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Gustavo Ioschpe fala da educação brasileira: muito calor e pouca luz




Reserve uma hora do seu dia (ela dura mesmo 60 minutos) para ouvir atentamente essa entrevista do Gustavo Ioschpe e reflita a respeito das prioridades na educação brasileira. Você não precisa concordar "em gênero, número e grau", já que a unanimidade é burra, mas preste bastante atenção, pois a questão das prioridades é muito bem discutida neste bate-bapo descontraído, mas que aborda os pontos principais para uma análise do sistema de ensino no país.

Consideramos Gustavo Ioschpe uma espécie de "colaborador" do blog, pois já postamos e comentamos aqui muitos dos seus artigos e até recebemos dos nossos seguidores mensagens e comentários dirigidos a ele, o que mostra que alguns leitores o consideram "da casa".

O que chama a atenção no discurso do Gustavo é sua objetividade e coerência. Ele procura se basear em estudos e estatísticas, mostra números e percentagens e, quando é perguntado sobre algo que não pode mensurar, esclarece que se trata de opinião pessoal. Nada mais sensato e ético. Não é isso que se espera de um pesquisador e especialista em educação?  Ainda assim, ele sofre grande rejeição, principalmente por parte da classe docente ligada ao ensino público. Geralmente, aqueles que criticam mais ferrenhamente suas teses são os que não conseguem comprovar as próprias... Por isso mesmo Gustavo resume o marasmo na educação à expressão "muito calor e pouca luz": discussões acaloradas e intermináveis produzindo resultados pífios. 

Existe uma questão na qual Gustavo não consegue penetrar em profundidade e talvez ele mesmo não se dê conta do tamanho do buraco: é o nível de satisfação das famílias brasileiras com respeito à qualidade do ensino da escola dos filhos que, segundo pesquisas, atinge nota 8 sobre 10, quando a nota média nacional do Ideb no final do Ensino Fundamental não passa de 4... Só quem vivencia a escola por dentro, como nós, que sempre tivemos e teimamos em manter nossos filhos na rede pública, consegue penetrar o TABU. Não por acaso criamos neste blog a série A escola TABU, que já está no número 65. Para dar alguma dimensão da profundidade desse enfoque, vamos ao nº 1 dessa série e em seguida ao desfecho do caso relatado, que foi publicado no nº 45 da série.

A escola TABU nº 1 - Processo administrativo na EE David Eugênio dos Santos, em São Paulo Trata-se aqui de uma denúncia escabrosa encaminhada pela comunidade escolar contra a direção da escola, envolvendo desde maus tratos e torturas em alunos, até falcatruas financeiras e irregularidades administrativas. O caso chegou a ter repercussão na mídia no ano de 2004, sem que isso resultasse no afastamento da direção ou em melhorias na escola.

A escola TABU nº 45 - EE David Eugênio dos Santos, 8 anos de injustiça Esse post, datado de janeiro deste ano, traz finalmente o resultado final do processo administrativo e mostra as consequências desastrosas dessa denúncia, que somente nós do EducaFórum nos preocupamos em acompanhar. A mesma mídia que divulgou as denúncias em 2004 se desinteressou pelo desenrolar dos fatos e por seu desfecho, que podemos resumir assim: os alunos prejudicados tiveram que mudar de escola, tendo que estudar  longe de casa, os pais denunciantes ficaram desmoralizados, os professores e funcionários que apoiaram a causa foram perseguidos e alguns receberam ameaças de morte, uma das professoras denunciantes foi até afastada por "problemas psiquiátricos administrativos" (sic). O mais absurdo da situação foi a "condenação" da diretora da escola, 7 anos após a denúncia: suspensão durante 90 dias, já estando aposentada... Essa mesma pena havia sido recebida anos antes por aquela mesma professora denunciante, que foi depois afastada por "doença mental". Moral dessa história: a punição foi para as vítimas!!!

Quem nos passou as últimas informações sobre o caso foi o Percival, um dos pais de alunos denunciantes. Você pode inclusive ler, ao pé do post acima (A escola TABU nº 45) um comentário assinado pelo próprio Percival sobre o que se passou nessa escola.

Nada do que aconteceu  na EE David é exceção, dentro do panorama do ensino público do país. A grande diferença é que nela a comunidade escolar se uniu para formalizar  e encaminhar suas denúncias, o que foi feito com muita coragem, propriedade e espírito de cidadania. O resultado foi absolutamente desastroso! Se, hoje, a EE David Eugênio dos Santos fosse reconhecida como um exemplo público de luta da comunidade escolar (pais e professores juntos, fenômeno praticamente inédito!), essa guerra teria valido a pena. Mas o resumo da ópera é amargo, pois as notícias circulam rapidamente entre escolas do mesmo bairro, cidade e rede, então o que restou de tanta luta foi apenas frustração. O exemplo dado aos pais, alunos e aos bons profissionais da rede pública é que denunciar não vale a pena.

Se numa escola onde a comunidade conseguiu se organizar e encaminhar denúncias documentadas e comprovadas o resultado foi uma catarata de água gelada, imagine, caro Gustavo, a mãe Margarida, que pediu para não publicar seu nome nesta denúncia: A lei como papel de embrulho. Essa mãe foi a única que teve coragem de criticar a escola do filho e acabou até sendo discriminada pelas outras! Entenda este fenômeno: os maus diretores e profissionais da educação inculcam na cabeça dos pais de alunos que tudo está bem na escola, que críticas e denúncias DENIGREM A IMAGEM DA ESCOLA NA SECRETARIA DA EDUCAÇÃO, que se eles insistirem nas denúncias A ESCOLA PODERÁ VIR A SER FECHADA. Esse argumento é mais do que suficiente para fazer todos os demais pais de alunos se revoltarem contra os denunciantes!!! Isso não lembra um pouco o caso "Isadora Faber"?...
Esperar que os pais de alunos, sem qualquer apoio, se levantem em bloco para questionar a qualidade da escola, é no momento realmente utópico. Uma medida que poderá encorajar os pais é a que o próprio Gustavo Ioschpe sugeriu, de obrigar cada escola a exibir a nota IDEB em seu saguão. Sem o apoio da sociedade e da mídia, continuarão existindo apenas "mães coragem", como essas que o Fantástico apresenta: andorinhas que dificilmente fazem verão.

Caro Gustavo, se você, que é especialista em educação, articulista renomado e hoje inclusive colaborador "fantástico", sofre de rejeição, imagine então nós, que não passamos de mães "encrenqueiras" e "arruaceiras"! Se você costuma ser convidado a "dar um mês de aulas em escolas da periferia", nós somos questionadas se "não temos roupas pra lavar" ou "faxina pra fazer". Há anos moderamos os comentários do blog, pois você não faz ideia do tipo de mensagens que recebemos...

Toda essa verborragia foi apenas para mostrar que os pais de alunos não estão satisfeitos, não. No máximo, eles fazem o jogo do contente e tem mais: pessoas simples costumam ser desconfiadas com respeito a pesquisas, elas não acreditam que sua opinião ficará em segredo. Ah! E também fica difícil para elas separar "qualidade do ensino" do panorama geral.

Comentários

Cirlei Souza disse…
Acabei de conhecer o blog, está de parabéns. Li apenas duas matérias, essa em especial é muito boa para refletirmos nossa postura, sempre procurei não utilizar desses argumentos, mesmo porque minha índole não permite, porém tive um colapso nervoso e hoje sou bibpolar, segundo s médicos é porque guardei muita ráiva por dentro. Estou readaptada e hoje me sinto melhor, adoro alunos, porém tenho pânico de sala de aulas... Só de pensar nas provocações dos alunos muitas vezes incentivados por pessoas da administração escolar fico doente. Desculpe, mas não acho que é com receita de bolo que vamos conseguir arrumar a educação. Realmente é um absurdo ouvir determinada fala dos colegas que estão em sala de aulas, sou muito discriminada entre os colegas por ser readaptada, já sofri muito bullyng, hoje me parece que as coisas estão melhorando por causa da lei de assédio moral. Porém divido minha doença e o tratamento intensivo que faço para manter-me, descobri que sempre tem o outro lado, e os professores tem muitos motivos inerentes para agir dessa forma.
Movimento COEP disse…
Criticas à entrevista do Gustavo Ioschpe na CBN – 01-12-2012.

Giula,

Nossa principal critica é eu o Gustavo Ioschpe propõe uma participação ingênua dos pais na escola.
Por que ele não diz que as professoras e direção escolar não querem a participação dos pais nas escolas?
Outra questão: não basta acusar os pais pela percepção deles sobre a escola. É bastante comum os pais darem notas altas para as escolas, assim como dão notas altas para a “saúde”, pois ainda acham que serviço público é um favor e não um direito.
Ao invés de ficar reproduzindo pesquisas mal feitas e manipulas, por que Gustavo Ioshpe não defende uma pesquisa qualificada, onde os pais responderiam sobre pontos objetivos, pontos específicos sobre a função da escola e dos professores.
Não adianta repetir a ladainha de que os professores devem mandar lição de casa para os alunos, pois a maioria das escolas nem mesmo tem bibliotecas funcionando. Na prática, as escolas e os professores transferem às famílias a tarefa de ensinar os alunos.

Sem escolas em tempo integral e sem professores dedicados a uma única escola, a educação brasileira continuará freqüentando os piores lugares nos rankings educacionais.

São Paulo, 9 de dezembro de 2012.
Mauro Alves da Silva
Coordenador do movimento Comunidade de Olho na Escola Pública.
http://movimentocoep.ning.com/

Rodrigo disse…
Olá quero fazer denuncias sobre algumas escolas de minha cidade pois estão sem professores e não tem aulas
e o governo não quer contratar profissionais. Gostaria de um contato
pode me Ajudar ?

Ótimo Blog.

Obrigado.
Giulia disse…
Oi, Rodrigo, preciso saber qual é a sua cidade, se governo é estadual ou municipal e para quais disciplinas está faltando professor. Não é possível que todas as escolas estejam sem professor. Você é pai de aluno, professor, mande mais dados! Pode ser por e-mail: educaforum@hotmail.com.
Um abraço!
Anônimo disse…
De acordo com o Minidicionário Luft
Fulcro quer dizer: ponto de apoio da alavanca; apoio; sustentáculo

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