Superdotados: invisíveis, como a escola quer!


Dando continuidade à retrospectiva do setênio, segue um post que mostra a "invisibilidade" dos alunos superdotados nas escolas brasileiras. Eles são invisíveis para o sistema educacional, que não sabe o que fazer com eles, portanto prefere ignorá-los. Mas precisam se tornar invisíveis dentro das escolas que frequentam, para não serem hostilizados e perseguidos!


Janeiro de 2004

"O ano passado terminou com uma enorme satisfação! Foi a solução de um caso antigo, iniciado há mais de um ano e meio, mas que só agora foi resolvido à altura.

Em maio de 2012 entrou em contato conosco Claudemir, pai de Valéria, uma menina muito precoce, já alfabetizada aos 6 anos, e mais do que apta a cursar o 2º ano, o que estava sendo negado pela rede pública, apesar de a legislação permitir a reclassificação de alunos. A muito custo, após diversas romarias na Diretoria de Ensino, na Secretaria da Educação, na Defensoria de Direitos da Criança e do Adolescente e pedindo o apoio de Ongs, finalmente a menina Valéria conseguiu um laudo de superdotação que lhe permitiu cursar o ano adequado aos seus conhecimentos. Leia sobre o assunto no post Superdotados. O que fazer?, que mostra, aliás, como o país está despreparado para atender crianças com inteligência superior. Sim, caro professor, elas existem! Não adianta vir com o discurso "politicamente correto" de que todos somos iguais, rs... Sim, todos somos iguais PERANTE A LEI, mas cada um tem que saber reconhecer os próprios limites e aceitar que existem pessoas mais bem dotadas intelectualmente. O Brasil finge que não, e este é um problema sério!

A menina Valéria passou por diversas humilhações e constrangimentos na escola, como você pode ler aqui, antes de conseguir a reclassificação. Mas é óbvio que só a ida para o 2º ano em uma escola pública do Capão Redondo não seria suficiente para uma aluna de inteligência acima da média. Durante os diversos contatos com o Claudemir e sua esposa, Cristina, fiquei conhecendo o resto da família e percebendo que as duas irmãs da Valéria também tinham inteligência superior. Que desperdício, três mentes brilhantes sufocadas numa escola pública do Capão Redondo! Por isso, apesar de eu lutar por uma escola pública de qualidade, só me ocorreu uma sugestão para Claudemir e Cristina: já que o Brasil não oferece nenhum programa para a educação de crianças superdotadas, procurem escolas particulares que se destacam entre outras e peçam bolsa de estudos para suas filhas. Quem sabe, num ambiente estimulante elas possam desenvolver melhor sua inteligência!

Claudemir "sumiu" durante mais de um ano, como aliás a maioria dos pais de alunos que nos procuram, pais trabalhadores e muito ocupados com o sustento da família. Geralmente, eles agradecem o apoio e raramente nos informam sobre acontecimentos futuros. Finalmente, no último dia do ano, recebemos dele e de Cristina uma mensagem que nos deu imensa satisfação. O e-mail tem 4 páginas e várias fotos anexas, por isso vamos reproduzi-lo apenas em parte, mas é importante frisar que pais como Claudemir e Cristina são raros e recebem todos os nossos aplausos, pela firmeza de suas atitudes e pela coragem de enfrentar um sistema educacional falho e injusto, para que suas filhas tenham as oportunidades merecidas. O que desejar para uma família como essa, que já é UNIDA E MUITO FELIZ? Muita saúde e energia, para que  todos possam progredir cada vez mais!  Claudemir, Cristina e meninas, que a vida continue lhes oferecendo tudo o que merecem, pelo seu empenho e esforço! Não se esqueçam de nós, continuem nos enviando boas notícias, para que muitos outros pais e alunos possam se inspirar no seu exemplo!

"Nunca deixamos ou deixaremos de esquecer o que vocês fizeram por nós no ano de 2012, cuidando da nossa filha Valéria, onde automaticamente afetou positivamente nossas duas outras filhas, a Christine e Luiza. Não só a reclassificação da Val, que foi do primeiro para o segundo ano, através do laudo que nos proporcionou, como juntamente com suas duas irmãs, conseguimos no ano de 2013 uma bolsa integral de estudo num dos melhores colégios do Brasil.

Sempre sonhamos que as nossas filhas tivessem a chance de estudar em uma escola com um ensino desafiador e de qualidade, pois sempre acreditamos no potencial delas, nas suas habilidades e também na criação, visão e valores que hoje são estimados por muitas famílias e que sempre demos a elas. Sempre procuramos condições financeiras para isso, mas o tempo estava passando e a necessidade de as meninas desenvolverem e terem seus talentos reconhecidos, fez com que o sonho falasse mais alto. Incentivados pelo resultado do laudo da Valéria e o histórico da Christine e da Luiza, nos enchemos de fé e fomos à luta. Batemos na porta das melhores instituições de ensino da cidade. Fizeram testes, entrevistas, uns nos receberam muito bem, outros nos incentivaram a continuar. Com muita persistência, mesmo ouvindo muitos NÃO, graças a Deus, três ótimas escolas nos ofertaram bolsa de estudo para nossas filhas: Benjamin Constant, Rio Branco e Mackenzie. Que alegria! Que vitória! Não acreditamos, ficamos estáticos. Acabamos escolhendo o Mackenzie.

Este ano, a Christine foi a melhor aluna da sala, já fez discursos e homenagem em publico, foi campeã pelo Mackenzie, no torneio nacional de soletração realizado pela ACSI e sua redação foi a campeã, numa disputa brasileira realizada pela mesma instituição e tem sido escalada pela escola, para dar entrevistas a jornais famosos, quando vão fazer alguma matéria no colégio. Também ressalto que ela veio do colégio público sem saber quase nada de inglês e matemática, pois praticamente não ensinavam essas matérias. Sua nota passou de 4,6 para 10 na última etapa no idioma e de 6,7 para 9,9 em matemática. Sem contar o fato de ter sido classificada pela professora de espanhol, como a melhor aluna da classe, uma língua que nunca havia estudado antes. Junto a isso ela também pode praticar um esporte inimaginável para nós, que é o esgrima, onde também é bolsista, vem se destacando tanto, que foi indicada para fazer teste com um técnico russo, para treinar a modalidade no Clube Pinheiros. Estamos também nas nuvens com outra grande chance que nos foi dada, pois a Christine ganhou bolsa para cursar inglês numa das melhores escolas do Brasil que é o Cultura Inglesa em Higienópolis. Foi definido que ela cursasse o nível 3, mas devido a um pouco de insegurança dela, sua professora sugeriu que ela descesse para o nível 2. Quando ela se viu com a possibilidade de voltar atrás, não se conformou e continuou no nível 3. Resultado, ela terminou o semestre entre os três melhores, com um aproveitamento de quase 100% em todos os quesitos.

A Luiza, mesmo sendo a aluna com menor idade da turma, esteve este ano entre as melhores da classe e ainda teve o seu poema escolhido para confeccionar o livro de poesias do Mackenzie que é distribuído para todas as escolas do Brasil que adotam seu sistema de ensino.

A Valéria, no período de avaliação para conseguir a bolsa nos colégios que citei anteriormente, gabaritou todos os testes avaliativos que prestou. No processo recebeu elogios de todos, pois ela chegou a ser a única criança a gabaritar as provas, feito que alunos da sua idade, não conseguiam a anos. No Mackenzie tirou 9 e 10 em praticamente todas as provas, disputou pela primeira vez um campeonato estudantil de xadrez, onde estiveram presente parte dos melhores colégios de São Paulo. Conquistou o 3º lugar, foi a melhor colocada e a única representante do Mackenzie no pódio da sua categoria.

Recebemos elogios de professores, orientadores educacionais e direção, tanto as crianças como nós. Tudo isso mesmo sendo o primeiro ano delas em um colégio de ponta, vindo de uma escola publica do Capão Redondo (infelizmente um dos bairros mais violentos da cidade). Os coordenadores do colégio estão admirados e dizendo que foi o melhor investimento que o Mackenzie fez no ano de 2013.

Lembro-me que em 2009, no período de adaptação da Christine no colégio público, frequentemente ela era retirada da sala de aula, chorava muito devido estar bastante adiantada no aprendizado e não se adaptava ao ensino, que era muito atrasado e o ambiente bastante violento. Como não tinham paciência e nem jeito para lidar com a situação, a diretora da escola chegou a dizer que a minha filha era louca e que déssemos um jeito de tira-la de lá. Em outra escola faziam vistas grossas para alguma agressão que ela sofria de outros alunos e pediram laudo psicológico para que ela continuasse a estudar, laudo esse que não acusaria nada de ruim na criança. A Valéria, por estar com o ensino bem acima das outras crianças, também ficou deprimida, chegou a ser agredida por uma professora e era submetida a testes sem o nosso conhecimento, só para tirarem a dúvida se ela “era isso tudo”.

É pelo fato de termos sofrido essas coisas, que somos imensamente gratos a vocês, ao Benjamin Constant, ao Colégio Rio Branco que se lembraram de nós, nos oferecendo a bolsa e é claro ao Mackenzie que está proporcionado carinho, atenção, reconhecimento e oportunidade para que elas façam a diferença no Brasil e no mundo."

Vamos relembrar também a excelente matéria de Flávia Yuri Oshima, na Época, que conta uma história muito reveladora de dois superdotados mineiros, amigos desde a infância, e que também tiveram que se fazer "invisíveis" para a escola:

http://epoca.globo.com/vida/noticia/2016/02/o-que-historia-de-dois-superdotados-revela-sobre-o-brasil.html

Comentários

Yra doce disse…
É com alegria que leio o relato dos pais da menina Valéria.

Meu filho hoje com 17 anos infelizmente passou por vários constrangimentos justamente por ser ou estar acima dos meninos da idade dele e da classe.

O Colégio onde estudou através da coordenadora e de alguns professores chegaram ao ponto de humilhar em várias ocasiões.

Ao término da 8* série tirei e mudei para uma ETEC...onde ele mudou como por milagre.

Desabrochou foi a palavra que usei á época.

Era assim mesmo que ele se sentia: Murcho.

No ano passado prestou o ENEM e vai estudar na UnB em Brasília.

Passou em primeiro lugar na UNESP como aluno de escola pública.

Não precisou se valer de benefícios oferecidos pelo governo como cotas ou algo assim.

Somente com a nota do Enem.

Vim aqui relatar,,,,pois muito me vali deste blog para me orientar...
pois desejei muito este filho,,,mas não sabia nada de nada do que me esperava nas escolas que passei.

Agradeço novamente a Giulia e ao EducaFórum.

Abraços maternos e fraternais.

Yara Maria Marques. (Yra doce).

Giulia disse…
Yara, que prazer receber uma mensagem sua após tantos anos! Fico muito feliz de termos ajudado em alguma coisa, na verdade esse é o nosso papel principal: orientar. Quando percebemos que os pais conseguem andar com suas próprias pernas, é a glória. Muito boa sorte para o seu menino e um grande abraço para você! Continue em contato!
Giulia disse…
Yara, vá para a nova postagem do blog e veja nossa homenagem! Um abraço.

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