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Ufa, tomaram providências! Até quando?...




Como sempre reiteramos, nosso trabalho é bem sucedido "no varejo", mas quase nada podemos fazer "no atacado", ou seja, a melhora da rede pública de ensino, no país como um todo, depende de uma mudança de mentalidade que a sociedade brasileira ainda não está disposta a enfrentar.

Nebuloso?... Só se você estiver acessando este blog hoje pela primeira vez. 

A questão é complexa, mas nada que não se explique. Existem dois grandes problemas a resolver:

1. A qualidade do ensino 
A qualidade de ensino não depende de nós, pais de alunos há 20 anos engajados no suporte e orientação a outros pais e alunos de escolas públicas. Enquanto os formadores de opinião, que podem (e preferem) escolher uma escola particular para separar seus próprios filhos dos filhos dos "outros", não entenderem o princípio de igualdade garantido na Constituição, a rede pública de ensino, estruturada e gerida por esses mesmos formadores de opinião, não vai melhorar em qualidade. O lobby da escola particular vai sempre garantir a mediocridade do ensino público, atuando espertamente junto às Secretarias da Educação, às Diretorias de Ensino e aos Supervisores de escola, ou seja, a política educacional vai continuar sendo manipulada...

2. O respeito ao aluno enquanto cidadão
O aluno da rede pública, em todo o território nacional e salvo honrosas exceções que confirmam a regra, é tratado como um estorvo, um pivete em potencial, um ser "mal formado" já de berço. De modo geral, as reuniões de pais e mestres, nas escolas públicas, resumem-se a queixas generalizadas em que fala-se da influência negativa, sobre os demais, dos alunos que provêm de famílias "desestruturadas", seja lá o que isso signifique. Os pais de alunos, com medo de que seus filhos estejam sendo incluídos nessa categoria, se calam... A falta de respeito ao aluno da rede pública, além de estar implícita no número absurdo de aulas vagas, na falta de planejamento pedagógico da maioria das escolas e na forma como ele é tratado (muitas vezes aos berros), é reforçada pela atuação da grande mídia, manipulada pelos sindicatos da classe docente, preocupados em livrar o profissional do ensino de sua responsabilidade pelo fracasso da escola. A solução encontrada é... culpar o aluno! Toda vez que um aluno se atreve a torcer o cabelo de um professor, isso é viralizado na mídia, mas raramente você vai ver alunos menores de idade sendo maltratados, xingados e até levados de camburão para uma delegacia de polícia! Os poucos pais que se atrevem a fazer essas denúncias são depois obrigados a tirar seus filhos da escola, devido às inevitáveis perseguições e represálias promovidas por diretores, coordenadores "pedagógicos" e outros profissionais que zelam por manter as escolas longe da mídia.

A solução do problema nº 1 está portanto fora do nosso alcance, mas com respeito ao problema nº 2 temos tido uma atuação enérgica e muitas vezes eficaz, sempre em casos pontuais, ou seja, "no varejo". É o caso de uma das denúncias que trouxemos no post Será que o demônio é o aluno?????, que nos foi trazida por pais de alunos das escolas JARDIM CAPELA 4 e ORLANDO MENDES DE MORAIS, na periferia da zona Sul de São Paulo. As escolas adotaram um sistema de fechaduras que tranca os alunos nas salas de aula, ou seja, a porta só pode ser aberta por dentro. Do lado de fora, somente com chave! Os pais não foram consultados sobre essa questão e, após uma reforma, ambas escolas apareceram com essa "novidade", que os deixou apavorados, pois a aula vaga come solta na rede pública, então muitas vezes, na falta de professor nas salas, os alunos ficavam sozinhos, trancados lá dentro! Se desse uma briga ou uma confusão, até aparecer um inspetor de alunos com a chave, poderiam transcorrer muitos minutos, como de fato aconteceu diversas vezes! Por outro lado, se ocorresse um incêndio ou outro sinistro na escola e os alunos estivessem sozinhos dentro da sala de aula, eles poderiam não perceber nada... Enfim, os pais nos procuraram temerosos e falando de uma "tragédia anunciada", pois as escolas têm mais de 10 salas de aula e apenas dois inspetores de alunos.

Entramos imediatamente em contato com a Secretaria da Educação, mas houve grande demora, como sempre, na "apuração" dos motivos que levaram os diretores de escola a escolher tal fechadura para as salas de aula. Quando percebemos que o assunto ia continuar sendo levado "na flauta", ameaçamos que chegaríamos na escola junto com o corpo de bombeiros, para avaliar os perigos das tais fechaduras. Pedimos aos pais de alunos que nos informassem sobre quaisquer novidades e finalmente obtivemos uma boa notícia. Ela não é tão boa quanto gostaríamos, pois entendemos que essas fechaduras deveriam ser totalmente trocadas, mas não temos como tomar mais qualquer atitude. Explicamos:

A escola reuniu todos os pais nos três períodos e deu uma explicação sobre a escolha daquele tipo de fechadura: seria para garantir que os alunos ficassem "tranquilos" dentro da sala durante as aulas, evitando que outros alunos tentassem entrar para "invadir" ou "atrapalhar". Para garantir que, durante o recreio, nenhum aluno tentasse entrar na sala para "roubar" os pertences de outros. Para garantir que o professor pudesse dar uma aula tranquila "sem transtornos". A diretoria da escola quis saber se os pais estavam de acordo com a escolha dessas fechaduras, pois, se houvesse rejeição, todas as fechaduras seriam trocadas. Os pais questionaram como ficaria durante as aulas vagas e em caso de acidentes, mas a direção os "tranquilizou", dizendo que as chaves das salas de aula haviam sido entregues para todos os profissionais da escola, que todas as aulas vagas seriam monitoradas rigorosamente e que os alunos nunca ficariam sozinhos: eles seriam levados para o pátio, a quadra ou a sala de informática, tomando-se os maiores cuidados. E blábláblá...

Se tudo isso realmente for verdade e se essas medidas todas continuarão sendo tomadas após a poeira baixar, só ficaremos sabendo com o tempo, mas, após tanta lavagem cerebral, a grande maioria dos pais deu um voto de confiança para a escola e aceitou o sistema de fechaduras.

Bom, menos mal! Mesmo meses após a instalação das tais fechaduras, os pais foram consultados e providências foram tomadas. Mais um caso solucionado "no varejo"...

Entretanto, o aluno continua sendo o "vilão" da história, o "causador" dessa medida que visa "manter a ordem" dentro de um sistema que lhe oferece o mínimo: basta consultar a nota IDESP das duas escolas, que pertencem ao mesmo bairro, para constatar que ela não chega a 2 sobre 10!

Comentários

cremilda estella teixeira disse…
Então são celas, os pais aceitaram ??? A gente trancafia nas salas e está tudo bem ?
A direção esperta os pais ainda acham que elas estão com a razão sempre. .
Nossa, que desanimador.
Giulia continua divulgando seu blogo no Face. Muito bom
Giulia disse…
É isso mesmo, Cremilda! Os pais recebem uma baita lavagem cerebral e concordam... Inclusive eles mesmos me pediram para não acionar os bombeiros, porque a escola apresentaria a tal concordância dos pais como argumento para manter o status quo. Realmente desanimador, mas é isso que acontece!
Giulia disse…
Explico melhor o argumento dos pais: como a maioria concordou, se nós chegarmos lá com os bombeiros, a escola vai fazer um "pente fino" para descobrir quais pais fizeram a denúncia, daí...

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