Eles não confiam em ninguém com mais de 20 anos! E estão certos.





Segue abaixo o meu relato sobre a nova manifestação do movimento Passe Livre à qual participei. Não  pretendo sair novamente às ruas, não por ter-me decepcionado com o movimento, mas porque acredito que, de outra forma, poderei contribuir melhor com esses meninos de ouro, que conseguiram a enorme  façanha de reverter a famosa expressão de Rui Barbosa:

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.

Essa vergonha, que tem dominado o povo brasileiro durante mais de um século, parece finalmente estar sendo dissipada. E esses meninos têm tudo a ver com isso!

Confesso que, como a maioria da população, fiquei coçando a cabeça durante os primeiros dias de manifestações, tentando entender a que vieram esses meninos e seus teimosos vinténs. Fui pesquisando o que pude a respeito do movimento, e as  melhores respostas vieram ontem, ao assistir ao programa Roda Viva, em que eles deram um tremendo SHOW DE BOLA, respondendo à altura a todas as perguntas e inclusive ampliando muito mais os assuntos, já que nossos jornalistas... bom, deixa pra lá. Eles demonstraram uma maturidade, serenidade e bom senso quase absurdos, considerando sua pouca idade, pois também fui jovem e, ao fazer uma autocrítica, certamente não tinha nem metade dessa sabedoria. Sugiro que todos assistam ao vídeo do programa, disponível no site da TV Cultura, e  tirem suas próprias conclusões. 

Alguns pontos que me chamaram especialmente a atenção: ao serem questionados sobre se "o Brasil acordou", foram extremamente prudentes e não caíram na armadilha de reivindicar a autoria do bordão, como faria qualquer político interesseiro. Responderam que o Brasil não estava dormindo, que os cidadãos estavam apenas cuidando de suas vidas e passando por tantas dificuldades, que lhes faltavam condições para engajar-se na reivindicação de seus direitos. Mas, à medida em que suas condições econômicas foram melhorando, sua consciência  social - essa sim - despertou e fez com que começassem a sentir-se integrados à Nação. Qual de nós, quarentões ou sessentões "descolados", responderia com tanta ponderação a uma pergunta capciosa como essa, feita de supetão?...

Outra colocação estupenda, respondendo à pergunta se a cidade de São Paulo se beneficia com a realização de novas grandes feiras ou eventos: eles responderam que parece estranho querer "vender" uma estrutura urbana precária como ainda é a de São Paulo, e que esses grandes eventos costumam moldar a cidade ao seu redor, excluindo milhares de cidadãos na remoção de favelas e comunidades, para que não apareçam "na foto". A próxima pergunta capciosa - lógico - foi se a Copa e as Olimpíadas não deveriam portanto ser canceladas, mas foi brilhantemente driblada, dizendo que a construção de uma cidade autoritária e excludente, que pratica a remoção de pessoas ou lhes impede o direito de ir e vir por causa do aumento de tarifas, justifica a ida da população às ruas. Bingo! Que São Paulo é uma cidade autoritária e excludente, nós do EducaFórum testemunhamos diariamente, ao receber uma enxurrada de mensagens de pais de alunos da rede pública, informando sobre as arbitrariedades com que são tratados seus filhos, muitas - mas muitas vezes mesmo - expulsos da escola!

Ao falar sobre a planilha de custos que mostra a composição das tarifas do transporte urbano, esses meninos revelaram o que o EducaFórum já sabe há mais de 20 anos, mas a maioria da população ignora: que dados orçamentários não são informados de maneira transparente e que vereadores e deputados corruptos boicotam sua revelação. O próprio prefeito Fernando Haddad convidou o Passe Livre para uma reunião do Conselho da Cidade (não se rebaixou a convidá-los para uma reunião "de verdade", claro!), onde certamente esperava que os conselheiros aprovassem o preço de R$ 3,20, mas teve a desagradável surpresa de a maioria apoiar a redução da tarifa. Ainda assim, ele não mudou sua decisão, pois governo autoritário é... AUTORITÁRIO, como já expus no post anterior, que você pode ler clicando aqui.

Independentemente da brilhante participação no programa Roda Vida, (que aliás costuma ser bastante morno...), é importante conhecer o site e o Facebook do Movimento Passe Livre, que dá um banho de democracia para qualquer um que tenha alguma noção de democracia. Quem não tiver, vai continuar chamando esses meninos de ingênuos, incompetentes ou inexperientes... Mas eles são muito espertos e percebem que, mantendo seu foco, não serão desestabilizados: eles lutam por um transporte público de boa qualidade, a baixo custo. E o próximo passo, após a redução do aumento, será a tarifa zero, para a qual eles têm bons argumentos e lutam há anos.

Eu disse que quero contribuir melhor com essa causa e vou fazê-lo procurando o movimento Passe Livre, junto com meus colegas do Fórum Municipal de Educação da Cidade de São Paulo, que comigo lutaram pelas verbas da educação na década de 90, quando - casualmente ou não - nossas denúncias foram recebidas pelo mesmo promotor que o Passe Livre procurou para mediar a redução da tarifa do transporte, Maurício Ribeiro Lopes. Podemos ajudá-los a colocar em cheque esses vereadores e deputados que costumam boicotar seu trabalho, além de convidá-los a reivindicar conosco a Auditoria Cidadã, que queremos agilizar em São Paulo.

Não pretendo mesmo sair mais às ruas, por enquanto, por vários motivos. Primeiro, porque a segunda passeata da qual participei, a do Largo da Batata, me deixou perfeitamente claras as intenções pacíficas do Passe Livre. Segundo, porque novas manifestações de rua correm o risco de serem manipuladas por grupos baderneiros ou até criminosos, alheios ao foco do movimento e do resto da população, que quer, sim - inclusive eu - muito mais do que a redução de 0,20 da tarifa. O maior perigo que vejo, em novas manifestações de rua, é a redução do movimento, na opinião pública, à questão do vandalismo e da violência urbana. Tenho sugerido muito, no Facebook, trazer a polícia para o nosso lado, o lado da população vítima da incompetência e dos desmandos na aplicação das verbas públicas. Por exemplo: será que ninguém viu, nas reportagens de hoje à noite, jornalistas mostrando vândalos chutando portas de lojas e quebrando vidros, inclusive de prédios públicos, da forma mais "tranquila", sendo fotografados por celulares a menos de um metro de distância? Digo "tranquila" porque me pergunto se a nossa polícia não está tão fardada, com capacetes, coletes à prova de bala e armas de fogo, JUSTAMENTE PORQUE ESTÁ COM MEDO!... Por que nossos policiais não recebem um bom treinamento em artes marciais, quando poderiam enfrentar "tranquilamente" esses vândalos que ficam tão à vontade para depredar nosso patrimônio e assustar a população? Vejam esta foto, por exemplo, tirada a poucos metros de distância: meia duzia de policiais bem treinados em artes marciais poderiam imobilizar esses sujeitos e levá-los facilmente à delegacia, sem assustar a população e colocá-la em risco com armas equivocadamente inócuas como spray de pimenta, balas de borracha e bombas de efeito "moral"! O treinamento da nossa polícia continua no modelo da ditadura militar??? Policiais, exijam um treinamento mais moderno e que lhes dê também mais preparo, segurança e coragem para enfrentar os criminosos! Assim, as verbas destinadas à segurança seriam muito mais úteis do que gastas em capacetes e armas de fogo.




Eu tinha diversos temas para  o cartaz que levei à manifestação do Largo da Batata: PASSE LIVRE PARA A DEMOCRACIA, CIDADÃO SEM PARTIDO e AUDITORIA CIDADÃ JÁ! Decidi por CIDADÃO SEM PARTIDO pois sabia que iam aparecer bandeiras de partidos oportunistas, que não entenderam o espírito do movimento. Fiquei muito satisfeitas quando ouvi a moçada gritando SEM PARTIDO! Não sou contra partidos políticos, mas contra a situação atual, em que a degradação ideológica chegou ao ponto de, por exemplo, o PT aliar-se a Paulo Maluf! Excrescências como essa costumavam ser pouco percebidas pela população, hoje são comentadas até dentro de um ônibus, o que mostra o ponto de maturidade a que chegou a população. Mas o melhor "cartaz" que vi na rua foi na mão de um expectador que assistia à passeata em frente ao Shopping Iguatemi. Era uma tira de plástico transparente, recortada de forma irregular, provavelmente de alguma embalagem, com a palavra TRANSPARÊNCIA escrita a caneta. Essa palavra diz tudo!

Por último, quero reiterar a minha fé no movimento Passe Livre. Com uma extraordinária humildade, esses meninos negam-se a falar de sua vida pessoal e deixam claro que optaram por criar um autêntico movimento social, caso contrário estariam se candidatando por aí a qualquer cargo político. Prudentes e reservados, aparentam desconfiar das intenções alheias, no que estão cobertos de razão. Que preservem seu movimento, pois foram menosprezados e custaram a receber o apoio da sociedade. A nossa geração não confiava em ninguém com mais de 30 anos. Eles parecem desconfiar de quem tem mais de 20. Talvez estejam certos!

Ah, falei pouco da manifestação?... Sou um ser mais pensante do que manifestante e, para mim, começou uma nova fase de estudo e aprofundamento na questão das verbas públicas. Talvez agora, junto com esses meninos corajosos e inteligentes, consigamos finalmente comprovar o ralo dos nossos impostos e exigir sua aplicação, não apenas no transporte, mas em todas as áreas sociais. Passe livre para a democracia e a transparência na vida pública: é agora ou nunca!

Comentários

A cidadania é a dona das manifestações
Anônimo disse…
a reforma da ee priciliana duarte de almeida 1.007.564,33 apenas uma reforma a escola é pquena ainda tem a cara de pau de colocar 33 centavos idade que cristo morreu

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