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A escola que deseduca XVI - "Formar cidadãos conscientes"




A charge acima, uma das mais "badaladas" nas redes sociais, mostra claramente o que a sociedade pensa do aluno brasileiro: um criminoso em potencial. É a tal demonização do aluno, da qual sempre falamos aqui. Trata-se de uma cortina de fumaça para abafar o fracasso da escola, incriminando a vítima.

Ética é um assunto ignorado dentro da escola, como se não houvesse necessidade de ser discutido - e mais, como se a escola costumasse comportar-se de forma ética... Em seu novo artigo, Ética na escola e na vida (infelizmente não disponibilizado na Internet pela VEJA, perfeita representante do capitalismo selvagem, rs), Gustavo Ioschpe traz finalmente esse assunto tabu, envolto em quilômetros e quilômetros de panos quentes, em toda a extensão nacional.

Apesar de algumas discordâncias, temos em Gustavo Ioschpe um grande "parceiro" na cobrança de uma escola pública eficiente e ética. Há anos este Fórum denuncia A escola que deseduca e A escola tabu. Basta acionar a busca do blog para encontrar dezenas de textos e "causos" que apresentam um retrato da escola pública conhecido apenas de pais e alunos. Outro assunto bastante abordado aqui é a omissão da mídia, que você pode encontrar na série Mídia nota zero. Nesse aspecto, a voz de Gustavo Ioschpe na grande mídia é uma exceção absoluta. Ele parte de uma visão diferente da nossa, pois não é nem pretende vir a ser pai de alunos de escola pública, mas sua formação em economia e estatística faz a diferença, na revelação de dados muito interessantes. 

Gustavo Ioschpe informa que, segundo uma pesquisa da UNESCO, 72% dos profissionais da educação consideram que o papel primordial da escola é "formar cidadãos conscientes". Esse bordão é aliás nosso velho conhecido, celebrado em todas as instâncias de discussão sobre educação, desde as universidades até as comunidades de professores nas redes sociais. Em um país onde a prática cidadã ainda é rara, tal conceito poderia fazer sentido. Mas essa "meta" dos profissionais da educação em nada corresponde à prática em sala de aula ou dentro da escola, para não dizer que vai na contramão da realidade. Não se trata aqui especificamente do professor, mas de todas as autoridades da educação, desde o MEC até os Secretários da Educação, passando pela Supervisão do Ensino e chegando na escola, onde o papel principal é do diretor, teoricamente responsável por tudo o que ocorre dentro da escola. 

Diretores compromissados com o aluno e com a qualidade do ensino são muito raros. Os poucos que demonstram esse compromisso na prática, dificilmente conseguem dar continuidade ao seu trabalho na mesma escola por longo tempo, já que muitos são afastados por indicação política de outros profissionais ou - PIOR - por armação de uma equipe "docente" relapsa, como os 3 casos fartamente documentados aqui.

Salvo raríssimas exceções que confirmam a regra, o diretor "padrão" nas escolas públicas brasileiras, principalmente no Estado de São Paulo, é autoritário, incompetente na área pedagógica e voltado para funções administrativas inúteis para a melhoria do ensino, cujo nível continua bastante ruim - e para demonstrar isso existem dados oficiais incontestáveis, principalmente o IDESP, que sempre consultamos quando recebemos denúncias referentes a escolas de Ensino Médio no Estado de São Paulo, as "campeãs" na expulsão de alunos. Em média, as escolas excludentes recebem nota de 1,5; raramente chegam a 2,0 (sobre 10). Isso demonstra não apenas a má qualidade do ensino, mas também a incompetência pedagógica de diretores de escola que, por motivo fútil, expulsam o aluno adolescente mais questionador e inconformado com o autoritarismo da escola. Essa expulsão pode ocorrer de forma "branca", convencendo os pais a retirar seu filho para que não seja submetido ao constrangimento de um julgamento pelo Conselho de Escola, ou através do próprio Conselho, do qual o diretor é o presidente. Aliás, quando um caso de expulsão de aluno chega ao Conselho, todas as cartas já estão marcadas, como você pode ler aqui.

Tudo isso demonstra a falta de ética do sistema educacional e é justamente na questão ética que a escola mais falha, a ponto de a qualidade do ensino não ser o maior problema. O sistema educacional brasileiro peca justamente naquilo que os profissionais apontam como o objetivo primordial: "formar cidadãos conscientes"; aliás, consegue o contrário do que "se propõe". A escola brasileira nem ao menos trata seus alunos como cidadãos! Os direitos constitucionais básicos deles são desrespeitados por todas as autoridades "competentes", desde as Secretarias da Educação até a própria escola que, por ser o último elo da corrente, é a prova viva da falta de compromisso das instâncias superiores, já que o exemplo vem de cima. Sim, todas as correntes pedagógicas, mesmo as mais diferentes entre si, convergem neste ponto: a educação se dá pelo exemplo!

Na página Leis deste blog há um resumo da legislação básica da educação no Brasil. São alguns artigos que "garantem" ao aluno uma escola básica no mínimo decente, desde a qualidade do ensino até a proteção contra constrangimentos, expulsão, violência física e psicológica. Essa legislação, nas últimas décadas, tem servido apenas de papel de embrulho, salvo honrosas e raríssimas exceções. Se você tiver disposição para ler alguns dos comentários feitos por pais e alunos ao pé da própria página Leis, vai entender do que estamos falando aqui, mas saiba que se trata da ponta do iceberg, pois as denúncias mais graves nos chegam por e-mail.

Por outro lado, a falta de qualidade do ensino também tem a ver com falta de ética, pois o sistema educacional não cumpre com o que deveria oferecer:

- Planos de educação em nível federal, estadual e municipal, a fim de que haja um currículo mínimo comum, que permita a todos os alunos um nível de aprendizagem equilibrado em todos os estados e municípios. Esses planos continuam "cozinhando" a fogo lento na maioria do país, permitindo que governo-vai, governo-vem, cada um faça o que quer e tudo fique como está.

- Todas as aulas todos os dias. Dependendo da escola e do ano que o aluno está cursando, a média de aulas vagas varia de 25% a 40%, ao longo do ano letivo. Quando, anos atrás, determinou-se que o aluno seria retido se suas faltas superassem 25% das aulas, tal norma visou garantir à escola um "confortável" número de aulas vagas durante o ano letivo...

- Professores habilitados para cada disciplina. Na maioria das escolas, muitos professores não estão habilitados ou lecionam uma matéria que desconhecem. Os maiores problemas ocorrem durante as intermináveis licenças de certos professores (algumas sendo "licenças-prêmio"...), pois os substitutos limitam-se a enrolar ou a "passar" filmes sem qualquer relação com a matéria. Até a Isadora Faber, do famoso Diário de Classe, teve e relatou essa experiência, mesmo numa escola visada em nível nacional...

- Biblioteca funcionando ou sala de leitura ativa. Ainda hoje, as escolas públicas que oferecem ao aluno uma biblioteca razoável e monitorada, principalmente no Ensino Médio, não passam de 10%, em todo o território nacional. Para não falar do desastrado ensino da "informática", sendo que a maioria das escolas que receberam computadores não os disponibilizam para os alunos ou então os utilizam sem qualquer projeto pedagógico.

Esses são apenas os itens que mais influem na má qualidade do ensino, sem falar das instalações precárias que vira-e-mexe impedem o funcionamento das escolas, principalmente nas periferias dos centros urbanos, e na falta de material pedagógico ou escolar, que também atrapalha as aulas. Todas essas falhas demonstram que o sistema educacional brasileiro é desonesto, não cumpre com o que a lei determina e só "pode" se dar a esse luxo porque os formadores de opinião, em sua maioria, permitem que isso aconteça. O sistema educacional básico é formado por escolas públicas (ca. 90%) e particulares (ca. 10%), sendo que a quase totalidade dos formadores de opinião têm seus filhos estudando na rede privada. É preciso falar mais alguma coisa? rs

Exigir que os 90% de pais de alunos que têm seus filhos estudando na rede pública se unam e cobrem respeito e qualidade do sistema educacional é hoje ainda inviável: os que cobram respeito vêem seus filhos perseguidos até à expulsão da escola, uma pecha que os acompanha durante toda a vida; de qualidade, a maioria dos pais têm pouca noção, pois seu nível de escolaridade acompanha o dos filhos, então se dão por satisfeitos por conseguirem uma vaga na escola e poderem mantê-los lá.

"Formar cidadãos conscientes?" Só quando o aluno da rede pública for considerado e tratado como cidadão. Através desse exemplo ele poderá entender o que é cidadania e agir como cidadão. 

Gustavo Ioschpe faz uma (auto)crítica à sociedade brasileira, onde ainda imperam o jeitinho e a lei de "Gérson": Se a sociedade brasileira é desonesta, é normal que a escola também o seja. Concordamos, mas também entendemos, como ele, que o sistema educacional precisa se esforçar para melhorar sua ética. Estamos cansados de ouvir o bordão "a educação vem de casa", quando a escola deseduca, inibe, desanima, desespera e muitas vezes expulsa nossos filhos!

Exigir do sistema educacional uma ética mais elevada é certamente a solução, pois não adianta esperar que o país mude apenas pela melhora social, que é muito lenta, já que os interesses dos que estão no poder ainda se sobrepõem aos da coletividade. Mas, como exigir essa ética de quem não sente na pele os efeitos da desonestidade?

Com a palavra, a Academia a as instâncias educacionais superiores de todo o país!

Comentários

Danielle lamas disse…
É legal o aluno(9 anos) ficar sem recreio porque os pais deixarem de assinar um determinado bilhete destinados aos pais. Cheguei em casa depois de um dia de trabalho e meu filho me acusou de ter ficado sem recreio por minha culpa.
Giulia disse…
É claro que é um absurdo! A escola "se vinga" dos pais deixando o aluno sem recreio? Questione com a direção da escola.

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