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"Democramole" na educação

Já que este blog é muito antigo, e que a cada 7 anos termina um ciclo, separamos alguns posts desde 2010, para avaliarmos o caminho andado na educação. Se a única realidade da vida é a mudança, o que será que mudou, de lá para cá?...

Janeiro de 2010

"Há décadas, o Brasil é considerado campeão da injustiça social. Não porque a exploração ou a repressão sejam ostensivas, pelo contrário. Onde a exploração e a repressão são evidentes, a solução é clara e só depende de coragem para o confronto.

No Brasil a injustiça social é velada e covarde. O apartheid inicia na escola, num consenso que já vem de gerações: onde se viu a patroa misturar seus filhos com os da empregada, nos mesmos bancos escolares?... Ou mesmo numa escola pública de outro bairro?...

90% das escolas brasileiras são públicas.
10% das escolas brasileiras são particulares.

Em média, as escolas brasileiras são ruins, sejam públicas ou particulares. Os índices nacionais e internacionais estão bem claros. Mas não se trata apenas da tão propalada "qualidade do ensino" (o que será isso mesmo?...), mas do respeito ao aluno, que em ambos os sistemas costuma ser tolhido em sua curiosidade e vivacidade natural. Ou a criança é massacrada com excesso de tarefas que abafam seu potencial criativo, ou é largada ao Deus dará, sem estímulos que permitam o desabrochar de seus talentos.

Quantas escolas brasileiras, entre públicas e particulares, estão preparadas para dar ao aluno a orientação e a formação que ele merece e precisa, para poder se desenvolver como pessoa e contribuir para o progresso da nação?

Em resumo, a esmagadora maioria das escolas brasileiras "forma" alunos sem motivação ou interesse, cujo analfabetismo funcional se revela nas faculdades, onde não sabem redigir ou interpretar textos, nem fazer pesquisas. Quantas teses de mestrado e doutorado, muitas feitas com o suado dinheiro público, contribuem para a nação?...

O maior problema do país começa e se fecha nos bancos escolares.

A escola do filho da patroa, mesmo sendo tão ruim quanto a do filho da empregada, apresenta uma diferença: quando a patroa vê que ele é atordoado por uma avalanche de informações que não sabe administrar, dá-lhe professor particular para poder... passar de ano. Ou então ela muda o filho de escola. De tapa em tapa, o diploma está garantido.

Já a empregada é obrigada a aceitar a escola que o governo "oferece" para seu filho, muitas vezes longe de casa, obrigando-a a pagar transporte, uma escola administrada por profissionais cujos filhos estudam na escola... dos filhos da patroa. E não tem a quem apelar, pois toda a mídia deixa bem claro que A RESPONSABILIDADE PELA VIDA ESCOLAR DOS FILHOS É DOS PAIS, eles que estejam "presentes", que ajudem nas lições de casa, que participem como "amigos da escola", que não faltem às insuportáveis reuniões de pais onde vão ouvir falar mal de seus filhos ou de seus colegas "do mal". Enfim, a culpa do fracasso escolar é atribuída às próprias vítimas. E dá-lhe perseguições e represálias contra quem se atrever a reclamar!

EM TEMPO: filho de jornalista também estuda na escola dos filhos da patroa! Será que isso também não ajuda a entender a equação?...

É claro que a maioria dos pais da rede pública não vai poder ajudar muito nas lições, nem pagar professor particular. Então, chegar ao diploma pode ser um desafio impossível. Tanto é que em todo o país os níveis de repetência são altíssimos, os de desistência idem, os de expulsão não entram nas estatísticas, pois são "legitimados" através dos Conselhos de Escola, tribunais de exceção comandados pela direção, que decidem quem permanece na escola: aluno "bonzinho", "quietinho", bem vestido ('magina aceitar quem vai de chinelo!) e de família"estruturada"... Problemas disciplinares corriqueiros são hoje "resolvidos" chamando a polícia na escola - até criança de 7 anos já foi parar na delegacia!

O aluno da rede pública só aparece na mídia, dominada pelos sindicatos da classe "docente", quando se sobressai como prodígio, ou então quando pratica algum vandalismo, tornando-se elemento suspeito que põe em risco a segurança dos professores e dos colegas. O que se passa nas escolas públicas, já a partir dos primeiros anos da vida escolar, só os alunos sabem - e obviamente não conseguem explicar, como é normal nas crianças...

A escola pública é uma "caixa preta", uma "Instituição da tortura", como diz o livro da professora Glória Reis, é "o lugar onde a criança chora e a mãe não vê", como a Cremilda ouviu seu próprio filho dizer.

Isto não terá solução! Não, enquanto a sociedade brasileira continuar resolvendo pagar duas escolas, uma para seus próprios filhos e outra para os filhos... dos outros.

Mas existe, no sistema educacional brasileiro, um problema ainda maior que o apartheid: é a exclusão. Por ruim que seja, a escola é um mal necessário. Até ela se tornar digna desse nome, muitas águas vão rolar mas, por enquanto, ruim com ela, pior sem ela. Aluno expulso ou excluído não tem chance alguma, em um país onde até o lixeiro ("o mais baixo na escala do trabalho", nas palavras do "jornalista" Boris Casoy) precisa de um diploma.

O Brasil de hoje não é ditadura nem democracia, nem mesmo "democradura", como tem sido chamado. A meu ver, trata-se de uma "democramole", uma sociedade amorfa que pouco se preocupa com seu futuro, representado pelas novas gerações. Se a patroa se preocupasse com o futuro dos próprios filhos, lançaria um olhar para as favelas, assim não precisaria levantar muros tão altos para isolar sua família. Se as autoridades de todos os poderes e escalões realmente tivessem intenção de melhorar a educação, arregaçariam as mangas e TRABALHARIAM, não ficariam encasteladas em seus gabinetes, despachando uma papelada inútil, enquanto as escolas ficam à mercê de diretores e profissionais mal preparados e viciados pela falta de cobrança e fiscalização, faltando a bel prazer e achando o trabalho um peso insuportável.

Este quadro dantesco tem se confirmado nos últimos anos, quando uma das maiores esperanças para a educação brasileira andou sendo enterrada pela preguiça do sistema educacional: a progressão continuada. Chamada de "empurração automática" pelos profissionais que não entendem (ou não querem entender) seu mecanismo, ela acabou sendo rejeitada pela sociedade e pela mídia. Como já cansamos de repetir aqui, e ainda não desistimos, a Progressão Continuada pode ser explicada numa equação simples:

PROGRESSÃO CONTINUADA = AVALIAÇÃO CONTÍNUA + RECUPERAÇÃO CONTÍNUA.

Ela é rejeitada porque exige trabalho do professor, do coordenador pedagógico, do diretor da escola, do supervisor, do dirigente de ensino e do secretário da educação. Ninguém quer essa trabalheira, melhor ficar carimbando papel!

A Progressão Continuada foi muito bem implantada no início da década de 90,  aqui na rede municipal de São Paulo, por Paulo Freire (já ouviu falar?...) e Mário Sérgio Cortella, na gestão Erundina, mas quem deu continuidade?... Paulo Maluf?, Celso Pitta? rs Nem a Marta se preocupou com isso... Na rede estadual o fracasso também foi geral e a volta à repetência é aclamada como solução para um problema gerado pela falta de competência e/ou pela preguiça. Pouquíssimas vozes têm se levantado a favor da progressão continuada e contra a repetência. Uma delas é a da filósofa Viviane Mosé em seu artigo Educação: a briga no Rio está errada, leia clicando aqui.

No fundo, porém, a questão do método de ensino continua sendo secundária, em um país onde a REPETÊNCIA, a EXPULSÃO e a EXCLUSÃO são as ferramentas utilizadas propositalmente para sucatear o sistema público e assim privilegiar uma rede privada que só visa lucro e também não se preocupa com a EDUCAÇÃO.

Para transformar essa "Democramole" em real democracia, a sociedade tem que abrir mão de querer privilégios para seus próprios filhos, aceitando que eles sentem, em paridade de condições, nos mesmos bancos escolares com os filhos... dos outros.

Ou então, que se criem escolas sem bancos, com salas e espaços abertos, onde o conhecimento e a cultura possam circular livremente, escolas onde as crianças e os jovens possam sentir-se integrados à vida! Utopia? Sim, para que não deixemos de caminhar..."

Comentários

Edilva Bandeira disse…
Giulia é incrivel como a repetência desperta um tesão enorme na maioria dos professores...como eles, elas sentem prazer em repetir um aluno.
A progessão continuada é um avanço extraordinário, que como você afirmou não é usada adequadamente por preguiça de alguns e falta de formação de outros.
Advinha quem é a grande inimiga da progessão continuada? Ela mesma, a retrógada e mediocre APEOESP.

Abraços e boas lutas em 2010.
Ana Cristina Junqueira disse…
Giulia esta é a primeira resposta do governo das cobranças de impunidade na DE de Araraquara:>
a pena de cassação de aposentadoria em face de SÔNIA
MARIA DA SILVA FERNANDES, portadora da cédula de identidade
RG 6.012.419, Diretor de Escola, na época dos fatos
classificada na EE “Professora Lea Freitas Monteiro”, localizada
no Município de Araraquara, jurisdicionada à Diretoria de Ensino
Região de Araraquara e subordinada à Coordenadoria de Ensino
do Interior (CEI), nos termos do disposto no artigo 251, inciso VI,
da Lei n° 10.261/68, por restarem comprovadas as irregularidades
apontadas na Portaria de Enquadramento acostada às fls.
438/442.(Processo nº 1391/0000/05 (03 Volumes).
(Int.: Dra. Ruth Bicudo, OAB/SP 47.622).
A dirigente teve a pena demissão abrandada para a de suspensão que não foi aplicada.
Abraços e continue na luta tem mais dezoito respondendo processos criminais IP nº 15/06 - 2º distrito Policial de Araraquara e Processo administrativo disciplinar nºs 001 a 004/2007 - por improbidade administrativa - na 1ª comissão processante.
Ana Cristina Junqueira
PROGRESSÃO CONTINUADA = AVALIAÇÃO CONTÍNUA + RECUPERAÇÃO CONTÍNUA.

Essa seria a fórmula de sucesso e realmente dá trabalho.

Mas, pensem. Um professor está lá dando suas aulas, tem que dar continuidade com a matéria. Como fica o aluno que não aprendeu? Se o professor fica sempre batendo na mesma tecla de assunto que já foi visto para ajudar os alunos que tem dificuldade, como fica o aluno que já aprendeu? Se atrasa por causa do colega que não aprendeu ainda?

Falta organização na escola pública. As recuperações paralelas são "cotas", cada escola tem direito a X vagas em recuperação no contra-turno. Vagas essas que muitas vezes são insuficientes para atender todos alunos que precisam recuperar-se.

Então no meio de todos que precisam fazer recuperação, só alguns tem vaga. Esses escolhidos se sentem "castigados", pois fulano e beltrano que também não tem boas notas não estão na recuperação. E aí o aluno desanima e deixa de frequentar. Situação essa que torna tudo mais complicado.

Sem contar que colocam os professores mais inexperientes para dar as aulas de recuperação paralela, dificilmente um efetivo que passou no concurso e que domina bem os conteúdos pega estas aulas...

Está tudo errado!
Giulia disse…
Lilian, você está coberta de razão. É o que sempre dizemos: o sistema educacional é falho DE PROPÓSITO. Nâo interessa aos nossos governantes que ele funcione, simples assim. Se houvesse interesse, os programas seriam implantados com competência, supervisão e cobrança. Já ouviu falar de "supervisor de ensino"? Seria a maior piada do país, se não se tratasse de "profissionais" muito bem pagos, muitos dos quais, aliás, são DIRETORES DE ESCOLA AFASTADOS DE SUAS FUNÇÕES POR PUNIÇÃO, mas que o sistema impede sejam exonerados...
Renato disse…
Giulia

Você mesma colocou um link para o seguinte artigo:

http://veja.abril.com.br/180209/p_112.shtml

É interessante que ele demonstra que a péssima educação brasileira é resultado lógico dos mecanismos sociais e das relações políticas em ação no país. Também o artigo logo acima, do mesmo autor, entra fundo nas causas da nossa péssima escola. O cerne da questão é que temos PROFESSORES DESPREPARADOS E CORPORATIVISMO. O estado das coisas tende a não se alterar, porque todos tendem a não enxergar o problema de forma realista.

Agora, vejamos como mudar a situação. No campo político, a saída parece totalmente bloqueada. O governo federal é um governo dos sindicatos. Os governos estaduais e municipais tem medo dos sindicatos. O povo não está mobilizado em torno do tema (na verdade, nem o compreende). Portanto, não rende votos.

Quanto aos sindicatos, esqueça. Eles sequestraram o debate e, para eles, isso está muito bom.

A academia? Eles admitiriam que estão formando péssimos professores? Para eles isso também está muito bom.

Mas poderíamos informar diretamente os pais? O Gustavo escreve com mais clareza que você, faz análises profundas e tem escrito por anos na revista de maior circulação do país. Qual o resultado? Mal conseguiu arranhar a consciência do público. Além disso, seu público é apenas parcela da classe média. Outra pessoa com mais público que o Gustavo, por ser muito lido na internet, é o Reinaldo de Azevedo. Se ele batesse forte numa série de artigos, por meses, teria um efeito maior, mas ainda estaria restrito a uma pequena parcela do povo. Útil, mas amplamente insuficiente. Teria de ser parte de uma estratégia maior.

As redes de tv seriam o ideal, para fazer chegar rapidamente esse debate ao grande público. Mas qual delas teria coragem de ir CONTRA O DISCURSO DA ACADEMIA E DOS SINDICATOS? (que são um grande esteio do governo federal, que é dono de grande parte das verbas publicitárias) Com muita dificuldade, talvez, só o SBT. Mas não é muito provável.

Há duas outras organizações com profunda penetração social no Brasil. A Igreja Católica e a Igreja Assembleia de Deus. Mas, mesmo que seus líderes se interessassem suficientemente pelo assunto, ambas tem acordo político com o governo, e portanto, terão motivos para não peitar os acadêmicos e sindicalistas que apoiam o governo. Além disso, a maioria dos padres e parte dos pastores apoia a ideologização da educação, que é uma das fontes de problemas.

Mas nem tudo está perdido. Numa estratégia de médio prazo, um grupo coeso e suficientemente amplo de pessoas como você, pode influenciar um certo número de padres e pastores, individualmente. Isto pode tornar-se um movimento difuso dentro de várias igrejas, para exigir professores mais bem preparados.

continua...
Renato disse…
... continua

Paralelamente, nada impede de tentar levar o assunto à tv, mesmo que seja numa emissora menor. Pode-se também falar diretamente com os apresentadores, pois muitos tem certa independência. O ideal seria um(a) apresentador(a) com grande audiência, batendo nessa tecla por bastante tempo. Imagine, por exemplo, um quadro no programa do Luciano Huck ou do Raul Gil, homenageando professores com desempenho acima da média, toda semana. O quadro poderia trazer embutido o seguinte discurso: “Este é um ótimo professor, mas infelizmente, muitos professores não tem um preparo tão bom, pois as faculdades de pedagogia não tem um enfoque adequado. Nunca teremos uma boa educação para nossas crianças, enquanto as faculdades não formarem professores mais capacitados”. Parece quase inócuo, mas abre os olhos do público. As pessoas, vendo na tv professores que conseguem cativar a atenção das crianças, começarão a compara-los com os professores de seus filhos. Note que o apresentador não precisa peitar diretamente os sindicatos, mas cuidadosamente deve fazer o público entender que qualidade de educação é diferente das reivindicações trabalhistas dos sindicatos. O publico deve ser levado a entender que os professores não SERVIDORES e precisam ser COMPETENTES e que as reivindicações dos sindicatos tem pouco a ver com isso.

Penso que você precisa trazer para o debate muitos formadores de opinião. Você não conseguirá convencer todos, mas essa é a estratégia correta, trabalho de bastidores. Forme um grupo grande de amigos, e procure essas pessoas. Comece com o próprio Gustavo, talvez ele possa ajudar a trazer gente mais graúda. Os formadores de opinião precisam entender a real natureza do problema (falta de qualidade dos professores e corporativismo) mas podem modelar seu discurso público para não bater de frente com os sindicatos, se isso for muito desgastante ou politicamente inviável.

Desculpe a franqueza, seu blog é ótimo, ajudou a abrir os meus olhos, mas você precisa de gente com muito mais público.
Giulia disse…
Renato, é um imenso prazer receber comentários como os seus, tão bem articulados, mostrando que foi feita uma reflexão sobre os assuntos. Pessoas como você dificilmente aparecem por aqui e já tive seu entusiasmo. Nestes vinte anos de trabalho você não faz idéia de quantos meios de comunicação já buscamos. Houve uma época "áurea" em que a mídia nos procurava quase semanalmente, o Mário Covas chegou a ligar para minha casa para saber o que tanto a gente reivindicava... Hoje está tudo dominado, como diz a Cremilda. Tive uma boa troca de e-mails com o Gustavo Ioschpe na época em que ele escrevia na Veja, depois ele sumiu, não sei o que houve por lá, mas está claro que ele também não agradou. Hoje somos poucas andorinhas e o verão está cada vez mais longínquo. Você escreve muito bem e me pergunto quem é. Espero que esteja realmente interessado em ajudar e não apenas em dar palpites. Peço para você mandar um e-mail para educaforum@hotmail.com, assim podemos nos organizar. O EducaFórum é um movimento informal, não atrelado a ongs ou partidos, qualquer pessoa bem intencionada pode participar, desde que seja também isenta. Nossa maior frustração é que geralmente os pais que ajudamos somem após resolverem os problemas de seus filhos, eles não somam conosco, como aconteceria em um país onde a população tivesse mais consciência social. Entende como o "buraco" é fundo por aqui? Outro dia liguei para uma mãe cujo filho expulso conseguimos reintegrar na escola, tivemos um trabalho danado, aguentamos reuniões de Conselho de Escola onde não nos deixaram abrir a boca, fomos duas vezes na Secretaria da Educação e finalmente conseguimos. Pais bem alfabetizados, diferente do comum, uma família que poderia contribuir com seu exemplo e seus comentários aqui no blog, mas simplesmente não deram a mínima, depois que o problema foi resolvido. Consegui falar com a mãe depois de um tempo, estava no trânsito dentro do carro, pediu desculpas porque "o computador estava quebrado" e não podia ler os e-mails, depois sumiu de vez... Entende onde quero chegar?
A sua idéia de levar exemplos positivos à mídia comparados com o status quo é excelente, vamos pensar nisso, mas corremos o risco de passar uma imagem positiva que não seria desmitificada, como acontece por exemplo com a revista Nova Escola. Já tivemos diversos contatos com eles e pedimos para mostrar o outro lado do "país das maravilhas" que eles divulgam, foi em vão. Inclusive tem um catedrático lá que poderia nos ajudar e já pedimos, mas, como você mesmo diz, qual o interesse?... A mensagem mais "dolorosa" que recebemos nestes 20 anos foi do Fredric Litto. Ele nos escreveu "do nada" (o contato foi dele) dizendo que admirava nosso trabalho, que "alguém" tinha que fazer o que a gente fazia, mas que "não nos autorizava" a divulgar a mensagem... Enfim, é um buraco muito fundo, o que acha?
Mas continue em contato!
Renato disse…
Giulia

Obrigado por sua resposta. Vou enviar um e-mail para você depois.

Note que grande parte daqueles que colocam seus filhos em escolas particulares, pagam-nas com sacrifício. Eles não tem noção de a educação de seus filhos poderia ser melhor, de que seus professores são incompetentes.
Mesmo aqui no blog, grande parte dos comentadores não tem clareza sobre a natureza do problema.

Penso que o discurso deve ser mais focado. Você deve antecipar-se às críticas. As pessoas dirão que os pais são ignorantes, que não participam, que muitas crianças não recebem educação em casa, e que há problemas sociais. A resposta a isso é que existem esses problemas em qualquer lugar do mundo, em alguns lugares, menos do que aqui mas, em muitos lugares, de forma mais grave que no Brasil. Professores que só fossem capazes de educar "crianças ideais" não servem para dar aula em lugar nenhum.

Mesmo o seu discurso sobre a violência contra as crianças deve ser articulado melhor na questão da incompetência. Os tribunais de exceção servem para ESCONDER os frutos da incompetência e descaso dos professores.

O cerne no problema é a mentalidade dos professores das faculdades de pedagogia. Tudo gira em torno disso. Talvez, uma maneira de tornar o problema mais visível seja um grupo criar uma escola com outra proposta pedagógica.
Giulia disse…
Aguardo seu e-mail, Renato! Você está parecendo o próprio Gustavo Ioschpe, rs. E mostra que conhece muito bem a rede de ensino.
Pais Online disse…
Renato,
Você falou e disse tudo: "Professores que só fossem capazes de educar "crianças ideais" não servem para dar aula em lugar nenhum." Aquela escola pública do passado que as pessoas adoram citar, era excludente, exigia até vestibulinho. Agora, com a universalização do ensino, a grande maioria dos professores mostram seu total despreparo e agonizantes tentam culpar a pogressão continuada pela sua própria incompetência. A Progressão continuada é ótima mas é preciso levantar a bunda da cadeira e trabalhar.
nosságora disse…
parabésn por esse post. gostaria de saber se posso publicar no meu blog.
abraços a todos
Giulia disse…
Olá, Nosságora, fique à vontade para publicar. Abraço!
Renato disse…
Giulia

Grato pela sua mensagem. Vou tocar num ponto que talvez seja o "nó" da discussão.

Algumas pessoas rebaterão as afirmações contidas neste blog, afirmando que "as terriveis condições sociais do Brasil explicam as dificuldades na educação". Vou mostrar que não.

A primeira questão é a econômica: Neste ponto, embora o Brasil, por questões diversas, nunca tenha alcaçado o nível econômico esperado (e não alcançará enquanto as legislação for complicada e alguns empresários forem favorecidos em detrimento de outros), é certo que a economia brasileira cresceu muito nas últimas décadas. Cresceu muito no pós guerra, cresceu muito com os militares e cresceu muito após o plano real. Após a estabilização houveram uma série de crises cambiais em muitos países, que nos prejudicaram, mas mesmo assim, houve crescimento. Após a crise argentina, não houve mais nenhuma crise de natureza cambial, o que permitiu um crescimento menos sujeito a altos e baixos. Resumindo, a renda per capta dos brasileiros tem tido um crescimento médio razoável por décadas, entremeado com alguns períodos de crise.

Se a pobreza fosse a causa do mal desempenho escolar, como se explica que a pobreza tenha sempre diminuido, e o desempenho escolar sempre piorado?
Renato disse…
continua...

Alguém argumentará que, apesar da pobreza ter diminuido ao longo das décadas, a escola passou a atender uma parcela cada vez maior das crianças, e portanto, mesmo tendo diminuido a pobreza, aumentou a proporção de pobres na escola. Tais crianças, que antes não eram atendidas, seriam a causa da diminuição do nível médio do ensino.

Falso. Como bem colocou a Giulia, há anos os alunos de classe média tem sido separados dos alunos mais pobres. Meu pai, apesar de ser funcionário do Banco do Brasil, não tinha condições de manter os filhos e escola particular e a pública era bem melhor do que hoje. Atualmente, há cada vez mais alunos na rede particular. Seria de se esperar, se a pobreza média dos alunos fosse a explicação, que o nível das escolas particulares fosse muito superior ao das escolas públicas. Não é o que acontece, e muitos pais de alunos de escolas particulares são obrigados a contratar professores particulares, para ensinar a seus filhos o que os professores das escolas não conseguiram ensinar. O professor "free-lancer", ao contrario do professor de escola, depende do desempenho do aluno...

O que há de comum entre os professores de escolas particulares e escolas públicas? Estudaram, muitas vezes, nas mesmas faculdades, com os mesmos professores. Mesmo que não tenha sido esse o caso, estudaram com professores que tinham a mesma mentalidade, os mesmos métodos, o mesmo pensamento.
Renato disse…
Do que eu disse anteriormente, concluo que o nível econômico dos alunos não é o fator principal na qualidade da educação.

Algo importante a ser verificado é a influência da violência. O Braeil, entre os países que não estão em guerra, é um dos mais violentos do mundo. Na América Latina, creio que só Haiti e Venezuela são mais violentos. Só em homicídios dolosos, estamos na marca dos 50.000 por ano.

Mas o Brasil não é violento por igual. Rio de Janeiro e Peranbuco estão entre os estados mais violentos. São Paulo e Santa Catarina são muito menos violentos que a média. Seria de se esperar, se a violencia fosse a causa principal do mal desempenho escolar das crianças, que houvesse uma forte correlação entre desempenho escolar e violência. Nos locais menos violentos, a educção teria um nível comparável ao dos melhores países. Não é o que ocorre. Devo lembrar que professores que dão aula em regiões violentas e em regiões pacíficas, são formados por faculdades com mesmos métodos, mesma cultura, mesmas enfase...
Renato disse…
Há outra questão importante, a desagregação familiar. Sabemos que crianças que são rejeitadas, às vezes até criadas sem amor, tem frequentemnte mais dificuldade para aprender.

Ocorre que este é, hoje, um problema muito comum em todos, ou quase todos os países. Mas na imensa maioria deles, o aprendizado das crianças é muito superior ao que vemos no Brasil. Assim, a desagregação familiar não pode ser a principal causa do nível de educação particularmente ruim no Brasil.
Renato disse…
Alguém argumentará que, há crianças afetadas por problemas tais que prejudicam gravamente o aprendizado. Podem ser problemas familiares, violência, abuso, problemas de saúde, etc.

É verdade, mas, em primeiro lugar, isso não explica o baixo nível GENERALIZADO da educação no Brasil. Mais ainda, tais problemas ocorrem em qualquer lugar do mundo. Em alguns países, os professores tem tal qualidede de treinamento, que muitas vezes conseguem melhorar grandemente o aprendizado dessas crianças. Se é algo que existe no mundo todo, não pode ser a explicação para o ensino particularmente ruim no Brasil.

Mas há algo particular no Brasil, algo que não existe em nenhum lugar do mundo. A mentalidade, os métodos e a forma de pensar das faculdades de pedagogia, são diferentes em cada país. E, se há um efeito peculiarmente brasileiro (nosso nível de ensino particularmente ruim, considerando a quantidade de dinheiro investido), devemos procurar causas peculiares ao Brasil.
Giulia disse…
Renato, concordo com quase tudo que você coloca. Mas me incomoda muito essa questão de reduzir os problemas das faculdades de pedagogia à ideologia de "formar cidadãos". Vou te contar uma história que só nós (eu, Cremilda, Mauro, enfim aqueles que têm uma história de ativismo na educação) podem contar: Paulo Freire e Mário Sérgio Cortella também tiveram grandes dificuldades para implantar a progressão continuada na rede municipal de São Paulo! Paulo Freire morreu em seguida e Mário Sérgio se desencantou da politicagem que aquilo virou, nunca mais quis participar do sistema. Eu lembro muito bem que em certos grupos de "educadores" petistas muitos se queixavam que Paulo Freire simplesmente saía da mesa e ia para o cinema com a mulher. Eles achavam um grande desrespeito do mestre com os "cumpanhêro", ir embora e largar a "discussão" no meio. Eu entendo perfeitamente isso! Se Paulo Freire, educador respeitado no mundo inteiro MENOS NO BRASIL tivesse ficado mais horas e horas naquelas discussões intermináveis e indigestas, provavelmente o projeto não teria saído! O único projeto sério e viável implantado na rede pública de ensino após o fim da ditadura não teve continuidade, tudo ficou no blá-blá-blá. Em si, a idéia de formar cidadãos é ótima: pra isso, é necessário alfabetizar o aluno em letras, números e leitura do mundo! Esse foi o projeto de Paulo Freire implantado na SME de 1990 a 1992 e depois abandonado por PREGUIÇA e MÁ FÉ. Formar cidadãos dá muito trabalho, então melhor ficar no blá-blá-blá da teoria. E pior de tudo é culpar a teoria pelo fracasso do projeto! A Cremilda tem razão: em toda família de político, jornalista e formador de opinião tem alguém trabalhando na rede pública de ensino, seja em escolas, diretorias de ensino e secretarias da educação. Eles trabalham na rede pública, mas têm seus filhos estudando na particular. Para quê se preocupar com os filhos dos outros?
Em tempo: caso alguém diga que a implantação da progressão continuada na SME foi um fracasso, eu sou testemunha que o projeto foi muito bem sucedido, meus filhos foram muito bem alfabetizados naquela época na rede municipal. O caos veio depois.
Giulia disse…
Resumindo: as faculdades são péssimas porque naõ são voltadas para a prática. Os alunos estão lá para aprender e não percebem a mediocridade do programa. Cabe à academia arregaçar as mangas, propor um sistema que funcione e pressionar o governo para implantá-lo.
Renato disse…
Realmente concordamos na maior parte. Então vamos falar as questões em que discordamos.

Você disse: "Mas me incomoda muito essa questão de reduzir os problemas das faculdades de pedagogia à ideologia de 'formar cidadãos'"

Eu não resumi o problema das faculdades de pedagogia à ideologia de "formar cidadãos", embora considere isso problemático. Formar cidadãos é uma expressão bastante ampla, e penso que signifique, na visão dos donos do poder, formar pessoas que acreditem em qualquer mentira que eles digam. Pode ser que agora eles estejam "formando cidadãos" como queriam.

Concordo que a falta de conhecimento real sobre como ensinar é um dos problemas principais. Mas não acho que as faculdades de pedagogia esteja preocupadas com isso. Para nós a educação brasileira não está atingindo seus principais objetivos. Mas quem disse que os donos do poder avaliam da mesma forma que nós. Talvez, para os donos do poder, os objetivos principais estejam sendo atingidos.

continuo

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