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Escola boa é... escola vazia

Mais um email de mãe de aluno mostra o que a escola pública, em 99% dos casos, NÃO É: acolhedora, inclusiva, competente. Isso é o que nós, pais de alunos, desejaríamos que a escola fosse mas, infelizmente, não é, como você pode ler na mensagem a seguir:

Venho por meio deste e-mail relatar a preocupante atitude tomada em relação a todos alunos que porventura cheguem atrasados na Escola Estadual ......., atitude essa que encontra respaldo no Regulamento da escola, conforme me foi informado.

Ocorre que nesta data meu filho chegou com atraso 15 minutos na escola, ou seja, às 13h15.

Os portões já estavam fechados e não havia nenhum funcionário para orientá-lo, assim, ele esperou na rua até às 14h00, quando me telefonou a cobrar, pois não tinha dinheiro. O instruí para que permanecesse no portão pois eu telefonaria para a escola, a fim de que alguém aparecesse e ele pudesse entrar.

Ao telefonar, falei com a Sra. ..., que me informou que excepcionalmente permitiria a entrada de meu filho, mas como a aula já estava em andamento ele deveria esperar até que a aula terminasse, a fim de não interromper o trabalho do professor, devendo entrar na classe no início da aula seguinte.

Ocorre que às 15h30 meu filho me telefonou novamente dizendo que entrara mas estava proibido de assistir aula, e novamente o orientei para aguardar, pois eu telefonaria mais uma vez à direção para esclarecer os fatos. Ele estava profundamente constrangido, impaciente e deprimido por passar tanto tempo sem nada fazer, sendo, segundo ele, "zuado" pelos colegas de classe que, durante o recreio, constataram que ele fora proibido de assistir aula com os demais.

Enfim, liguei e falei novamente com a Sra. ..., que me confirmou que realmente ele fora proibido assistir aula naquela dia em detrimento do atraso de 15 minutos, e que ficaria com falta em todas as matérias e por fim, que se eu preferisse, que fosse buscá-lo na escola a fim de levá-lo para casa. Disse ainda que essa era a regra da escola, regra essa aplicada a todos os alunos, devidamente asseverada pelo Regulamento: em caso de atraso acima de 10 minutos os alunos serão impedidos de adentrar na escola. Como haviam, por exceção, permitido sua entrada, ele ficaria sem o direito de assistir às aulas. Esclareceu ainda que os pais, ao fazer a matrícula nessa escola, deveriam estar cientes das regras e, caso não concordem, que busquem outra escola.

Ocorre que, acima do qualquer regulamento administrativo, no estado democrático de direito, temos as leis, e ainda acima das leis, temos nossa Carta Magna.

Não é possível que a escola não seja responsável por uma criança parada no seu portão por 45 minutos, por ter chegado com 15 minutos de atraso. Quem seria responsabilizado por meu filho, de apenas 11 anos, se o mesmo fosse abordado por marginais, pedófilos, ou até mesmo atropelado, durante o horário de aula? A escola não entrou em contato comigo para informar que não permitiria sua entrada, simplesmente fechou os portões fingindo ignorar sua presença, até que eu telefonei e reclamei.

Isso sem contar o constrangimento de o aluno ficar debaixo do sol esperando para poder adentrar na escola, como se a mesma pertencesse à direção e ele devesse implorar pela "honra" de ter acesso a um bem destinado à sociedade.

Enfim, às 16h30 meu filho me telefonou novamente, chorando, pois não aguentava mais ficar "de castigo", sem nada fazer, por tantas horas. Infelizmente não pude ir buscá-lo, pois tive uma torção de tornozelo. Assim, pedi que se acalmasse e tentasse se distrair fazendo um desenho, sem entretanto me conformar com o fato de que ele ainda terá que ficar nessa tortura por mais quase duas horas, até o horário da saída.

Relato esses fatos ao diretor da escola, ao fórum de pais de alunos, ao conselho tutelar, à assessoria da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo e ao Grupo de Atuação Especial de Educação - Geduc, do Ministério Público, pois entendo totalmente irregular que a escola feche os portões a seus alunos, independente de atraso, deixando-os à mercê da rua, como é comum nessa unidade educacional. Entendo também irregular que, em detrimento de um atraso, o aluno seja castigado a ficar mais de 5 horas na escola, sem nada fazer, sendo alvo de chacota e ridicularização . 

O mais bizarro de tudo isso, a meu ver, é a questão de não se tratar de um caso isolado, mas de ser a prática instituída pela direção da escola para tratar de atraso.

Por fim, aguardo ansiosa vossa apreciação e esclarecimento acerca do ocorrido, bem como colaboração e providências que se façam cabíveis e necessárias, no sentido de mantermos eficazes as normas garantidoras dos direitos da criança e do adolescente, tão bem descritas pelo ECA e por nossa Constituição Federal.

Mãe de aluno

A mensagem, recebida esta semana, nos lembra outro caso que ocorreu há quase 20 anos: uma criança de 7 anos, cansada por andar sozinha durante 2 km até à escola, chegou 10 minutos antes da abertura do portão e sentou-se na guia para comer o lanche que havia levado de casa. Segundos depois, um caminhou manobrou na frente da escola, o motorista não percebeu a presença da criança e a atropelou, esmagando sua perna esquerda. O caso teve repercussão na época, mas não serviu de exemplo, pois até hoje a escola não quer saber e faz questão de ignorar se por acaso algum aluno ficou na sua porta: que suma da frente, será um a menos para dar trabalho. Parabéns para essa mãe, que teve a coragem de se expor e cobrar esclarecimentos: vamos acompanhar e monitorar o assunto!

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