Mídia nota zero - A série XXVIII - A fantástica demonização dos alunos!




Andamos abandonando a série "Mídia nota zero" por pura decepção, mas o Fantástico deste domingo deu bons motivos para retomar o tema. Foram duas matérias e acabamos relacionando uma com a outra, dentro da nossa visão peculiar de pais de alunos da rede pública.

A primeira matéria poderia ser bem interessante, se mostrasse vários ângulos da questão, mas virou um samba de uma nota só. Trata-se do vídeo "Agressão verbal na infância pode doer mais do que palmada", feito com base em pesquisa realizada com 10 mil adultos em todo Brasil, que revelaram seus traumas de infância devidos ao abuso emocional. Em todos os casos  relatados, os agressores eram membros da família.  Estranhamente, nenhum dos entrevistados mencionou qualquer agressão recebida na escola por professores, diretores de escola ou funcionários. Como assim?? Como foi feita a seleção desses casos???... http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2015/03/agressao-verbal-na-infancia-pode-doer-mais-do-que-palmada.html

Pois por aqui essas denúncias abundam - e geralmente de forma anônima - porque se vazarem os nomes dos envolvidos, os alunos são perseguidos até abandonarem a escola. Já houve casos de profissionais da "educação" chamarem alunos de "retardado", "songamonga", "ameba", "cavalo", "vagabundo", "vagal", "macaco", "bandido", "maconheiro", inclusive com expressões menos delicadas, como "viado", "bicha", "monte de merda" (bom, você já conhece o blog e sabe que não é politicamente correto, aqui se fala como na vida). Lembramos o caso bem documentado daquele secretário da educação de Barueri que xingou 41 alunos de uma mesma escola e mandou eles estudarem "nos quintos dos infernos", leia aqui:

E não pense que o abuso moral ocorra somente na rede pública! Ele é muito, mas muito frequente também na escola particular! http://educaforum.blogspot.com.br/2010/03/escola-tabu-n-10-imagine-na-publica.html

Agora assista ao vídeo da outra matéria veiculada pelo Fantástico no domingo, para depois falarmos da demonização do aluno: http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2015/03/falta-de-acompanhamento-psicologico-e-maior-problema-na-escola-dizem-professores.html

Essa segunda matéria é sobre indisciplina escolar. Uma pesquisa da Fundação Lemann com 1.000 profissionais da educação chegou à conclusão de que um dos maiores problemas da escola é a indisciplina dos alunos. Diferentemente de matérias anteriores, nas quais a demonização do aluno foi bem mais ostensiva, o Fantástico leva o assunto de forma mais "light". Parece que a onda de responsabilização dos alunos pelas mazelas da escola está começando a diminuir, no que acreditamos que parte do mérito seja de blogs como o nosso e o da Cremilda, bem como do trabalho da professora Glória Reis e de outros educadores que têm a coragem de denunciar os abusos da escola. A matéria bem coloca o despreparo do professor ao lidar com a indisciplina, pois as faculdades não oferecem preparo psicológico e pedagógico adequado. Além disso, o professor tem que seguir um programa que não prepara para a vida, mas para a cópia e a decoreba, embotando a inteligência dos alunos e deixando-os inquietos.

De modo geral, o Fantástico ainda merece nota zero na cobertura do assunto educação. Mesmo mais sutilmente, suas matérias continuam demonizando o aluno e mantendo a santa madre escola num pedestal que ela não merece, pois continua incompetente e excludente. Para melhorar sua nota, o Fantástico teria que apresentar uma pesquisa que mudaria radicalmente as duas matérias veiculadas no domingo. Seria uma pesquisa junto a alunos do ensino básico na rede pública e particular, para apurar quais agressões - físicas ou verbais - eles sofreram dentro da escola por parte de professores, diretores e funcionários. Atreva-se o aluno a revidar as ofensas recebidas por aqueles que o deveriam orientar! Ele vai receber a pecha de INDISCIPLINADO e corre o risco de ser expulso da escola. Essa é a relação que fazemos entre as duas matérias falhas, parciais e tendenciosas que o Fantástico apresentou no domingo passado. 

Ainda sobre o Fantástico: a primeira matéria sobre dislexia na TV brasileira foi realizada pelo Fantástico em 2001, com a nossa ajuda, quando indicamos uma mãe que sofreu demais na infância pelo despreparo da escola no Brasil e que só conseguiu completar sua vida escolar, com dignidade, na Suíça. 10 anos depois, em 2011, essa mãe nos pediu ajuda para recuperar a gravação dessa matéria, pois estava sofrendo com seu filho disléxico exatamente os mesmos problemas que ela teve na infância e queria mostrar o vídeo ao filho. Enviamos milhares de e-mails ao Fantástico, mas esse "milagre" não foi realizado, nem mesmo essa mãe propondo pagar pela busca da matéria, que a produção do programa declarou impossível. Imaginem então se o Fantástico nos daria ouvidos para realizar a tal pesquisa com os alunos! É fantástico, é?...

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