A Nova Zelândia é aqui!


A pouca esperança que tínhamos, de que a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo estivesse disposta a diminuir seu autoritarismo, marca registrada da política atual há 14 anos, está se esvaindo. Entra secretário-sai secretário, o que resta é o clima pesado e sombrio de uma rede onde o aluno é desrespeitado em seus direitos básicos. Não basta receber 75% de aulas ruins e 25% de aulas vagas, não ter biblioteca ativa nem receber orientação para aprender a fazer pesquisa, o aluno ainda costuma ser humilhado por profissionais que detestam o magistério e vive sob a ameaça de expulsão, muitas vezes concretizada. O pior secretário estadual, na minha opinião, foi Gabriel Chalita, que conseguiu enganar a sociedade com seus delírios de “pedagogia do afeto”, enquanto os alunos eram tratados aos berros e desenganados em suas esperanças de um futuro melhor. Que o diga uma das minhas filhas, que chegou um dia chorando da escola, pois o professor de física havia passado a aula falando para os alunos que eles não tinham chance no vestibular, que o melhor a fazer era arrumar logo um “emprego” etc. etc...

O meu pessimismo de hoje é motivado por um texto publicado na página inicial do site da SEE, com o pomposo título de Escolas estaduais passam a ter Justiça Restaurativa: castigo dá lugar à reflexão http://www.educacao.sp.gov.br/noticias_%202008/2008_15_07.asp.

O site da Secretaria é tão sisudo quanto a própria rede, não tem um espaço dedicado ao aluno ou à comunidade. E foi exatamente isso que pedimos, na reunião que tivemos na Chefia de Gabinete em junho: um espaço no site sugerindo que, junto com a prometida melhor qualidade do ensino, o aluno receberia um tratamento mais cordial e humano. Mas não. De forma muito tortuosa, a Secretaria de Estado da Educação parece estar reconhecendo a importância e a eficácia do diálogo na educação. Entretanto, essa que deveria ser a ferramenta mais utilizada dentro da escola, vai ser usada apenas em casos de conflitos e para tentar evitar “punições”. Diz o texto da SEE:

"Quando um aluno ofender o outro poderá ser solicitado um círculo para chegar a acordo. A direção da escola poderá ainda oferecer, a aluno que seria advertido ou suspenso, a possibilidade de, como alternativa, participar de um círculo com a pessoa ou pessoas afetadas por seu comportamento. Funciona assim: em círculos de conversas, professores e alunos ganham espaços de diálogo e de resolução não-punitiva de conflitos.
Importante: a Justiça Restaurativa será aplicada como forma de prevenção e redução de delitos, mas as punições da rede (advertências, suspensões e transferências, por exemplo) continuam normalmente."

Isso não é medida preventiva! Prevenção é dialogar de forma aberta e democrática com toda a classe sobre a importância do bom entendimento entre colegas e professores. Esperar que o aluno crie um conflito para depois estabelecer um “círculo de conversa”, dentro de uma rede autoritária como é a estadual, significa repetir o que se faz diariamente nas escolas: convocar o Conselho para um tribunal de exceção. Em última hipótese, expulsa-se o aluno! Será que vou ser obrigada a contar pela enésima vez a história de São João da Boa Vista, quando a direção da escola fez duas reuniões de duas horas com os alunos de uma classe e mais três reuniões de Conselho de Escola para chegar ao “veredicto” da expulsão de uma aluna inocente?...

Agora pasmem: quem vai orientar os professores para a tal prática “pedagógica” da Justiça Restaurativa não são psicólogos nem pedagogos: são juízes e promotores de justiça!
Mas o mais desanimador dessa noticia é um fato inédito: a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, que até hoje tentou disfarçar seu autoritarismo evitando reconhecer publicamente que apoiava a expulsão e a suspensão de alunos, palavras até hoje “proibidas” nos regimentos escolares, acaba de declarar em alto e bom tom que essas punições são normais dentro da rede.
Ao que tudo indica, encerra-se definitivamente a era Chalita, marcada pela mais nauseabunda hipocrisia, para finalmente legitimar a ilegalidade dentro da rede. Melhor ou pior? Viva a fala do presidente da Udemo: “Não me interessa o que a lei diz. Na MINHA escola... (quem manda sou eu)”!

Ah! a Justiça Restaurativa surgiu há dez anos na Nova Zelândia e foi adotada com sucesso em diversos países. Na Colômbia, por exemplo, desde que foi posta em prática, a taxa de homicídios caiu 30%. Agora a cobaia é o aluno da maior rede de ensino do Brasil. E alguém ainda duvida que o aluno da rede pública é considerado um criminoso em potencial?...

Senhora Secretária, alguma declaração? Aliás, uma perguntinha: e o professor, também vai ser colocado no “círculo de conversa” com os alunos, quando os xingar de “QI de ameba”, “jumento”, “vagabundo” ou coisa que o valha?...

Comentários

cremilda estella teixeira disse…
Giulia
Quando é o professor que xinga ou espanca, vale uma promoção
Hoje faz aniversário o caso da escola Octacilio, onde o professor promovia bullying e espancava aluno a torto e a direito
Ele foi promovido a Coordenador Pedagógico da Escola Adelaide Ferraz de Oliveira, escola que tirou nota zero.Óbvio
O advogado da Cogesp chegou a comentar conosco que o resultado do IML era, lesão leve.Segundo relado dos alunos, o professor subiu nas costas do aluno imobiizado e encheu a orelha dele de taponas.
Ele ficou cheio de arranhões que a Diretoria Leste 4 alegou não serem do professor,"ele tem unhas curtas"
As orelhas e o rosto ficaram vermelhas, vermelhidão que sumiram até o exame de corpo de delito.
Se não sangrou e não quebrou osso, está tudo bem para a Cogesp.
Vamos esperar o que dessa turma?
Taí a INjustiça Restaurada da SEE
cremilda
Anônimo disse…
é assim a justiça da Secretaria de Educação
com certeza nas reuniões ela diz e manda dizer
pode suspender e expulsar que não dá em nada, a gente "seguramos as pontas"
foi mesmo uma bobeada, ela admitir para a imprensa que acha natural essa prática criminosa.
então, vocês que tanto criticavam o Chalita, taí o Chalita piorado.
Edilva Bandeira disse…
Cara Giulia te admiro pelo sua postura combativa e realista sobre a escola pública, entretanto, sou obrigada discordar de você quanto ao projeto da Secretaria de Educação "Justiça Restaurativa", estou otimista, dependendo da forma como for conduzida esse projeto, ele poderá ser positivo ou claro, negativo.
Aqui em minha escola (Arno Hausser de Ilha Solteira-SP) estamos em parceria com o ministério público, resolvendo conflitos. O promotor da cidade veio de sala em sala conversar com os alunos sobre seus direitos e deveres, fez reuniões com pais e professores e abriu o gabinete para os pais falarem abertamente com ele sobre a escola.
No inicio fiquei temerosa, desconfiada, me sentindo meio constrangida com a presença do promotor na escola, mas pelo que tenho conversado com os alunos eles aceitaram bem.
Então querida, acho que dependendo da maneira de abordagem o projeto poderá ser uma benção ou maldição.
Beijos
Santa disse…
Giulia

Por aqui notícias ainda piores... Recife com índices de violência os mais altos do País. Reflexo nas escolas. E a moda agora é espancar professores.

Bjs
Anônimo disse…
IHHHHHH!!

Santa querida, agora aguente o comentário arrogante da Giulia. Imagine q professor é espancando...

Aqui é Alice no País das maravilhas!!!!!
Mauro disse…
giulia,

Cabe uma hábeas corpus preventivo coletivo para impedir que 5 milhões de alunos sejam "suspensos" ou "expulsos" das escolas públicas paulistas.
Mauro disse…
Edilva,

você tem notícia de algum promotor abrindo ação judicial contra uma escola ou um professor pelo baixo ensino oferecido?
Anônimo disse…
Pois é Mauro você deve tomar providencias e fazer o Habeas Corpus
preventivo coletivo. Faça logo, por favor , e desmoralize essa cambada.Já.
Anônimo disse…
Mauro quando voce fizer o Habeas Corpus preventivo , por favor , anexar uma cópia no comentário desse
blog.
Aguardo, um abraço
Edilva disse…
....Mauro não tenho notícia de nenhum promotor abrindo ação judicial pela baixa qualidade do ensino, entretanto o promotor que está desenvolvendo trabalho na escola que eu leciono dissse na reunião com pais que seu gabineete está aberto para os pais. Diante disso cabe a estes denunciar a baixa qualidadee do ensino...
Abraços
Anônimo disse…
aluno bater em professor????
bem Deus que me perdoe, mas bem que vocês merecem
mas aqui em sampa aluno não pode nem abrir a boca que dá desacato
não sou a favor de agressão de forma nenhuma,deixo bem claro, mesmo professor merecendo....
prefiro um belo de um processo com demissão a bem do serviço público.
Ricardo Rayol disse…
reflexo do resgate histórico. manter o povo desesperançado faz parte da estratégia de se manterem no poder, qualquer um disgramado que esteja sentado no trono
Giulia disse…
Prezada Edilva, um projeto só pode ser considerado bom após ter sido devidamente testado. Há quanto tempo ele funciona na sua escola? Por favor, mantenha-nos informados! O que me parece - e gostaria de obter mais informações a respeito, alguém tem? - é que esse projeto não foi criado para ser implantado nas escolas. Parece que ele funciona mesmo é nos presídios. Tem mais: o texto no site da SEE é contraditório, ou será que sou analfabeta funcional? Preventivo o projeto não é, pois lá diz claramente que é feito um círculo A PARTIR da transgressão do aluno.
Há anos pedimos medidas PREVENTIVAS na rede pública, que são as seguintes:
- Exemplo de assiduidade e pontualidade por parte do profissional do ensino, principalmente do diretor de escola, que dificilmente está a postos!
- Exemplo de respeito e cordialialidade por parte do profissional do ensino.
- Eleição democrática do Conselho de Escola, em cujas reuniões deveriam ser tratados problemas graves com seriedade e isenção, o que não ocorre, pois hoje a maioria dos Conselhos são tribunais de exceção para a expulsão de alunos, com o aval da SEE, que acaba de deixar claro em seu site que considera a expulsão de alunos uma prática normal.
Não somos pessimistas nem cegos. Ficaria muito feliz que esse projeto fosse realmente bem desenvolvido em sua escola e espero mais informações. Por outro lado, sua escola deve ser diferente, pois a maioria dos professores compromissados como você acabam sendo afastados ou eles próprios se afastam por não agüentarem a pressão. Repito: todo projeto pode ter resultados positivos, se houver uma boa intenção. É o que queremos ver.
Anônimo disse…
Bom, O Lucas Roschel é um exemplo,
assiduidade do diretor é nula ,não cumpri seu horário na íntegra,mas no livro de presença não tem nenhuma falta.
A supervisora de lá não fiscaliza as ausências da diretora ela sequer sabe o horário dela na escola.
Professor que não respeitam o aluno e na cara da mãe chama-o de IDIOTA!
Professor que espanca aluno e depois ainda é defendido pelos os seus asseclas.
Conselho da Escola são sempre os mesmo, so um babaca que não percebe.
APM quem assina cheque são sempre os mesmo.
Professor que chama a polícia para o aluno é um covarde e antipedagogo,è muito fácil um professor trabalhar com um policial do seu lado.
Diretora que não respeita os alunos,isso já foi provado.
Diretora covarde fazendo abaixo-assinado para se defender, e fazendo os alunos e pais de alunos de babacas,dizendo que a escola vai fechar.
AH! Me ajude ai.
Edilva Bandeira disse…
Oi Júlia você tem toda razão, não fizemos um trabalho preventivo, lembro que há pouco tempo quando discutíamos os conflitos e problemas da escola com a supervisora Yara Laureano, esta propôs a organizão de assembléias preventivas de conflitos e a recepção dos colegas foi fria, silenciosa, apenas eu e a professora Neusa demonstramos entusiasmo pela proposta, proposta esta que acredito que não se realizará, o entusiasmo da maioria dos professores é pelo castigo, pela punição por medidas rápidas.Inclusive a vinda do promotor a escola foi por conta desses conflitos, como a cidade é pequena, as relações com os pais, autoridades e comunidade são mais próximas, talvez por isso os resultados sejam melhores. Como você eu sou a favor da prevenção.
PS:coloquei a notícia no meu blog, pra discutir com os colegas, entre lá e dê sua opinião que eu considero muito importante.
Abraços
Giulia disse…
Oi, Edilva, veja como tudo é relativo: lá em São João da Boa Vista, que é também uma cidade pequena, a aluna inocente foi simplesmente execrada e exposta na mídia local, pois uma equipe da escola foi até o jornal da cidade, que aceitou passivamente todo o veneno que esses "profissionais" destilaram, inclusive contra o EducaFórum. O único imparcial foi o juiz, pois o caso foi parar no tribunal e ele logo percebeu que tratava-se de uma armação contra a aluna.
Nesses 18 anos que batalho pela educação pública já vi de tudo e posso afirmar que "de boas intenções o inferno está cheio". O que você confirma, que os professores não querem saber de prevenção e que eles gostam de castigo e punições rápidas, não é a exceção, é a regra.
Vou sim no seu blog. Obrigada pela participação!
Ilde Regina disse…
Caros colegas,
Depois de tudo o q eu li gostaria de deixar minha opinião: NÃO sou tão "antiga" na área da educação (APENAS 8 ANOS), mas o que tenho observado de forma geral é q o Estado lida com a coisa pública de forma amadora, NÃO existe seriedade no trato com nenhuma secretaria e a educação NÃO está fora desse amadorismo; nós temos professores maravilhosos, como HORROROSOS, mas não podemos correr o risco de desmerecer toda a categoria. Sou uma professora presente, comprometida, responsavel, gosto dos meus alunos e sinto que eles, se não gostam no mínimo me respeitam, pois me faço respeitar. Procuro dar uma boa aula com as condições que o governo me fornece e se por ventura a aula é prejudicada por indisciplina ela torna-se uma aula de cidadania pois mostro a eles que a sociedade é cruel e seletiva e eles precisam de uma boa formação para um futuro legal. Eu procuro respeitar a inteligência de "minhas crianças" e não os trato como "coitadinhos", eu os trato com RESPEITO, assim como não sou nenhuma coitadinha, aliás odeio essa visão de que ou alunos ou professores são "coitadinhos", NÓS NÃO SOMOS, nós todos fazemos parte de um processo onde o SUCESSO tem que estar lastrado em uma coisa chamada RESPEITO!!!!!!! O governo por sua vez deveria criar mecanismos para eliminar do sistema os maus profissionais, mesmo eles sendo efetivos e não abrir sindicâncias que nunca dão em nada. Gostaria de deixar claro que sou efetiva mas não concordo com a passividade quando se trata de servidor público na hora de uma eventual punição.
Grata
Giulia disse…
Bem-vinda, professora Ilse. Belíssimo testemunho! Volte sempre.
Giulia disse…
Ops, desculpe, professora Ilde.
cremilda estella teixeira disse…
Cremilda
è
é... de vez em quando aparece uma professora Ilde Regina, são poucas mas fazem a diferença na escola pública
por causa delas é que a gente não jogou a toalha de vez.
Anônimo disse…
Mauro , so p/lembrar, v. fez o Hábeas corpus ?
Anônimo disse…
Sou pai de aluno lá da escola de São João da Boa Vista. Bem, o processo corre em segredo de justiça. Como vocês tiveram acesso ao conteúdo da sentença do juíz? Por favor gostaria de saber das coisa também porque a aluna andou dizendo para colegas da classe esses tempos atrás que foi considerada culpada e, inclusive tomou uma advertência do juíz num papel lá do fórum. Não sei quem está com a razão, se é o vocês ou se é a aluna que falou isso só pra impresionar os outros alunos. O bom de tudo é que ela tá quetinha na classe. Está estudando de manhã e não da trabalho igual quando estudava a noite. Ela disse para os colegas que só fazia bagunça a noite e de manhã a escola é muito boa. Acho que deveriam deixar a escola muito boa a noite também! Jamais colocaria meu filho pra estudar a noite. Por favor me exclareçam essas dúvidas! Abraços!
Giulia disse…
Olá, pai de aluno de São João da Boa Vista! Essa história é uma das mais vergonhosas que eu tive que interferir em todos esses anos, porque a diretora e algumas professoras dessa escola são verdadeiras cobras criadas, gente da pior espécie que não se incomoda de destruir a vida de diversos adolescentes só para garantir seu "sossego". A garota não era bagunçeira, ela só respondia quando provocada, como os adolescentes costumam fazer. A diretora se incomodou com isso e aproveitou para usá-la como bode expiatório da bagunça de outros alunos. Em cinco minutos o juiz percebeu que a menina era inocente, pois os quatro alunos "recrutados" como testemunhas da acusação começaram a se contradizer: um falou que a menina tinha usado fósforo para colocar fogo no cesto de lixo da classe, outro disso que foi isqueiro e assim por diante. A menina anda quietinha porque ela é assim mesmo. Nem sei como ela não enloqueceu com tudo isso.
Pai de aluno, cuidado com as fofocas nessa escola! Aquilo é um verdadeiro covil, seja de dia, seja de noite... Enquanto essa diretora não for afastada, tudo é possível lá dentro.

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