Disciplina na escola: desenvolver a sensibilidade moral


No último post recomendei a leitura do livro Um panorama geral da violência na escola... e o que se faz para combatê-la. (Editora Mercado de Letras). Muitos leitores não conseguiram ter acesso ao livro, então resolvi comentar alguns tópicos por aqui, dentro do que me parece mais urgente discutir. Esses livros são especialmente interessantes, pois apresentam uma pesquisa realizada junto a professores e alunos dos 2 ciclos do Ensino Fundamental, cruzando dados.

Em um determinado ponto, o livro faz uma autocrítica, ou seja, considera que o número de pesquisados foi pequeno e que algumas perguntas foram mal formuladas. É gritante, por exemplo, a contradição entre os seguintes dados:
75% dos alunos entrevistados do 2º ciclo (pré-adolescentes) afirmaram não haver problemas ou conflitos no relacionamento professor-aluno. Entretanto, quase 90% desses alunos também afirmaram terem sido ou terem visto colegas sendo expulsos da sala de aula, pelos motivos mais diversos. Ora, se não houvesse conflitos, não haveria punições como a exclusão da sala de aula.

Ao mesmo tempo, a maioria dos professores desse nível de ensino atribui à família a responsabilidade pela indisciplina e “falta de limites” dos alunos. Eles afirmam que “resolvem” os conflitos na escola “ensinando a moral” e levando os problemas às famílias.

Esses resultados mostram que existe talvez uma tendência de os alunos aceitarem passivamente serem colocados para fora da sala de aula, pois provavelmente são repreendidos em casa ou até poderão apanhar dos pais por causa disso, já que os professores levam os problemas para a família.

Um trecho do livro é revelador nesse sentido, abrangendo inclusive a questão da qualidade do ensino:

“Assistimos outro dia uma situação interessante: certa mãe contava sobre a reunião de pais a que foi chamada para participar. Nesse encontro, o professor responsável se dirige aos pais dizendo o nome de cada aluno e em público faz elogios e críticas aos pais que estavam presentes. Críticas do tipo ‘seu filho é muito desobediente, pai, ele precisa de limites e o senhor não tem dado’ ou então ‘ele precisa de ajuda de casa, pois não consegue entender matemática e olha que esses conteúdos são de anos anteriores’. Então nos indagamos: se o problema está em casa, qual o papel da escola? O que de fato tem sido feito para que possam superar os problemas apresentados? Como um pai quase analfabeto pode acompanhar os problemas de matemática de seu filho? Como se sente um pai que é exposto sobre sua ‘culpa’ por seu filho não ter limites? A questão é que a tal ‘parceria escola-família’ sugerida por tantos educadores parece ter ainda alguns problemas a mais: na mesma reunião, a mãe de uma aluna, antes de assinar o relatório de sua filha, pergunta a uma professora o que quer dizer ‘é assídua’, pois não sabia do que se tratava. A professora responde: ‘Eu sou nova aqui e é melhor perguntar para a outra, pois eu também não sei do que se trata esse item’. Para coroar o exemplo dado, a professora da aluna responde à mãe e à colega inexperiente: ‘É coisa boa, mãe, quer dizer que sua filha não falta às aulas’ embora, diga-se de passagem, a menina apresente centenas de dúvidas sobre as matérias. Por certo, o exemplo dado demonstra o quanto a escola é ainda ‘amadora’ em sua tarefa de reunir pais, já que se utiliza da queixa, da exposição e da própria má formação para aproximar pais que podem e devem sim contribuir com a parceria, mas não como culpados, e sim, como parceiros em busca de atingir o tão sonhado objetivo, que é formar para a autonomia.”

Diga-se de passagem que todos nós do EducaFórum, pais de ex-alunos, sentimos isso na pele, cada um a seu tempo.

Realmente, essa pesquisa precisa ser aprofundada, por isso estamos criando um formulário para ser preenchido no próprio blog ou enviado por e-mail, para ouvir dos alunos o que ocorre dentro da escola, sejam conflitos entre alunos ou com profissionais diversos, quais as causas, em que circunstâncias ocorrem esses conflitos e de que forma são trabalhados por professores, coordenadores, diretores, inspetores etc.

Uma outra “falha” dessa pesquisa, que porém teve o mérito de dar voz ao aluno, foi limitar-se a abordar a expulsão da sala de aula pelo professor, mas ignorou o tabu constituído pelo “pacote” advertência/suspensão/expulsão da escola, a famosa trinca responsável por boa parte da evasão escolar de alunos do Ensino Médio, muitos dos quais não mais suportam serem tratados como criminosos em potencial e abandonam de vez a escola.

O livro conclui que há falta de reflexão e de diálogo entre alunos, professores, diretores e demais profissionais da escola, onde os conflitos costumam ser “solucionados” através de punições que não promovem nenhuma aprendizagem, pois não há relação entre o ato cometido e uma ação/punição como colocar o aluno para fora da sala ou suspendê-lo das aulas. Regras aplicadas em nome da mera autoridade, e não da necessidade, não ajudam meninos e meninas a desenvolver aquilo que mais falta nos dias de hoje: a sensibilidade moral. Isso só se constrói quando as partes podem falar livremente sobre o que pensam, o que sentem e sobre seus problemas, para discutir em conjunto as soluções.


Continua

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