Minas Gerais - O Brasil morreu!


Iniciamos ontem a nova série O Brasil morreu!, relatando o triunfo do esquema de corrupção na rede pública de ensino de Araraquara. Hoje damos continuidade com o depoimento da professora mineira Fernanda Rodrigues de Figueiredo, enviado à professora Glória Reis, de Leopoldina, MG, autora do livro Escola, instituição da tortura, já bastante divulgado neste blog. O Brasil morre a cada dia, em cada cidade e escola onde o aluno é tratado com descaso, indiferença ou crueldade. Resta o consolo de que, neste espaço aberto à informação e ao debate, o crime fica registrado. Há vinte anos repetimos que faltam historiadores e sociólogos para explicar a perversidade do sistema educacional brasileiro. Não faz mal: o dia que aparecer algum, encontrará farto material neste blog.

Recebi, hoje, o livro Escola, instituição da tortura, de Maria da Glória Costa Reis. Já o li, devorei-o com toda angústia do meu espírito de educadora, com toda a dor que aprendi a sentir desde que ingressei no serviço público.

Este livro deveria circular em todas as universidades e cursos de formação de profissionais da educação, faculdades de direito, nos conselhos tutelares e nas instituições que cuidam de menores. Todos deveriam ler e saber dessas palavras ditas assim a queima roupa. Um choque. Um choque necessário. Mas um choque obrigatório. Meu Deus! Como pode haver tanto sofrimento por tanto tempo. Meu Deus! Quando políticos, autoridades, mídia e sociedade enxergarão que aí está a raiz de todos os NOSSOS problemas com a violência? Por que ninguém fala disso? Estão todos surdos e mudos? Estão cegos?

As crianças e os bons educadores pedem socorro. SOCORRO! PIEDADE! Vamos morrer todos neste mar de ignorância, autoritarismo e mediocridade que se tornou a educação. Os casos de humilhação, bullying, assédio moral, perseguições, torturas físicas. Na mídia, as vítimas são os professores, sempre os pobres professores. Na prática não é assim. No dia-a-dia, o que vemos são colegas desestimulados, azedos, sem compromisso com a educação, com a profissão, seja por comodismo, seja por desilusão.

Enquanto eu lutava para melhorar a auto-estima de meus alunos, a direção, a supervisora e alguns professores tentavam destruir com suas críticas e ações autoritárias. Fiz denúncias contra a supervisora da escola, pois ela estava agredindo os alunos (física e psicologicamente). Dentre os absurdos que a tal supervisora praticava, temos a discriminação (a filhos de pais separados e alunos com dificuldades de aprendizagem), e o hábito de chamar a patrulha escolar para levar as crianças em casa, como se fossem criminosos, por qualquer indisciplina ou mesmo uma briga entre coleguinhas, além de, ao chamar a atenção, pegar as crianças pelos bracinhos e jogá-las violentamente.

Poucos pais tiveram coragem de registrar queixa no Conselho Tutelar, pois são coagidos pela dirigente da escola, ameaçados de perderem a vaga na escola ou serem seus filhos perseguidos numa tormenta diária incessante. Tinha testemunhas e provas e a Secretaria de Educação nem quis ver, aceitaram a versão da diretora, que desmentiu tudo. Foi a segunda vez que denunciei irregularidades em escolas, pois há dois anos denunciei outra escola por reprovar alunos sem recuperação (prática comum nas escolas por onde passei).

Não houve investigação dos casos, nada foi feito.
Para abafar a situação, a SEE-MG me transferiu de escola. As crianças continuam sofrendo maus tratos e com a certeza da impunidade as autoras destes atos continuam cada vez mais violentas. Será preciso que aconteça uma fatalidade para que alguém tome providências? Quantos ainda terão que sofrer, quanta violência terá que consumir o país?

E pensando nas palavras de Bertold Brecht, me arrisco mais uma vez:

Primeiro eles maltratam os alunos, mas como não se trata dos meus filhos, eu não me importo.
Depois violentam a democracia, mas como não sou assim tão democrata, fecho os olhos.
Em seguida dizimam os bons educadores, mas como sou só um professor mal remunerado, finjo não saber de nada.
Até que um dia toda a sociedade é atingida por uma espessa escuridão de ignorância intransponível.
E como não reagi antes, já não posso operar mudança alguma.

A Prof.ª Fernanda Rodrigues de Figueiredo é mestre em Literatura Brasileira e educadora da rede pública estadual de ensino de Minas Gerais

Comentários

Regina Milone disse…
Professora, me identifiquei totalmente com você!
Também fico chocada com o que vejo, diariamente, nas escolas.
Como educadora, tento de todas as maneiras levar conhecimento aos colegas - sou pedagoga e psicóloga -, tento trocar idéias, questionar, buscar auto-crítica, auto-avaliação, humanizar o aluno de baixa renda, visto hoje como marginal desde a infância, tento mostrar o que é "normal" em cada faixa etária e porquê (afinal, estudei e muito pra isso! e tenho experiência!! tenho 47 anos e trabalho desde os 17, não só em Educação), mas é mais fácil continuarem repetindo a lenga lenga de sempre do que se abrir pra aprender, pra compartilhar e pra buscar, coletivamente, formas de enfrentar o desafio diário da Educação Pública no Brasil. É de doer!!
Mas que bom que existem professoras como você! Parabéns!!
E não desista da luta, ok?!!
Beijos...
Giulia disse…
Nenhum "anônimo" se habilita a comentar esse depoimento VERÍDICO de uma professora de carne e osso sobre sua atuação REAL dentro da rede pública de ensino!
Esses "anônimos" que nos visitam só sabem jogar lama em nosso trabalho e insinuar inverdades. Além de não ter a coragem de se identificar, não têm a COMPETÊNCIA de COMENTAR com seriedade um trabalho digno e realmente voltado para o aluno.
A palavra "anônimos" está entre aspas porque sabemos direitinho quem são...

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