabalhar "até doente" eu mesma já fiz isso muitas vezes e garanto que meu trabalho não ficou prejudicado.
cricardoandrade disse…
Fico imaginando o que o Brasil poderia ser, se não fossem calhordas como você...