Crime contra a humanidade

Hoje, como ontem, o mundo dito civilizado despreza o diferente. Nossa escala de valores segue passo a passo a lavagem cerebral que recebemos desde a infância e nosso olhar não vai muito além do nosso próprio umbigo.


Ocupada em assistir e comentar a nova novela das nove, a sociedade brasileira ignora o crime contra a humanidade que está sendo cometido em seu próprio território, por seu próprio governo. Quem cala, consente...

Basta comparar alguns trechos da carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo e Justiça do Brasil, datada de 8 de outubro deste ano, com a mensagem enviada em 1855 pelo cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, ao presidente dos Estados Unidos, para percebermos que o nosso espírito de humanidade continua nas trevas, a ponto de não nos incomodarmos com esse novo genocídio. Quanta sabedoria, nas palavras desses índios; quanta ignorância, em nossa omissão!

Cacique Seattle, em 1855
O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra.
    Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.
    Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exauri-la ele vai embora.

Indios Guarani-Kaiowá, em 2012
Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira.
    A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas.
    Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercados de pistoleiros e resistimos até hoje.Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. No centro desse nosso território antigo estão enterrados os nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.
    Não temos outra opção, esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS. 
     Atenciosamente, Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay

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