A escola olhando para a pobreza


Finalmente, um texto que enxerga de frente a questão da igualdade de condições na escola brasileira. Bem, o foco não era bem esse, mas o resultado mostrou esse viés. Trata-se do artigo Olhares para a pobreza, de Paulo de Camargo, publicado na Revista Educação de junho. Só o início do texto já é bem revelador:

Ele era mulato, pobre, doente, não morava com sua mãe, estudou pouco e aos solavancos, sofria de gagueira e epilepsia. Se excluíssemos a tartamudez e os surtos epiléticos, esse perfil poderia ser atribuído a um dos 28,6 milhões de crianças e jovens com idade entre 0 e 17 anos que vivem em lares com renda per capita de até meio salário mínimo (R$ 272,50) - ou 45,6% do total nessa faixa etária, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas ele era Machado de Assis, reconhecido como um dos maiores autores da literatura brasileira, e que se tornou quem foi à custa de seu gênio e das relações que fez.

Quantos "Machado de Assis" a escola brasileira expulsa ou permite sua evasão, a cada ano?... Obviamente, essa estatística não existe. Além disso, para perceber o talento de um aluno é necessário que alguém esteja interessado ou alerta. E a escola brasileira não se importa com o talento de seus alunos. Acabamos de receber, por exemplo, a mensagem de um adolescente que soube relatar sua denúncia com rara clareza e sem um único erro de português, coisa que raramente vemos nas mensagens ou comentários que recebemos de professores. Ele tem sido ofendido e tratado aos berros pelas "autoridades" que mandam dentro da escola. Por ter respondido à altura, mesmo com educação e através de argumentos, o garoto está para ser expulso e - se não interviermos rapidamente - o será!

Uma situação como esta mostra que a escola brasileira não está preparada para receber os alunos mais inteligentes, críticos, inquietos, questionadores. Pior: tende a expulsá-los! Temos batido muito nesta tecla, mas nada parece mostrar uma mudança desse paradigma.

Outra categoria de alunos que a escola tende a excluir são aqueles que vivem em condições de pobreza e com "família desestruturada", como aliás era o caso do próprio Machado de Assis. Se, ainda por cima, esses alunos se atreverem a ser inteligentes e críticos, aí é que estão realmente perdidos! A escola brasileira odeia seus alunos pobres e sente-se insultada por sua inteligência, por isso os expulsa. Freud não explica, nem qualquer outro psiquiatra ou psicólogo, pois o fenômeno é coletivo. Já falamos N vezes que faltam socióóóóólogos neste país para estudarem essa tendência da escola brasileira, que recebe, por omissão, total aval da sociedade.

Pedir às classes formadoras de opinião, cujos filhos estudam na rede particular, que se preocupem com a inclusão e a educação dos filhos "dos outros", é demais... E essa omissão provocou outro fenômeno muito interessante: de "terra de ninguém", a escola pública virou propriedade da pior classe "docente", que através da assessoria de imprensa de seus sindicatos convenceu a sociedade de que o fracasso da escola é culpa do aluno e de sua família. Isso mesmo! Aluno pobre, família sem cultura e desestruturada = fracasso escolar.

De modo geral, a escola espera que o aluno fracasse e é disso que falamos sempre aqui. Os verdadeiros educadores são a minoria e se calam, esmagados pela arrogância e truculência dos demais.

Vejam mais alguns trechos do artigo que falam por si:

Entre 84% e 89,2% dos professores acham que os problemas de aprendizagem decorrem do desinteresse e da falta de esforço do aluno, sendo que 80% os creditam ao 'meio em que o aluno vive'. Essas crianças, que vêm de famílias com problemas acumulados, chegam à escola com a estima ainda mais pressionada, e tendem a ser mais frágeis diante da previsão de seu fracasso. Depois de sucessivas dificuldades, elas passam a acreditar que são incapazes.

Adriana Ramos, pesquisadora no campo da educação moral, acredita que o problema é mais embaixo. "O professor precisaria se incomodar mais com essa realidade", diz. Para ela, falta "sensibilidade moral" ao docente, que não dá a devida atenção ao aluno que tem em frente de si. Em uma pesquisa recente, Adriana viu professores pedirem pesquisas na internet como tarefa em escolas sem computador. "Os alunos diziam não ter dinheiro para ir à lan house, mas isso não era problema deles", lembra.

Outro exemplo é a questão da merenda. Muitos docentes reclamam que os alunos vêm à escola para comer. Não é fortuito. Segundo dados do IBGE, quase 12% das famílias ouvidas na última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) disseram que normalmente a quantidade de alimentos ingerida é insuficiente. "Se eles vêm para comer, essa é uma razão a mais para recebê-los, e não a menos", diz Adriana. Para ela, os docentes precisam receber suporte para ensinar face ao desafio, mas antes de tudo devem aceitá-lo. "Se eles reconhecerem essa missão, a profissão se torna ainda mais grandiosa", argumenta.

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