
As pedagogias contemporâneas costumam pregar a liberdade de expressão, a construção do conhecimento, o estímulo da criatividade, mas, na prática escolar, tudo não passa mesmo de pregação. Lembro-me quando resolvi tirar meus filhos da escola "construtivista" em que estavam matriculados na primeira série. Logo na primeira semana de aula, comecei a receber bilhetes informando que conversavam, que atrapalhavam a professora. A lição de casa, então, era um suplício: ao topo da página, a criança tinha que escrever seu nome, a data do dia em extenso, o nome completo da escola (que era formado por 5 palavras) e o enunciado. Na hora de fazer a própria lição, a mão já não conseguia acompanhar. Pedimos uma reunião com a equipe pedagógica e fomos recebidos por um batalhão de profissionais (direção da escola, coordenação, conselho etc.) que se mostraram absolutamente surpresos: éramos o único casal que se queixava da "competência" da escola! Todos os outros pais cobravam eficiência, disciplina, trabalho e cadernos, muitos cadernos.
Isso ocorreu há um quarto de século, mas nada sinaliza alguma melhora. Releia clicando aqui o caso da criança de 4 anos convidada a se retirar de uma escola "de elite" por gostar de conversar e correr!
No fundo, a escola brasileira não avança porque a sociedade gosta desse atraso, valoriza o autoritarismo, quer que seus filhos sejam treinados, moldados e não educados: que recebam injeções de conhecimentos úteis apenas para o vestibular, esse instrumento que pretende realizar o grande sonho da classe mérdia: entrar numa faculdade e receber o canudo que possibilite o sucesso profissional. Poucos pais se preocupam com a vocação dos filhos, com o desenvolvimento de suas potencialidades, com a real contribuição que poderiam dar para o país, ao se tornarem seres pensantes, livres e capazes de trilhar o próprio caminho.
Os assim chamados formadores de opinião da nossa sociedade, no fundo, querem seus filhos iguaizinhos, uniformizados e treinados para virarem engravatados "bem sucedidos", seja lá o que isso signifique, em um mercado de trabalho que cospe para fora seus profissionais antes dos 40 anos de idade.
É isso que os pais exigem e as escolas particulares prometem: muita disciplina, muito conteúdo, muita cobrança em cima dos alunos. Aqueles que não correspondem aos níveis exigidos pela escola são encaminhados para aulas particulares ou convidados a se retirar, pois o que mais interessa aos gestores é atingir um certo nível no ranking das escolas, que lhes garanta a clientela.
Quanto à rede pública de ensino, ela é intencionalmente abandonada à sua própria sorte, por ser fruto do apartheid educacional que oferece ao filho das classes privilegiadas, não uma boa educação, mas uma melhor colocação no vestibular, que é o objetivo real.
Os elementos que diferenciam a rede pública da particular são, principalmente, a aula vaga, o absenteísmo dos professores e diretores de escola, o despreparo dos profissionais e, principalmente, o autoritarismo impingido aos alunos e a seus pais: que não se atrevam a criticar ou a reivindicar algo, pois serão perseguidos até à expulsão da escola.
Enfim, a escola pública, em quase todos os estados e municípios do país, é propriedade de uma corporação descompromissada, relapsa e deixada totalmente à vontade para olhar apenas para seu próprio umbigo. Paradoxalmente, porém, é dela que pode vir a solução para a educação nacional. Contrariamente à rede particular, onde o que se entende por competência está vinculado a altas mensalidades e se resume ao treino para o vestibular, na rede pública de quase todos os estados pipocam exemplos não apenas de excelência no ensino, mas de respeito à inteligência e à sensibilidade da criança. Se você ainda tiver dúvidas, leia clicando aqui, aqui e aqui.
Então fica a pergunta: por que esses bons exemplos não conseguem contagiar toda a rede pública de ensino? A resposta está no início deste texto: sem vontade política nada se resolve. Não se trata aqui da vontade da classe política, mas da vontade política da própria sociedade, pois os políticos seguem os anseios da população, eles vão atrás e não na frente, a não ser numa ditadura. O problema, no Brasil, é que a sociedade parece ainda estar acostumada e até gostar do autoritarismo e de um cala-a-boca. Como então querer que as crianças e os jovens aprendam a pensar com liberdade? Millôr Fernandes vivia dizendo que "livre pensar é só pensar". Como esperar que isso se desenvolva numa escola que visa principalmente a uniformizar e treinar seus alunos?
Comentários
Na escola publica, tive alguns professores muito inovadores, criativos, mas que tambem expressavam a frustracao de ter que seguir materiais didaticos que nao gostavam e cumprir programas numa velocidade que nao concordavam. Nao importa o quanto a mais queriam transmitir para os alunos, ensinar um jeito diferente de aprender, nao havia espaco. A direcao da escola imediatamente aniquilava a "audacia" do professor. E aquela coisa de ensino em massa perdura.
Como aluno, tem tanta coisa que a gente aprende sem saber para o que vai servir... tambem eh frustrante! Eh dificil manter a motivacao quando nao se ve o lado pratico do que se aprende para a vida!
A educacao acaba sendo assim: o professor faz de conta que ensina e o aluno faz de conta que aprende. Acho que as politicas educacionais sufocam a criatividade. O professor so ensina bem e o aluno so aprende de fato quando existe espaco para criatividade para o despertar da paixao por ensinar e aprender.
Acreditasse tao pouco que o ensino pode ser melhor, porque o professor que ousa eh ainda rotulado de idealista, como se voce um desacato almejar algo alem do basal. Este preconceito eh triste e injusta!
Vou contar uma historia que ouvi ha um tempo atras: havia um aluno que foi rotulado pelos professores de intelectualmente deficiente. Diziam que ele nao tinha capacidade para aprender so para atrapalhar, entao o mandaram para uma instituicao de criancas com "deficiencia mental". La ele disse que pela primeira vez sentiu-se livre para ser ele. Um dia uma professora pediu para que a classe escrevesse uma redacao. Ele escreveu uma poesia e falou para a professora que ela nao iria conseguir entender o que ele escreveu porque a escrita a mao dele era ilegivel. Entao ela falou assim:
"Entao por que voce nao le pra mim?"
Leu e ela gostou tanto que colocou o poema dele num mural para que todos vissem.
Ele disse que aquele gesto da professora foi o momento magico, quando a percepcao de tudo mudou pra ele, especialmente a percepcao dele para ele mesmo. Depois disto, percebeu-se que ele, na verdade, era um menino super-dotado. Foi transferido para uma escola de criancas consideradas diferenciadas intelectualmente.
Enfim, foi por conta daquele simples gesto da professora que o menino "nasceu" de novo para o aprender e o entender.
A grande maioria dos bons professores, nao tem idea do poder que tem de transformar a vida de um aluno, especialmente emocionalmente. Isto eh maravilhoso! Professores sao figuras fundamentais nas nossas vidas e a verdade eh os que fazem uma escola sao professores e alunos, nao a politica. Politica so atrapalha a capacidade criadora e transformadora de ambos. Quem atrapalha na escola eh a politica!
Antonio, vou te enviar por e-mail o link para o texto. Vamos continuar tricotando, rs...