Nós fizemos história - e daí?...


Muitas vezes me pergunto como é possível a gente ter começado este trabalho há vinte anos e a educação brasileira continuar no marasmo... Ô luta inglória!

Hoje assisti uma entrevista com Paulo Lins, autor do livro Cidade de Deus, que me deixou perplexa. Por um lado, ele foi esclarecedor, ao dizer o que todos sabem, mas ninguém comenta: não existe biblioteca nas escolas públicas brasileiras. No máximo, trata-se de um amontoado de livros abandonados, sem ninguém para catalogar e administrar o trabalho. Esta é uma informação que o EducaFórum repete há anos, sem qualquer repercussão. Após essa colocação, imaginei que Paulo Lins falaria de outros aspectos da educação brasileira, como escritor e também ex-morador da Cidade de Deus. Fiquei decepcionada quando ele disse que, apesar das deficiências, é um grande avanço que a maioria das crianças brasileiras esteja matriculada na escola. E foi mais um a dizer que a solução para a educação está no aumento das verbas, na valorização do professor e essas banalidades que ouvimos há vinte anos, ditas por todos os políticos em campanha e fora dela...

O Brasil é um dos países que mais “investem” em educação, ou seja, um dos que mais arrecadam impostos e destinam verbas ao ensino, mas muito desse dinheiro vai para o ralo. E as políticas públicas são confusas, o que permite a manipulação das verbas. Quem fez as primeiras denúncias sobre desvio e manipulação das verbas da educação, no Brasil, fomos nós mesmos, durante a gestão Paulo Maluf na prefeitura de São Paulo (1993 – 1996). A mídia não se interessou pelo assunto, até que resolvemos provocar o próprio prefeito, através da seção de cartas do Jornal da Tarde. Diversos membros do EducaFórum, pais de alunos da rede pública, escreveram cartas ao jornal, desafiando Paulo Maluf a declarar os valores aplicados na educação municipal, até que seu assessor de imprensa, Adilson Laranjeira, começou a responder as cartas desqualificando as pessoas, que seriam “políticos da oposição disfarçados de pais de alunos” e – claro! – não deu nenhuma informação sobre números... Insistimos enviando mais cartas, até que recebi um telefonema do editor do JT, dizendo que essa nossa “polêmica” com o Adilson Laranjeira estava ficando desagradável. Respondi então que, na verdade, queríamos apenas que o jornal fizesse uma investigação sobre o assunto. O JT se comprometeu a fazê-lo e assim saiu uma série de reportagens mostrando que as verbas destinadas ao ensino eram desviadas a bel prazer. Com base nos dados apurados, fomos ao Ministério Público, que acatou nossa representação, mas... nada mudou para melhor na educação municipal, que, aliás, tornou-se ainda pior na gestão Pitta, com a criação das famosas escolas de lata.

Com essa primeira experiência em busca de dados sobre as verbas municipais, aprendemos a lidar com os números do orçamento e fomos checar os investimentos do Estado em educação, onde havia também rombos gigantescos. Não fizemos isso apenas por questão de princípio, mas porque tínhamos filhos na rede estadual e percebemos o sucatamento, que culminou no fechamento de mais de 300 escolas durante a gestão de Rose Neubauer. Comecei a escrever artigos para o “finado” Diário Popular denunciando o desvio das verbas do ensino estadual, quando, um belo domingo de manhã, recebi em minha casa a ligação de... Mário Covas, na época governador do Estado. Antes disso, o editor do jornal me ligou perguntando se podia passar meu telefone para o governador, rsrs. Pensei que fosse piada, mas em seguida ouvi a voz de Covas, se queixando de que a gente estava acusando o governo sem fundamentos. Pedi então uma reunião no Palácio dos Bandeirantes, para que pudéssemos esclarecer os fatos. A reunião foi marcada, mas o governador não compareceu, quem nos atendeu foi Montoro Filho, o chamado “Montorinho”. Fomos em seis membros do EducaFórum e, além do Montorinho, havia na sala UM BATALHÃO de economistas com cara de japonês. Eles tentaram nos convencer de que a gestão estava correta. No final da reunião, já que não estávamos convencidos, o Montorinho se saiu com essa: “Vão reclamar na Assembléia Legislativa, pois nós seguimos estritamente a legislação e, se vocês ainda acham que há irregularidades, sugiram mudanças na legislação”.
Após essa reunião no Palácio dos Bandeirantes, fomos ao Ministério Público denunciar o desvio das verbas do ensino estadual e não preciso dizer que também essa nova atitude não trouxe melhoras na rede estadual de ensino, que teve seu pico de sucatamento na gestão de Gabriel Chalita, o “bonitinho, mas ordinário”. Essa figura é hoje vereador em São Paulo e já se saiu com projetos de lei que prejudicam o aluno...

Mas, se você leu até aqui pensando que acusamos apenas os políticos pelo marasmo em que se encontra a educação, está enganado: se houvesse uma real preocupação da sociedade com o ensino público, se houvesse uma inquietação geral, os problemas viriam à tona e seria possível buscar soluções efetivas. Não é o que acontece. Falta INQUIETAÇÃO à sociedade brasileira, aos formadores de opinião!

Então vejamos: a declaração de Paulo Lins, de que “faltam verbas” à educação é muito pobre. As verbas existem, são desviadas e manipuladas a bel prazer, mas ninguém se indigna por isso! E existe um fator muito mais grave do que a falta de verbas. É o fator boa vontade, é o fator interesse, compromisso e responsabilidade no trabalho, que falta em toda a rede pública de ensino, de norte a sul do país. Isso é comprovado por dados oficiais que mostram exceções à regra, onde a boa vontade e a responsabilidade fazem milagres em escolas localizadas em bolsões de miséria.

A realidade, na maioria das escolas públicas brasileiras, é de prédios que mais parecem presídios, onde crianças e adolescentes são tratados aos berros, onde tem aula dia sim-dia não, entendendo-se por aulas a escrevinhação de hieróglifos na lousa. A maioria dos Conselhos de Escola, que deveriam servir para melhorar a gestão, são manipulados por diretores descompromissados ou até corruptos, como é o caso do “escândalo” de Araraquara, que dura dez anos – desde a gestão Neubauer – em que A QUASE TOTALIDADE DAS ESCOLAS DA REGIÃO está envolvida no desvio de verbas públicas e das APMs. Coloquei escândalo entre aspas, pois, apesar de provas e mais provas de corrupção em mais de 50 escolas públicas de uma das regiões mais ricas do país, nem a mídia nem a população se incomodam com o assunto...

Enquanto a sociedade brasileira não sentir INQUIETAÇÃO ao ver suas crianças e adolescentes POBRES em situação de abandono e de risco nas escolas (como no caso do garoto que sofreu traumatismo craniano e não foi socorrido...), nada vai melhorar neste país onde os formadores de opinião só se preocupam com seus próprios filhos.

Existe no Brasil um apartheid disfarçado formado pela divisão da rede de ensino em pública e particular. Quando o cidadão brasileiro atinge o “status” de poder pagar uma escola particular para o próprio filho, ele passa a ignorar o lugar de onde veio. E a indústria do ensino agradece...

Quem manda, na educação pública brasileira, são os sindicatos da categoria, sindicatos riquíssimos que só se preocupam com campanhas salariais, que dominam a mídia com seus assessores de imprensa e oferecem seus milhares de advogados para os diretores e professores processarem os pais de alunos “pentelhos” e “barraqueiros”, aqueles que ousam reclamar dos maus tratos ou do assédio moral sofrido por seus filhos na escola.

Existe mais um responsável pela situação em que se encontra a educação brasileira: é a mídia, envolvida em contratos milionários com o poder público e pouco se importando com a situação dos filhos... dos outros. Mas, para diminuir a ira dos profissionais da mídia que porventura leiam estas linhas, lembro um artigo do jornalista Luiz Weis, publicado pelo Estadão em 94 ou 96, chamado “Imprensa Gazeteira”. Ele dizia mais ou menos assim: "O assunto educação foi se esvaziando na imprensa, à medida em que o filho da empregada foi passando para a escola pública e o filho da patroa para a rede particular". Algo mudou de lá para cá?...

Repito: falta INQUIETAÇÃO à sociedade brasileira, para que a política educacional tome rumos acertados, diminuindo a corrupção, o autoritarismo e a incompetência na rede pública, que se manifestam desde o desvio de verbas, a venda de uniformes, “ingressos” para o cinema e outros quetais dentro das escolas, até a expulsão e exclusão dos alunos inteligentes e questionadores, odiados pelos buRROcratas que empurram a nossa educação com a barriga. Os resultados não mentem!

Comentários

Luciano A. Silva disse…
O Brasil sabe que não há nenhum politico honesto ! esta estampado na CARA desses que se dizem fazer algo pelo povo! o sentido que alguem ou politico roubou esta tão banalizado, que esses conseguem dar entrevistas e ainda ficarem de bem com seus eleitores que tambem tem ai parcelas de culpa, porem, contudo, ha de se perdoa-los pois não tiveram estudos não tem e não teram, qual politico que quer ver seus eleitores inteligentes ?...lembro, quando meus país lutavam para dar a nós filhos bons estudos, e as estorias que contavam o quanto nossos avos faziam o mesmo e hoje fazemos o á nossos filhos, por ai vai !, no futuro, veremos nossos filhos lutando por melhores estudos para nossos netos e não vai acabar infelizmente! teremos apenas um ou outro sevidor que se destacara, mais nada de mais ! ninguem fará nada pelos estudos e quem puder que se salve quem puder que estude, se tornem autodidatas!, nossas reclamações, em qualquer parte de midia, há muito, deixou de ter seus efeitos, e os orgãos "COMPETENTES" fingem fazer algo que dura anos e acaba no esquecimento,....bom acho que ja desabafei demais...porque é o minimo que se pode fazer e poder sair de casa para trabalhar, á noite tem mais dor de cabeça ! nem é preciso ser um sinesteta para sentir o gosto de @#%&* da musica que esses governantes, legisladores etc...tocam !!.
ANTONIO MONTEIRO disse…
É Giulia, entendo bem esta sua inquietação, com pitadas picantes de decepção, e indignação.
Estive depondo na SEE-SP, em 28 de julho na 1ª Comisssão Processante, no processo 0001 a 0004/2007 - onde estão processados 18 diretores de escolas por suposto desvios de verbas destinadas às APMs de 2003 para cá.
Haja vista que as denuncias com provas docmentais vem desde 1997, pois temos na DE de Araraquara 03 diretores exonerados por usarem desta pratica.
Mas ao ser inquirido, o foco não foco da SEE-SP não eram a gravidade dos fatos, das provas, mas pasmem, o que lhes interessavam perguntar-me eram os meios em que consegui as provas, porque me interessei sobre este assunto, e se era porque minha esposa foi processada pela ex dirigente, e eu estava fazendo uma vingança contra os diretores.
Minha reação foi de indignação diante de tantas inquirições só focadas em banalidades. Como eu um cidadão Araraquarense só iria denunciar um esquema por motivos pessoais?. Prezada Giulia fiquei lá com 05 advogados e a Procuradora, apenas para negar que s tratavam de peseguições aos diretores de escola, mas sim de "Direitos", de enquanto cidadão denunciar e para isto apresententei provas concretas. Que estava ali apenas para confirmar que conheço e investiguei o maior esquema de corrupção na SEE-SP, anterior ao da DE de Taboão da Serra, que também envolem notas fiscais frias.
A defesa deles é o ataque a um denunciante e sua família, a execração pública, a destruição moral, a desqualificação era a tônica do dia, passei 04 horas tentando explicar e voltar o "foco" notas fiscais frias amortizadas em prestações de contas.
ANTONIO MONTEIRO disse…
Giulia, foi uma luta desgastante, os advogados dos diretores colocavam a culpano escritório de contabilidade, nos pais de alunos diretores financeiros e executivos da APM, nos gatos, nos cachorros que rondam a escola, mas menos neles. Menos nos diretores de escola, a Sandra Rossato não sabia de nada, eles livram mais um vez a cara dela, e nem os supervisores.
E eu reforçava mas como? Se 03 diretores foram exonerados por averiguações desta natureza "uso de notas fiscais frias", com as mesmas firmas e outras que também pude comprovar não existirem , serem firmas de casa de ração, ou sapatarias, mecadinhos, bar, e a diretora primeira Ana Claudia de Camargo foi exonerada e está respondendo processo na policia federal, onde já protocolei numero do processo na 1º comissão processante.
Como se em 2004 o diretor Hermilo Machado foi exonerado pela mesma coisa. E a Sonia Fernandes que em denunciando desde 2004 o esquema entre tapas e beijos com a ex dirigente. E tudo foi investigado pelos supervisores de ensino e por ela, pelo juridico da DE e finanças como eles não sabiam do esquema. Se alguns foram até punidos por esta corja de profissionais da educação no minímo desmemoriados?
ANTONIO MONTEIRO disse…
E ainda vale lembrar o diretor de escola quase esquecido "Valmir Rodrigues" de Capão Redondo - EE João Silva - DE - Sul 2, então o mesmo, digo Sr Valmir, tem milhares de notas fiscais frias, responde processo que está em fase terminal na Policia federal por crime de peculato, assim como a ex diretora Ana Claudia que este ano faz 05 de sua demissão e já pode voltar ao Estado como diretora.
E a Sandra Rossato saiu impune porque alegou que naõ sabia de nada.
Os 18 diretores também alegam não saber de nada.
De quem é a culpa, ou responsabilidade dos desvios de verbas públicas dos denunciantes, dos pais de alunos, dos alunos?
Esta respostas só saberemos no resultado final do processo.
As provas documentais Giulia que são quentes, é o que menos interessa, eles se apegam a picuinhas, menos aos fatos.
Roubar dinheiro da Educação Pública Estadual durante 12 anos foi tratado com descaso, banalidade, e desinteressante. Nas mãos da "Política" mais suja e sórdida que existe neste Estado, é a palavra final nestes processos. É isto o que pude constatar no dia 28 de julho.
Mas nunca devemos desistir dos nossos processos e daquilo que acreditamos.Deixei claro isso a eles, que não desisto, tenho a mais forte Convicção e Razão de Ser daquilo que defendo e não se trata de prejudicar pessoas (diretores de escola, supervisores de ensino) mas garantir direitos.
Abraços.
Antonio
Giulia disse…
Que pena, Antonio, que você não me ligou! A gente poderia pelo menos dar um sustinho à chefia de gabinete do Paulo Renato, aparecendo de supetão, de repente levando algum jornalista a tiracolo. Veja que um dos seguidores do blog é o Instituto Vladimir Herzog, recém inaugurado. Estive no lançamento por acaso (canto em um coral que participou da cerimônia) e entrei em contato. O instituto defende os direitos humanos e no discurso de inauguração enfatizaram o direito à educação. O conselho do instituto é formado pelos melhores jornalistas do país. Não sei até que ponto eles estariam dispostos a nos apoiar (a "estrela" da cerimônia foi o José Serra...), já fiz vários apelos para que fizessem uma reunião conosco, mas tudo o que consegui foi que virassem seguidores do blog. Sei lá se lêem o que está escrito por aqui, rsrs. Mas acho que seria muito interessante você lotar o blog e o site deles com suas mensagens, assim não podem dizer que não estão sabendo do esquema Araraquara. Como já te pedi, procure usar uma linguagem pouco técnica, pois os termos jurídicos são difíceis para leigos. Boa sorte e um abraço!

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