Mídia nota cinco - A Globo e suas viagens

Finalmente uma série de reportagens sobre educação que merece nota cinco! (Você que nos acompanha já conhece a série Mídia nota zero!)

O eufórico Jornal Nacional promove esta semana viagens para cinco regiões brasileiras, sorteando um município em cada uma. Em cada cidade, procura e visita a escola com o maior e a com o menor IDEB. Esse "trem da alegria" global toma um ar de seriedade com a presença do nosso conhecido Gustavo Ioschpe, que faz perguntas reveladoras e comentários esclarecedores. Algumas das conclusões finalmente transmitidas por um telejornal global:

  • Os pais devem procurar saber o IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) da escola de seus filhos, que é uma nota fácil de entender: ela vai de 0 a 10. Se a média da escola é baixa, ou seja, abaixo de 5, o problema de aprendizagem não é do aluno, é da escola.
  • A pressão dos pais é fundamental: eles devem exigir qualidade da escola, devem ter a expectativa de que seus filhos aprendam a ler e a escrever, no máximo, em dois anos. E que tenham todo o aprendizado e conhecimento que a escola lhes deve oferecer a cada ano de estudos.
  • Para promover a alfabetização é preciso organização e método, procedimentos e objetivos diários. Cada professor precisa planejar sua aula, saber o que vai fazer a cada dia e com que material. Quando tudo fica ao léu, quando o diretor e o professor têm que "reinventar a roda", os resultados são precários.
  • Mesmo numa escola ruim, um bom professor alfabetizador pode fazer a diferença. Seus alunos terão um futuro escolar mais fácil. E o exemplo desse professor deveria servir como guia pela direção da escola.
  • A direção escolar precisa realmente querer e puxar a família para dentro da escola, acomodar os horários das reuniões para atender os pais, que trabalham tanto ou mais do que os professores. Escola que exige a presença dos pais durante o horário comercial não faz questão alguma de tê-los na escola.
  • Escola que dá duas ou três aulas por dia, não ensina e desestimula os alunos. As melhores escolas públicas são aquelas onde não tem aulas vagas e onde é feita a recuperação dos alunos no contraturno.
  • Aluno que acha a escola "animada e divertida" aprende com facilidade e entende que está na escola para aprender.
  • Todo professor e diretor devem se empenhar para que todos os alunos aprendam. Eles não devem pensar que crianças de famílias pobres não precisam aprender tanto quanto as outras. A escola não deve nunca desistir do aluno.
Bom, a seriedade dos esclarecimentos dados por Gustavo Ioschpe acaba se diluindo dentro do clima "global" da reportagem, que como sempre pretende ser mais um programa de entretenimento que de informação. Por isso, assuntos extremamente sérios foram apenas ventilados, como por exemplo a falta e o absenteísmo dos professores, praga da educação em nível nacional. Outros assuntos certamente nunca serão colocados nesse tipo de reportagem global, como por exemplo:
  • A "escolha" e/ou aceitação de alunos pelas escolas, que é extremamente comum na rede pública, como aliás se depreende da fala de uma mãe entrevistada no programa, ao dizer que a escola do filho foi a única que o "aceitou". Assunto tabu que não mereceu qualquer comentário do entrevistador...
  • A evasão de alunos devida a perseguições, represálias e assédio moral por parte de diretores, professores e profissionais da escola.
  • A expulsão de alunos por tribunais de exceção formados nos Conselhos de Escola.
  • A venda de unformes, carteirinhas e até de papéis para fazer prova, como é comum em escolas da zona sul de São Paulo, onde os alunos pagam entre R$ 2,00 e R$ 3,50, ou não fazem a prova,

entre outros.

Essas reportagens poderiam ser muito mais úteis ao telespectador aprofundando as questões que realmente interessam e diminuindo o tempo em que mostram os detalhes das viagens e colocam no ar declarações vazias de diretores e profissionais do ensino. A Globo, fazendo coro aos sindicatos da educação, adora veicular declarações desgastadas e preconceituosas desses profissionais, quando por exemplo acusam os pais e as famílias de absenteísmo na escola. O real absenteísmo é dos profissionais, pagos para cumprir sua jornada de trabalho! Outra declaração que visa abafar a incompetência da escola é a de que o fracasso dos alunos é dado ao seu mau comportamento, ao desinteresse ou à falta de apoio da família.

Por essas e outras, essa série de reportagens do JN merece apenas nota 5.

Leia as reportagens e assista aos vídeos dos programas clicando nos links abaixo:

Visita a Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul

Comentários

Maria Elvira disse…
Realmente as matérias são boas. Eu particularmente gostei, muito embora continue achando que o Sr.Ioschpe não é a pessoa mais indicada para ser o avaliador. E faltou observar que a família deve acompanhar o IDEB da escola desde que ela (família) também esteja fazendo a sua parte. "Eu cobro da escola do meu filho pq sou um responsável presente e atuante no processo." E por fim, sempre achei que um bom professor faz a diferença, mas ninguém se ilude pq não faz milagres.
Anônimo disse…
A matéria EDUCAÇÂO é de tamanha relevância, e tão urgente o debate público, a mobilização da sociedade civil por este seu direito constitucional, que todo o espaço deve ser aproveitado para promover debates, reflexão de todas as partes envolvidas no processo, e urgente ação. Sobram bons e maus exemplos, de todas as partes envolvidas. Daniela.

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