A escola em raio X - A série nº 5 - Perseguição de alunos



Esta nova série, A escola em raio X, é dedicada àqueles que questionam o nosso trabalho e nos acusam de fazer denúncias sem fundamento. Hoje mesmo deletei um comentário de "anônimo" que dizia exatamente isso. O Brasil é um país que despreza profundamente suas crianças e adolescentes que provêm das classes menos favorecidas. Para sensibilizar a sociedade, apostamos na divulgação de depoimentos autênticos que recebemos de todas as partes do país, mesmo percebendo que a elite e principalmente a classe docente continuam fazendo pouco caso do sofrimento dessas crianças e de suas famílias. Não desistimos, pois acreditamos que "água mole em pedra dura tanto bate até que fura".

Segue o depoimento de uma mãe que descreve direitinho como funciona a famigerada perseguição de alunos na rede pública, assunto tabu em toda a mídia. Todos na escola percebem a manobra, mas se calam, temendo as inevitáveis represálias. PERSEGUIÇÃO & REPRESÁLIA: essa é a praga que infesta nossa escola pública, além da já tão medíocre qualidade do ensino.

Essa é escola que, além de não ensinar, deseduca!

Segue o relato da mãe que nos relatou com detalhes a forma como seu filho foi perseguido. Uma verdadeira raridade, pois os pais da rede pública têm muita dificuldade para se expressar por escrito:
Vou narrar o que aconteceu com meu filho na escola onde estuda. Meu filho e um amigo se comportaram mal durante uma aula (mal que digo é que fizeram uma brincadeira que a professora não gostou. Já esclareço que não sou a favor de nenhum tipo de falta de educação ou desrespeito de alunos para com seus educadores, deixo isso bem claro em minha casa) e foram convidados a se retirarem da sala de aula. Assim o fizeram, mas pouco tempo depois a professora os procurou onde estavam, os ofendeu e ameaçou. Quando meu filho chegou em casa, me contou o que havia acontecido, então fui até a escola onde conversei com outra professora e um coordenador, que prontamente se puseram a defender a professora dizendo que ela era incapaz de uma atitude daquelas. Enfim, deixei a minha reclamação, pois no momento não havia ninguém da direção na escola (ou melhor, havia a subdiretora que disse estar em reunião e que não podia me atender). Marcamos de nos reunir dias depois para esclarecer o assunto.

No dia seguinte, quando meu filho chegou à escola, ficou o tempo todo sendo vigiado, ficaram observando se ele e o colega conversavam para combinarem algo. Depois de algumas horas ele e o colega foram levados a salas diferentes, para que relatassem e escrevessem o que tinha acontecido, sendo também pressionados para que voltassem atrás no que tinham falado. Enfim...relataram, escreveram e não voltaram atrás no que disseram. Sem que a reunião comigo fosse marcada, o meu filho começou a ser hostilizado e maltratado por professores e funcionários, com palavras, frases soltas e olhares de deboche.

Quando finamente a bendita reunião comigo foi marcada, eu gostaria de ter sumido daquele lugar! Fui recebida pela professora em questão junto com a diretora, a sub-diretota e um inspetor. Primeiro, a professora falou 30 minutos incessantemente em sua defesa, depois a diretora fez questão de mostrar o seu poder, dizendo que achava desnecessário ela se explicar por ser uma professora exemplar e meu filho um aluno repetente e imprestável. Depois os outros fizeram questaõ de acrescentar tudo o que podiam. No final apareceram relatórios que antes não existiam a respeito de meu filho, não soube de nenhum relatório com queixa do meu filho antes que eu comparecesse à escola para reclamar. De repente, quando me chamaram para a reunião, esses relatórios apareceram....
Bem, nem preciso dizer que saí da escola chocada, sem saber o que fazer. Na verdade estava resolvida a engolir isso tudo, só que, para minha surpresa, no dia seguinte meu filho foi procurado por um professor que gosta dele e disse que o coordenador estava chamando todos os professores para fazerem um mau relatório sobre ele. Ele disse que alguns colaboraram, mas esse professor não participou por não concordar com essa atitude, pois achava que o aluno não se comportava daquele jeito, que aquilo tudo era um exagero. Uma outra aluna também já fez uma queixa à direção contra esta mesma professora, mas foi ignorada porque ficou com medo e não contou para os pais. A situação do meu filho está muito dificil na escola e eu naõ sei nem por onde começar a pedir ajuda! Percebo que existem pessoas que não concordam com o que aconteceu ou tem alguma queixa contra a professora, só que todos têm medo de serem retaliados depois.Com certeza estão montando um dossiê para que meu filho seja expulso da escola. Por favor, me judem a denúciar este abuso moral.

Leia aqui mais posts da série A escola em raio X:



Comentários

Antonio disse…
Achei muito intrigante o relato, pois, fico pensando, será que essa é a história completa?
Nenhuma escola/conselho/diretoria, permitiria uma expulsão tão arbitrária assim. Nessas horas precisamos tomar cuidado pra não vestir lobo de cordeiro e sair gritando matem a vovozinha.
Glória disse…
Giulia, enviei sua postagem para um grupo contra Discriminação Racial que participo e veja a resposta de um professor:

"Boa tarde!

Como estudante e professor da escola pública, esse complô me assusta! Em pleno século XXI, uma criança ser perseguida dessa forma é simplesmente "surreal". Mesmo porque nos dias de hoje essa professora já teria sido esfaqueada ou baleada.

Só para exemplificar a situação, na escola em que trabalho, um aluno que não entra em sala, fica somente passeando pela escola e chutando as portas, atrapalhando as aulas, e que já tem diversas ocorrências e chamados, não só para o Conselho Tutelar como tb pra Guarda Metropolitana, se sentiu ofendido quando uma professora não mais suportando isso perdeu as estribeiras e gritou com esse ao chutar sua porta. Resultado, seu pai ligou e disse que iria à escola pra tomar uma atitude com a professora. Ele havia sido convocado por diversas vezes e nunca compareceu a escola, e agora quer vir para acertar as contas com a professora. rs

Esse pai nunca compareceu a escola, senão alcoolizado e justificando as atitudes do filho, por entender que os professores não dão boa aula. Desculpe-me, existem bons e maus profissionais em toda e qualquer área, não dá pra ficar justificando jovens que muitas vezes vão a escola somente para "atividades diferenciadas" com vendas de seus produtos em detrimento dos que ali estão querendo aprender. Fica muito fácil condenar o professor da escola pública por tudo. Cuidar de um filho é dificil?, então fique com 45 que não são seus e veja como é a situação.

Normalmente os responsáveis por estes jovens só aparecem na escola em situação extrema, se quer acompanham os filhos em seus deveres escolares.

Se o fato ocorreu como o narrado, eu acredito que deve sim ser levado adiante, os responsáveis devem ser cobrados justamente, mas antes, é necessário ouvir e saber o que esse jovem vem fazendo na escola, TODO FILHO(A) É SANTO(A) NA ESCOLA, caso contrário vamos tomando partido sem nem saber onde o galo está cantando, e isso é muito sério.

Seria interessante que esse blog também denunciasse as agressões sofridas pelos profissionais da educação.
Abreijos,
Toninho
Prof. História
Soweto Organização Negra"
Giulia disse…
Antonio e Toninho (será que são a mesma pessoa?), a história é verídica, sim, como milhares que temos recebido nestes 20 anos. Acabei de postar uma nova mensagem que recebi hoje mesmo. Quanto às agressões sofridas pelos profissionais da educação, não precisamos mencioná-las, pois a mídia não deixa passar um caso de aluno que torce o cabelo do professor, ignorando completamente o inverso.
Abraço!

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