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Equívocos de uma pedagogia "do amor"


Temos um sistema que instrui e usa de forma fraudulenta a palavra educação para designar o que é apenas a transmissão de informações.É um programa que rouba a infância e a juventude das pessoas, ocupando-as com um conteúdo pesado, transmitido de maneira catedrática e inadequada. O aluno passa horas ouvindo, inerte, como funciona o intestino de um animal, como é a flora num local distante e e os nomes dos afluentes de um grande rio. É uma aberração ocupar todo o tempo da criança com informações tão distantes dela, enquanto há tanto conteúdo dentro dela que pode ser usado para que ela se desenvolva. Como esse monte de informações pode ser mais importante que o autoconhecimento de cada um? O nome educação é usado para designar algo que se aproxima de uma lavagem cerebral. É um sistema que quer um rebanho para robotizar. A criança é preparada, por anos, para funcionar num sistema alienante e não para desenvolver suas potencialidades intelectuais, amorosas, naturais e espontâneas.
A célula tem um modelo em seus genes e sabe o que necessita para construir-se. Um eletrólito que não lhe servirá não será absorvido. Podemos usar essa metáfora para a educação. As perturbações da educação são uma resposta sã a uma educação insana. As crianças são tachadas como doentes com distúrbios de atenção e de aprendizado, mas em muitos casos trata-se de uma negação sã da mente da criança , de não querer aprender o irrelevante. Nossos estudantes não querem que lhe metam coisas na cabeça. O papel do educador é levá-lo a descobrir, refletir, debater e constatar. Para isso, é essencial estimular o autoconhecimento, respeitando as características de cada um. Tudo é mais efetivo quando a criança entende o que faz mais sentido para ela.

Fiz questão de reproduzir estas falas inspiradoras do chileno Claudio Naranjo, psiquiatra por formação e profissão, mas hoje educador - e dos bons! Leia a íntegra clicando aqui.

Tiro meu chapéu para o Naranjo pela coragem de abandonar uma carreira na qual é referência - estudos de personalidade - para dedicar-se a uma área desprestigiada no mundo inteiro. Sim, neste mundo dito civilizado, esquizofrênico ao cubo, fala-se exaustivamente da importância da educação, mas pouco se faz por essa que é sem dúvida a mola mestra que poderá mudar o mundo... para melhor. E uma sociedade esquizofrênica só pode ser mudada pelo desenvolvimento da consciência coletiva. Consciência tem a ver com a formação de valores e isso mostra o tamanho da encrenca que nós, humanos do século XXI, fomos arranjar...

Naranjo sugere uma pedagogia baseada no amor e na empatia. Eu concordaria perfeitamente com esse conceito... em um mundo ideal. No mundo atual, a palavra amor é talvez a maior expressão da esquizofrenia global. É provavelmente a palavra mais usada e também mais desgastada, fazendo uma cortina de fumaça no desamor que permeia nossas relações sociais.

Naranjo afirma que é muito bem recebido pelos ministros da educação dos países que visita, que dizem concordar com seu ponto de vista, mas estranha que, na prática, nada fazem. Benvindo à hipocrisia global, prof. Naranjo!

Aqui no Brasil, a maior expressão de hipocrisia na educação pública foi a "pedagogia do amor" supostamente implantada pelo ex-secretário Gabriel Chalita na Secretaria Estadual de São Paulo, que ficava esquentando sua cadeira na SEE escrevendo pegajosos livros de "autoajuda" e só saia para os trens da alegria "pedagógicos" que organizava para instruir a classe docente sobre como implantar a tal pedagogia. Nunca atendeu pais ou alunos da rede! Fez história a famosa reunião agendada por seu gabinete, à qual levamos cerca de 20 pais e alunos, não só da Capital, mas também do interior e do litoral. Ficamos aguardando mais de duas horas na ante-sala e depois um assessor veio nos informar que a reunião agendada estava cancelada!

Durante a gestão Chalita foram incontáveis os fechamentos de escolas e turmas (o sindicato nunca soube informar o número exato) e houve o maior incremento daquela que é até hoje a modalidade mais vergonhosa de expulsão de alunos: a "condenação pelo Conselho de Escola", que consiste na incitação da comunidade escolar contra os 'alunos problema', as 'laranjas podres que contaminam as outras'. Resumindo: colocar pais e alunos contra os próprios pares, rachando a comunidade e fazendo o jogo dos maus diretores de escola, que querem se livrar dos alunos mais inteligentes, críticos e questionadores. Leia com atenção a fala de uma coordenadora "pedagógica", clicando aqui. Ela justifica a expulsão da aluna com o fato de que ela ousou questionar as atitudes da escola, ou seja: já que não está satisfeita, que procure outra escola!

No mundo ideal do prof. Naranjo, os professores teriam tanta empatia por seus alunos, que saberiam orientá-los para o conhecimento que realmente constrói, aquele que permanece. Não é o caso, na maioria das escolas públicas brasileiras, onde os alunos são tratados como estorvo, ignorados ou expulsos sem qualquer remorso. Que tipo de educador, francamente, não se incomoda de deixar seus alunos sem aulas durante meses, em nome de uma luta ideológica? No fundo, é que se lixam para eles... Pronto, falei! Dizia bem Rubem Alves que os professores, em suas reivindicações, falam de tudo, menos dos alunos.

Por enquanto, no mundo real, o prof. Naranjo pode aguardar sentado. Mas que continue a nos inspirar com seus belos textos, repletos de uma sensibilidade que pouco atinge os corações de "educadores" que se limitam a embotar a inteligência dos alunos com informações obsoletas.

A palavra amor, infelizmente, não se aplica à educação atual, pelo menos no Brasil. Quem ama não fala, cuida! E não pense que as escolas particulares sejam melhores, neste quesito: elas expulsam tanto ou mais do que as públicas, apenas o fazem de forma mais elegante, convidando os pais a escolherem uma escola onde seus filhos possam ser mais "felizes". Felicidade é outra palavra tão desgastada quanto "amor", na sociedade atual. Bons educadores há, certamente, mas são minoria e esses sempre mereceram a nossa admiração e gratidão, veja clicando aqui.

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