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A escola tabu nº 70 - O educador, esse estorvo!





No post O aluno, esse estorvo!, publicado há 3 dias, você leu a mensagem de alunos de uma escola estadual de São Paulo, preocupados com um abaixo-assinado que iniciaram para solicitar à escola passeios educativos ou recreativos, eventos que até então nunca haviam sido  promovidos. Como é de costume na rede pública brasileira, infestada de autoritarismo, essa atitude provocou um clima de terror dentro da escola, que atingiu não apenas os alunos, mas os professores que permitiram a circulação do abaixo assinado em suas classes. Acabamos de receber uma mensagem da professora que "deu permissão" aos alunos de tomar essa atitude e a divulgamos, por entender que é extremamente reveladora de como os poucos EDUCADORES que existem na rede pública são ameaçados e desestimulados a apoiar os alunos, enfim, eles também são tratados como estorvo. Leia também a nossa resposta!

Bem, eu fui a professora que permitiu que o tal abaixo assinado fosse feito,e confesso, apesar de ser nova na carreira de educadora, acabei me arrependendo desse feito. Fui seriamente corrigida e orientada pelas coordenadoras da escola a nunca mais incentivar os alunos a fazerem algo desse tipo, pois segundo elas minha carreira estaria em risco. Não consegui entender o porque disso, mas no momento concordei, era a única coisa a fazer, pois elas estavam realmente muito bravas comigo, pois achavam que a ideia do abaixo assinado era minha.
  Disse a elas que eu havia permitido que fosse feito, pois afinal de contas estamos orientando cidadãos que precisam aprender a lutar por seus direitos. Mas elas me disseram que não, em momento nenhum eu, enquanto orientadora poderia fazer isso, abaixo assinados era proibido para menores. Como eu não conheço muito sobre leis, preferi não prolongar o assunto, uma vez que elas já haviam feito eu esperar por duas horas depois do meu horário para me dar essa bronca, estava cansada, com fome, e queria ir embora o mais rápido possível.
 Mas quando cheguei em casa comecei a pensar, aquelas meninas haviam passado de sala em sala, e em todas salas que elas haviam passado haviam professores, e nenhum deles disse a elas  que não poderia ser feito esse abaixo assinado. Depois elas foram até a vice-diretora e perguntaram para quem elas teriam que entregar o documento, a vice disse que seria para as coordenadoras, ou seja,a vice também não as proibiu de fazer esse documento. Então minha duvida é: o que essas coordenadoras disseram procede ,e eu realmente não poderia orientar meus alunos a fazerem um documento em que eles revindiquem seus direitos? O que posso fazer para ajudar, pois realmente a escola não participa de nenhum evento cultural ou recreativo? Fora isso temos inúmeros problemas comportamentais com alunos, que sei poderiam ser solucionados se a escola fosse mais aberta a negociações e se beneficiasse os alunos, talvez, quem sabe, poderia haver um acordo entre escola e aluno, assim todos sairiam ganhando. Por favor, preciso muito saber se o que fiz realmente é errado, e em qual lei posso me proteger caso "elas"queiram me prejudicar. 

Nossa resposta:

Que prazer receber mensagem de uma professora que realmente se preocupa com os alunos! Essa é a diferença entre o professor e o educador. A rede pública brasileira é muito autoritária, tudo o que se pretende é calar a boca do aluno e, lógico, dos minguados professores que se atrevem a ter outra atitude. 

Suas "superiores" na escola temem processo administrativo, esse instrumento de tortura psicológica que não leva a nada além de contaminar o ambiente escolar com medo e covardia. Este é um país que privilegia o "legal" ao justo e bom, então essas autoridades priorizam o fato de que um abaixo-assinado de menores de idade não tem valor legal. Mas... proibido??? Não, proibido não é, aliás nada é proibido quando se trata de promover a nossa infância e juventude, vítimas de um apartheid educacional que há décadas prejudica os cidadãos brasileiros das classes pobres em seu direito a uma educação no mínimo decente.

Conte conosco, não defendemos apenas os alunos, mas também os poucos educadores que têm e mantêm a coragem de ficar do lado do aluno, quando se trata de melhorar suas precárias condições de aprendizagem. Esperamos de coração que você não esteja isolada dentro da escola, que algum dos demais professores que viram o abaixo-assinado circular em sua classe tenha a coragem de apoia-la, sem medo de perseguições ou represálias. Estamos levando o assunto à Secretaria da Educação e entraremos em contato brevemente. Tomamos a liberdade de publicar o assunto em nosso blog, sem mencionar seu nome nem o da escola, como fizemos com a mensagem dos alunos. Esperamos que nossos argumentos possam esclarecer a escola inteira e que o assunto deixe de ser tabu, para ser discutido amplamente, entre alunos, pais e professores.

Um grande abraço!

EDUCAFÓRUM
Pais, alunos, educadores e cidadãos que defendem a escola pública e a cidadania

Giulia Pierro      Vera Vaz       Mauro A. Silva     Tertuliano      Caroline Miles      Cremilda Teixeira

Comentários

Anônimo disse…
Tamo junto...
Dia e hora ???
cremilda
Giulia disse…
Que bom que você tá de novo na ativa!!! Pedi reunião para o Padula, vamos ver se responde, rsrs. Senão vou ficar enchendo a Valesca mesmo, mas quero a dirigente de ensino lá!
Anônimo disse…
Então menor pode ir preso, num lugar onde é cana dura, tranca, privado de liberdade por qualquer coisa até desacatar uma professora tranqueira como é o caso de Urupês, mas não pode se organizar, abaixo assinado de aluno não vale nada... ele é menor...
Anônimo disse…
O problema nem era o pedido dos alunos, que pedir lazer nem é o caso. Tem escola da familia e lazer é outro papo. O que a Direção da Escola não quer é que aluno descubra que tem força quando se organizam
cremilda
Giulia disse…
Não se trata aqui da questão se a escola pode ou deve levar os alunos para passeios culturais ou recreativos, mas se os alunos podem ou não expressar abertamente suas ideias. Quanto a esses "passeios", também temos sérias restrições para "excursões" que pesam no bolso das famílias dos alunos e muitas vezes beneficiam diretamente os diretores das escolas, que recebem "por baixo do pano".

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