A mudança é possível!


Seguem trechos de um depoimento da amiga Márcia Fernandes, que estudou no Vocacional Osvaldo Aranha, em São Paulo, antes que a ditadura militar fechasse os colégios Vocacionais, que eram 6, espalhados pelo Estado. Hoje, a EE Osvaldo Aranha é aquela escola estadual onde fomos chamados diversas vezes para garantir a vaga de alunos "indesejados" e afastar uma professora que os xingava a bel prazer...

Pelo relato da Márcia percebe-se que o projeto Vocacional era bastante viável, havia muita disciplina mas o aluno tornava-se o protagonista de sua vida escolar e desde cedo desenvolvia senso crítico e independência. Por isso mesmo os Vocacionais foram fechados pela ditadura militar, preocupada com o possível despertar de lideranças políticas entre os alunos.

Leia com atenção o último trecho, onde Márcia fala que, após a prisão dos professores e demais profissionais da escola, os próprios alunos das classes mais avançadas foram "dando aula" para os demais alunos, a fim de que não perdessem o ano escolar. Eles puderam fazer isso porque participavam da elaboração dos projetos da escola, que era deles. Após essa "brincadeira" houve intervenção no colégio, acabando de vez com o Vocacional.

Para ler o texto completo da Márcia, acesse seu blog Palavra de Músico. Ela prometeu continuar seus relatos sobre o Vocacional. Vamos acompanhar.


Quem dentre a grande maioria, pode se lembrar da escola como de um lugar no mínimo aprazível? A grande maioria das pessoas se refere aos tempos escolares com saudades, mas dos amigos, dos ex-colegas, de um tempo de juventude ou infância. Raros, raríssimos são aqueles que podem dizer que têm saudades das aulas de matemática,do diretor, do professor de química, da prova de Português. E principalmente,das conversas com a orientadora pedagógica! Eu tenho muitas saudades da Evair, grande orientadora mesmo.

Em 1967, aos 11 anos de idade, entrei na 1ª série do Vocacional Osvaldo Aranha, mais conhecido como o "Vocacional do Brooklin". O bairro de classe média alta me intimidou um pouco, eu que recém havia mudado de um bairro da periferia de Osasco para a Vila Mariana, admirava a modernidade das habitações, as casas com grandes jardins...quem seriam os alunos daquela escola?

As aulas começavam às 7:15 da manhã. E duas vezes por semana terminavam às 16:30. Esses eram os melhores dias, dias da "Opção". Como diz a palavra, opção eram as aulas que o aluno escolhia para desenvolver: Artes Plásticas (AP), Artes Industriais (AI), Economia Doméstica (ED), Práticas Comerciais (PC). Essas 4 matérias faziam parte do currículo, mas o horário de Opção aprofundava esses conhecimentos.

Nesses dias almoçávamos na escola. As equipes de alunos se alternavam na preparação, limpeza e atendimento do refeitório. Aproveitávamos para aprender algumas receitas com os cozinheiros. E havia as aulas de "Projetos". Eu participava do Projeto de Flauta-doce e do Coral. Participei também de outros projetos, de Português, entre tantos outros. E nas opções passei por AI e AP, PC e ED, alternadamente, pois você podia participar de duas a cada ano ou semestre, não me lembro bem.

Do que me lembro bem é do 1º dia de aula. O pátio cheio de crianças procurando a sua fila. O Vocacional trabalhava muito a questão da disciplina. Com um grande diferencial: alunos, professores, coordenadores, supervisores, participavam de todas as decisões. E se acaso um aluno se sentia excluído de alguma decisão, ele imediatamente organizava um grupo de discussões, levava o assunto para a sua equipe, geralmente escolhia um professor para ajudá-lo na sua argumentação, levava a questão para a Orientação Pedagógica, e começava uma tremenda briga cujos argumentos se fundamentavam no conteúdo moral desenvolvido pela própria escola, em salas de aula. Fazíamos política. Os professores ficavam realmente preocupados com as colocações que fazíamos, e ao mesmo tempo muito satisfeitos porque eram resultantes do sistema de ensino. As contradições se aglomeravam diáriamente.
Direitos, deveres e poderes eram o tema de cada momento. Tínhamos ali uma comunidade organizada, uma sociedade viva.

Não éramos "autorizados" a falar. Éramos os donos da palavra, da escola. Tínhamos a compreensão da estrutura à qual pertencíamos. A linha divisória entre professor e aluno era bem definida, ao contrário dessa discussão estéril sobre o papel do professor e o do aluno. Muitos pedagogos atuais diriam que o Vocacional era uma escola conservadora. E era mesmo. Tínhamos princípios, regras, horários, comportamentos, compromisso. Compromisso com uma idéia. Tínhamos certeza de que aquela escola era única, mas que estava a caminho de se tornar a escola brasileira, pois estava dando certo.

O que chamam hoje de "interdisciplinaridade" é algo que se aproxima do que o Vocacional chamava de "integração". Mais fácil de entender, não? Não pensávamos em "disciplinas", mas em áreas de conhecimento.Todas as áreas de conhecimento possíveis de serem abordadas na escola se integravam através dos seus conteúdos.

O que me intriga é ver como o Vocacional desapareceu da memória educacional deste país. Uma tese afirma que o Vocacional seria totalmente inviável nos dias de hoje como escola pública, pelo seu "alto custo". Ora, que desinformação absoluta! O prédio do Vocacional do Brooklin, que lá está até hoje, é muito mais modesto do que os CEUS de hoje em dia. Nem se compara, em termos de espaço e estrutura. Nosso maquinário e bancadas das oficinas de AI, nossa Cooperativa, nossa Cantina, Banco, nosso atelier de AP,eram adaptados utilizando a propria construção e dimensão das salas de aula. Quem imagina o Vocacional como essas escolas particulares de hoje, que mais se parecem com hospitais, está muito enganado.
Nossa área de música, por exemplo, era uma sala de aula com um piano e um contrabaixo,este doado pela família de um dos alunos. E carteiras, mesinhas que empurrávamos para os cantos da sala, para ter mais espaço. Me lembro de um mutirão coordenado por AI para restauração das carteiras, sábado de manhã, a escola em peso, às 7:15, lixando e envernizando carteiras. Aprendemos as técnicas de lixar com uma madeirinha, de fazer uma boneca de algodão para o verniz. Uma festa.

Em 1969 as escolas Vocacionais foram invadidas pelo exército brasileiro. Os professores foram presos, Maria Nilde foi presa, processada e tudo o mais que a gente sabe, não é?... Aquelas práticas que os sistemas totalitários gostam de utilizar. Os pais de alunos ficaram apavorados, seus filhos perderiam o ano escolar, além de tudo. Nos mobilizamos: os alunos das séries mais avançadas davam aulas para os da imediatamente anterior, e assim, sucessivamente. Tínhamos cohecimento de todo o conteúdo que iria ser desenvolvido no bimestre e durante o ano, pois participávamos do planejamento, elaborávamos a proposta de estudo. Sabíamos quais os textos que seriam utilizados. Conhecíamos a didática. A escola era nossa.

Aí foi demais.Isso provocou intervenção na escola pra acabar com essa “brincadeira”. Depois eu conto o resto.

Márcia Fernandes

Comentários

Leca disse…
O que me intriga...é a capacidade que exite no ser humano em criar meios pra tornar tudo mais fluente...mais eficaz e divertido...e o que me intriga mais ainda é saber que outras pessoas só pensam em destruir tudo isso...
beijo
e parabéns...
Leca
Giulia disse…
Pois é, Leca, após o fim da ditadura houve muita movimentação a respeito do resgate da memória dos presos políticos, mas nenhuma voz se levantou para relembrar os Vocacionais. A Márcia é muito lúcida, como poderia ser alguém que estudou no Vocacional: ela sabe muito bem que esse projeto não agrada à sociedade nem à academia, pois é prático e eficiente demais. Cadê as intermináveis discussões para que cada intelequituau possa imprimir também sua marca ao projeto?... Infelizmente, no Brasil, entra- governo-sai governo, nenhum político ou partido levanta uma bandeira onde não possa colocar sua própria assinatura. O que passou, passou, ninguém se dá ao trabalho de manter ou resgatar os bons projetos. Veja por exemplo o belíssimo trabalho que o Mário Sérgio Cortella fez na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo durante a gestão Erundina, que na época era do PT. Maluf e Pitta acabaram com o projeto e nem a Marta o retomou!!! Ela veio com os mirabolantes CEUs e se esqueceu de acabar com as escolas de lata...
nosságora disse…
parabéns pelo texto, muito bacana e até emocionante
Welington disse…
Os senhores ainda continuam censurando comentários??
Welington disse…
Os senhores ainda continuam censurando opiniões??

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