Pedagogia esquizofrênica

Como os demais, o último artigo de Gustavo Ioschpe na Veja, A utopia sufoca a educação de qualidade, é lúcido e instigante. A velha questão da ideologia nos programas pedagógicos é discutida há anos, mas ainda não há um consenso a respeito. 

Cabe ressaltar que na época da publicação da LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação, havia uma sincera intenção de alguns grupos, no sentido de que a educação viesse a "formar cidadãos". Hoje, no entanto, essa intenção não passa de uma cortina de fumaça para mascarar o descaso, a hipocrisia, o autoritarismo e a incompetência com que é tratado o aluno da rede pública de ensino. 

Um exemplo bastante claro é a forma como são tratadas as disciplinas de filosofia e sociologia, impingidas ao aluno do Ensino Médio, o mesmo que não teve a oportunidade de ser suficientemente alfabetizado para ter uma condição mínima de exercer sua cidadania:

O mesmo professor que "dá" filosofia para seus alunos adolescentes não consegue explicar-lhes porque, muitas vezes, são tratados aos berros, xingados de "merda", de "bicha" ou simplesmente expulsos da escola, contrariando não apenas a Constituição, mas qualquer princípio de ética que estejam lhes "ensinando" através dessa disciplina. 

O mesmo professor que lhes impinge (quais?) noções de sociologia não lhes explica por que são vítimas de um apartheid educacional que separa os alunos em possíveis doutores e em eternos repetentes ou desistentes do Ensino Médio, esse curso que liga o nada a coisa nenhuma e afasta seus alunos de um mercado de trabalho cada vez mais exigente. 

Mas, de todas as ilusões que a pedagogia "cidadã" tenta impingir à sociedade, a pior de todas é o direito à aula diária. Não estamos aqui falando nem de qualidade do ensino, assunto que é minimamente abordado pela mídia (ao menos em ano eleitoral...): o buraco é mais embaixo! O aluno da escola pública, dependendo da região, do curso e da rede que frequenta, costuma ter de 20 a 50% A MENOS das aulas previstas.Trata-se da famigerada AULA VAGA, esse divisor de águas entre a escola pública e a particular, onde os professores não têm "direito à falta", pois podem perder o emprego, como em toda empresa privada.

Gustavo Ioschpe é um gentleman, dono de um estilo elegante e irônico que levanta alguns véus sobre a falta de vontade política para a implantação de uma pedagogia realmente eficiente e eficaz em nível nacional. Embaixo desses véus, porém, existe uma manta negra que impede a realização dessa prioridade. A pedagogia em vigor é esquizofrênica e o país está muito longe da cura. 

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