Hino do Palmeiras e receita de miojo - Pérolas do professor

Surgiu uma oportuna polêmica a respeito de certas redações do ENEM: algumas apresentam coerência com o tema proposto mas contêm erros graves de português; outras fogem totalmente do tema ou mostram infantilidade. O questionamento é bom, mas o assunto periga tornar-se mais um instrumento de ridicularização do aluno, como as famosas "pérolas do ENEM". Vamos tentar aprofundar o tema, sempre na esperança de que apareça alguém mais graduado para comentar o assunto.

Duas redações em especial estão sendo colocadas em destaque na mídia e nas redes sociais: uma delas descreve uma receita de miojo, na outra o candidato enche linguiça escrevendo o hino do time do coração. Detalhe: ambas redações receberam nota azul, o que demonstra a incompetência dos avaliadores, muito mais que dos candidatos.

Provavelmente, essas duas redações são apenas a ponta do iceberg, pois a maioria dos estudantes brasileiros não sabe escrever uma simples carta. Isso podemos afirmar, pois nos descabelamos diariamente para entender as mensagens de pais e alunos que recebemos aqui pelo e-mail educaforum@hotmail.com. Mensagens de pessoas que, durante alguns ou até muitos anos frequentaram a escola, mas quase não tiveram a oportunidade de ESCREVER e ter seus textos corrigidos por quem ESCREVE. 

A verdade é que não se faz redação nas escolas! E seria piada dizer que é feita uma redação mensal ou bimestral, com o único intuito de valer nota... 

Vamos tomar como exemplo as duas redações do ENEM destacadas na mídia: escrever o hino do time do coração caberia perfeitamente no 2º ou 3º ano do Ensino Fundamental, pois estaria de acordo com o princípio de que os temas apresentados ao aluno para redação devem ser do seu interesse pessoal, a fim de despertar a vontade de escrever. Escrever receitas também seria ideal nos primeiros anos escolares, pois, como dizem os educadores de renome, comida é assunto diário na vida da criança e desperta seu interesse. Seria muito fácil para o aluno assistir a mãe fazendo miojo, pipoca ou bife e descrever a receita de sua comida preferida. Mas não é isso que acontece na maioria das escolas públicas brasileiras, onde o professor tem preguiça de corrigir as redações, o que dá muito mais trabalho do que rabiscar certo ou errado... Além disso, o próprio professor não tem o hábito de escrever, como demonstram certas mensagens de professores que recebemos, com erros graves de português, principalmente de concordância. 

Após os primeiros anos escolares, os temas das redações deveriam ser cada vez mais complexos, a fim de estimular o hábito de PENSAR nos assuntos sugeridos. Ou seja, após dominar a língua assim chamada "culta" (digamos, escrever com um mínimo de gíria e sem erros graves), o aluno teria que aprender a desenvolver o tema apresentado de forma cada vez mais profunda, sem repetir chavões ou frases de livro, mas escrevendo o que ele sabe ou pensa a respeito. Pergunto: isso se faz nas escolas públicas brasileiras?  E nas escolas particulares mais "baratinhas"? Com que frequência? Qual o feedback que o professor dá ao aluno sobre as redações feitas?... 

Uma sugestão utópica, mas não custa sonhar (rsrs): que os professores "corretores de redações do ENEM" só sejam aprovados após terem, eles próprios, recebido nota azul em uma redação corrigida por doutores em letras. Que tal? Desopilou o fígado?...

EM TEMPO: veja aqui como os alunos serão punidos por suas "gracinhas" :
http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/inep-estuda-punir-gracinhas-em-redacoes-do-enem e leia a mensagem recebida do escritor Haroldo Barbosa Filho, que nos informou sobre essa matéria:

Giulia, soube (através do IG e do UOL, hoje) que as provas "com gracinhas" (termos usados na matéria) serão anuladas e os alunos as fizeram assim, "punidos" (termo também usado na matéria). Ora: "gracinha" maior não teria sido a correção duvidosa da prova? E a "punição" não deveria ser dada, em primeiro lugar, a estes "analistas" que fizeram a correção?

Comentários

Não posso afirmar, mas desconfio que, ainda pior do que terem sido avaliadas sem critério, estas redações NÃO FORAM AVALIADAS ou tiveram, no máximo, uma "passada de olhos" bem superficial. Isso leva a uma pergunta preocupante: se uma provinha de ENEM é tratada dessa maneira, como devem ser tratados outros materiais que requerem um cuidado todo especial, como os livros didáticos e paradidáticos?
Giulia disse…
Ótima colocação, Haroldo! No caso, a redação do ENEM não é uma provinha, a redação pesa muito na avaliação geral. Isso faria todo sentido, se as redações fossem realmente avaliadas, pois é através de um texto bem escrito que se percebe que o estudante atingiu a maturidade esperada para enfrentar uma faculdade ou até mesmo o mercado de trabalho.
Anônimo disse…
Voceis sempre querendo tira a culpa desses alunos vagabundo
Giulia disse…
Anônimo, sem comentários. rsrs
Rosana disse…
Giulia, nesse caso, você precisa mesmo se ater ao que proposto na grade de correção do ENEM. Nenhuma das redações poderia ser anulada pela grade, portanto, está correta a correção.

Se é necessário mudar a grade é outra história, afirmar que foi incompetência da correção não é correto. O cuidado com todo o processo e principalmente a preocupação em não prejudicar nenhum aluno é muito grande entre os corretores.


Acho que você deveria olhar a grade, que é amplamente divulgada, e ver que foram obedecidos os critérios.

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