Não há lei que resolva a incompetência da escola!



Gostamos de receber mensagens de professores e educadores, geralmente da escola particular... pois os profissionais da pública "morrem de medo" de serem identificados e de sofrerem alguma represália dos órgãos superiores (sinal de um tempo ainda muito sombrio!). Sempre que possível, tentamos ajudar.

Geralmente, porém, essas mensagens de professores e educadores da rede particular confirmam o que já sabemos: existe uma incompetência geral na área educacional, em todos os níveis, de norte a sul do país. Quem nos escreve costumam ser pessoas com pouco tempo de profissão, que não recebem orientação de seus superiores, também incompetentes. Uma tristeza!

Segue uma das mensagens "padrão" que recebemos desses profissionais. Os dizeres podem ser diferentes, mas o pedido é sempre o mesmo: tentar resolver problemas disciplinares através da legislação...

Faço a coordenação de uma escola pequena/particular no município do Rio de Janeiro. A questão é a seguinte: alunos que são colocados para fora da sala de aula por mau comportamento, estou falando de crianças do Pre II e 1º ano, não concordo com isso, mas as professoras alegam não conseguirem dar a aula dentre outras coisas. Existe na lei algo que possa ser usado para amenizar a situação? Sei que o art. 232 do ECA fala de constrangimento, porém preciso de mais embasamento, uma vez que pretendemos e precisamos somar novas medidas ao nosso regimento escolar.

Certamente, colocar crianças para fora da sala de aula constitui constrangimento, mas esclarecer sobre a legislação não vai diminuir a "irritação" das professoras, que talvez, pela impossibilidade de se livrar dos alunos "indisciplinados", começarão a ralhar com eles e a tornar um inferno a sala de aula...

Esse tipo de mensagem é "padrão", pois resume a queixa mais comum do professorado brasileiro. Existem porém vários tons nas diferentes mensagens. Essa jovem coordenadora não concorda com a corriqueira prática de colocar alunos pra fora da sala de aula, mesmo não sabendo como resolver o "problema". A maioria das outras mensagens que recebemos de professores sobre indisciplina tem um tom muito diferente, questionando por que defendemos que não se deve usar essa prática e por que não podem suspender ou até expulsar alunos da escola.

Não há lei que resolva a incompetência de uma escola! O buraco é muito mais embaixo, especialmente se tratando de alunos da Educação Infantil e dos primeiros anos do Ensino Fundamental. Se a escola não é atraente, se as aulas não são dinâmicas, se os professores não gostam do que fazem, isso se reflete no comportamento dos alunos... diferentes, desde os mais inteligentes, até os de personalidade menos dócil. Enfim, os únicos que se conformam com uma aula chata, "dada" por quem não gosta de estar numa escola (ou até nem sabe o que está fazendo lá...), são os alunos já acostumados de casa a obedecer incondicionalmente.

A maior prova da incompetência geral da educação brasileira se reflete na expressão mais falada dentro das escolas, públicas ou particulares: "A educação vem de casa". Ela exprime como as escolas desejam que os alunos cheguem à sala de aula: quietinhos, bonzinhos, cordeirinhos, ou seja, já podados em sua necessidade básica de desenvolver a inteligência e criatividade. Qualquer demonstração de vivacidade, qualquer pergunta "fora do script", são considerados indisciplina. Não falemos então de comportamento pessoal: basta que o aluno se dirija ao colega com uma simples expressão como "bobo, burro, idiota", que dê um tapa ou uma puxada de cabelos, já se instala um caos que leva a uma advertência ou suspensão. De alguns anos para cá, a campanha do "politicamente correto" chega até a inibir a ação de bons profissionais, que saberiam separar uma briga de alunos ou brincar com o vocabulário usado por eles. A escola devolve para a família toda e qualquer manifestação de comportamento "indesejado". Nas escolas públicas a situação é mais grave, pois muitos profissionais não têm o mínimo constrangimento de xingar seus alunos, ao mesmo tempo que exigem que eles não usem esse mesmo vocabulário. Isso ocorre porque o aluno da rede pública não costuma contar em casa de que forma é tratado na escola, pois os pais não se arriscam a questionar as autoridades educacionais: é a palavra do aluno contra a do professor ou do diretor da escola... Assim, à incompetência pedagógica soma-se o mau exemplo dado por aqueles que deveriam zelar pela disciplina!

Enquanto a escola não se olhar no espelho e não perceber sua incompetência pedagógica e suas limitações, nada vai mudar para melhor. A grande mídia nacional também contribui para manter essa enorme mediocridade. O Jornal Nacional apresentou, há alguns dias, uma reportagem sobre as escolas de Campo Grande, onde uma nova lei obriga os alunos - da rede pública, claro... - a lavar os banheiros e o pátio da escola, por "mau comportamento". E todos dizendo amém! QUE HORROR!!! Fica assim configurado que lavar banheiro é um castigo, não uma ação boa e corriqueira, que cabe a todos, inclusive aos diretores de escola, se for o caso. É bem possível que essa moda pegue em todo o Brasil, dada a hipocrisia nacional e a incompetência geral de todas as autoridades que lidam com o assunto educação, inclusive os jornalistas da Globo. Pois é, os filhos desses "formadores de opinião" certamente não estudam na rede pública e provavelmente nem mesmo lavam o próprio prato de comida em casa, quanto menos o banheiro da escola...

Apesar da boa vontade da coordenadora que nos enviou essa singela mensagem, nenhum adendo ao regimento escolar vai melhorar a "disciplina" dos alunos, se houver incompetência pedagógica por parte dos profissionais da escola.

Comentários

QAE&QSE disse…
A incompetência da Escola infelizmente está na mesma medida da falência da sociedade.
Yra Doce disse…
Olá
Fiquei feliz ao retornar aqui e encontrar novos posts.
Infelizmente não pude aproveitar os conhecimentos recebidos
pelo EducaForum...pois meu filho só relatou alguns fatos
depois de ter concluído o Ensino Fundamental em um Colégio
Particular....onde alguns Professores e a Coordenadora diversas
vezes o colocaram em situação constrangedora....
Já expus aqui anos atrás o acontecido.
Hoje ele faz Ciências Sociais na UnB...aprendeu a se defender,,,
e inclusive é líder estudantil....defende os direitos dos estudantes,,,
dos funcionários e dos permissionários que lá estão há mais de 40 anos.
Agradeço em pensamento sempre que me lembro dos aprendizados aqui adquiridos.
Abraços.
Giulia disse…
Olá, Yra Doce, lembro muito bem de você e agradeço suas sempre interessantes contribuições. Você colocou uma situação muito comum: os filhos tendem a colocar "panos quentes" nas falhas da escola, até por medo de que os pais queiram contestar o comportamento de diretores e professores, o que costuma resultar em perseguições e represálias que no final das contas prejudicam ainda mais os próprios alunos... Passei por esse tipo de situação inclusive pessoalmente, quando minha filha só me contou um acontecimento grave de que foi vítima meses depois. Mas o que importa é o aprendizado a longo prazo. Parabéns para o seu filho! Os alunos acabam refletindo sobre tudo o que passam na escola e aprendem mesmo a se defender, mesmo tendo alguns prejuízos momentâneos, devido ao autoritarismo do sistema. Essa é a nossa maior satisfação, aqui no blog, receber mensagens como a sua e ver que com o tempo a semente dá frutos! Um grande abraço e continue contribuindo com suas reflexões, nós também não temos mais filhos na escola, mas continuamos na luta!

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